Quem é
Marco Lombardo é uma voz dentro da fumaça. O terceiro giro da montanha, o da ira, é mais escuro que o Inferno e que a noite sem planeta, e Dante anda por ele de olhos fechados, atrás de Virgílio, como o cego vai atrás do guia. É dali que alguém pergunta quem é este que fende o fumo e fala dele como se contasse o tempo pelas calendas. O poema não dá mais dele do que ele mesmo diz: lombardo, chamado Marco, que soube do mundo e amou o valor para o qual agora todos afrouxaram o arco. Não diz de que casa era, nem o que fez, nem por que está ali. O que o torna importante é o que responde a uma dúvida de Dante: se o mundo está perdido, de quem é a culpa, do céu ou dos homens. A resposta é o par doutrinal da tese do amor que Virgílio dará no centro do poema.
Trajetória
No canto XVI do Purgatório Dante chega à fumaça com o guia a lhe oferecer o ombro. Ouve vozes que pedem paz e misericórdia ao Cordeiro de Deus, todas com a mesma palavra, e Virgílio confirma que são espíritos que desatam o nó da ira. Uma voz pergunta quem é este que passa, e Dante, depois de dizer que sobe com a faixa que a morte dissolve, vindo pela angústia infernal e por graça de Deus, pede à sombra que diga quem foi:
Lombardo fui, e fu’ chiamato Marco; / del mondo seppi, e quel valore amai / al quale ha or ciascun disteso l’arco., lombardo fui, e fui chamado Marco; do mundo soube, e amei aquele valor para o qual agora todos afrouxaram o arco.
Marco diz que Dante sobe direito e lhe pede que reze por ele. Dante promete, mas confessa que uma dúvida o estoura por dentro, se não a desfizer: era simples, agora é dobrada, porque a sentença de Marco confirma o que já ouviu de Guido del Duca na cornija anterior, que o mundo é deserto de toda virtude. Pede-lhe a causa, para vê-la e mostrá-la aos outros, porque uns a põem no céu e outros cá embaixo. Marco solta um suspiro que a dor aperta em uhi e responde que o mundo é cego, e que Dante vem dele: os vivos levam toda causa ao céu, como se tudo o movesse por necessidade. A tese vem em dois tempos. No primeiro, concede o que pode:
Lo cielo i vostri movimenti inizia; / non dico tutti, ma, posto ch’i’ ’l dica, / lume v’è dato a bene e a malizia, / e libero voler; che, se fatica / ne le prime battaglie col ciel dura, / poi vince tutto, se ben si notrica., o céu inicia os vossos movimentos; não digo todos, mas, supondo que o dissesse, é-vos dada luz para o bem e para o mal, e livre querer; o qual, se sofre fadiga nas primeiras batalhas com o céu, depois vence tudo, se bem se nutre.
O céu inicia os movimentos, mas deixa luz para o bem e para o mal, e livre querer, que sofre nas primeiras batalhas e vence depois, se bem nutrido. No segundo tempo, a alma sai da mão de quem a ama como uma menina que chora e ri, e corre ao que a diverte:
Esce di mano a lui che la vagheggia / prima che sia, a guisa di fanciulla / che piangendo e ridendo pargoleggia, / l’anima semplicetta che sa nulla, / salvo che, mossa da lieto fattore, / volontier torna a ciò che la trastulla., sai da mão d’Aquele que a ama antes que ela seja, como uma menina que chora e ri e se diverte como criança, a alma simplezinha que nada sabe, a não ser que, movida por um criador alegre, volta de bom grado a tudo o que a diverte.
É por isso que há lei. Marco explica o remédio e a falha:
Onde convenne legge per fren porre; / convenne rege aver, che discernesse / de la vera cittade almen la torre. / Le leggi son, ma chi pon mano ad esse? / Nullo, però che ’l pastor che procede, / rugumar può, ma non ha l’unghie fesse;, por isso foi preciso pôr lei como freio; foi preciso ter rei que discernisse da verdadeira cidade ao menos a torre. As leis existem, mas quem põe a mão nelas? Ninguém, porque o pastor que vai à frente pode ruminar, mas não tem as unhas fendidas.
Onde a lei deve ser freio, é preciso rei que discirna ao menos a torre da verdadeira cidade. As leis existem, mas ninguém as aplica, porque o pastor que vai à frente rumina e não tem as unhas fendidas, e o povo, vendo o guia mirar os mesmos bens que cobiça, só se alimenta deles. A prova é Roma:
Soleva Roma, che ’l buon mondo feo, / due soli aver, che l’una e l’altra strada / facean vedere, e del mondo e di Deo. / L’un l’altro ha spento; ed è giunta la spada / col pasturale, e l’un con l’altro insieme / per viva forza mal convien che vada;, Roma, que fez o bom mundo, costumava ter dois sóis, que faziam ver um e outro caminho, o do mundo e o de Deus. Um apagou o outro; e a espada se juntou ao báculo, e um com o outro, juntos, por força viva forçosamente vão mal.
Antes de Frederico ter a sua briga, na terra que o Adige e o Pó regam, achavam-se valor e cortesia; agora passa por ali sem medo quem, por vergonha, evitaria falar com os bons, porque não os encontrará. Restam três velhos em quem a idade antiga repreende a nova: Currado da Palazzo, o bom Gherardo e Guido da Castello. E Marco fecha com a conclusão do argumento:
Dì oggimai che la Chiesa di Roma, / per confondere in sé due reggimenti, / cade nel fango, e sé brutta e la soma». / «O Marco mio», diss’ io, «bene argomenti; / e or discerno perché dal retaggio / li figli di Levì furono essenti., dize, pois, de agora em diante, que a Igreja de Roma, por confundir em si dois governos, cai na lama e suja a si e a carga. Ó meu Marco, disse eu, bem argumentas; e agora discirno por que da herança os filhos de Levi foram isentos.
Dante aceita e lembra por que os filhos de Levi foram isentos de herança. Pergunta que Gherardo é esse, e Marco responde que o tom do toscano o engana ou o tenta, e que não o conhece por outro sobrenome, a não ser que o tomasse da filha Gaia. Despede-se porque a brancura da luz já aparece no fumo, e é preciso partir antes que o anjo o veja. Dá as costas e não quer mais ouvir.
Temas que encarna
Marco encarna Destino e livre-arbítrio como doutrina dita por um homem de corte. O céu inicia, o querer vence se for bem alimentado, a alma é simples e corre atrás do primeiro bem pequeno, e a lei é o freio. A Política está na passagem de causa para causa: o mundo mau não é natureza corrompida, é má condução, e a prova é a mistura dos dois poderes de Roma. A ira, que o giro cura, aparece só no cenário: a fumaça que apaga o mundo e as vozes que pedem paz ao Cordeiro.
Marco afirma o livre querer e acusa o governo, e deixa as duas coisas lado a lado. O poema não diz quanto pesa cada uma, e a pergunta fica aberta: se a alma sai simples e corre ao pouco bem, quem responde por seu pecado, ela ou o pastor que a conduziu mal?
Leituras divergentes
Numa leitura mais curta, a passagem é um par doutrinal que precede a tese do amor, e fala do livre-arbítrio que resiste ao céu quando bem exercitado:
Um canto antes da doutrina de Virgílio, uma sombra chamada Marco Lombardo responde à pergunta de Dante sobre por que o mundo está tão corrompido: não é o céu que obriga o mal, é o livre-arbítrio que resiste ao céu quando bem exercitado; se os astros decidissem tudo, não haveria mérito nem culpa, e a doutrina do amor desordenado do canto seguinte só faz sentido porque a escolha de amar mal é livre; a culpa, diz Marco Lombardo, não é dos astros, é de um mundo sem governo que deixou o freio das leis solto.Se così fosse, in voi fora distrutto / libero arbitrio, e non fora giustizia / per ben letizia, e per male aver lutto, se assim fosse, estaria destruído em vós o livre-arbítrio, e não seria justiça ter alegria pelo bem e luto pelo mal.
O texto sustenta duas leituras da imagem dos dois sóis. Na primeira, é nostalgia de um Império que um dia funcionou. Na segunda, é um ideal de poderes separados, que o verbo no passado apresenta como já vivido e que o poema ainda propõe. A figura do pastor que rumina é lida pela tradição como o papa que conhece a doutrina e não separa o temporal do espiritual, e o texto, porém, só diz pastor.
Relações
- Dante: o vivo cuja dúvida dobrada ele desfaz, e a quem pede oração.
- Virgílio: o guia que, no canto seguinte, dará a teoria do amor que a resposta de Marco prepara.
- Beatriz: a quem Virgílio entrega, no canto XVIII, o termo livre-arbítrio que Marco já tinha posto de outro modo.