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Perguntas · Dom Quixote

Do que fala Dom Quixote?

Dom Quixote fala de quem decide o que uma cena é, e do que se paga por discordar. Um fidalgo vê gigantes onde há moinhos e um castelo onde há estalagem, e para cada desmentido tem um mago inimigo que explica a derrota sem corrigir a visão. O livro não pergunta se ele enlouqueceu, o que os primeiros capítulos já dizem; pergunta quem sustenta, desmente ou fabrica o que ele vê.

Na Primeira Parte, o preço aparece em cena, e quem paga, em geral, não é ele. Paga Andrés, que apanha de novo depois que o libertador vai embora, paga o arrieiro de cabeça aberta na vigília das armas, paga Sancho, lançado ao ar numa manta. Sancho é a medida do real: quando o amo explica a surra por um mouro encantado, ele responde que o que não se deixa ver se deixa sentir, e que digam as suas costas.

A Segunda Parte troca a pergunta. Dez anos depois, todos leram a Primeira: o bacharel, os duques, os hóspedes de estalagem e até um Quixote falso. Já não basta saber se o fidalgo vê o que existe; é preciso saber quem fabrica o que ele espera ver. Sancho, que era a medida do real, passa a ser o autor da ilusão, porque é ele quem inventa o encanto de Dulcineia.

Em volta, o livro encaixa outros assuntos: a liberdade de Marcela, que diz ter nascido livre, a justiça dos galeotes e a do governo de Sancho, o amor que o fidalgo sente por uma dama que só conhece de ouvir dizer, e a pergunta de como se conta uma história, com um historiador árabe de autoridade duvidosa e um autor que briga, dentro do livro, com o seu falso continuador.

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