O livro não traz uma mensagem única, e o único propósito que Cervantes declara é derrubar a máquina mal fundada dos livros de cavalaria, como diz o prólogo da Primeira Parte; Cide Hamete repete, no último parágrafo, que não quis outra coisa senão pôr em aborrecimento dos homens as histórias fingidas e disparatadas desses livros. O resto são leituras.
A que o texto mais favorece é a pergunta de quem decide o que a cena é, e o que se paga por discordar. O fidalgo tem sempre uma explicação, um mago inimigo; Sancho aponta o que se vê e o que dói; e na Segunda Parte os outros passam a fabricar o que ele espera ver.
As leituras clássicas, segundo Carpeaux, se dividem em duas linhagens: a que lê a derrota do fidalgo como a da fé num mundo sem fé, de Turguêniev a Unamuno, e a que restabelece os direitos da realidade, aproximando o livro do romance picaresco, de Menéndez y Pelayo a Américo Castro. Uma leitura do livro vê no duelo com o bacharel o choque de duas cosmovisões, a medieval, mística e ambígua, e a renascentista, racionalista.
Auerbach recusa as duas: lida no texto, a cena da Dulcineia encantada é uma brincadeira, subjugantemente cômica, e ninguém é condenado no livro, nem o fidalgo nem os que o burlam; tomar essa loucura por símbolo ou por tragédia seria um ato de violência contra o texto. O final deixa as pontas abertas: Alonso Quijano morre sensato, e o epitáfio diz que ele morreu sensato e viveu louco.