Dom Quixote é, antes de tudo, paródia dos livros de cavalaria, o gênero que o prólogo diz querer derrubar, e em especial do Amadis de Gaula, o livro predileto do herói. A paródia vai além do gênero: faz comédia da ideia de viver o que se leu.
O prólogo da Primeira Parte pede ao leitor que tenha a mira posta em derrubar a máquina mal fundada destes livros, aborrecidos de tantos e louvados de muitos mais. Eram narrativas em prosa de cavaleiros que percorrem países exóticos matando gigantes e salvando donzelas, sucesso de leitura nos primeiros setenta anos do século XVI e criticados por moralistas que os acusavam de desviar os leitores da religião. No tempo de Cervantes já tinham sido superados pela literatura do Século de Ouro, e ninguém os via como ameaça.
Auerbach lê a primeira saída do fidalgo como a paródia perfeita da saída de Calogrenante, o cavaleiro da corte do rei Artur: o cavaleiro cortês sai para uma prova que o mundo lhe prepara de propósito, e dom Quixote não encontra um mundo preparado, mas um mundo qualquer, com estalagens, mercadores e moinhos. Carpeaux lembra que não pode morrer de todo um livro que foi a leitura preferida do herói.
A paródia não é só desprezo. Dentro da história, o padre e o barbeiro salvam o Amadis no escrutínio da biblioteca e condenam quase todo o resto à fogueira, e o cônego de Toledo critica o gênero por falta de forma e verossimilhança, mas confessa ter sentido a tentação de escrever um livro de cavalarias. O riso do livro convive com a admiração de quem conhece os modelos.