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Perguntas · Dom Quixote

O que significa chamar alguém de Dom Quixote ou de quixotesco?

Chamar alguém de quixotesco é dizer que persegue um ideal com generosidade e teimosia, sem medir o que o mundo lhe responde, como o fidalgo que ataca gigantes que são moinhos. O sentido tira do livro duas coisas que ele mantém juntas: a nobreza do propósito e o desencontro com a realidade.

O propósito do fidalgo é nobre: ele define aos cabreiros o cavaleiro andante como membro de uma ordem instituída, quando os tempos pioraram e a malícia cresceu, para defender donzelas, amparar viúvas e socorrer órfãos. O resultado costuma ser mau. Liberta galeotes que o apedrejam, ataca moinhos, livra Andrés de uma surra e o deixa levar outra maior, e sempre leva pancada. Daí o uso do adjetivo para o idealista que fracassa.

O livro complica a leitura. Dom Quixote sabe o que faz: quando o vizinho lhe diz que ele é o honrado fidalgo Quijana, responde «eu sei quem sou», e que pode ser não só os cavaleiros que nomeou, mas todos os Doze Pares de França. Confessa a Sancho que pinta Dulcineia na imaginação como a deseja, na beleza e na primazia. E quando lhe mostram o desmentido, a explicação do encantador já está pronta. O quixotesco, no livro, é menos cegueira que escolha, e é isso que Tomé Cecial pergunta quando quer saber qual louco é mais louco, o que o é por não poder menos ou o que o é por vontade.

Por isso o adjetivo corre com dois sentidos. É elogio, para quem não desiste de um ideal, e é censura, para quem não vê o que está diante dos olhos. Quem o usa já escolheu uma das leituras clássicas que Carpeaux descreve, a que vê na derrota do fidalgo a da fé num mundo sem fé, ou a que restabelece os direitos da realidade.

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