Dom Quixote é famoso por ser o livro em que o romance se olha no espelho: um herói que tira da leitura a sua vida, um escudeiro que o contradiz sem deixar de segui-lo e um autor que discute o próprio livro dentro dele. Carpeaux o chama de «romance dos romances», porque o contraste entre as aparências e a realidade é a própria substância do gênero.
O sucesso veio cedo. A Primeira Parte saiu em Madri entre o fim de 1604 e o começo de 1605, numa impressão apressada, e foi um sucesso popular imediato. O livro registra o efeito: na Segunda Parte, o bacharel diz ao fidalgo que há impressos mais de doze mil livros da história, em Portugal, Barcelona e Valência, e que corre fama de que se imprime em Antuérpia. Em 1614 um autor que assinou Avellaneda publicou uma continuação falsa, e a existência dela mostra o tamanho do sucesso.
Há também o que o livro faz com a própria condição de livro. Ele põe os personagens dentro de uma história que eles mesmos leram e discute, dentro dela, o que vale como verdade: o cônego de Toledo e o fidalgo discutem o que prova que um livro é verdadeiro, o bacharel aponta os erros da Primeira Parte e o narrador escolhe, na Segunda, não encaixar mais novelas soltas. Uma leitura apresenta Cervantes como o precursor do romance.
Carpeaux acrescenta duas observações. O livro conservará para sempre duas classes de leitores, as crianças, que ainda não conhecem a vida, e os adultos duramente experimentados por ela; e o livro deve parte de sua importância universal a um equívoco de leitura, como acontece tantas vezes.