Cide Hamete Benengeli é o historiador árabe a quem o narrador atribui a história de dom Quixote. O livro se apresenta como a tradução de cadernos dele, achados em Toledo, e o artifício dá à ficção ares de documento, brinca com a ideia de verdade e reparte a autoria entre vários.
No capítulo VIII da Primeira Parte, o narrador interrompe o duelo com o biscainho porque o autor da história deixou a batalha pendente; no IX conta que achou em Toledo uns cadernos escritos em árabe, que um mourisco traduziu, e que o título era «História de dom Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador árabe». O narrador passa a ser um editor que lê o historiador traduzido e o comenta.
A graça está na ironia. O narrador diz que, se à história se puder pôr alguma objeção quanto à sua verdade, não poderá ser outra senão ter sido seu autor árabe, sendo muito próprio daquela nação serem mentirosos. Na mesma página, ele defende que o historiador deve ser exato, verdadeiro e nada passional, e que a história é a mãe da verdade. O livro jura ser verdadeiro e entrega a verdade a um mentiroso presumido.
Cide Hamete reaparece ao longo do livro, comentando e duvidando: no capítulo XXIV da Segunda Parte diz não poder persuadir-se de que tudo o que se contou da gruta de Montesinos tenha acontecido ao fidalgo, e que, se a aventura parece apócrifa, não tem a culpa, e a escreve sem afirmá-la falsa ou verdadeira. Na Segunda Parte, Sancho lhe troca o sobrenome por Berenjena, berinjela, e o fidalgo lembra que o nome é de mouro. No final, é ele que fecha o livro e reclama o personagem: para ele só nasceu dom Quixote, e ele para dom Quixote, contra o escritor fingido e tordesilhesco. A tradução fingida protege o autor real e, ao mesmo tempo, o separa do rival.