Quem é
Camila é a rainha dos volscos, virgem consagrada a Diana e a grande guerreira da Eneida, que combate cercada de companheiras armadas. Corre mais depressa que o vento, comanda cavaleiros e recusa o trabalho de fiar e tecer que o poema atribui às mãos femininas. Entra no fim do catálogo dos aliados de Turno e morre no livro que leva o nome dela: nasce e acaba dentro de um só arco, e ainda assim recebe biografia completa, aristeia longa e vingança divina, tratamento que o poema reserva a pouquíssimas figuras. O que ela quer é o combate, e o papel dela é duplo: dá à guerra italiana o seu feito mais brilhante de cavalaria, e mostra que a guerra cobra também de quem recusou todo vínculo.
Trajetória
No Livro VII a apresentação já a define pela recusa: ela não fia, não tece, não pega no trabalho que o poema atribui às mãos femininas.
Hos super advenit Volsca de gente Camilla, / Agmen agens equitum et florentes aere catervas, / Bellatrix: non illa colo calathisve Minervae / Femineas assueta manus, sed praelia virgo / Dura pati, cursuque pedum praevertere ventos, além deles chega Camila, da gente volsca, conduzindo um esquadrão de cavaleiros e tropas que brilham de bronze, guerreira: não habituada a pôr as mãos femininas na roca nem nos cestos de Minerva, mas virgem para suportar duros combates e ultrapassar os ventos na corrida.
O catálogo enumera os outros chefes por genealogia ou por armamento, e só nela descreve um corpo em movimento: ela voaria sobre o trigo sem dobrar as espigas e sobre o mar sem molhar os pés.
Illa vel intactae segetis per summa volaret / Gramina, nec teneras cursu laesisset aristas; / Vel mare per medium, fluctu suspensa tumenti, / Ferret iter, celeres nec tingeret aequore plantas, ela voaria por cima das ervas de uma seara intacta, sem ferir com a corrida as tenras espigas; ou, suspensa sobre a onda inchada, faria caminho pelo meio do mar, sem molhar na água os pés velozes.
No Livro XI ela chega a Laurento à frente da cavalaria volsca, desce do cavalo diante de Turno e se oferece para enfrentar sozinha os cavaleiros etruscos, deixando a ele a defesa dos muros. A coragem dela é o que torna possível a emboscada que ele prepara no desfiladeiro.
Turne, sui merito si qua est fiducia forti, / Audeo, et Aeneadum promitto occurere turmae / Solaque Tyrrhenos equites ire obvia contra. / Me sine prima manu tentare pericula belli: / Tu pedes ad muros subsiste et moenia serva., Turno, se um forte tem algum direito de confiar em si, ouso e prometo enfrentar sozinha a cavalaria dos Eneadas e ir contra os cavaleiros tirrenos. Deixa-me tentar primeiro os perigos da guerra: tu, a pé, fica junto aos muros e guarda a cidade.
O poema volta então à infância dela, só contada agora, em retrospecto. O pai, Métabo, rei deposto de Priverno, fugiu com a menina ainda bebê, e, ao chegar a um rio em cheia, atou-a a uma lança, prometeu-a a Diana e a atirou por cima da água. É esse voto, não uma escolha adulta, que organiza a vida inteira dela: criada nos montes com leite de égua, caçadora, virgem.
Alma, tibi hanc, nemorum cultrix, Latonia virgo, / Ipse pater famulam voveo: tua prima per auras / Tela tenens supplex hostem fugit, virgem Latônia, cultora dos bosques, eu mesmo, o pai, voto-te esta menina como serva: ela, segurando as tuas primeiras armas, foge suplicante do inimigo.
No Olimpo, Diana sabe que a morte dela está marcada e diz o que preferia.
Vellem haud correpta fuisset / Militia tali, conata lacessere Teucros; / Cara mihi comitumque foret nunc una mearum., quisera que ela não tivesse sido arrastada a tal guerra, ao tentar atacar os teucros: seria agora querida a mim e uma das minhas companheiras.
Segue a aristeia mais extensa de qualquer figura feminina do poema, com uma fila de mortos nomeados, até o instante em que ela persegue a armadura dourada de Cloreu, sacerdote de Cibele, e deixa de ver o resto do campo. O narrador dá dois motivos, dedicar os despojos num templo ou exibir-se caçadora, e não escolhe entre eles.
Hunc virgo, sive ut templis praefigeret arma / Troia, captivo sive ut se ferret in auro / Venatrix, unum ex omni certamine pugnae / Caeca sequebatur, totumque incauta per agmen / Femineo praedae et spoliorum ardebat amore., a virgem, fosse para fixar nos templos as armas troianas, fosse para exibir-se, caçadora, com o ouro tomado, seguia cega só ele, entre todo o combate, e, descuidada por toda a tropa, ardia no amor feminino da presa e dos despojos.
Aruns, que a rondava sem coragem de encará-la, aproveita a distração e a fere com um dardo, lançado de longe, sob o seio. A oração dele a Apolo é o oposto da fala de um herói: não pede glória nem despojo, pede só se livrar da vergonha e voltar sem nome à pátria.
Da, pater, hoc nostris aboleri dedecus armis, / Omnipotens. Non exuvias, pulsaeve tropaeum / Virginis aut spolia ulla peto; mihi cetera laudem / Facta ferent: haec dira meo dum vulnere pestis / Pulsa cadat, patrias remeabo inglorius urbes., dá, pai onipotente, que este opróbrio seja apagado das nossas armas. Não peço despojos nem troféu da virgem vencida; outros feitos me trarão louvor: contanto que esta peste terrível caia ferida pelo meu golpe, voltarei sem glória às cidades da pátria.
Moribunda, ela não lamenta a própria morte: passa o comando a Turno e despacha o recado militar pela companheira Aca, antes do adeus.
Hactenus, Acca soror, potui; nunc vulnus acerbum / Conficit et tenebris nigrescunt omnia circum. / Effuge et haec Turno mandata novissima perfer: / Succedat pugnae Trojanosque arceat urbe., até aqui pude, irmã Aca; agora a ferida amarga me acaba e tudo em volta escurece. Foge e leva a Turno esta última ordem: que assuma o combate e afaste os troianos da cidade.
A ninfa Opis, enviada por Diana, cumpre a promessa feita antes da batalha e mata Aruns com a flecha da deusa, sem que ele perceba de onde veio o golpe.
Heu! nimium, virgo, nimium crudele luisti / Supplicium, Teucros conata lacessere bello! [...] Nam quicumque tuum violavit vulnere corpus, / Morte luet merita., ai! demasiado cruel, virgem, pagaste o castigo por tentares atacar os teucros em guerra! [...] Pois quem quer que tenha ferido o teu corpo pagará com a morte merecida.
Temas que encarna
Camila passa por Guerra, porque é a mulher cuja aristeia o poema narra e o único caso em que a guerra tira uma jovem do mundo que a criou; por Destino e livre-arbítrio, porque a vida dela foi decidida por um voto antes de ela ter vontade, e a morte, por fados que Diana lamenta mas não impede; e por Dever, no comando que ela cumpre até o último fôlego.
O poema não a mata por ser mulher em armas, mata-a no minuto exato em que ela se comporta como qualquer soldado comum, cobiçando espólio vistoso, e é essa escolha de Virgílio que separa Camila de uma amazona de catálogo: o defeito que a derruba é o amor do espólio, que o narrador chama de feminino e que a cena mostra como o de qualquer guerreiro diante de uma presa vistosa.
Camila é a terceira grande vítima do custo da fundação, depois de Dido e antes de Turno, e a série só se lê inteira quando as três são postas lado a lado: o poema cobra primeiro uma rainha estrangeira, depois uma rainha itálica, por fim o pretendente legítimo da terra, e nenhuma das três mortes é apresentada como merecida. Dido morre pelo excesso do vínculo, apaixonada, destruída pelo abandono, e a espada que a mata é a de Enéias. Camila morre pela recusa de todo vínculo, sem casa, sem esposo e sem filho, e a arma que a mata vem de longe, de um homem que foge logo depois do golpe. Nenhuma das duas encontra Enéias em combate, e isso não é acaso de enredo: o poema mata as duas mulheres fora do duelo.
Relações
- Turno: o chefe rútulo a quem ela se oferece para combater primeiro e a quem passa o comando ao morrer.
- Dido: a outra mulher que o poema sacrifica, por caminho oposto: ela, pelo excesso de vínculo, Camila, pela recusa dele.
- Enéias: o herói que ela não chega a enfrentar.
Camila no paralelo homérico e em Dante
O paralelo interno com Pátroclo fica em aberto e vale a pena guardar: aristeia brilhante, morte por golpe indigno, vingança que se segue. A diferença é que na Ilíada a promessa divina é atendida pela metade, e aqui Diana paga a dívida inteira, o que dá a Camila uma justiça póstuma que o poema não concede nem a Dido nem a Turno. Do mesmo modo, Apolo concede a Aruns só uma metade da reza.
Dante Alighieri a nomeia logo no Canto I do Inferno, entre os que morreram pela Itália, e é assim que ela chega ao leitor moderno antes mesmo da Eneida: como nome de uma lista de mortos fundadores, e não como personagem.
Di quella umile Italia fia salute / per cui morì la vergine Cammilla, / Eurialo e Turno e Niso di ferute., daquela humilde Itália virá a salvação / pela qual morreu a virgem Camila, / Eurialo e Turno e Niso, de feridas.
Dante a chama de vergine, o mesmo atributo com que Virgílio a define, e é o único dos quatro nomes daquele verso a receber qualificativo.
Que Dante a ponha na mesma linha de Turno e dos dois companheiros do Livro IX, Niso e Euríalo, confirma a função que ela tem no poema latino: para a tradição, Camila não é curiosidade de guerreira mulher, é uma das perdas que fundam a Itália, lida ao lado dos homens mortos pela mesma causa.