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Personagem

Agamêmnon

Quem é

Agamêmnon é o rei que comanda a expedição aqueia contra Troia e o homem de quem depende a ordem do exército. É filho de Atreu e irmão de Menelau, o marido ofendido, e carrega o cetro que a linhagem lhe passou, o sinal de que Zeus lhe deu o direito de mandar. No primeiro canto, a decisão de tirar a Aquiles o seu prêmio de guerra abre o conflito que move o poema inteiro. A partir daí o poema o mostra como um rei que precisa de apoio de fora para manter o exército de pé: de Nestor, de Odisseu, de Diomedes e de Zeus. Depois de tomar o prêmio, ele tenta repará-lo com bens e com a explicação de que um deus o cegou.

Trajetória

No Canto I, o sacerdote Crises vem pedir de volta a filha, que Agamêmnon recebeu como prêmio, e traz um resgate enorme. Todos os gregos aprovam, mas o rei o expulsa com ameaças e diz que a filha vai envelhecer em Argos, ao tear e no leito dele. Apolo manda a peste. Na assembleia, Agamêmnon insulta o adivinho Calcas, aceita devolver a moça para salvar o exército e exige outro prêmio na hora, para não ser o único sem recompensa. Ao ouvir que não há butim guardado, entende a resposta de Aquiles como afronta, ameaça tomar o prêmio de quem for e decide tomar Briseida, para mostrar quanto é mais forte. Devolve Criseida por um navio comandado por Odisseu e manda dois arautos buscar Briseida.

τὴν δʼ ἐγὼ οὐ λύσω· πρίν μιν καὶ γῆρας ἔπεισιν / ἡμετέρῳ ἐνὶ οἴκῳ ἐν Ἄργεϊ τηλόθι πάτρης / ἱστὸν ἐποιχομένην καὶ ἐμὸν λέχος ἀντιόωσαν· (1.29-31), a ela eu não solto: antes a velhice a alcançará em nossa casa, em Argos, longe da pátria, indo e vindo ao tear e partilhando o meu leito.
Canto I: A peste e a ira
αὐτὰρ ἐμοὶ γέρας αὐτίχʼ ἑτοιμάσατʼ ὄφρα μὴ οἶος / Ἀργείων ἀγέραστος ἔω, ἐπεὶ οὐδὲ ἔοικε· (1.118-119), mas preparai-me logo um prêmio, para que eu não fique, sozinho entre os argivos, sem prêmio, pois isso não convém.
Canto I: A peste e a ira

No Canto II, Zeus manda um Sonho funesto, na figura de Nestor, dizer ao rei que ele poderia tomar a cidade agora. Agamêmnon acorda convencido de que a tomará naquele mesmo dia, e o narrador o chama de insensato por ignorar o que Zeus prepara. Anuncia ao conselho que vai testar o exército propondo a fuga. Na assembleia, com o cetro herdado do pai, fala como quem desistiu: nove anos, naus apodrecendo, mulheres e filhos esperando. A assembleia corre às naus, e só a intervenção de Atena, por meio de Odisseu, que toma o cetro do rei para falar em nome dele, evita o retorno que o poema chama de além do destino. Ao elogiar Nestor, Agamêmnon admite que foi ele quem começou a briga com Aquiles e que, se um dia concordarem, a ruína de Troia não demorará. No sacrifício, pede que o sol não se ponha antes de derrubar o palácio de Príamo, e Zeus aceita as oferendas, mas não cumpre o pedido.

φῆ γὰρ ὅ γʼ αἱρήσειν Πριάμου πόλιν ἤματι κείνῳ / νήπιος, οὐδὲ τὰ ᾔδη ἅ ῥα Ζεὺς μήδετο ἔργα· (2.37-38), pois julgava que tomaria a cidade de Príamo naquele mesmo dia, insensato, e não sabia que obras Zeus tramava.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus
ἀλλʼ ἄγεθʼ ὡς ἂν ἐγὼ εἴπω πειθώμεθα πάντες· / φεύγωμεν σὺν νηυσὶ φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν· / οὐ γὰρ ἔτι Τροίην αἱρήσομεν εὐρυάγυιαν. (2.139-141), mas vamos, obedeçamos todos ao que eu disser: fujamos com as naus para a querida terra pátria, pois já não tomaremos Troia de largas ruas.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus
ἀλλά μοι αἰγίοχος Κρονίδης Ζεὺς ἄλγεʼ ἔδωκεν, / ὅς με μετʼ ἀπρήκτους ἔριδας καὶ νείκεα βάλλει. / καὶ γὰρ ἐγὼν Ἀχιλεύς τε μαχεσσάμεθʼ εἵνεκα κούρης / ἀντιβίοις ἐπέεσσιν, ἐγὼ δʼ ἦρχον χαλεπαίνων· (2.375-378), mas o Crônida Zeus, portador da égide, me deu sofrimentos, ele que me lança em disputas sem fim e altercações; pois eu e Aquiles brigamos por causa de uma moça, com palavras hostis, e fui eu quem começou, tomado de ira.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus

No Canto III, ao corte dos pelos dos cordeiros, Agamêmnon acrescenta uma cláusula aos termos de Páris: se Menelau vencer, os troianos devolvam Helena e os bens e paguem uma compensação que os homens futuros recordem, e, se Príamo e os filhos recusarem, ele seguirá lutando até o fim da guerra. Depois do duelo, declara a vitória de Menelau e exige Helena, os bens e a compensação.

εἰ δέ κʼ Ἀλέξανδρον κτείνῃ ξανθὸς Μενέλαος, / Τρῶας ἔπειθʼ Ἑλένην καὶ κτήματα πάντʼ ἀποδοῦναι, / τιμὴν δʼ Ἀργείοις ἀποτινέμεν ἥν τινʼ ἔοικεν, / ἥ τε καὶ ἐσσομένοισι μετʼ ἀνθρώποισι πέληται. (3.284-287), mas se o loiro Menelau matar Alexandre, que os troianos então devolvam Helena e todos os bens e paguem aos argivos a compensação que for devida, uma que seja lembrada também entre os homens futuros.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

No Canto IV, quando a flecha de Pândaro fere Menelau, Agamêmnon estremece, segura a mão do irmão e se acusa de ter selado os juramentos para a morte dele. Afirma saber que Troia cairá e teme, se Menelau morrer, voltar a Argos coberto de vergonha. Percorre a pé as fileiras, animando quem se apressa e censurando quem parece parado. Acusa Odisseu e Menesteu de esperar que outros comecem e retira a palavra quando Odisseu responde de cenho fechado. Censura Diomedes contando a missão de Tideu a Tebas, e Diomedes cala por respeito.

φίλε κασίγνητε θάνατόν νύ τοι ὅρκιʼ ἔταμνον / οἶον προστήσας πρὸ Ἀχαιῶν Τρωσὶ μάχεσθαι, / ὥς σʼ ἔβαλον Τρῶες, κατὰ δʼ ὅρκια πιστὰ πάτησαν. (4.155-157), Caro irmão, para a tua morte eu selei os juramentos, ao pôr-te sozinho diante dos aqueus para combater os troianos, pois os troianos te feriram e pisaram os juramentos firmes.
Canto IV: A trégua rompida
εὖ γὰρ ἐγὼ τόδε οἶδα κατὰ φρένα καὶ κατὰ θυμόν· / ἔσσεται ἦμαρ ὅτʼ ἄν ποτʼ ὀλώλῃ Ἴλιος ἱρὴ / καὶ Πρίαμος καὶ λαὸς ἐϋμμελίω Πριάμοιο, (4.163-165), pois isto eu sei bem no juízo e no ânimo: virá o dia em que perecerá a sagrada Ílion, e Príamo, e o povo de Príamo, o da boa lança de freixo,
Canto IV: A trégua rompida
οὐ γὰρ ἐπὶ ψευδέσσι πατὴρ Ζεὺς ἔσσετʼ ἀρωγός, / ἀλλʼ οἵ περ πρότεροι ὑπὲρ ὅρκια δηλήσαντο / τῶν ἤτοι αὐτῶν τέρενα χρόα γῦπες ἔδονται, (4.235-237), pois o pai Zeus não será auxiliar dos mentirosos; aqueles mesmos que primeiro violaram os juramentos, deles os abutres comerão a pele tenra,
Canto IV: A trégua rompida

No Canto V, Agamêmnon pede aos aqueus que respeitem uns aos outros, porque mais se salvam do que morrem quando há vergonha. No Canto VI, quando Menelau ia poupar o troiano Adrasto, que lhe prometera um resgate enorme, Agamêmnon chega correndo e o repreende: não deve escapar ninguém, nem a criança no ventre da mãe. O conselho vira o ânimo de Menelau, e Agamêmnon fere Adrasto no flanco.

No Canto VII, Agamêmnon segura o irmão pela mão direita quando ele se levanta para enfrentar Heitor: Heitor é melhor, e até Aquiles estremeceu de enfrentá-lo. O sorteio se faz no elmo dele, e sai o nome de Ájax. Depois do duelo, Agamêmnon sacrifica um boi a Zeus e honra Ájax com as costelas inteiras do lombo. Ao receber a oferta de Páris, ouve de Diomedes que ninguém aceite os bens nem Helena, e dá a resposta a Ideu: aceita a trégua para queimar os mortos e invoca Zeus como testemunha dos juramentos.

μηδʼ ἔθελʼ ἐξ ἔριδος σεῦ ἀμείνονι φωτὶ μάχεσθαι / Ἕκτορι Πριαμίδῃ, τόν τε στυγέουσι καὶ ἄλλοι. / καὶ δʼ Ἀχιλεὺς τούτῳ γε μάχῃ ἔνι κυδιανείρῃ / ἔρριγʼ ἀντιβολῆσαι, ὅ περ σέο πολλὸν ἀμείνων. (7.111-114), nem queiras, por rivalidade, lutar com um homem melhor do que tu, Heitor Priâmida, de quem também os outros têm horror. Até Aquiles estremeceu de enfrentá-lo no combate que dá glória aos homens, ele que é muito melhor do que tu.
Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax

No Canto VIII, quando a balança de Zeus faz os aqueus recuarem, Agamêmnon recua com os outros chefes. Hera põe nele o impulso de animar os aqueus. À nau de Odisseu, no meio do acampamento, de onde a voz alcança as tendas de Ájax e de Aquiles, repreende os homens pelas jactâncias de Lemnos. Reza a Zeus: nunca passou por um altar do deus sem queimar gordura, desejoso de destruir Troia, e pergunta se o deus já cegou assim algum rei. O pedido encolhe, de conquistar a cidade a sobreviver, e Zeus acena que o povo não perecerá e manda uma águia com uma corça.

Ζεῦ πάτερ, ἦ ῥά τινʼ ἤδη ὑπερμενέων βασιλήων / τῇδʼ ἄτῃ ἄασας καί μιν μέγα κῦδος ἀπηύρας; (8.236-237), Pai Zeus, acaso já cegaste algum dos reis de grande poder com um desvario como este, e lhe tiraste grande glória?
Canto VIII: A batalha interrompida
ἀλλὰ Ζεῦ τόδε πέρ μοι ἐπικρήηνον ἐέλδωρ· / αὐτοὺς δή περ ἔασον ὑπεκφυγέειν καὶ ἀλύξαι, / μηδʼ οὕτω Τρώεσσιν ἔα δάμνασθαι Ἀχαιούς. / ὣς φάτο, τὸν δὲ πατὴρ ὀλοφύρατο δάκρυ χέοντα, / νεῦσε δέ οἱ λαὸν σόον ἔμμεναι οὐδʼ ἀπολέσθαι. (8.242-246), Mas, Zeus, realiza ao menos este meu desejo: deixa-nos fugir e escapar, e não permitas que assim os aqueus sejam dominados pelos troianos. Assim falou, e o Pai teve pena dele, que chorava, e acenou que o povo ficaria salvo e não pereceria.
Canto VIII: A batalha interrompida

No Canto IX, Agamêmnon abre a assembleia chorando e dizendo que Zeus o prendeu num pesado desvario: prometeu-lhe a queda de Troia e agora o manda de volta a Argos. Propõe fugir, e Diomedes responde que Zeus lhe deu o cetro e a honra, mas não a coragem. Quando Nestor o confronta com a tomada do prêmio de Aquiles, Agamêmnon reconhece que desvariou e quer aplacá-lo com presentes: sete trípodes, dez talentos de ouro, sete mulheres de Lesbos, Briseida de volta com o juramento de nunca a ter tocado, a mão de uma filha e sete cidades. Termina exigindo que Aquiles se submeta, porque é mais rei e mais velho. A resposta de Aquiles, trazida por Odisseu, é a recusa.

Ζεύς με μέγα Κρονίδης ἄτῃ ἐνέδησε βαρείῃ / σχέτλιος, ὃς τότε μέν μοι ὑπέσχετο καὶ κατένευσεν / Ἴλιον ἐκπέρσαντʼ εὐτείχεον ἀπονέεσθαι, / νῦν δὲ κακὴν ἀπάτην βουλεύσατο, καί με κελεύει / δυσκλέα Ἄργος ἱκέσθαι, ἐπεὶ πολὺν ὤλεσα λαόν. (9.18-22), Zeus Crônida me prendeu num pesado desvario, o cruel: antes me prometeu e assentiu que eu voltaria depois de saquear Ílion de belas muralhas, e agora planejou um engano funesto e manda-me voltar a Argos sem glória, depois de perder tanto povo.
Canto IX: A embaixada a Aquiles
ὦ γέρον οὔ τι ψεῦδος ἐμὰς ἄτας κατέλεξας· / ἀασάμην, οὐδʼ αὐτὸς ἀναίνομαι. ἀντί νυ πολλῶν / λαῶν ἐστὶν ἀνὴρ ὅν τε Ζεὺς κῆρι φιλήσῃ, / ὡς νῦν τοῦτον ἔτισε, δάμασσε δὲ λαὸν Ἀχαιῶν. / ἀλλʼ ἐπεὶ ἀασάμην φρεσὶ λευγαλέῃσι πιθήσας, / ἂψ ἐθέλω ἀρέσαι δόμεναί τʼ ἀπερείσιʼ ἄποινα. (9.115-120), Ó ancião, não é falso o que contaste de meus desvarios. Desvariei, e eu mesmo não o nego. Vale por muitos povos o homem a quem Zeus ama de coração, como agora honrou a este e dobrou o exército dos aqueus. Mas já que desvariei, cedendo a um ânimo funesto, quero de novo aplacá-lo e dar-lhe incontáveis presentes de resgate.
Canto IX: A embaixada a Aquiles
δμηθήτω· Ἀΐδης τοι ἀμείλιχος ἠδʼ ἀδάμαστος, / τοὔνεκα καί τε βροτοῖσι θεῶν ἔχθιστος ἁπάντων· / καί μοι ὑποστήτω ὅσσον βασιλεύτερός εἰμι / ἠδʼ ὅσσον γενεῇ προγενέστερος εὔχομαι εἶναι. (9.158-161), Que se submeta: Hades é impiedoso e indomável, e por isso é, entre os deuses, o mais odiado pelos mortais; e que ele ceda a mim, tanto quanto sou mais rei e me gabo de ser mais velho por nascimento.
Canto IX: A embaixada a Aquiles

No Canto X, Agamêmnon não consegue dormir: olha as fogueiras troianas e se espanta, olha as naus aqueias e arranca os cabelos, e geme voltado para Zeus. Diz a Menelau que precisam de um conselho, porque o espírito de Zeus se voltou. Manda-o chamar os chefes pelo nome do pai, sem altivez, e diz que ele próprio também trabalhará. Ao ver Diomedes escolher o companheiro da espionagem, dá-lhe uma regra, a de tomar o melhor e não o de mais alta estirpe, e o narrador diz que ele temia pelo irmão.

ἀλλʼ οὐκ Ἀτρεΐδην Ἀγαμέμνονα ποιμένα λαῶν / ὕπνος ἔχε γλυκερὸς πολλὰ φρεσὶν ὁρμαίνοντα. (10.3-4), mas o doce sono não prendia o Atrida Agamêmnon, pastor de povos, que remoía muitas coisas no ânimo.
Canto X: A Doloneia
μηδὲ σύ γʼ αἰδόμενος σῇσι φρεσὶ τὸν μὲν ἀρείω / καλλείπειν, σὺ δὲ χείρονʼ ὀπάσσεαι αἰδοῖ εἴκων / ἐς γενεὴν ὁρόων, μηδʼ εἰ βασιλεύτερός ἐστιν. / ὣς ἔφατʼ, ἔδεισεν δὲ περὶ ξανθῷ Μενελάῳ. (10.237-240), e que tu, por pudor, não deixes o melhor de lado e tomes o pior por respeito, olhando à linhagem, mesmo que ele seja de mais alta realeza. Assim falou; e temia pelo louro Menelau.
Canto X: A Doloneia

No Canto XI, depois de vestir a armadura que Cíniras lhe deu, é o primeiro a atacar, mata Iso e Antifo, filhos de Príamo, e persegue os troianos até as Portas Ceias. Recusa o resgate dos filhos de Antímaco, o troiano que quis matar Menelau como mensageiro, e dá a morte a eles como pagamento de uma dívida de família. Zeus marca o dia: enquanto o rei estiver na vanguarda, Heitor se afasta, e só quando ele for ferido Heitor receberá a força de matar até o pôr do sol. Cóon o fere no braço, Agamêmnon o mata e continua a lutar, mas as dores o dominam como as de um parto. Manda levá-lo às naus e grita que o astuto Zeus não o deixou combater o dia inteiro.

εἰ μὲν δὴ Ἀντιμάχοιο δαΐφρονος υἱέες ἐστόν, / ὅς ποτʼ ἐνὶ Τρώων ἀγορῇ Μενέλαον ἄνωγεν / ἀγγελίην ἐλθόντα σὺν ἀντιθέῳ Ὀδυσῆϊ / αὖθι κατακτεῖναι μηδʼ ἐξέμεν ἂψ ἐς Ἀχαιούς, / νῦν μὲν δὴ τοῦ πατρὸς ἀεικέα τίσετε λώβην. (11.138-142), se sois de fato filhos do aguerrido Antímaco, que um dia, na assembleia dos troianos, mandou matar ali mesmo Menelau, que viera como mensageiro com o divino Odisseu, e não deixá-lo voltar aos aqueus, agora pagareis a ofensa indigna do vosso pai.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon
ὦ φίλοι Ἀργείων ἡγήτορες ἠδὲ μέδοντες / ὑμεῖς μὲν νῦν νηυσὶν ἀμύνετε ποντοπόροισι / φύλοπιν ἀργαλέην, ἐπεὶ οὐκ ἐμὲ μητίετα Ζεὺς / εἴασε Τρώεσσι πανημέριον πολεμίζειν. (11.276-279), amigos, condutores e chefes dos argivos, defendei vós agora, junto às naus que cruzam o mar, esta luta penosa, pois o astuto Zeus não me permitiu combater os troianos o dia inteiro.
Canto XI: A aristeia de Agamêmnon

No Canto XIV, Agamêmnon sobe das naus com Odisseu e Diomedes, os três feridos e apoiados nas lanças. Teme que Heitor cumpra a ameaça de queimar as naus e que os outros aqueus guardem contra ele a cólera de Aquiles. Conclui que Zeus quer os aqueus mortos sem nome e propõe lançar as naus ao mar, de noite, porque fugir ao mal não é vergonha. Odisseu o repreende com dureza: devia comandar um exército sem valor, e a retirada quebraria o ânimo dos homens. Agamêmnon cede e aceita o conselho de Diomedes, voltar ao combate fora do alcance dos dardos. Poseidon, disfarçado de velho, lhe segura a mão e diz que os deuses não estão de todo irados com ele.

δείδω μὴ δή μοι τελέσῃ ἔπος ὄβριμος Ἕκτωρ, / ὥς ποτʼ ἐπηπείλησεν ἐνὶ Τρώεσσʼ ἀγορεύων / μὴ πρὶν πὰρ νηῶν προτὶ Ἴλιον ἀπονέεσθαι / πρὶν πυρὶ νῆας ἐνιπρῆσαι, κτεῖναι δὲ καὶ αὐτούς. / κεῖνος τὼς ἀγόρευε· τὰ δὴ νῦν πάντα τελεῖται. (14.44-48), temo que o forte Heitor me cumpra a palavra, como um dia ameaçou, falando entre os troianos: que não voltaria das naus para Ílion antes de queimar as naus com fogo e de matar também os próprios homens. Assim ele falava; agora tudo isso se cumpre.
Canto XIV: O engano de Zeus
οὐ γάρ τις νέμεσις φυγέειν κακόν, οὐδʼ ἀνὰ νύκτα. / βέλτερον ὃς φεύγων προφύγῃ κακὸν ἠὲ ἁλώῃ. (14.80-81), pois não há vergonha em fugir do mal, nem mesmo de noite; é melhor aquele que, fugindo, escapa do mal do que o que é capturado.
Canto XIV: O engano de Zeus
τὸν δʼ ἄρʼ ὑπόδρα ἰδὼν προσέφη πολύμητις Ὀδυσσεύς· / Ἀτρεΐδη ποῖόν σε ἔπος φύγεν ἕρκος ὀδόντων· / οὐλόμενʼ αἴθʼ ὤφελλες ἀεικελίου στρατοῦ ἄλλου / σημαίνειν, μὴ δʼ ἄμμιν ἀνασσέμεν, (14.82-85), e o astuto Odisseu, olhando-o de través, lhe respondeu: Atrida, que palavra escapou da cerca dos teus dentes! Infeliz, quem dera comandasses algum outro exército sem valor, e não reinasses sobre nós,
Canto XIV: O engano de Zeus

No Canto XVI, Pátroclo cita Agamêmnon entre os chefes feridos, e exorta os mirmidões a fazer o rei reconhecer a cegueira de ter desonrado o melhor dos aqueus.

No Canto XIX, a reconciliação é pública. Aquiles faz cessar a ira, e Agamêmnon fala sentado, para que todos o ouçam: a culpa não é dele, é de Zeus, da Moira e da Erínia que lhe lançaram uma cegueira selvagem. Conta a história de Atê, que enganou até o próprio Zeus no dia do nascimento de Héracles, e conclui que, como foi cegado, quer reparar com compensações sem medida. Odisseu o convence a trazer os presentes ao meio da assembleia e a jurar que não tocou Briseida. Agamêmnon jura sobre um javali sacrificado e fala dela como intocada. Aquiles responde que Zeus dá grandes cegueiras aos homens.

πολλάκι δή μοι τοῦτον Ἀχαιοὶ μῦθον ἔειπον / καί τέ με νεικείεσκον· ἐγὼ δʼ οὐκ αἴτιός εἰμι, / ἀλλὰ Ζεὺς καὶ Μοῖρα καὶ ἠεροφοῖτις Ἐρινύς (19.85-87), Muitas vezes os aqueus me disseram essa palavra e me censuraram; mas eu não sou o culpado, e sim Zeus, a Moira e a Erínia que anda pelo ar,
Canto XIX: O fim da ira
ἀλλʼ ἐπεὶ ἀασάμην καί μευ φρένας ἐξέλετο Ζεύς, / ἂψ ἐθέλω ἀρέσαι, δόμεναί τʼ ἀπερείσιʼ ἄποινα (19.137-138), Mas, como fui cegado e Zeus me tirou o juízo, quero de novo agradar e dar compensações sem medida.
Canto XIX: O fim da ira
μὴ μὲν ἐγὼ κούρῃ Βρισηΐδι χεῖρʼ ἐπένεικα, / οὔτʼ εὐνῆς πρόφασιν κεχρημένος οὔτέ τευ ἄλλου. / ἀλλʼ ἔμενʼ ἀπροτίμαστος ἐνὶ κλισίῃσιν ἐμῇσιν (19.261-263), Que eu não pus a mão na jovem Briseida, nem como pretexto de leito nem por outra razão; mas ela ficou intocada nas minhas tendas.
Canto XIX: O fim da ira

No Canto XXIII, nos jogos fúnebres de Pátroclo, Agamêmnon manda lenha para a pira sob a direção de Meríones. No lançamento do dardo, Aquiles lhe dá o prêmio sem disputa e pede que a lança vá para Meríones, e o rei aceita sem resistência.

Ἀτρεΐδη· ἴδμεν γὰρ ὅσον προβέβηκας ἁπάντων / ἠδʼ ὅσσον δυνάμει τε καὶ ἥμασιν ἔπλευ ἄριστος· / ἀλλὰ σὺ μὲν τόδʼ ἄεθλον ἔχων κοίλας ἐπὶ νῆας / ἔρχευ, ἀτὰρ δόρυ Μηριόνῃ ἥρωϊ πόρωμεν, / εἰ σύ γε σῷ θυμῷ ἐθέλοις· κέλομαι γὰρ ἔγωγε. (23.890-894), Atrida, sabemos o quanto superas todos e o quanto és o melhor em força e lançamentos; leva tu este prêmio às naus, e ao herói Meríones demos a lança, se tu o aceitas no teu ânimo; eu o peço.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

No Canto XXIV, Agamêmnon não aparece em cena, mas pesa na noite de Príamo: Aquiles zomba que o velho durma do lado de fora para que nenhum conselheiro aqueu o veja, avise Agamêmnon e atrase o resgate, e Hermes o acorda dizendo que os filhos teriam de pagar três vezes mais se o rei soubesse que ele está ali.

Temas que encarna

Agamêmnon encarna a Honra e reputação vista do lado de quem manda: ele não suporta ser o único sem prêmio, e por isso tira o de Aquiles, que é o que faz o exército cair. Encarna o Destino e livre-arbítrio por duas vezes: o Sonho o engana, e ele diz que Atê o cegou. E encarna a Guerra como empreendimento coletivo, no qual o chefe depende dos conselhos de quem o rodeia. Nos Canto VI e Canto XI a Compaixão e caridade aparece pelo avesso, nas súplicas que ele recusa, e no Canto IX ele passa a oferecer reparação.

O rei explica a derrota por Zeus em dois lugares do poema, no Canto IX e no Canto XIX, e nos dois diz a palavra Atê, o desvario que tira o juízo. Duas leituras convivem. Pode ser uma descrição honesta de como a loucura acomete um homem, com os deuses agindo sobre a mente, ou um modo de reparar sem se declarar culpado. O texto não escolhe, e Aquiles repete a mesma explicação adiante. O que o rei oferece é reparação em objetos, e o que Aquiles diz ter perdido é de outra ordem: o prêmio, a vida em risco sem retorno, o tratamento recebido. Daí o desencontro, porque cada oferta aumenta a lista sem tocar na queixa. O cetro, por sua vez, muda de função ao longo do poema: no Canto II é Odisseu quem o toma para falar em nome do rei, e no Canto IX é, nas palavras de Diomedes, a honra que Zeus deu sem a coragem, e, nas de Nestor, o sinal de que o rei foi posto ali para deliberar.

Relações

  • Aquiles: o guerreiro a quem tira o prêmio no Canto I, a quem oferece reparação no Canto IX e com quem se reconcilia no Canto XIX.
  • Menelau: o irmão cujo ferimento o faz estremecer no Canto IV e a quem ele detém no Canto VII e no Canto X.
  • Odisseu: o conselheiro que lhe responde de través e o convence de que o exército precisa de ânimo.
  • Nestor: o ancião que o confronta com o erro no Canto IX e organiza a formação no Canto IV.
  • Diomedes: o jovem chefe que ele censura no Canto IV e que lhe diz, no Canto IX, que o cetro não dá coragem.
  • Zeus: o deus a quem reza e a quem culpa, que o enganou com o Sonho e aceita seus sacrifícios sem cumprir o pedido.
  • Atena: a deusa que, com Hera, troveja em honra dele no Canto XI.
  • Hera: a deusa que põe nele o impulso de animar os aqueus no Canto VIII e que, na história de Atê, engana Zeus no dia do nascimento de Héracles.
  • Heitor: o adversário que Zeus manda esperar, no Canto XI, até que o rei seja ferido.
  • Calcas, o adivinho que ele insulta no Canto I, e Briseida, a cativa que ele devolve no Canto XIX com o juramento de nunca a ter tocado.