Clavis Libri

Personagem

Príamo

Quem é

Príamo é o velho rei de Troia, pai de Heitor, de Páris e de muitos outros filhos. Governa uma cidade em guerra há nove anos, e o poema o mostra mais vendo do que agindo: das Portas Ceias e das torres, ele assiste ao duelo, à luta e à morte dos filhos. O poema diz que Ílion, Príamo e o povo dele são odiosos aos deuses, embora Zeus confesse que Ílion era a cidade que mais amava. É Príamo, no entanto, quem faz o último ato do poema: sai de casa de noite, de carro de mulas, com um arauto e um resgate, e vai sozinho à tenda de Aquiles, o homem que matou tantos filhos dele, para pedir o corpo de Heitor.

Trajetória

No Canto II, Íris, na figura do vigia Polites, fala à assembleia de Príamo e diz que nunca viu exército tão numeroso, e Hera, ao mandar Atena deter a fuga dos aqueus, lembra que ela deixaria a Príamo e aos troianos a glória de Helena. Na prece de Agamêmnon, o palácio de Príamo é o alvo: o rei dos aqueus pede que o sol não se ponha antes que ele o derrube e queime as portas.

No Canto III, Príamo, com os anciãos, está nas Portas Ceias quando Helena chega para ver o duelo. Os anciãos dizem baixinho que ela deve voltar nas naus, mas Príamo a chama para perto de si, a trata de filha querida e lhe diz que não a culpa, e sim os deuses, que lançaram contra ele a guerra de muitas lágrimas dos aqueus. Pede que ela nomeie os chefes aqueus. Quando Menelau exige que seja ele, e não os filhos soberbos, a jurar o pacto, Príamo desce ao campo entre os exércitos com Antenor. Ouve o juramento de Agamêmnon, mas diz que não suportará ver o filho lutar com Menelau e volta a Troia levando os cordeiros do sacrifício.

οὔ τί μοι αἰτίη ἐσσί, θεοί νύ μοι αἴτιοί εἰσιν / οἵ μοι ἐφώρμησαν πόλεμον πολύδακρυν Ἀχαιῶν· (3.164-165), para mim tu não és culpada; para mim os deuses é que são culpados, eles que lançaram contra mim a guerra de muitas lágrimas dos aqueus.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau
ἐπεὶ οὔ πω τλήσομʼ ἐν ὀφθαλμοῖσιν ὁρᾶσθαι / μαρνάμενον φίλον υἱὸν ἀρηϊφίλῳ Μενελάῳ· / Ζεὺς μέν που τό γε οἶδε καὶ ἀθάνατοι θεοὶ ἄλλοι / ὁπποτέρῳ θανάτοιο τέλος πεπρωμένον ἐστίν. (3.306-309), pois de modo algum suportarei ver com meus olhos meu filho querido lutando contra Menelau, caro a Ares; Zeus decerto sabe isto, e os outros deuses imortais, a qual dos dois o fim da morte está destinado.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

No Canto IV, Zeus pergunta a Hera que mal tão grande Príamo e os filhos lhe fizeram para que ela queira arrasar Ílion, e confessa que, de todas as cidades sob o sol, Ílion era a que mais amava, onde nunca faltou ao seu altar a parte devida. No Canto VI, a casa de Príamo aparece de dentro: câmaras de pedra polida para cinquenta filhos e doze genros, a rainha Hécuba que sai ao encontro de Heitor, e Heitor que deseja que a terra engula Páris, a quem Zeus criou como desgraça para Troia, Príamo e os filhos.

No Canto VII, depois do duelo, Antenor propõe devolver Helena, e Páris recusa devolver a mulher e oferece só os bens. Príamo manda que se jante e se vigie e que Ideu leve aos Atridas a oferta de Páris e o pedido de trégua para queimar os mortos. Quando os dois lados queimam os corpos, Príamo proíbe o pranto, e os troianos queimam os mortos em silêncio.

No Canto XI, Agamêmnon mata Iso e Antifo, filhos de Príamo que Aquiles havia capturado e soltado por resgate, e Agamêmnon os reconhece. No Canto XIII, Príamo aparece pelos laços: estimava Ímbrio, casado com a filha bastarda Medesicasta, como a seus filhos, e prometera Cassandra, a mais bela das filhas, a Otrioneu, que a pediu sem dote em troca de expulsar os aqueus de Troia. Eneias fica no fim da multidão, ressentido porque Príamo, sendo ele valoroso, não lhe dá nenhuma honra.

τὸν δʼ ὕστατον εὗρεν ὁμίλου / ἑσταότʼ· αἰεὶ γὰρ Πριάμῳ ἐπεμήνιε δίῳ / οὕνεκʼ ἄρʼ ἐσθλὸν ἐόντα μετʼ ἀνδράσιν οὔ τι τίεσκεν. (13.459-461), e o achou, parado, o último da multidão; pois estava sempre ressentido com o divino Príamo, porque, sendo ele valoroso entre os homens, não lhe dava nenhuma honra.
Canto XIII: A batalha junto às naus

No Canto XX, o filho caçula, Polidoro, o mais novo e o mais amado, a quem o pai proibia de combater, corre entre os da frente para mostrar a rapidez dos pés e é atingido nas costas por Aquiles. Aquiles, ao pensar em Eneias como rei, lembra que Príamo tem filhos e juízo. No Canto XXI, vendo da torre a fuga dos troianos, Príamo desce gemendo e manda os guardas abrirem os portões até que os fugitivos entrem e os fecharem depois, com medo de que Aquiles salte para dentro. O filho Licáone, que Aquiles já havia capturado e vendido, lembra a Aquiles que a mãe dele teve de Príamo dois filhos e que Aquiles, tendo matado Polidoro, vai degolar os dois.

No Canto XXII, Príamo suplica do alto do muro a Heitor que não espere sozinho Aquiles, muito mais forte, e fala dos filhos Licáone e Polidoro, que não vê entre os que voltaram à cidade. Descreve o que o espera, ele que Zeus destruirá no limiar da velhice depois de ver filhos mortos, filhas arrastadas, netos lançados ao chão e os cães que criou devorando-o à porta. Para um jovem morto em combate tudo é belo, diz, mas os cães desonrando a cabeça branca de um velho morto são a coisa mais lastimável entre os mortais. Arranca os cabelos brancos e não convence Heitor.

Ἕκτορ μή μοι μίμνε φίλον τέκος ἀνέρα τοῦτον / οἶος ἄνευθʼ ἄλλων, (22.38-39), Heitor, meu filho querido, não esperes esse homem sozinho, longe dos outros.
Canto XXII: A morte de Heitor
ἵνα μὴ τάχα πότμον ἐπίσπῃς / Πηλεΐωνι δαμείς, ἐπεὶ ἦ πολὺ φέρτερός ἐστι (22.39-40), para que não encontres logo o teu destino, domado pelo filho de Peleu, pois ele é muito mais forte.
Canto XXII: A morte de Heitor

Quando Aquiles arrasta o corpo do filho diante da cidade, Príamo quer sair pelas portas, e o povo mal consegue segurá-lo. O velho rola no esterco e chama cada homem pelo nome: quer ir sozinho às naus suplicar ao homem violento e insolente, para ver se ele respeita a idade e tem piedade da velhice, pois Aquiles também tem um pai, Peleu. Dos muitos filhos que Aquiles lhe matou, chora mais por um, Heitor.

σχέσθε φίλοι, καί μʼ οἶον ἐάσατε κηδόμενοί περ / ἐξελθόντα πόληος ἱκέσθʼ ἐπὶ νῆας Ἀχαιῶν. / λίσσωμʼ ἀνέρα τοῦτον ἀτάσθαλον ὀβριμοεργόν, / ἤν πως ἡλικίην αἰδέσσεται ἠδʼ ἐλεήσῃ / γῆρας· (22.416-420), detende-vos, amigos, e deixai-me, ainda que vos preocupeis, sair da cidade e ir só às naus dos aqueus. Vou suplicar a esse homem insolente e violento, para ver se respeita a minha idade e tem piedade da velhice.
Canto XXII: A morte de Heitor

No Canto XXIV, Íris o encontra coberto de esterco que ele mesmo juntou ao rolar no chão, com os filhos sentados em volta, molhando as vestes de lágrimas. Fala baixo, e um tremor toma o velho. Traz o recado de Zeus: que vá sozinho, só com um arauto mais velho, sem medo da morte, porque Hermes o guiará, e que Aquiles não é insensato nem desatento nem ímpio e poupará com zelo o suplicante.

ἐντυπὰς ἐν χλαίνῃ κεκαλυμμένος· ἀμφὶ δὲ πολλὴ / κόπρος ἔην κεφαλῇ τε καὶ αὐχένι τοῖο γέροντος / τήν ῥα κυλινδόμενος καταμήσατο χερσὶν ἑῇσι. (24.163-165), envolto na capa, encolhido; e em volta, muito esterco na cabeça e no pescoço do velho, que ele, rolando-se, juntara com as próprias mãos.
Canto XXIV: O resgate de Heitor
οὔτε γάρ ἐστʼ ἄφρων οὔτʼ ἄσκοπος οὔτʼ ἀλιτήμων, / ἀλλὰ μάλʼ ἐνδυκέως ἱκέτεω πεφιδήσεται ἀνδρός. (24.157-158), pois ele não é insensato, nem desatento, nem ímpio; antes poupará com todo zelo o homem suplicante.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Príamo conta o recado a Hécuba, que grita e lhe pergunta onde foi parar o juízo dele: como vai sozinho aos olhos de quem lhe matou tantos filhos, com um coração de ferro? Aquiles não terá piedade nem respeito, e ela deseja comer o fígado dele. Príamo responde que a ordem veio de uma deusa que ele viu de frente, e que de adivinho ou sacerdote ele teria desconfiado. Vai, e, se estiver no destino dele morrer junto às naus, que Aquiles o mate logo, depois que ele abraçar o filho.

ὠμηστὴς καὶ ἄπιστος ἀνὴρ ὅ γε οὔ σʼ ἐλεήσει, / οὐδέ τί σʼ αἰδέσεται. (24.207-208), homem cru e sem fé: esse não terá piedade de ti, nem terá respeito por ti.
Canto XXIV: O resgate de Heitor
εἶμι καὶ οὐχ ἅλιον ἔπος ἔσσεται. εἰ δέ μοι αἶσα / τεθνάμεναι παρὰ νηυσὶν Ἀχαιῶν χαλκοχιτώνων / βούλομαι· αὐτίκα γάρ με κατακτείνειεν Ἀχιλλεὺς / ἀγκὰς ἑλόντʼ ἐμὸν υἱόν, ἐπὴν γόου ἐξ ἔρον εἵην. (24.224-227), vou, e a palavra não será vã. E se está no meu destino morrer junto às naus dos aqueus de couraça de bronze, quero: que Aquiles me mate logo, depois de tomar nos braços meu filho, quando eu tiver saciado o desejo do pranto.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Abre as arcas e tira doze peplos, doze mantos, doze tapetes, doze mantas, doze túnicas, dez talentos de ouro, dois trípodes, quatro caldeirões e uma taça que os trácios lhe deram. Expulsa com insultos os troianos no pórtico, que acrescentam o luto deles ao dele, e grita contra os filhos que lhe restam, a quem chama de maus e de envergonhados, e deseja que tivessem morrido no lugar de Heitor. Hécuba lhe traz vinho para a libação e lhe pede um sinal. Ele reza no meio do pátio e Zeus manda uma águia negra pela direita.

Na planície, Hermes, disfarçado de rapaz, lhe toma a mão e o leva até a tenda. Diz que Heitor está intacto, junto à nau de Aquiles, e Príamo se alegra. Entra sem ser visto, abraça os joelhos de Aquiles e beija as mãos que lhe mataram tantos filhos.

οἷον ἐερσήεις κεῖται, περὶ δʼ αἷμα νένιπται, / οὐδέ ποθι μιαρός· σὺν δʼ ἕλκεα πάντα μέμυκεν / ὅσσʼ ἐτύπη· πολέες γὰρ ἐν αὐτῷ χαλκὸν ἔλασσαν. / ὥς τοι κήδονται μάκαρες θεοὶ υἷος ἑῆος / καὶ νέκυός περ ἐόντος, ἐπεί σφι φίλος περὶ κῆρι. (24.419-423), como jaz orvalhado, e o sangue está lavado, sem sujeira em parte alguma, e todas as feridas fecharam, as que lhe foram feitas, pois muitos lhe cravaram o bronze. Assim os deuses bem-aventurados cuidam do teu filho, mesmo morto, porque lhe era caro ao coração.
Canto XXIV: O resgate de Heitor
ἔτλην δʼ οἷʼ οὔ πώ τις ἐπιχθόνιος βροτὸς ἄλλος, / ἀνδρὸς παιδοφόνοιο ποτὶ στόμα χεῖρʼ ὀρέγεσθαι. (24.505-506), suportei o que nenhum outro mortal sobre a terra ainda suportou: levar aos lábios a mão do homem que mata os meus filhos.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Pede que Aquiles se lembre do pai, da mesma idade que ele, que talvez seja maltratado pelos vizinhos mas se alegra a cada dia em ouvir que o filho vive. Teve cinquenta filhos quando os aqueus chegaram, dezenove da mesma mãe, e Ares matou quase todos. Aquiles toma-lhe a mão e o afasta de leve, e os dois choram, um o seu morto, o outro o pai e por vezes Pátroclo.

τὼ δὲ μνησαμένω ὃ μὲν Ἕκτορος ἀνδροφόνοιο / κλαῖʼ ἁδινὰ προπάροιθε ποδῶν Ἀχιλῆος ἐλυσθείς, / αὐτὰρ Ἀχιλλεὺς κλαῖεν ἑὸν πατέρʼ, ἄλλοτε δʼ αὖτε / Πάτροκλον· τῶν δὲ στοναχὴ κατὰ δώματʼ ὀρώρει. (24.509-512), e os dois, lembrando-se: um, de Heitor matador de homens, chorava sem parar, prostrado diante dos pés de Aquiles; Aquiles, por sua vez, chorava o pai, e outras vezes Pátroclo; o gemido deles ressoava pela casa.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Aquiles o ergue pela mão, diz que ele tem coração de ferro e conta os dois jarros de Zeus. Príamo se recusa a sentar enquanto Heitor jaz sem cuidado, e Aquiles lhe pede que não o provoque, para que não o poupe nem na tenda e não ofenda as ordens de Zeus. Príamo teme e obedece. Depois do banquete, admira o tamanho e o aspecto de Aquiles, que lhe parece semelhante a um deus, e pede nove dias de pranto em casa, o enterro no décimo, o túmulo no décimo primeiro e a guerra no décimo segundo, se for preciso. Aquiles concorda e lhe toma o pulso direito para afastar o medo. Príamo dorme no pórtico, e Hermes o acorda antes que algum aqueu o veja e o tira do acampamento.

τὼ νῦν μή μοι μᾶλλον ἐν ἄλγεσι θυμὸν ὀρίνῃς, / μή σε γέρον οὐδʼ αὐτὸν ἐνὶ κλισίῃσιν ἐάσω / καὶ ἱκέτην περ ἐόντα, Διὸς δʼ ἀλίτωμαι ἐφετμάς. (24.568-570), por isso não me agites mais o ânimo em meio às dores, para que eu não te poupe, velho, nem aqui na tenda, suplicante embora sejas, e não ofenda as ordens de Zeus.
Canto XXIV: O resgate de Heitor

Em Troia, Cassandra o vê chegar do alto de Pérgamo, de pé no carro, com o morto no féretro, e chama a cidade para ver Heitor. Perto das portas, a esposa e a mãe se lançam sobre o carro, e Príamo pede passagem: depois que ele levar o filho para casa, terão tempo de se saciar do pranto. Manda os troianos buscar lenha sem medo de emboscada, porque Aquiles lhe prometeu não atacar antes do décimo segundo amanhecer.

Temas que encarna

Príamo encarna a Perda e luto na forma mais extensa: perde Polidoro, Licáone e Heitor ao longo do poema, e o último canto é o do corpo que ele traz de volta ao lamento da cidade. Encarna a Compaixão e caridade pelo lado de quem pede: toda a cena da tenda é uma súplica que só funciona porque o pedido toca no que Aquiles já tem em si, o pai. Encarna a Morte pelo temor do que acontece ao corpo, e preocupa-se mais com o do filho que com a própria vida, e o Destino e livre-arbítrio por dizer a Hécuba que, se o destino dele é morrer junto às naus, que seja depois do abraço. A Guerra o alcança como pai: vê da torre os filhos morrerem e conta, na súplica, os que não voltaram à cidade.

O poema dá a Príamo duas imagens que não se anulam. Na primeira, o velho rei é o que vê da torre e suplica do muro, sem poder impedir nada, e rola no esterco diante da cidade. Na segunda, é quem decide ir à tenda do assassino dos filhos e põe em risco a própria vida, ainda que a ordem tenha vindo de Zeus. Hécuba, Apolo e Zeus fazem previsões diferentes sobre Aquiles, e quem decide entre elas é o próprio Príamo, ao entrar e ao beijar a mão. O que o texto mostra do velho é um homem que troca a segurança pelo abraço, e que, no mesmo canto, expulsa os troianos do pórtico e xinga os filhos que restam, como quem despeja no que sobra a dor que não tem como entregar a Heitor.

Relações

  • Heitor: o filho a quem ele suplica do muro no Canto XXII e que o pai vai buscar no Canto XXIV.
  • Aquiles: o homem que matou tantos filhos dele, a quem beija as mãos e com quem divide o pranto e uma refeição.
  • Zeus: o deus que amou Ílion mais que qualquer cidade e o protege na ida à tenda, por meio de Íris e de Hermes.
  • Helena: a nora que ele chama de filha querida e a quem diz que a culpa é dos deuses, no Canto III.
  • Páris: o filho que recusa devolver Helena e que o pai xinga no Canto XXIV.
  • Andrômaca: a nora que vai abrir o lamento de Heitor quando o corpo chega a Troia.
  • Hera: a deusa que Zeus acusa de querer arrasar Ílion, no Canto IV.
  • Hécuba: a rainha que tenta impedir a viagem do marido e deseja comer o fígado de Aquiles.