Quem é
Helena é a mulher por quem a guerra de Troia é travada: esposa de Menelau, levada a Troia por Páris, deixando para trás a filha, os parentes e as companheiras. No poema ela não decide o rumo da guerra, mas todos a nomeiam, e cada um a nomeia de um modo diferente: prêmio do vencedor, beleza que se deve devolver, inocente, desejo, bem a ser restituído com multa. O poema deixa essas descrições conviverem e dá a Helena, nos poucos momentos em que ela fala, uma voz que ora se condena, ora se recusa e ora obedece. Ela tece a guerra num manto de púrpura, enfrenta uma deusa por pudor e acaba cedendo por medo. No funeral de Heitor ela é a terceira a chorar, depois de Andrômaca e de Hécuba, e diz o que perdeu com ele.
Trajetória
No Canto II, a guerra tem Helena como razão dita por deuses e velhos. Hera manda Atena deter os aqueus que fogem porque não aceita deixar a Príamo e aos troianos a glória de Helena, por quem tantos aqueus morreram longe da pátria. Nestor, repreendendo o exército, diz que ninguém deve voltar antes de se deitar com a esposa de um troiano, para vingar os esforços e os gemidos de Helena.
τὼ μή τις πρὶν ἐπειγέσθω οἶκον δὲ νέεσθαι / πρίν τινα πὰρ Τρώων ἀλόχῳ κατακοιμηθῆναι, / τίσασθαι δʼ Ἑλένης ὁρμήματά τε στοναχάς τε.(2.354-356), por isso ninguém se apresse a voltar para casa antes de se deitar ao lado da esposa de algum troiano, para vingar os esforços e os gemidos de Helena.
No Canto III, Íris, na figura de Laódice, a encontra tecendo um manto duplo de púrpura onde borda os combates de troianos e aqueus que eles sofriam por causa dela. Chama-a para ver o duelo e lhe lança doce saudade do primeiro marido, da cidade e dos pais, e Helena sai chorando, com duas servas, até as Portas Ceias.
ἣ δὲ μέγαν ἱστὸν ὕφαινε / δίπλακα πορφυρέην, πολέας δʼ ἐνέπασσεν ἀέθλους / Τρώων θʼ ἱπποδάμων καὶ Ἀχαιῶν χαλκοχιτώνων, / οὕς ἑθεν εἵνεκʼ ἔπασχον ὑπʼ Ἄρηος παλαμάων·(3.125-128), ela tecia uma grande teia, um manto duplo de púrpura, e nele bordava os muitos combates de troianos domadores de cavalos e de aqueus de couraça de bronze, que eles sofriam por causa dela sob as mãos de Ares.
Os anciãos de Troia, que já não lutam, dizem baixinho que não é de espantar que tanta gente sofra por mulher assim, que parece uma deusa, mas que ela volte nas naus. Príamo a chama para perto, trata-a de filha querida e diz que a culpa não é dela, é dos deuses. Helena responde que preferia ter morrido a seguir o filho dele, e que se consome em lágrimas por isso.
οὐ νέμεσις Τρῶας καὶ ἐϋκνήμιδας Ἀχαιοὺς / τοιῇδʼ ἀμφὶ γυναικὶ πολὺν χρόνον ἄλγεα πάσχειν· / αἰνῶς ἀθανάτῃσι θεῇς εἰς ὦπα ἔοικεν· / ἀλλὰ καὶ ὧς τοίη περ ἐοῦσʼ ἐν νηυσὶ νεέσθω, / μηδʼ ἡμῖν τεκέεσσί τʼ ὀπίσσω πῆμα λίποιτο.(3.156-160), não é de se indignar que troianos e aqueus de belas grevas sofram dores por tanto tempo por uma mulher assim; ela se parece terrivelmente, no rosto, com as deusas imortais; mas, mesmo sendo assim, que volte nas naus, e não deixe para nós e para nossos filhos, depois, uma desgraça.
οὔ τί μοι αἰτίη ἐσσί, θεοί νύ μοι αἴτιοί εἰσιν / οἵ μοι ἐφώρμησαν πόλεμον πολύδακρυν Ἀχαιῶν·(3.164-165), para mim tu não és culpada; para mim os deuses é que são culpados, eles que lançaram contra mim a guerra de muitas lágrimas dos aqueus.
αἰδοῖός τέ μοί ἐσσι φίλε ἑκυρὲ δεινός τε· / ὡς ὄφελεν θάνατός μοι ἁδεῖν κακὸς ὁππότε δεῦρο / υἱέϊ σῷ ἑπόμην θάλαμον γνωτούς τε λιποῦσα / παῖδά τε τηλυγέτην καὶ ὁμηλικίην ἐρατεινήν. / ἀλλὰ τά γʼ οὐκ ἐγένοντο· τὸ καὶ κλαίουσα τέτηκα.(3.172-176), tu me és venerável, caro sogro, e temível; prouvera que a morte má me tivesse agradado quando aqui segui teu filho, deixando o tálamo, os parentes, a filha querida e a amável companhia de minhas iguais; mas isso não se deu, e por isso me consumo em lágrimas.
Identifica Agamêmnon, Odisseu, Ájax e Idomeneu e diz não ver os irmãos Castor e Polideuces, que supõe terem ficado por vergonha dela. O narrador acrescenta que a terra já os cobria, na Lacedemônia.
νῦν αὖτʼ οὐκ ἐθέλουσι μάχην καταδύμεναι ἀνδρῶν / αἴσχεα δειδιότες καὶ ὀνείδεα πόλλʼ ἅ μοί ἐστιν. / ὣς φάτο, τοὺς δʼ ἤδη κάτεχεν φυσίζοος αἶα / ἐν Λακεδαίμονι αὖθι φίλῃ ἐν πατρίδι γαίῃ.(3.241-244), agora não querem entrar no combate dos homens, temendo as vergonhas e as muitas injúrias que me cabem. Assim falou; mas a terra que dá a vida já os retinha, lá na Lacedemônia, na querida terra pátria.
Depois que Afrodite salva Páris de Menelau e o põe no quarto, a deusa vai chamar Helena, na figura de uma velha que cardava lã para ela em Esparta. Helena reconhece a deusa pelo pescoço, pelo peito e pelos olhos e a repreende: que vá ela se sentar ao lado de Páris. Recusa preparar o leito dele, porque as troianas a censurarão. Cede quando Afrodite ameaça lançar sobre ela o ódio dos dois lados, e vai em silêncio. No quarto, censura Páris por ter voltado da guerra, diz que ele se gabava de superar Menelau e o manda desafiá-lo de novo, e logo pede que não o faça. Páris a convida ao leito.
κεῖσε δʼ ἐγὼν οὐκ εἶμι· νεμεσσητὸν δέ κεν εἴη· / κείνου πορσανέουσα λέχος· Τρῳαὶ δέ μʼ ὀπίσσω / πᾶσαι μωμήσονται· ἔχω δʼ ἄχεʼ ἄκριτα θυμῷ.(3.410-412), lá eu não irei: seria censurável preparar o leito daquele; todas as troianas depois me recriminarão; e já tenho no ânimo dores sem conta.
ἀλλʼ ἄγε δὴ φιλότητι τραπείομεν εὐνηθέντε· / οὐ γάρ πώ ποτέ μʼ ὧδέ γʼ ἔρως φρένας ἀμφεκάλυψεν, / οὐδʼ ὅτε σε πρῶτον Λακεδαίμονος ἐξ ἐρατεινῆς / ἔπλεον ἁρπάξας ἐν ποντοπόροισι νέεσσι, / νήσῳ δʼ ἐν Κραναῇ ἐμίγην φιλότητι καὶ εὐνῇ, / ὥς σεο νῦν ἔραμαι καί με γλυκὺς ἵμερος αἱρεῖ.(3.441-446), vamos, entreguemo-nos ao amor, deitados; pois nunca o desejo me cobriu assim os sentidos, nem quando, tendo-te arrebatado da amável Lacedemônia, naveguei nas naus que cruzam o mar, e na ilha de Cranae me uni a ti em amor e leito, como agora te desejo e me toma o doce anseio.
No Canto IV, Zeus, ao provocar Hera, diz que, se os deuses preferirem a amizade, a cidade de Príamo continua habitada e Menelau leva Helena de volta. Quando Menelau é ferido, Agamêmnon teme que Helena fique como troféu para Príamo.
No Canto VI, Helena está em casa com Páris, dirigindo as servas, quando Heitor entra. Chama a si mesma de cadela, maquinadora de males, e deseja que uma tempestade a tivesse arrebatado no dia em que nasceu. Divide o mal com os deuses, que o decretaram, e deseja um marido que conhecesse a censura dos homens. Convida Heitor a sentar-se, porque o trabalho dele pesa por causa dela e da loucura de Páris. Heitor recusa.
δᾶερ ἐμεῖο κυνὸς κακομηχάνου ὀκρυοέσσης, / ὥς μʼ ὄφελʼ ἤματι τῷ ὅτε με πρῶτον τέκε μήτηρ / οἴχεσθαι προφέρουσα κακὴ ἀνέμοιο θύελλα(6.344-346), cunhado meu, cadela que sou, maquinadora de males, horrenda: quem me dera que, no dia em que minha mãe me deu à luz, uma tempestade funesta de vento me tivesse arrebatado
No Canto VII, na assembleia troiana, Antenor propõe devolver Helena e os bens aos Atridas, porque combatem depois de falsear os juramentos. Páris responde que a mulher não devolverá e oferece só os bens que trouxe de Argos. Mais tarde, entre os aqueus, Diomedes diz que ninguém aceite os bens de Alexandre nem Helena.
δεῦτʼ ἄγετʼ Ἀργείην Ἑλένην καὶ κτήμαθʼ ἅμʼ αὐτῇ / δώομεν Ἀτρεΐδῃσιν ἄγειν· νῦν δʼ ὅρκια πιστὰ / ψευσάμενοι μαχόμεσθα(7.350-352), vamos, entreguemos aos Atridas a argiva Helena e os bens que vieram com ela, para que os levem; agora combatemos depois de falsear os juramentos fiéis
ἀντικρὺ δʼ ἀπόφημι γυναῖκα μὲν οὐκ ἀποδώσω· / κτήματα δʼ ὅσσʼ ἀγόμην ἐξ Ἄργεος ἡμέτερον δῶ / πάντʼ ἐθέλω δόμεναι καὶ οἴκοθεν ἄλλʼ ἐπιθεῖναι.(7.362-364), digo-te às claras: a mulher eu não devolverei; mas os bens que trouxe de Argos para a nossa casa, todos quero dar, e acrescentar outros de minha casa.
No Canto IX, Aquiles pergunta a Odisseu se a guerra não é por Helena, e diz que todo homem bom e sensato ama a sua, como ele amava Briseida. No Canto XI, os filhos de Antímaco, caídos do carro, são mortos por Agamêmnon porque o pai, que recebera ouro de Páris para impedir a devolução de Helena, propusera matar Menelau quando este veio como embaixador. No Canto XIII, Menelau, diante do troiano Pisandro, diz que os troianos levaram a esposa legítima e muitos bens, apesar de acolhidos por ela, e que não se fartam do combate.
ἦ οὐχ Ἑλένης ἕνεκʼ ἠϋκόμοιο; / ἦ μοῦνοι φιλέουσʼ ἀλόχους μερόπων ἀνθρώπων / Ἀτρεΐδαι; ἐπεὶ ὅς τις ἀνὴρ ἀγαθὸς καὶ ἐχέφρων / τὴν αὐτοῦ φιλέει καὶ κήδεται, ὡς καὶ ἐγὼ τὴν / ἐκ θυμοῦ φίλεον δουρικτητήν περ ἐοῦσαν.(9.339-343), Não é por causa de Helena de belos cabelos? Ou só eles, os Atridas, amam as esposas entre os homens mortais? Pois todo homem bom e sensato ama e cuida da sua, como também eu a amava de coração, embora fosse conquistada com a lança.
πάντων μὲν κόρος ἐστὶ καὶ ὕπνου καὶ φιλότητος / μολπῆς τε γλυκερῆς καὶ ἀμύμονος ὀρχηθμοῖο, / τῶν πέρ τις καὶ μᾶλλον ἐέλδεται ἐξ ἔρον εἷναι / ἢ πολέμου· Τρῶες δὲ μάχης ἀκόρητοι ἔασιν.(13.636-639), de tudo há fartura, do sono, do amor, do canto doce e da dança sem defeito, coisas de que qualquer um deseja mais se fartar do que da guerra; mas os troianos não se fartam do combate.
No Canto XIX, Aquiles, falando do luto por Pátroclo, diz que combate os troianos por causa da odiosa Helena. No Canto XXII, Heitor imagina deixar as armas e oferecer a Aquiles Helena, os bens que Páris levou para Troia e metade do que a cidade guarda, e descarta a ideia: Aquiles o mataria nu, como se mata uma mulher.
No Canto XXIV, Helena fecha o terceiro lamento sobre o corpo de Heitor. Chora o cunhado mais querido: em vinte anos ele nunca lhe disse uma palavra má e acalmava com gentileza quem a ofendia, fossem cunhados, cunhadas ou a sogra. Chora a ele e a si mesma, porque em toda Troia ninguém mais é amável com ela e todos a temem. Diz que o marido é Alexandre, de aspecto divino, que a trouxe a Troia, e deseja ter morrido antes.
Ἕκτορ ἐμῷ θυμῷ δαέρων πολὺ φίλτατε πάντων, / ἦ μέν μοι πόσις ἐστὶν Ἀλέξανδρος θεοειδής, / ὅς μʼ ἄγαγε Τροίηνδʼ· ὡς πρὶν ὤφελλον ὀλέσθαι.(24.762-764), Heitor, de longe o mais querido ao meu coração de todos os cunhados; na verdade meu marido é Alexandre, de aspecto divino, que me trouxe a Troia; tivesse eu morrido antes!
Temas que encarna
Helena encarna a Guerra como causa e como pergunta: é a razão pela qual homens se matam e a que cada personagem trata de modo diferente, sem que o poema escolha entre elas. Encarna a Honra e reputação vista do lado da vergonha, no tecer da guerra, na recusa do leito e no cunhado que a protegia das palavras dos outros. O Destino e livre-arbítrio está no modo como Príamo a absolve pelos deuses e como ela mesma se condena, e a Perda e luto fecha a presença dela, no lamento do último canto.
Helena é o centro do Canto III, e cada personagem a nomeia de um modo: para Íris, é o prêmio do vencedor; para os anciãos, uma beleza que se deve devolver; para Príamo, inocente; para Agamêmnon, alguém a ser entregue com os bens e a multa; para Páris, desejo; para ela mesma, ora uma mulher que devia ter morrido, ora alguém que recusa a ordem da deusa e depois a cumpre. O texto não escolhe, e as descrições convivem. Há duas leituras para a recusa do leito e a obediência que vem logo depois: consciência da própria vergonha e impossibilidade de resistir a uma deusa que a ama e pode odiá-la. O que o poema registra é que, no último canto, o homem que a protegia das palavras dos outros está morto, e ela diz isso em voz alta.
Relações
- Páris: o marido que a trouxe a Troia, a quem ela censura e com quem se deita, e que ela nomeia marido no Canto XXIV.
- Menelau: o primeiro marido, que reclama a esposa e os bens.
- Príamo: o sogro que a chama de filha querida e a absolve pelos deuses.
- Heitor: o cunhado que nunca lhe disse uma palavra má e que ela chora.
- Agamêmnon: o chefe que exige Helena, os bens e uma compensação.
- Aquiles: o guerreiro que, no Canto IX, cita Helena como razão da guerra.
- Hera: a deusa que, no Canto II, invoca a glória de Helena para impedir a fuga dos aqueus.
- Afrodite: a deusa que a obriga a ir ao leito de Páris e a ameaça de odiá-la.