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Personagem

Menelau

Quem é

Menelau é o marido ofendido, irmão de Agamêmnon, e o homem por quem, como diz Aquiles no primeiro canto, os aqueus vieram a Troia. É o louro Menelau, que o poema chama de criado por Zeus, e luta com a dor de quem sofreu o dano e a cautela de quem conhece o próprio limite. Enfrenta Páris no duelo do Canto III, é ferido por uma flecha que rompe a trégua, quase poupa um suplicante e é dissuadido pelo irmão, cede a Heitor, protege o corpo de Pátroclo e chama Ájax quando precisa. O poema o mostra, mais que como comandante, como alguém que diz o que quer e por quê.

Trajetória

No Canto II, Agamêmnon convoca os chefes para o sacrifício, e Menelau vem sem ser convidado, porque sabe as preocupações do irmão.

No Canto III, Menelau vê Páris à frente dos troianos e se alegra como um leão que encontra a presa, porque pensa em punir o culpado. Salta do carro em armas, e Páris recua. Quando a proposta do duelo é feita, Menelau fala como o ofendido: a dor lhe chega sobretudo ao ânimo, e já é hora de aqueus e troianos se separarem, porque muitos males foram sofridos por causa da querela dele e do começo de Alexandre. Aceita que um dos dois morra e exige que seja o próprio Príamo, e não os filhos, a jurar o pacto, porque a mente dos jovens flutua e o velho olha antes e depois.

κέκλυτε νῦν καὶ ἐμεῖο· μάλιστα γὰρ ἄλγος ἱκάνει / θυμὸν ἐμόν, φρονέω δὲ διακρινθήμεναι ἤδη / Ἀργείους καὶ Τρῶας, ἐπεὶ κακὰ πολλὰ πέπασθε / εἵνεκʼ ἐμῆς ἔριδος καὶ Ἀλεξάνδρου ἕνεκʼ ἀρχῆς· / ἡμέων δʼ ὁπποτέρῳ θάνατος καὶ μοῖρα τέτυκται / τεθναίη· ἄλλοι δὲ διακρινθεῖτε τάχιστα. (3.97-102), ouvi-me também a mim: pois a dor atinge sobretudo o meu ânimo, e penso que já é hora de se separarem argivos e troianos, porque muitos males sofrestes por causa da minha querela e do começo de Alexandre; e aquele de nós dois a quem a morte e a sorte estão destinadas, que morra; vós, outros, separai-vos o mais depressa.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

No duelo, a lança de Menelau atravessa o escudo e a couraça e rasga a túnica, mas Páris se inclina e escapa. A espada se parte na crista do elmo, e Menelau grita a Zeus que nenhum deus é mais ruinoso. Antes, na prece, o motivo que dera a Zeus não era a perda de Helena, e sim a violação da hospitalidade: que lhe seja dado punir Alexandre, para que os homens futuros tremam de fazer mal ao anfitrião que lhes oferece amizade. Agarra Páris pelo elmo e o arrasta, mas Afrodite rompe a correia, e o elmo vem vazio. Menelau percorre depois as fileiras como uma fera, e nenhum troiano o mostra. Agamêmnon declara a vitória.

Ζεῦ ἄνα δὸς τίσασθαι ὅ με πρότερος κάκʼ ἔοργε / δῖον Ἀλέξανδρον, καὶ ἐμῇς ὑπὸ χερσὶ δάμασσον, / ὄφρα τις ἐρρίγῃσι καὶ ὀψιγόνων ἀνθρώπων / ξεινοδόκον κακὰ ῥέξαι, ὅ κεν φιλότητα παράσχῃ. (3.351-354), senhor Zeus, concede-me punir o divino Alexandre, que primeiro me fez mal, e subjuga-o sob as minhas mãos, para que até os homens que nascerem depois tremam de fazer mal ao anfitrião que lhes oferece amizade.
Canto III: O duelo de Páris e Menelau

No Canto IV, a flecha de Pândaro, desviada por Atena, fere Menelau no ponto em que o cinturão se junta à couraça. Agamêmnon, gemendo, se acusa, e é Menelau quem recupera primeiro o domínio de si: manda o irmão ter coragem e não assustar o exército, porque a flecha parou no cinturão, na faixa e na mitra. O cuidado dele é o efeito do susto sobre os aqueus. Macáon tira a flecha e põe as drogas.

θάρσει, μηδέ τί πω δειδίσσεο λαὸν Ἀχαιῶν· / οὐκ ἐν καιρίῳ ὀξὺ πάγη βέλος, ἀλλὰ πάροιθεν / εἰρύσατο ζωστήρ τε παναίολος ἠδʼ ὑπένερθε / ζῶμά τε καὶ μίτρη, τὴν χαλκῆες κάμον ἄνδρες. (4.184-187), Coragem, e não assustes ainda o exército dos aqueus: a flecha aguda não se cravou em lugar mortal; antes a protegeram o cinturão multicor e, por baixo, a faixa e a mitra que homens ferreiros fizeram.
Canto IV: A trégua rompida

No Canto VI, tendo Adrasto vivo diante de si, Menelau, convencido pelo resgate que o troiano oferece, ia mandá-lo às naus, quando Agamêmnon chega e o repreende. O conselho vira o ânimo dele, e ele afasta Adrasto com a mão. No Canto VII, ele se levanta gemendo, censura os aqueus que se calam e começa a se armar para enfrentar Heitor, e Agamêmnon o contém: Heitor é melhor, e até Aquiles estremeceu de enfrentá-lo. Menelau cede, e os servos tiram-lhe as armas.

μηδʼ ἔθελʼ ἐξ ἔριδος σεῦ ἀμείνονι φωτὶ μάχεσθαι / Ἕκτορι Πριαμίδῃ, τόν τε στυγέουσι καὶ ἄλλοι. / καὶ δʼ Ἀχιλεὺς τούτῳ γε μάχῃ ἔνι κυδιανείρῃ / ἔρριγʼ ἀντιβολῆσαι, ὅ περ σέο πολλὸν ἀμείνων. (7.111-114), nem queiras, por rivalidade, lutar com um homem melhor do que tu, Heitor Priâmida, de quem também os outros têm horror. Até Aquiles estremeceu de enfrentá-lo no combate que dá glória aos homens, ele que é muito melhor do que tu.
Canto VII: O duelo de Heitor e Ájax

No Canto X, Menelau também não dorme, por medo do que possa acontecer aos que cruzaram o mar por causa dele. Agamêmnon o manda chamar os chefes pelo nome do pai e sem altivez. Quando Diomedes vai escolher o companheiro da espionagem, Menelau está entre os que se oferecem, e o narrador diz que Agamêmnon, ao dar a regra, temia por ele.

No Canto XI, Menelau ouve Odisseu chamar três vezes e chama Ájax, e tira Odisseu da multidão pela mão, enquanto Ájax destroça os troianos como um rio em cheia.

No Canto XIII, depois de matar Pisandro e pisar-lhe o peito, Menelau fala aos troianos e a Zeus: os troianos levaram a esposa legítima e muitos bens, apesar de acolhidos por ela, e agora querem lançar fogo às naus, sem temer a ira de Zeus, protetor dos hóspedes, que um dia lhes destruirá a cidade. Diz ainda que de tudo há fartura, do sono, do amor, do canto e da dança, mas que os troianos não se fartam do combate.

πάντων μὲν κόρος ἐστὶ καὶ ὕπνου καὶ φιλότητος / μολπῆς τε γλυκερῆς καὶ ἀμύμονος ὀρχηθμοῖο, / τῶν πέρ τις καὶ μᾶλλον ἐέλδεται ἐξ ἔρον εἷναι / ἢ πολέμου· Τρῶες δὲ μάχης ἀκόρητοι ἔασιν. (13.636-639), de tudo há fartura, do sono, do amor, do canto doce e da dança sem defeito, coisas de que qualquer um deseja mais se fartar do que da guerra; mas os troianos não se fartam do combate.
Canto XIII: A batalha junto às naus

No Canto XV, Menelau, por trás, atravessa o ombro de Dólops. Depois pede a Antíloco, o mais jovem e veloz, que ataque.

No Canto XVII, Menelau percebe a queda de Pátroclo e se põe sobre o corpo com lança e escudo, como uma vaca de primeira cria sobre o bezerro. Euforbo, filho de Pântoo, manda-o recuar e lhe diz que vai pagar o irmão que ele matou, a viúva e os pais. Menelau reza a Zeus e o atravessa pelo pescoço. Quando Apolo, na figura de Mentes, incita Heitor, Menelau pesa se fica ou recua, e conclui que quem luta contra um homem que o deus honra atrai desgraça e que ninguém o censurará por ceder. Recua devagar, como um leão enxotado do curral, e vai chamar Ájax.

ἀμφὶ δʼ ἄρʼ αὐτῷ βαῖνʼ ὥς τις περὶ πόρτακι μήτηρ / πρωτοτόκος κινυρὴ οὐ πρὶν εἰδυῖα τόκοιο· / ὣς περὶ Πατρόκλῳ βαῖνε ξανθὸς Μενέλαος. (17.4-6), em volta dele andava, como uma mãe em torno do bezerrinho, gemendo, de primeira cria, que não conhecera parto antes; assim em volta de Pátroclo andava o loiro Menelau.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
νῦν μὲν δὴ Μενέλαε διοτρεφὲς ἦ μάλα τείσεις / γνωτὸν ἐμὸν τὸν ἔπεφνες, ἐπευχόμενος δʼ ἀγορεύεις, / χήρωσας δὲ γυναῖκα μυχῷ θαλάμοιο νέοιο, / ἀρητὸν δὲ τοκεῦσι γόον καὶ πένθος ἔθηκας. (17.34-37), agora, Menelau criado por Zeus, pagarás por meu irmão, que mataste e de que te vanglorias; deixaste viúva uma mulher no fundo do quarto nupcial recém-feito e deste aos pais um lamento e um luto dolorosos.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo
ὁππότʼ ἀνὴρ ἐθέλῃ πρὸς δαίμονα φωτὶ μάχεσθαι / ὅν κε θεὸς τιμᾷ, τάχα οἱ μέγα πῆμα κυλίσθη. / τώ μʼ οὔ τις Δαναῶν νεμεσήσεται ὅς κεν ἴδηται / Ἕκτορι χωρήσαντʼ, ἐπεὶ ἐκ θεόφιν πολεμίζει. (17.98-101), quando um homem quer combater, contra a vontade de um deus, um outro que o deus honra, logo sobre ele rola um grande desastre. Por isso nenhum dos dânaos que me vir me censurará por ceder a Heitor, pois ele combate por vontade dos deuses.
Canto XVII: A luta pelo corpo de Pátroclo

Mais tarde, diante de Atena, que lhe aparece na figura de Fênix, diz que desejaria defender o corpo, porque Pátroclo, ao morrer, lhe tocou o coração. Mata Podes. Enviado por Ájax a procurar Antíloco, parte de mau grado, como um leão cansado, e pede aos Ájax e a Meríones que lembrem a doçura de Pátroclo. Diz a Antíloco que corra a Aquiles e ergue o corpo com Meríones.

No Canto XIX, está entre os chefes que, depois da assembleia, tentam consolar Aquiles.

No Canto XXIII, Menelau disputa a corrida de carros e termina em terceiro. Antíloco, que tinha os cavalos mais lentos, se enfia num desfiladeiro em que só passa um carro, e Menelau, para evitar o choque, afrouxa e o insulta. Depois, ressentido, acusa Antíloco de lhe ter manchado a virtude e exige que ele jure por Poseidon que não o atrapalhou de propósito. Antíloco devolve o prêmio, e Menelau, aplacado, cede por sua vez a égua, para que se saiba que o coração dele nunca foi soberbo nem duro.

τώ τοι ἐπιτλήτω κραδίη· ἵππον δέ τοι αὐτὸς / δώσω, τὴν ἀρόμην. εἰ καί νύ κεν οἴκοθεν ἄλλο / μεῖζον ἐπαιτήσειας, ἄφαρ κέ τοι αὐτίκα δοῦναι / βουλοίμην ἢ σοί γε διοτρεφὲς ἤματα πάντα / ἐκ θυμοῦ πεσέειν καὶ δαίμοσιν εἶναι ἀλιτρός. (23.591-595), por isso suporta com ânimo. A égua eu mesmo te darei, a que ganhei; e se me pedisses de casa algo ainda maior, eu preferiria dar-to logo a cair, filho de Zeus, para sempre do teu afeto e ser culpado diante dos deuses.
Canto XXIII: Os jogos fúnebres

Temas que encarna

Menelau encarna a Honra e reputação do ofendido que pede reparação, e o que lhe é devido como anfitrião violado. Encarna a Guerra em sua causa pessoal, e sofre o preço dela no corpo do irmão e dos companheiros. Encarna a Compaixão e caridade no episódio de Adrasto, que ele ia poupar e que o irmão o convence a não poupar, e na doçura de Pátroclo que ele lembra.

Menelau é o personagem que tem a causa pessoal da guerra e, em vários momentos, é o que cede. Cede ao irmão no caso de Adrasto, a Heitor no Canto VII, ao deus que honra Heitor no Canto XVII, a Antíloco no Canto XXIII, e em cada caso o texto dá uma razão: o irmão o contém, o deus honra o outro, o jovem tem pouco juízo. No Canto III, a prece que ele faz a Zeus não pede Helena de volta; pede um exemplo para os homens futuros, o de que não se faz mal ao anfitrião. Duas leituras convivem para essa escolha de razão: é o motivo mais forte dele, porque o que o move é a violação do pacto da hospitalidade, ou é o motivo que se pode dizer em voz alta a um deus. No Canto XVII, o mesmo homem que recuou diante do deus fica sobre o corpo de Pátroclo gemendo como uma vaca de primeira cria, e a imagem é a de uma mãe, não a de um comandante.

Relações

  • Agamêmnon: o irmão mais poderoso, que o protege, o contém e se acusa quando ele é ferido.
  • Helena: a esposa levada, cujo retorno ele exige.
  • Páris: o adversário que o ofendeu e que Afrodite salva.
  • Heitor: o campeão troiano diante de quem ele cede, no Canto VII e no Canto XVII.
  • Ájax: o companheiro de quem ele corre a chamar socorro, no Canto XI e no Canto XVII.
  • Odisseu: o companheiro que ele resgata da multidão no Canto XI.
  • Nestor: o pai de Antíloco, cujo filho o ultrapassa no Canto XXIII.
  • Pátroclo: o morto que Menelau protege como mãe e de cuja doçura se lembra.
  • Euforbo: o troiano que ele mata no Canto XVII.
  • Antíloco: o jovem filho de Nestor, que o ultrapassa no Canto XXIII e que lhe devolve o prêmio.