O tema na obra
O desejo de Brás Cubas nasce no capítulo XIV, quando o rapaz de dezessete anos segue Marcela como pajem, e se paga no capítulo XV, com dinheiro da família e obrigações sobre a herança. No capítulo XXXIII, Eugênia lhe dá o primeiro beijo depois de pedir que ele não desça.
Com Virgília o desejo muda de natureza. No capítulo L, a valsa; no capítulo LVI, a teoria do momento oportuno; no capítulo LVII, a proibição como medida do amor, pois agora que todas as leis sociais os impedem é que se amam deveras. No capítulo LXIV Brás quer torná-la somente sua, e o capítulo LXVII lhe dá a casinha.
Depois do cimo da montanha, no capítulo LXXXV, o desejo se mede pelo tempero: no capítulo XCVIII a carta anônima restitui o sal do mistério, no capítulo CVIII o bilhete provoca medo e não medo, amor sem delírio, e no capítulo CXVIII Brás nomeia um desejo sem objeto, o de agitar-se em alguma coisa.
O desejo também se alimenta de ciúme e de movimento. No capítulo XIV, Brás segue Marcela na noite das luminárias da independência e, três dias depois, na saída de uma ceia na casa dela, a beija na escada. No capítulo LXXVII, confessa a Virgília que faltou na véspera por ciúme, porque dois dias antes ela valsara duas vezes com o mesmo peralta, e ela o encara pasmada e lhe dá pancadinhas na testa. No capítulo CXXI, desce o morro do Livramento com Nhã-loló, perde os anos pelo caminho e chega abaixo com vinte, e diz que, com o guarda-sol inclinado, ajuntou uma página à filosofia de Quincas Borba.
O desejo no livro pede obstáculo. Brás quer Virgília mais quando ela é casada e quando o marido pode descobrir, e menos quando a chama vira feixe de raios, tranquilo e constante. Marcela mostra o outro lado: o desejo que se paga e a dúvida sobre se o que se compra é amor. O texto sustenta as duas leituras, a do prazer que dispensa justificativa e a da posse que precisa dela, e o amor sem delírio do capítulo CVIII marca o fim do arco.
Onde aparece
- Capítulo XIV: Aos dezessete anos Brás se encanta por Marcela, a segue na noite das luminárias da independência e, três dias depois, na saída de uma ceia na casa dela, a beija na escada.
- Capítulo XV: Brás gasta trinta dias para chegar ao coração de Marcela, explora o pai, induz a mãe a desviar dinheiro e assina obrigações sobre a herança para sustentar o reino que lhe custa caro.
- Capítulo XXXIII: Brás volta remoendo o enigma da moça bonita e coxa, adia a descida por uma semana ao pé de Eugênia e, no domingo, recebe dela o primeiro beijo.
- Capítulo L: Brás reencontra Virgília casada, valsa com ela num baile e, semanas depois, numa reunião íntima em casa do marido, aperta-lhe a mão com força na valsa, e ela a deixa ficar.
- Capítulo LVI: Brás se pergunta por que antes sentiu só despeito pelo casamento com Virgília e agora, depois de umas voltas de valsa, a ama com delírio, e responde que foi o momento oportuno.
- Capítulo LVII: Brás diz que agora, quando todas as leis sociais os impedem, é que os dois se amam deveras, e entrega ao Destino o problema de aonde as estradas escusas os levam.
- Capítulo LXIV: Brás passa a noite imaginando Virgília desejada por todos no teatro, até querer despi-la e torná-la só sua, e no dia seguinte, ao achá-la chorando, diz que tem ciúmes do outro.
- Capítulo LXVII: Virgília recusa a fuga com um Nunca, e Brás arranja a casinha numa rua da Gamboa, que lhe promete posse exclusiva e o fim das cortinas e dos jantares do outro.
- Capítulo LXXVII: Brás confessa a Virgília que faltou na véspera por ciúme, porque dois dias antes ela valsara duas vezes com o mesmo peralta, e ela o encara pasmada e lhe dá pancadinhas na testa.
- Capítulo LXXXV: Brás e Virgília, salvos da separação, se amam com mais ardor, e ele diz que esse foi o ponto máximo do amor deles, o cimo da montanha, de onde começaram a descer.
- Capítulo XCVIII: Brás diz que a carta anônima restitui à aventura o sal do mistério e a pimenta do perigo, e no teatro acha Nhã-loló mais bonita.
- Capítulo CVIII: Brás conta o que sentiu ao ler o bilhete em pares de contrários: medo e não medo, dó e não dó, vaidade e não vaidade, enfim amor sem delírio.
- Capítulo CXVIII: Brás nomeia a terceira força que o chamava ao bulício, o gosto de luzir e a incapacidade de viver só, e diz que veio o desejo de agitar-se em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa.
- Capítulo CXXI: Brás desce o morro do Livramento com Nhã-loló, perde os anos pelo caminho, chega abaixo com vinte e diz que, com o guarda-sol inclinado, ajuntou uma página à filosofia de Quincas Borba.
Passagens
O jovem obedece a uma ordem que não era para ele.
Segue-me, disse ela ao pajem. E eu segui-a, tão pajem como o outro
O desejo impetuoso vira paciência de cortejo.
Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência
A proibição vira medida do amor.
Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras
O ciúme pede posse exclusiva.
a torná-la minha, somente minha, unicamente minha
O amor perde a febre e continua.
Era medo, e não era medo; era dó e não era dó; era vaidade e não era vaidade; enfim, era amor sem amor, isto é, sem delírio
O desejo sem objeto se contenta com qualquer matéria.
Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa