O tema na obra
O primeiro desejo do romance é o de Charles Bovary, que no capítulo 2 da Parte I passa a voltar ao Bertaux sem se perguntar por que vai com prazer, e no capítulo 3, já viúvo, acaba pedindo a filha do fazendeiro em casamento. O de Emma Bovary ganha forma no baile de La Vaubyessard, no capítulo 8: os retratos de linhagem, o duque que viveu na corte, o champanhe gelado, as romãs, a valsa com o Visconde. De volta a Tostes, no capítulo 9, ela cheira o forro da cigarreira achada na estrada (ver A cigarreira verde), percorre com o dedo um mapa de Paris e assina revistas de moda.
Na Parte II o desejo troca de objeto sem trocar de forma. No capítulo 3 Emma queria um filho homem, e o texto chama essa vontade de desforra de todas as frustrações passadas; no capítulo 5, enquanto Yonville a admira como esposa e mãe exemplar, a ternura do marido a incita a desejos adúlteros. Quando Léon parte, no capítulo 7, ela o recria na lembrança mais belo do que era, e no mesmo capítulo Rodolphe Boulanger, que acaba de conhecê-la, decide seduzi-la, certo de que ela anseia pelo amor como uma carpa pela água. O comício do capítulo 8 e a cavalgada do capítulo 9 cumprem o plano, e diante do espelho Emma repete que tem um amante.
Na Parte III, o fiacre (ver O fiacre) do capítulo 1 leva o desejo para dentro de um carro de estores descidos que roda por Rouen até as seis da tarde. A última cena do tema é a extrema-unção do capítulo 8: o padre unge os olhos que cobiçaram as suntuosidades da terra, as narinas, a boca, as mãos e os pés que corriam a saciar os desejos.
O desejo de Emma nunca se fixa numa pessoa: fixa-se numa imagem (o Visconde, Paris, a mulher apaixonada dos romances) e rende mais na ausência do que na presença, como mostra Léon recriado no capítulo 7 da Parte II. Por isso cada homem alcançado decepciona, e a satisfação recua para o próximo. Flaubert não fecha esse desejo com um sermão, fecha no corpo, na unção que percorre um a um os órgãos por onde ele entrou.
Onde aparece
- Parte I, capítulo 2: Charles volta ao Bertaux por um prazer que não procura entender.
- Parte I, capítulo 3: o licor de curaçao na cozinha e o rubor de Charles, que o pai Rouault percebe, levam ao pedido de casamento.
- Parte I, capítulo 8: o baile mostra a Emma, numa noite, tudo o que ela vai querer pelo resto do livro.
- Parte I, capítulo 9: a cigarreira, o mapa de Paris e o Visconde dão rosto e endereço ao desejo.
- Parte II, capítulo 3: Emma deseja um filho homem como desforra da vida de mulher.
- Parte II, capítulo 5: por trás da virtude de fachada, a mediocridade doméstica a empurra para desejos adúlteros.
- Parte II, capítulo 7: a ausência de Léon aumenta o desejo, e Rodolphe decide seduzir Emma.
- Parte II, capítulo 8: no comício, Rodolphe toma a mão de Emma, quente e trêmula.
- Parte II, capítulo 9: Emma cede na floresta e celebra diante do espelho que tem um amante.
- Parte III, capítulo 1: Léon a convence a entrar no fiacre, que roda fechado por Rouen.
- Parte III, capítulo 8: a extrema-unção percorre os órgãos dos desejos de Emma.
Passagens
O desejo de Charles vem antes do de Emma, e vem sem nome.
O motivo das visitas é um desejo que Charles ainda não reconhece.Quant à Charles, il ne chercha point à se demander pourquoi il venait aux Bertaux avec plaisir, quanto a Charles, não procurou perguntar a si mesmo por que ia aos Bertaux com prazer.
A noite do baile é a medida de tudo o que Emma vai querer depois.
Her journey to Vaubyessard had made a hole in her life, like one of those great crevices that a storm will sometimes make in one night in mountains, sua viagem a Vaubyessard (ver La Vaubyessard) tinha aberto um buraco em sua vida, como uma daquelas grandes fendas que uma tempestade às vezes abre numa única noite nas montanhas.
O desejo do filho homem diz o que Emma acha que falta à vida de mulher.
Ela desejava um rapaz, seria forte e moreno, chamar-se-ia Georges, e esta ideia de ter um filho varão era uma espécie de desejo de desforra de todas as suas frustrações passadas. Um homem, pelo menos, é livre, pode explorar todas as paixões e todas as terras, atravessar os obstáculos, tomar o gosto das venturas mais distantes. Mas uma mulher é continuamente impedida de tudo.
A virtude de fachada alimenta o desejo que finge conter.
A mediocridade doméstica incitava-a a fantasias luxuosas; a ternura matrimonial, a desejos adúlteros.
A unção final faz o inventário do desejo pelo corpo.
primeiro nos olhos, que tanto haviam cobiçado todas as sumptuosidades terrestres, depois nas narinas, ávidas de brisas cálidas e perfumes amorosos, depois na boca, que se abria para a mentira, que gemera de orgulho e gritara de luxúria, depois nas mãos, que se deleitavam com suaves contactos, e, finalmente, nas plantas dos pés, tão rápidos outrora quando corria a saciar os seus desejos e que não voltariam a caminhar.