Clavis Libri

Tema em Dom Quixote

Honra e reputação

O valor de alguém aos olhos dos outros e aos próprios: honra, glória, fama, dignidade, vergonha pública.

O tema na obra

No Quixote a honra tem três fontes, e o livro as põe em disputa. A primeira é o sangue: a linhagem, o solar, o "dom" no nome. A segunda são as obras: o que cada um faz, e que Dom Quixote resume na frase de que cada um é filho de suas obras. A terceira é a fama, a opinião dos outros, que pode ser impressa e discutida e que na Segunda Parte tem um livro inteiro a seu favor e outro, o apócrifo, contra. A honra das mulheres é tratada à parte, em termos de recato e de palavra dada, e é a que mais acaba em morte: Anselmo, que quis prová-la, Leandra, que a perde sem ser desonrada, a filha de dona Rodríguez, que a perde por promessa. O que o livro faz é dar ao fidalgo uma honra de ofício, a do cavaleiro, que não depende do sangue nem da fama, mas de fazer mais que outro, e depois confrontá-la com quem a mede por outro critério.

No capítulo XVIII da Primeira Parte, depois da pedrada dos pastores, o fidalgo consola Sancho com uma regra de mérito: um homem não é mais que outro se não faz mais que outro.

Sábete, Sancho, que no es un hombre más que otro si no hace más que otro, sabe, Sancho, que um homem não é mais que outro se não faz mais que outro.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

No capítulo XXXIV da Primeira Parte, na novela do Curioso Impertinente, Anselmo assiste, escondido, à encenação da morte de sua honra, e as personagens a representam tão bem que parecem ter-se transformado na verdade do que fingiam.

Atentísimo había estado Anselmo a escuchar y a ver representar la tragedia de la muerte de su honra; la cual con tan estraños y eficaces afectos la representaron los personajes della, que pareció que se habían transformado en la misma verdad de lo que fingían, atentíssimo estivera Anselmo a escutar e a ver representar a tragédia da morte de sua honra; a qual com tão estranhos e eficazes afetos a representaram as personagens dela, que pareceu que se haviam transformado na própria verdade do que fingiam.
Primeira Parte: O Curioso Impertinente

No capítulo XXXV da Primeira Parte, na carta que deixa ao morrer, ele perdoa a Camila, que não estava obrigada a fazer milagres, e reconhece que foi o fabricador de sua desonra.

Un necio e impertinente deseo me quitó la vida. Si las nuevas de mi muerte llegaren a los oídos de Camila, sepa que yo la perdono, porque no estaba ella obligada a hacer milagros, ni yo tenía necesidad de querer que ella los hiciese; y, pues yo fui el fabricador de mi deshonra, no hay para qué..., um néscio e impertinente desejo me tirou a vida. Se as notícias de minha morte chegarem aos ouvidos de Camila, saiba ela que eu a perdoo, porque não estava obrigada a fazer milagres, nem eu tinha necessidade de querer que ela os fizesse; e, pois eu fui o fabricador de minha desonra, não há por que...
Primeira Parte: O Curioso Impertinente

No capítulo XLVII da Primeira Parte, quando o barbeiro diz que a ínsula entrou mal na cabeça de Sancho, ele devolve com a máxima do amo.

cada uno es hijo de sus obras; y, debajo de ser hombre, puedo venir a ser papa, cuanto más gobernador de una ínsula, y más pudiendo ganar tantas mi señor que le falte a quien dallas, cada um é filho de suas obras; e, contanto que seja homem, posso vir a ser papa, quanto mais governador de uma ínsula, e mais podendo ganhar tantas meu senhor que lhe falte a quem dá-las.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

No capítulo LI da Primeira Parte, o cabreiro Eugênio conta a história de Leandra, cuja fama correu até as salas dos reis, e começa dizendo o que guarda uma donzela.

no hay candados, guardas ni cerraduras que mejor guarden a una doncella que las del recato proprio, não há cadeados, guardas nem fechaduras que melhor guardem uma donzela que as do próprio recato.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

O soldado Vicente de la Roca, que a leva, tem outra honra: chama de vós seus iguais, diz que seu pai é seu braço, sua linhagem e suas obras.

con una no vista arrogancia, llamaba de vos a sus iguales y a los mismos que le conocían, y decía que su padre era su brazo, su linaje, sus obras, y que debajo de ser soldado, al mismo rey no debía nada, com uma nunca vista arrogância, chamava de vós seus iguais e os mesmos que o conheciam, e dizia que seu pai era seu braço, sua linhagem, suas obras, e que, sendo soldado, ao próprio rei não devia nada.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

Na cova onde ele a deixa, o texto faz questão de dizer que lhe roubou tudo, mas sem lhe tirar a honra.

Contó también como el soldado, sin quitalle su honor, le robó cuanto tenía, y la dejó en aquella cueva y se fue: suceso que de nuevo puso en admiración a todos, contou também como o soldado, sem lhe tirar a honra, lhe roubou quanto tinha, e a deixou naquela cova e se foi: sucesso que de novo pôs em admiração a todos.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

No capítulo II da Segunda Parte, quando o fidalgo pergunta ao escudeiro o que se diz dele na aldeia, Sancho lhe dá as opiniões que correm sobre ele: louco, mas engraçado; valente, mas desgraçado; cortês, mas impertinente.

unos dicen: "loco, pero gracioso"; otros, "valiente, pero desgraciado"; otros, "cortés, pero impertinente"; y por aquí van discurriendo en tantas cosas, que ni a vuestra merced ni a mí nos dejan hueso sano, uns dizem louco, mas engraçado; outros, valente, mas desgraçado; outros, cortês, mas impertinente; e vão discorrendo por tantas coisas que nem a vossa mercê nem a mim deixam osso são.
Segunda Parte: O livro impresso

No capítulo VI da Segunda Parte, a sobrinha e a criada discutem com o tio os caminhos da honra, e ele distingue as linhagens: só parecem grandes e ilustres as que o mostram na virtude, na riqueza e na liberalidade de seus donos.

solos aquéllos parecen grandes y ilustres que lo muestran en la virtud, y en la riqueza y liberalidad de sus dueños, só aquelas parecem grandes e ilustres que o mostram na virtude, na riqueza e na liberalidade de seus donos.
Segunda Parte: O livro impresso

E diz os dois caminhos por onde os homens chegam a ser ricos e honrados.

Dos caminos hay, hijas, por donde pueden ir los hombres a llegar a ser ricos y honrados: el uno es el de las letras; otro, el de las armas, dois caminhos há, filhas, por onde os homens podem seguir até chegar a ser ricos e honrados: um é o das letras; o outro, o das armas.
Segunda Parte: O livro impresso

No capítulo XVII da Segunda Parte, depois da aventura dos leões, o leoneiro lhe dá a regra do desafio: quem espera e o outro não vem, vence.

El león tiene abierta la puerta: en su mano está salir, o no salir; pero, pues no ha salido hasta ahora, no saldrá en todo el día. La grandeza del corazón de vuesa merced ya está bien declarada: ningún bravo peleante, según a mí se me alcanza, está obligado a más que a desafiar a su enemigo y esperarle en campaña; y si el contrario no acude, en él se queda la infamia, y el esperante gana la corona del vencimiento, o leão tem aberta a porta: está em suas mãos sair ou não sair; mas, como não saiu até agora, não sairá em todo o dia. A grandeza do coração de vossa mercê já está bem declarada: nenhum bravo peleador, segundo alcanço, está obrigado a mais que a desafiar o inimigo e esperá-lo em campanha; e se o contrário não acode, nele fica a infâmia, e o que espera ganha a coroa do vencimento.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo XXXII da Segunda Parte, ao responder ao eclesiástico na mesa dos duques, o fidalgo distingue o agravo da afronta.

entre el agravio y la afrenta hay esta diferencia, como mejor Vuestra Excelencia sabe: la afrenta viene de parte de quien la puede hacer, y la hace y la sustenta; el agravio puede venir de cualquier parte, sin que afrente, entre o agravo e a afronta há esta diferença, como melhor Vossa Excelência sabe: a afronta vem da parte de quem a pode fazer, e a faz e a sustenta; o agravo pode vir de qualquer parte, sem que afronte.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

E diz, a propósito de Dulcineia, que não engendrou nem pariu sua senhora, e que o importante é contemplá-la como convém que seja.

Dios sabe si hay Dulcinea o no en el mundo, o si es fantástica o no es fantástica; y éstas no son de las cosas cuya averiguación se ha de llevar hasta el cabo. Ni yo engendré ni parí a mi señora, puesto que la contemplo como conviene que sea una dama que contenga en sí las partes que puedan hacerla famosa en todas las del mundo, Deus sabe se há Dulcineia ou não no mundo, ou se é fantástica ou não é fantástica; e estas não são das coisas cuja averiguação se há de levar até o cabo. Nem eu engendrei nem pari minha senhora, ainda que a contemple como convém que seja uma dama que contenha em si os dotes que possam fazê-la famosa em todas as partes do mundo.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

No capítulo XLII da Segunda Parte, nos conselhos a Sancho governador, ele diz que o sangue se herda e a virtude se adquire.

Mira, Sancho: si tomas por medio a la virtud, y te precias de hacer hechos virtuosos, no hay para qué tener envidia a los que los tienen de príncipes y señores, porque la sangre se hereda y la virtud se aquista, y la virtud vale por sí sola lo que la sangre no vale, olha, Sancho: se tomares a virtude por meio e te prezares de fazer feitos virtuosos, não há por que ter inveja dos que os têm de príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude se adquire, e a virtude vale por si só o que o sangue não vale.
Segunda Parte: O governo da ilha

No capítulo XLIX da Segunda Parte, na ronda noturna, Sancho recorre a um provérbio sobre a donzela honrada, perna quebrada e em casa, que também deseja ser vista quem deseja ver.

que la doncella honrada, la pierna quebrada, y en casa; y la mujer y la gallina, por andar se pierden aína; y la que es deseosa de ver, también tiene deseo de ser vista, que a donzela honrada, a perna quebrada, e em casa; e a mulher e a galinha, por andar se perdem logo; e a que é desejosa de ver também tem desejo de ser vista.
Segunda Parte: O governo da ilha

No capítulo LII da Segunda Parte, quando dona Rodríguez lhe pede que desafie o sedutor da filha, o fidalgo declara que por aquela vez renuncia à sua fidalguia para poder combater com um vilão.

desde aquí digo que por esta vez renuncio a mi hidalguía, y me allano y ajusto con la llaneza del dañador, y me hago igual con él, habilitándole para poder combatir conmigo; y así, aunque ausente, le desafío y repto, desde aqui digo que por esta vez renuncio à minha fidalguia, e me aplano e ajusto com a lhaneza do danador, e me faço igual a ele, habilitando-o para poder combater comigo; e assim, ainda que ausente, o desafio e repto.
Segunda Parte: O governo da ilha

No capítulo LXXII da Segunda Parte, perante dom Álvaro Tarfe, ele pede uma declaração de que não é o dom Quixote impresso na outra segunda parte.

yo soy don Quijote de la Mancha, el mismo que dice la fama, y no ese desventurado que ha querido usurpar mi nombre y honrarse con mis pensamientos. A vuestra merced suplico, por lo que debe a ser caballero, sea servido de hacer una declaración ante el alcalde deste lugar, de que vuestra merced no me ha visto en todos los días de su vida hasta agora, y de que yo no soy el don Quijote impreso en la segunda parte, ni este Sancho Panza mi escudero es aquél que vuestra merced conoció, eu sou dom Quixote de la Mancha, o mesmo que diz a fama, e não esse desventurado que quis usurpar meu nome e honrar-se com meus pensamentos. A vossa mercê suplico, pelo que deve a ser cavaleiro, que seja servido de fazer uma declaração diante do alcaide deste lugar, de que vossa mercê não me viu em todos os dias de sua vida até agora, e de que eu não sou o dom Quixote impresso na segunda parte, nem este Sancho Pança meu escudeiro é aquele que vossa mercê conheceu.
Segunda Parte: A derrota e a morte

E no capítulo LXXIV da Segunda Parte, no leito de morte, pede que a morte não confirme o renome de louco.

Yo me siento, sobrina, a punto de muerte; querría hacerla de tal modo, que diese a entender que no había sido mi vida tan mala que dejase renombre de loco, que, puesto que lo he sido, no querría confirmar esta verdad en mi muerte, eu me sinto, sobrinha, a ponto de morte; queria fazê-la de tal modo que desse a entender que minha vida não tinha sido tão má que deixasse renome de louco, que, ainda que o tenha sido, não queria confirmar essa verdade em minha morte.
Segunda Parte: A derrota e a morte

O livro escolhe as obras, mas não escapa da fama. O fidalgo diz que o homem vale o que faz, o escudeiro repete que cada um é filho de suas obras; a verdade da honra, no entanto, chega a todos pelo que dizem: o que dizem de Leandra e de Camila, o que dizem de Dulcineia, o que se imprime de dom Quixote. A passagem que mais mostra essa tensão é a do capítulo LXXIV da Segunda Parte, em que o fidalgo, que passou o livro defendendo o valor do que se faz, pede no fim que a reputação não o desminta, e o testamento cuida do nome como cuida do dinheiro. Duas leituras: a honra de obras é a única que o livro defende, e o pedido final é só o pudor de um homem; ou o livro reconhece que ninguém vive de obras sem fama, e que a velhice dá ao fidalgo a consciência de que a fama é o que fica.

Quem o encarna

Dom Quixote é a honra do ofício. Sua régua é fazer mais que outro, e é com ela que mede Sancho, os arrieiros, os duques. A Sancho Pança cabe a honra de quem se reconhece de baixo e a faz valer: no governo, devolve o "dom" e chama-se Sancho a secas. Os duques são os que têm sangue, e a honra deles é de cena: sua fidalguia lhes dá o poder de montar uma burla e de ter quem a sirva. Sansão Carrasco é a honra do bacharel que quer curar o amigo e volta moído da primeira vez, e vence na segunda. E Dulcineia del Toboso é a honra sem corpo: uma fama que o fidalgo defende diante de duques, de eclesiásticos e de moças que o requestam.

Onde aparece

Onde as leituras divergem

Erich Auerbach lê a saída do cavaleiro cortês como o ponto em que o ethos feudal, que já não serve a nenhuma função política, tornou-se absoluto e passou a ter por fim apenas a sua auto-realização.

Auerbach contrasta os cavaleiros de Carlos Magno, cujo ethos bélico servia à defesa e à conversão de um reino real, com Calogrenante, que não tem tarefa política nenhuma. O ethos feudal já não serve a nenhuma função política nem, em geral, a nenhuma realidade prática. Tornou-se absoluto. Já não tem nenhum outro fim afora a sua auto-realização
Auerbach, Mimesis

Se Auerbach tem razão, a honra do fidalgo é o último estágio desse ethos: o cavaleiro não precisa de rei nem de reino, basta-lhe a prova pessoal. É por isso que a regra do capítulo XVII da Segunda Parte lhe serve: esperar o leão e ser dispensado da luta é, para ele, vencer. Mas o livro registra, em dois lugares, o que essa honra custa: no capítulo LII da Segunda Parte, o fidalgo precisa renunciar à fidalguia para poder desafiar um vilão, e no capítulo LXXIV da Segunda Parte, precisa pedir que a morte não confirme o renome de louco. Duas leituras: a honra absoluta do cavaleiro é uma forma de liberdade, e as duas concessões são só o lembrete de que o mundo não a reconhece; ou é uma forma de solidão, e elas mostram que o fidalgo precisa dos outros para que ela valha.