O tema na obra
Em Os Irmãos Karamázov há três justiças que não se encontram. A primeira é a do Estado: o inquérito de Mókroie e da cidade, o tribunal, o júri de funcionários e camponeses que, no Livro XII, condena Dmitri Fiódorovitch Karamázov por um parricídio que ele não cometeu. A segunda é a eclesiástica, que Ivan Fiódorovitch Karamázov defende num artigo e Stáriets Zossima corrige: a única pena que de fato contém um criminoso é a da consciência. A terceira é a que Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov espera do céu e o dia da morte do mestre lhe nega, a justiça suprema. O livro dá a cada uma um lugar e um fracasso. O tribunal erra por construção, porque a acusação e a defesa montam, com os mesmos fatos, duas psicologias que se sustentam; a Igreja que absorve o Estado, sonhada por Ivan, Miússov chama de utopia; e a justiça suprema de Aliócha é uma ideia que a realidade viola, e o livro só devolve a ele um gesto no lugar dela. O tribunal ocupa o espaço maior: o Livro XII tem catorze capítulos, quase todos de depoimento e de discurso, e o veredicto, que a sala não esperava, chega depois de uma hora de deliberação. Entre as três, o romance coloca a ideia de Zossima de que ninguém pode julgar sem antes se reconhecer tão culpado quanto o réu.
No capítulo V do Livro II, na cela, o stáriets completa a tese de Ivan sobre o tribunal da Igreja com uma ideia sobre a pena.
настоящей кары, единственной действительной, единственной устрашающей и умиротворяющей, заключающейся в сознании собственной совести, de uma pena verdadeira, a única efetiva, a única que amedronta e pacifica, que consiste na consciência da própria consciência moral.
No capítulo III do Livro VI, Zossima diz o que falta ao juiz antes de julgar.
Помни особенно, что не можешь ничьим судиею быти. Ибо не может быть на земле судья преступника, прежде чем сам сей судья не познает, что и он такой же точно преступник, как и стоящий пред ним, и что он-то за преступление стоящего пред ним, может, прежде всех и виноват., lembre-se sobretudo de que você não pode ser juiz de ninguém. Pois não pode haver na terra juiz de criminoso antes que o próprio juiz reconheça que também ele é um criminoso exatamente como o que está diante dele, e que talvez seja, antes de todos, culpado do crime do que está diante dele.
No capítulo II do Livro VII, o narrador diz o que o mestre morto devia a Aliócha.
Но не чудес опять-таки ему нужно было, а лишь «высшей справедливости», которая была, по верованию его, нарушена и чем так жестоко и внезапно было поранено сердце его., Mas não era de milagres, outra vez, que ele precisava, e sim apenas da «justiça suprema», que fora, a seu ver, violada, e com isso o seu coração foi ferido tão cruel e subitamente.
No capítulo IV do Livro IX, no inquérito, Mítia se sente caçado.
Теперь уж не сон! Реализм, господа, реализм действительной жизни! Я волк, а вы охотники, ну и травите волка., Agora não é sonho! O realismo, senhores, o realismo da vida real! Eu sou o lobo, e vocês os caçadores, então cacem o lobo.
No capítulo II do Livro XI, a madame Khokhlakova descobre a palavra que lhe parece resumir os novos tribunais.
Судебный аффект. Такой аффект, за который всё прощают. Что бы вы ни сделали — вас сейчас простят., arrebatamento judicial. Um arrebatamento pelo qual se perdoa tudo. Faça o que fizer, perdoam o senhor na hora.
No capítulo VI do Livro XII, o promotor abre a acusação pelo hábito de já não se horrorizar.
В том и ужас наш, что такие мрачные дела почти перестали для нас быть ужасными!, o nosso horror está em que casos sombrios como este quase deixaram de nos parecer horríveis!
No capítulo IX do Livro XII, pede aos jurados um fato em favor do réu.
Что же мы, шакалы, жаждущие крови человеческой? Дайте, укажите нам хоть один факт в пользу подсудимого, и мы обрадуемся, que somos nós, chacais sedentos de sangue humano? Deem-nos, mostrem-nos um fato só em favor do réu, e ficaremos contentes.
No capítulo X do Livro XII, o advogado formula a tese da defesa.
подавляющая совокупность фактов против подсудимого и в то же время ни одного факта, выдерживающего критику, если рассматривать его единично, самого по себе!, uma esmagadora soma de fatos contra o réu, e ao mesmo tempo nenhum fato que resista à crítica, se examinado isoladamente, em si mesmo!
No capítulo XI do Livro XII, nega o roubo.
нельзя обвинять в грабеже, если нельзя указать с точностью, что именно ограблено, это аксиома!, não se pode acusar de roubo se não se pode indicar com exatidão o que foi roubado; é um axioma!
No capítulo XII do Livro XII, dá aos jurados a advertência que dá nome ao livro.
Господа присяжные заседатели, поберегитесь судебной ошибки!, senhores jurados, cuidado com o erro judiciário!
No capítulo XIII do Livro XII, pede que o castigo seja o da misericórdia.
Но хотите ли вы наказать его страшно, грозно, самым ужасным наказанием, какое только можно вообразить, но с тем чтобы спасти и возродить его душу навеки? Если так, то подавите его вашим милосердием!, mas querem puni-lo de modo terrível, ameaçador, com o mais horrível castigo que se possa imaginar, contanto que salvem e façam renascer a sua alma para sempre? Se é assim, esmaguem-no com a vossa misericórdia!
No capítulo XIV do Livro XII, o júri volta.
И потом по всем пунктам пошло всё то же: виновен да виновен, и это без малейшего снисхождения!, e depois, em todos os pontos, seguiu-se o mesmo: culpado e culpado, e isso sem a menor indulgência!
Quem o encarna
O promotor Hippolit Kiríllovitch é a justiça convicta que se alimenta do próprio zelo, e o advogado Fietiukóvitch é a justiça que sabe que a psicologia é vara de duas pontas e a usa assim mesmo. O júri é a sentença sem fundamentos declarados. Zossima é a justiça que não julga, e Ivan, a que quer retribuição já, na terra. Mítia é o réu que aceita a pena por motivo diferente do que a lei dá.
Onde aparece
- Livro II, capítulo V: Ivan e Zossima discutem o tribunal da Igreja e a pena da consciência.
- Livro VI, capítulo III: Zossima diz que o juiz só pode julgar depois de reconhecer que é tão criminoso quanto o réu.
- Livro VII, capítulo II: Aliócha se perturba com a morte de Zossima porque a justiça suprema, a seu ver, foi violada, e não porque lhe faltasse algum milagre.
- Livro IX, capítulo IV: Mítia, no inquérito, diz que é o lobo e que os outros são os caçadores.
- Livro XI, capítulo II: A madame Khokhlakova resume o novo tribunal na palavra affekt, o arrebatamento pelo qual se perdoa tudo.
- Livro XII, capítulo VI: O promotor Hippolit Kiríllovitch abre a acusação dizendo que o horror verdadeiro é já não se horrorizar com crimes sombrios como este.
- Livro XII, capítulo X: O advogado diz que há uma soma esmagadora de fatos e nenhum que resista isolado.
- Livro XII, capítulo XII: O advogado Fietiukóvitch adverte os jurados a terem cuidado com o erro judiciário e pede que o mínimo de verossimilhança baste para suspender o veredicto.
- Livro XII, capítulo XIV: O júri declara Mítia culpado em todos os pontos, sem a menor indulgência, contra a expectativa das damas que contavam com a absolvição.
Onde as leituras divergem
Há duas maneiras de ler o Livro XII. Numa, é a demonstração de que a justiça dos homens é um erro por construção: dois discursos brilhantes, com os mesmos fatos, e uma condenação que a sala não esperava. Na outra, o livro vai além do erro e mostra que a pena, de um modo que a lei não vê, cabe: Mítia a aceita por ter querido matar.
A sentença é um erro e é também, por outro caminho, uma justiça. No capítulo IX do Livro IX, antes do julgamento, Mítia já diz que aceita a execução não por ter matado, mas por ter querido matar. O tribunal condena, pela razão errada, um homem que se condena por outra, e o condenado concorda com a pena por uma razão que o tribunal nunca ouviu. Daí a sensação de que o livro mantém duas leituras abertas: o título, Um erro judiciário, diz o que se viu em sala; a cena da cadeia diz o que o réu sente. Os dois discursos, o do promotor e o da defesa, acertam e erram nas mesmas passagens, porque nenhum pergunta a Mítia o que ele pergunta a si mesmo.