Clavis Libri

Personagem

Dona Plácida

Quem é

Costureira e antiga agregada da família de Virgília, a quem Brás Cubas confia a guarda da casinha da Gamboa em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Filha natural de um sacristão da Sé e de uma doceira, sustentou a filha e a mãe com doces, costura e aulas, e tem medo de acabar pedindo esmola. Aceita o papel com custo, de olhos baixos, e o livro a mostra sempre pelo que Brás lhe deve; é a personagem em quem a consciência dele mais se acusa.

Trajetória

Brás a escolhe para a casinha: antiga costureira e agregada de Virgília, aceitaria sem que lhe dissessem tudo (capítulo LXVII). Ela aceita com custo, de olhos baixos nos dois primeiros meses; Brás inventa uma novela de amores anteriores ao casamento de Virgília, que ela aceita inteira, e ao cabo de seis meses quem os visse diria que ela era a sogra dele; ele lhe dá cinco contos de pecúlio, e ela passa a rezar por ele todas as noites (capítulo LXX). Nunca aceita sentar-se com os amantes à mesa; quando Virgília diz que ela parece já não gostar mais dela, exclama que gosta de Iaiá e olha-a fixamente até molhar os olhos, e Brás deixa uma pratinha na algibeira do vestido dela (capítulo LXXIII).

Não gosto de Iaiá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

Dias depois, a sós com Brás, conta a história: casou com um alfaiate tísico, sustentou a filha e a mãe, resistiu aos pretendentes que a mãe lhe empurrava, viu a filha fugir com um homem, foi agregada na família de Iaiá e saiu quando esta casou. Ao dizer que teme acabar pedindo esmola, percebe a quem falou, ri e se chama de tola (capítulo LXXIV).

Não se cria isto à toa, meu senhor; Deus sabe como é que isto se cria
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida
Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

Brás responde com uma farsa sobre o nascimento dela, em que os pais diriam que a chamaram para queimar os dedos nos tachos e os olhos na costura (capítulo LXXV), e a consciência o acusa de a ter baixado a medianeira (capítulo LXXVI). Quando Virgília conta tudo a ela antes de pedir que Brás vá com eles (capítulo LXXVIII), Plácida, mais ingênua, só sabe que sapato voltado para o ar faz mal (capítulo LXXXIV).

Aflita porque Brás chegou uma hora atrasado, pede-lhe que não desampare Iaiá (capítulo CIII); vê o marido de Iaiá pela janela e fecha a rótula, depois enche a sala de exclamações para disfarçar as tremuras (capítulo CIV), detém Brás por um braço quando ele quer sair (capítulo CV) e se oferece para ir à casa de Lobo Neves (capítulo CVI). Na véspera do embarque, Virgília pede a Brás que não se esqueça de Plácida e vá vê-la algumas vezes, e conta que ela foi despedir-se chorando (capítulo CXIV).

Doente, é objeto do pedido de Virgília para a Misericórdia; Brás decide não ir (capítulo CXLII, capítulo CXLIII), mas no dia seguinte, por cortesia, vai à casa dela, dá-lhe algum dinheiro e a faz transportar para a Misericórdia, onde ela amanhece morta, e ele conclui que a vida dela serviu aos seus amores (capítulo CXLIV). O dinheiro acaba levado por um canteiro, que vende as apólices e foge (capítulo CXLV). Brás a cita de novo no balanço final (capítulo CLX).

Temas que encarna

Os temas que passam por ela são Aparência e realidade e Sentido da vida.

Aparência e realidade: é a dona de fachada da casinha e aceita a novela inteira porque precisa de uma versão em que não seja cúmplice (capítulo LXX).

Sentido da vida: a farsa de Brás sobre o nascimento dela faz da vida uma sentença dada ao nascer, e a utilidade que ele lhe dá no fim é a resposta ao "para quê" (capítulo LXXV, capítulo CXLIV).

Plácida fala pouco, e cada vez que fala é para se defender: aceita a novela porque a consciência dela a pede, ri e se chama de tola quando percebe que disse demais. Brás a paga com uma pratinha, cinco contos e uma frase de moralista, e o livro só a deixa falar de si por inteiro uma vez, na história em que o medo de acabar na rua explica a casinha (capítulo LXXIV).

Relações

  • Brás Cubas: o amante de Iaiá que a paga, a ouve e se absolve.
  • Virgília: a Iaiá de quem ela foi agregada e a quem diz gostar.
  • Lobo Neves: o marido de Iaiá, que ela vê chegar pela janela.