Clavis Libri

Personagem

Rubião

Quem é

Professor de Barbacena, em Minas, que se torna o enfermeiro e único amigo do filósofo Quincas Borba (filósofo) e herda dele a fortuna inteira, com uma só condição: cuidar do cão Quincas Borba (cão) como se fosse pessoa. O livro abre com ele já rico, à janela de Botafogo, e só depois recua para contar de onde veio o dinheiro. No Rio, cai nas mãos do casal Cristiano Palha e Sofia, deseja a mulher do amigo, é explorado por quem o cerca, enlouquece convencido de que é imperador e volta a Barbacena, onde morre. É o protagonista do romance e o ponto onde se cruzam todos os seus temas.

Trajetória

O livro abre no capítulo I com Rubião à janela de Botafogo, comparando o passado de professor com o presente de capitalista: as chinelas dadas por Cristiano Palha, o café em bandeja de prata, o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade. Só depois o texto recua a Barbacena.

Lá, ele trata do filósofo doente por seis meses (capítulo IV) e, ouvindo a explicação de Humanitas, aceita ser discípulo (capítulo VI). Quando o doente lhe pergunta se é seu amigo, responde que é, tanto ou mais do que o cão (capítulo VII).

No capítulo VIII, o filósofo registra o testamento, confia o cão a Rubião e parte para o Rio. A carta em que ele diz ser Santo Agostinho chega no capítulo X: Rubião a julga loucura, esconde-a do médico por medo de que o testamento seja anulado e calcula o legado. O remorso que sente é de pouca dura, e o texto o diz.

Nos jornais da Corte ele lê a morte do amigo (capítulo XI), e no capítulo XII, sem alusão a demência na notícia, volta a tomar a carta por troça e resolve dar o cão à comadre Angélica, pois a obrigação acabou. O bilhete de Brás Cubas, no capítulo XIII, confirma a morte e o devolve à cor, graças às praxes do foro.

Aberto o testamento (capítulo XIV), é herdeiro universal, com a condição de guardar o cão, tratá-lo como pessoa, enterrá-lo entre flores e guardar os ossos numa urna. Rubião acha a cláusula natural e só pensa na soma, que calcula entre cem e trezentos contos (capítulo XV). Lembrando que deu o cachorro, corre à comadre, teme a cláusula descumprida e a herança em risco (capítulo XVI), e no cercado explica que é só depositário (capítulo XVII).

É no capítulo XVIII que a doutrina ganha sentido para ele: recordando a voz do filósofo, entende só agora a alegoria das tribos famintas, vê-se como vencedor e pensa num sinete com o lema.

o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão
Capítulos XIII a XXVIII: A herança e a tentação de Rubião

No trem para o Rio, conta aos Palha a herança, que calcula em não menos de trezentos contos, e Palha, que brilhara com a Europa e agora reflete, pede discrição (capítulo XXI). Palha lhe indica um advogado, parente seu (capítulo XXIII), e o convida a jantar em Santa Teresa, onde Rubião, constrangido diante de Sofia, desce o morro meio tonto (capítulo XXIV). Alguém denuncia o testamento por demência do filósofo, a denúncia cai, e Palha festeja o fim do inventário (capítulo XXV). Já em Botafogo, Palha o guia nas compras, e Rubião as demora para ter Sofia por perto (capítulo XXVI).

No jardim de Botafogo, debate-se com a tentação por Sofia, mulher do amigo, enquanto solta o cão (capítulo XXVIII). Recebe à mesa o parasita Freitas e o frio Carlos Maria (capítulo XXIX, capítulo XXXI); os morangos de Sofia e o convite a jantar o perturbam (capítulo XXXII), e sozinho ele relê o bilhete, toma a assinatura por capitulação e beija o nome (capítulo XXXIII).

Ao luar, em Santa Teresa, de repente loquaz, compara os olhos de Sofia às estrelas (capítulo XXXIX) e lhe propõe a compra da alma e do corpo (capítulo XL). Retém-na pelo braço e pede que fite o Cruzeiro às dez da noite (capítulo XLI), até que o Major Siqueira entra no jardim e ele sustenta, desajeitado, a anedota que Sofia inventa para cobrir a demora (capítulo XLII).

Na descida do morro, entre remorso e esperança, lembra a dívida e as três letras que aceitou por Palha (capítulo XLV). No Largo de São Francisco encontra um mendigo (capítulo XLVI), inveja-o e, no tílburi, lembra o enforcado de outros tempos (capítulo XLVII). Cogita que o cão e o filósofo sejam a mesma criatura, por transmigração (capítulo XLVIII), e em casa o amor por Sofia vence o arrependimento (capítulo XLIX).

Envergonhado, decide ir a Minas, mas Camacho o corta no caminho (capítulo LVI) e, tendo-o conquistado dias antes com política e um almoço (capítulo LVIII), segura-o na Corte com Palha, num olhar combinado (capítulo LIX). Depois de tirar um menino de baixo de um carro (capítulo LX), entra com cinco contos na Atalaia, a folha de Camacho (capítulo LXI).

Deixa a sorte decidir se vai a Santa Teresa e, quando o primeiro veículo diz não, corrige a regra (capítulo LXIII); lá ouve Carlos Maria elogiar Sofia diante do retrato (capítulo LXV) e, em casa, admira a naturalidade do rival (capítulo LXVI). Vê o próprio nome na Atalaia, irritado e depois lisonjeado, e reimprime a notícia em outro jornal (capítulo LXVII).

Sócio de Palha sem entender os números (capítulo LXIX), leva Carlos Maria ao gabinete dos sobretudos, no baile de aniversário da mulher de Camacho, para sondá-lo, atormentado pelo ciúme de um rival (capítulo LXX). O conselho de casar vem do Major Siqueira (capítulo LXXVIII) e volta como voz que ele cogita vir do cão, onde estaria o espírito do filósofo, mas descarta e, por via das dúvidas, lhe coça a nuca (capítulo LXXIX). Decide casar para matar a paixão (capítulo LXXX), mas nos sonhos só casa com titulares do almanaque, e todas as noivas acabam com o rosto de Sofia (capítulo LXXXII).

Palha tem um palpite, que Rubião é quem casa com a prima de Sofia, e o amigo se espanta e recusa (capítulo LXXXIII). Na Praia Formosa, visita o Freitas doente e deixa seis notas de vinte mil-réis à mãe dele (capítulo LXXXV), caminha pela Saúde com nostalgia dos farrapos (capítulo LXXXVI) e, pensando nas mulheres que poderia escolher, ouve a guitarra do pecado, tangida pelos dedos de Sofia (capítulo LXXXVII).

A anedota do cocheiro sobre um moço da Rua dos Inválidos e uma dama de véu (capítulo LXXXIX) vira nele suspeita: procura provas nas costureiras do luto de Sofia (capítulo XCIII), corre atrás de um vulto de mulher (capítulo XCV) e acha no canteiro uma carta com a letra dela para Carlos Maria, que decide entregar para ler a verdade no rosto da dona (capítulo XCIX). Camacho lhe oferece a candidatura a deputado (capítulo C), e o coupé o faz passar por homem de posição no enterro de Freitas, que ele custeia (capítulo CI).

No Flamengo, diz tudo a Sofia, cada vez mais alto, entrega a carta e sai sem ouvi-la (capítulo CIII, capítulo CIV). Quando o narrador diz ao leitor que o cocheiro não deu nomes nem contou caso verdadeiro (capítulo CVI), a calúnia fica sendo do leitor e de Rubião.

Assina cinco contos na subscrição de Sofia e pede dez a Palha, que guarda seus títulos, aconselha cautela e cede (capítulo CVIII); paga o papel da Atalaia a Camacho (capítulo CX) e, ao sugerir reforçar uma palavra do artigo, sente-se meio autor (capítulo CXI), até o narrador resumir a operação: teve-se por autor de livros alheios (capítulo CXIII).

Manda um brilhante a Sofia, ouve dela a explicação da carta, com uma lágrima, e a notícia de que Maria Benedita vai casar (capítulo CXV); percebe que o noivo é Carlos Maria e que tomara uma pessoa por outra, e dá os parabéns à moça (capítulo CXVI). Tranquilizado, atribui ao acaso as olhadas de Sofia e se agarra à lágrima (capítulo CXXI).

Na volta do paquete, Palha pede conversa (capítulo CXXVI) e propõe desfazer a sociedade para dirigir um banco; Rubião pergunta se há motivo oculto, aceita a razão e o dispensa de pagar dívidas (capítulo CXXVIII). O narrador revela depois que o banco não existia (capítulo CXXIX). Na Rua dos Barbonos, ouve do Major Siqueira que os Palha não o convidaram ao aniversário nem ao casamento, fala em confusão em vez de lhe dar razão e promete jantar sem convite (capítulo CXXX, capítulo CXXXI).

Em volta dele cresce a lenda do ricaço e discípulo de filósofo, e os comensais jantam às seis em ponto, com ou sem o dono (capítulo CXXXIII); protege as letras, paga duas sociedades rivais sem notar (capítulo CXXXV) e gasta as manhãs na loja do Bernardo em visões deliciosas, uma vez levantando-se para ver alguém que não existe (capítulo CXXXVII). Convida Sofia à Tijuca, só os dois (capítulo CXXXIX); ela adia, e no passeio, com os três juntos, Sofia cai do cavalo (capítulo CXLIII).

Em janeiro de 1870 chama o barbeiro Lucien e, em marcha para a lua, nem o vê chegar (capítulo CXLV); fica com a pêra e os bigodes copiados do busto de Napoleão III e responde em português ao barbeiro, cuidando falar francês (capítulo CXLVI). Sozinho, imagina-se em Compiègne, governando e ouvindo ministros (capítulo CXLVII).

Desce da lua com o rosto novo e alterna entre si mesmo e o imperador dos franceses (capítulo CXLVIII). Quando visita Sofia, as caras se batem no ar na hora de apanhar a luva (capítulo CXLIX); entra no coupé dela (capítulo CL), baixa as cortinas (capítulo CLI) e, tranquilo, elogia a própria mãe e os cavalos enquanto ela suplica que desça (capítulo CLII); fala-lhe como amante, evoca um encontro que nunca houve e promete título de duque ao marido (capítulo CLIII).

A mania se espalha, e quem a testa levando a conversa à França o vê resvalar ao abismo (capítulo CLV); com a guerra franco-prussiana as crises ficam mais agudas, e os comensais, promovidos a marechais, não o contrariam (capítulo CLVI). Palha o muda, com o cão, para uma casinha da Rua do Príncipe (capítulo CLXV), e os amigos de Botafogo não o seguem (capítulo CLXVI). O Dr. Falcão, que o examina, crê que ele pode sarar (capítulo CLXVII).

Invade a varanda de Carlos Maria e Maria Benedita para anunciar a queda do Ministério e oferecer uma pasta (capítulo CLXXI). Quando volta do delírio e procura os amigos, Camacho o recebe com frieza (capítulo CLXXIX), e o Major Siqueira o conduz à porta com a história de um coche no Campo (capítulo CLXXXI).

Passa pela Rua da Ajuda gesticulando para uma imperatriz invisível, seguido por moleques, e o pai de um menino reconhece nele o homem que salvou o filho (capítulo CLXXXII, capítulo CLXXXIII). Palha, com o Dr. Falcão, o interna numa casa de saúde (capítulo CLXXXV); Palha apura três contos e duzentos dos bens dele (capítulo CXCI) e, dias antes de ele sumir, o acha são, dá-lhe cem mil-réis e pede ao diretor que não precipite a alta (capítulo CXCIV).

Rubião some da casa de saúde (capítulo CXCIII) e volta a Barbacena com o cão, onde grita o lema que havia esquecido e ninguém o recebe (capítulo CXCV). Uma tempestade o apanha (capítulo CXCVI); passa a noite ao relento, toma as estrelas por lustres de salão (capítulo CXCVII), repete o lema ao sol da manhã (capítulo CXCVIII) e é abrigado pela comadre Angélica, com febre, falando do rei da Prússia capturado (capítulo CXCIX).

Morre poucos dias depois, pondo na cabeça uma coroa que só ele vê (capítulo CC).

Guardem a minha coroa
Capítulos CLXXXII a CCI: Loucura, abandono e a morte de Rubião

O cão adoece, foge atrás do dono e amanhece morto na rua, e o narrador deixa ao leitor chorar ou rir (capítulo CCI).

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Dinheiro e riqueza, Loucura, Desejo, Ambição, Aparência e realidade e Lealdade e traição. Os símbolos do livro giram em torno dele: Humanitas, As batatas, O Cruzeiro do Sul e A coroa imperial.

O livro não dá a loucura de Rubião como um golpe, mas como um deslizamento: do cálculo da herança, ao desejo por Sofia, à vaidade da Atalaia e da candidatura, até a barba de Napoleão III, que entra como detalhe de comédia antes de ser diagnóstico. A doutrina das batatas, que ele só entende depois de herdar, volta no fim como palavra vazia, e a coroa que ele manda guardar é invisível para todos, menos para ele.

Quase tudo o que Rubião possui ou deseja lhe vem de outro: a herança veio de um morto, a casa e as compras passaram por Palha, a ambição política veio de Camacho, a mulher que ele deseja já era de um amigo, e até o rosto imperial é copiado de um busto. O livro vai mostrando, caso a caso, quem se serviu dessa maleabilidade, e deixa ao leitor, no fecho, a escolha entre chorar e rir.

Relações

  • Sofia: o desejo que atravessa o livro, a mulher que o recebe, o evita e é a destinatária da cena do coupé.
  • Cristiano Palha: o guia e sócio que o orienta em cada etapa, lucra com a confiança dele e o interna no fim.
  • Quincas Borba (filósofo): o amigo que lhe deixa a herança e a doutrina, e cuja alma Rubião chega a supor no cão.
  • Quincas Borba (cão): a obrigação do testamento, que vira vigia, consolo e companhia até a morte.
  • Camacho: o político que lhe vende grandeza, cinco contos e uma candidatura, e o recebe com frieza quando o delírio começa.
  • Carlos Maria: o rival do ciúme dele, que come à sua mesa e a quem, no delírio, oferece uma pasta de ministro.
  • Maria Benedita: a moça cujo noivado ele aplaude depois de se enganar sobre quem era o noivo.
  • Dona Fernanda: a única que o olha com compaixão no declínio e pede que alguém o trate.