Quem é
Alcínoo é o rei dos feácios, na Esquéria, neto de Poseidon por seu pai Nausítoo, marido de Arete e pai de Nausícaa. Governa um povo de navegantes que escolta os estrangeiros sem dano, num palácio de bronze e ouro cercado de um pomar sem estação. Acolhe Odisseu antes de saber quem ele é, e é a ele que Odisseu conta o relato das aventuras. Cumpre a hospitalidade à risca, e o poema mostra o preço que ela cobra da cidade.
Trajetória
No Canto VI, o poema o apresenta pelo pai: Nausítoo tirou os feácios de Hipéria, onde eram saqueados pelos ciclopes, e os levou para a Esquéria. Alcínoo reina agora e concede a carroça a Nausícaa, percebendo o que ela não diz.
No Canto VII, o palácio é descrito como brilhante como o sol ou a lua. Ao ver o hóspede nas cinzas, ele não reage de imediato, até que o ancião Equeneu lhe lembra a regra, e então o levanta, o senta no trono e manda libar a Zeus. Considera a hipótese de que o hóspede seja um deus, e Odisseu a nega. Promete a escolta para o dia seguinte e diz que gostaria que o hóspede, sendo quem é e pensando como ele, fosse seu genro e ficasse de bom grado, acrescentando que ninguém o reterá contra a vontade.
πολλὰ δέ οἱ κῆρ / ὥρμαινʼ ἱσταμένῳ, πρὶν χάλκεον οὐδὸν ἱκέσθαι. / ὥς τε γὰρ ἠελίου αἴγλη πέλεν ἠὲ σελήνης / δῶμα καθʼ ὑψερεφὲς μεγαλήτορος Ἀλκινόοιο(7.82-85), muitas coisas lhe revolvia o coração, parado, antes de chegar ao limiar de bronze. Pois havia um brilho como o do sol ou o da lua pela alta casa do magnânimo Alcínoo.
τάων οὔ ποτε καρπὸς ἀπόλλυται οὐδʼ ἀπολείπει / χείματος οὐδὲ θέρευς, ἐπετήσιος· ἀλλὰ μάλʼ αἰεὶ / Ζεφυρίη πνείουσα τὰ μὲν φύει, ἄλλα δὲ πέσσει. / ὄγχνη ἐπʼ ὄγχνῃ γηράσκει, μῆλον δʼ ἐπὶ μήλῳ, / αὐτὰρ ἐπὶ σταφυλῇ σταφυλή, σῦκον δʼ ἐπὶ σύκῳ(7.117-121), o fruto deles nunca se perde nem falta, nem no inverno nem no verão, ao longo do ano; sempre o Zéfiro, soprando, faz brotar uns e amadurece outros. Pera envelhece sobre pera, maçã sobre maçã, uva sobre uva, figo sobre figo.
Ἀλκίνοʼ, οὐ μέν τοι τόδε κάλλιον, οὐδὲ ἔοικε, / ξεῖνον μὲν χαμαὶ ἧσθαι ἐπʼ ἐσχάρῃ ἐν κονίῃσιν, / οἵδε δὲ σὸν μῦθον ποτιδέγμενοι ἰσχανόωνται(7.159-161), Alcínoo, isto não é belo nem convém: que um estrangeiro se sente no chão, nas cinzas da lareira; estes aqui esperam a tua palavra e se contêm.
εἰ δέ τις ἀθανάτων γε κατʼ οὐρανοῦ εἰλήλουθεν, / ἄλλο τι δὴ τόδʼ ἔπειτα θεοὶ περιμηχανόωνται(7.199-200), mas se algum dos imortais desceu do céu, então os deuses planejam outra coisa.
αἲ γάρ, Ζεῦ τε πάτερ καὶ Ἀθηναίη καὶ Ἄπολλον, / τοῖος ἐὼν οἷός ἐσσι, τά τε φρονέων ἅ τʼ ἐγώ περ, / παῖδά τʼ ἐμὴν ἐχέμεν καὶ ἐμὸς γαμβρὸς καλέεσθαι / αὖθι μένων· οἶκον δέ κʼ ἐγὼ καὶ κτήματα δοίην, / εἴ κʼ ἐθέλων γε μένοις· ἀέκοντα δέ σʼ οὔ τις ἐρύξει / Φαιήκων· μὴ τοῦτο φίλον Διὶ πατρὶ γένοιτο(7.311-316), ah, Zeus pai, Atena e Apolo! Que sendo tal como és, pensando o que penso, tivesses minha filha e fosses chamado meu genro, ficando aqui; eu te daria casa e bens, se de bom grado ficasses; contra a vontade ninguém dos feácios te reterá; que isto não seja caro a Zeus pai.
No Canto VIII, convoca a assembleia, manda lançar uma nau nova com cinquenta e dois jovens, reúne os reis e chama Demódoco. Só ele percebe o choro de Odisseu, e propõe sair para os jogos. É o único que responde ao desafio do hóspede depois do disco e lembra em que os feácios são bons. Repara a ofensa de Euríalo com presentes, entrega uma taça de ouro ao hóspede e, na terceira canção, exige o nome. Ninguém é de todo sem nome, diz, e conta a profecia do pai, de que Poseidon se indigna com as escoltas e um dia cobrirá a cidade com um monte.
οὐ μὲν γάρ τις πάμπαν ἀνώνυμός ἐστʼ ἀνθρώπων, / οὐ κακὸς οὐδὲ μὲν ἐσθλός, ἐπὴν τὰ πρῶτα γένηται, / ἀλλʼ ἐπὶ πᾶσι τίθενται, ἐπεί κε τέκωσι, τοκῆες.(8.552-554), pois ninguém entre os homens é de todo sem nome, nem mau nem bom, desde que nasce, mas os pais o dão a todos, depois que os geram.
ἀλλὰ τόδʼ ὥς ποτε πατρὸς ἐγὼν εἰπόντος ἄκουσα / Ναυσιθόου, ὃς ἔφασκε Ποσειδάωνʼ ἀγάσασθαι / ἡμῖν, οὕνεκα πομποὶ ἀπήμονές εἰμεν ἁπάντων. / φῆ ποτὲ Φαιήκων ἀνδρῶν ἐυεργέα νῆα / ἐκ πομπῆς ἀνιοῦσαν ἐν ἠεροειδέι πόντῳ / ῥαισέμεναι, μέγα δʼ ἧμιν ὄρος πόλει ἀμφικαλύψειν.(8.564-569), mas isto eu um dia ouvi meu pai Nausítoo dizer: que Poseidon se indignava conosco porque somos escoltas sem dano para todos. Dizia que um dia faria em pedaços, no mar escuro, uma bem-feita nau de homens feácios voltando de uma escolta, e cobriria nossa cidade com um grande monte.
ἦ τίς που καὶ ἑταῖρος ἀνὴρ κεχαρισμένα εἰδώς, / ἐσθλός; ἐπεὶ οὐ μέν τι κασιγνήτοιο χερείων / γίγνεται, ὅς κεν ἑταῖρος ἐὼν πεπνυμένα εἰδῇ.(8.584-586), ou algum companheiro, homem que sabe o que agrada, um bom; pois em nada é pior que um irmão aquele que, sendo companheiro, conhece coisas sensatas.
No Canto IX, é o ouvinte a quem Odisseu responde com o nome e o relato. No Canto XI, interrompe a descida ao Hades para dizer que Odisseu não parece um enganador, e sim um homem de bom juízo que contou a história como um aedo. Pergunta se ele viu os companheiros divinos de Troia, e a noite é longa.
ὦ Ὀδυσεῦ, τὸ μὲν οὔ τί σʼ ἐίσκομεν εἰσορόωντες, / ἠπεροπῆά τʼ ἔμεν καὶ ἐπίκλοπον, οἷά τε πολλοὺς / βόσκει γαῖα μέλαινα πολυσπερέας ἀνθρώπους, / ψεύδεά τʼ ἀρτύνοντας ὅθεν κέ τις οὐδὲ ἴδοιτο· / σοὶ δʼ ἔπι μὲν μορφὴ ἐπέων, ἔνι δὲ φρένες ἐσθλαί. / μῦθον δʼ ὡς ὅτʼ ἀοιδὸς ἐπισταμένως κατέλεξας, / πάντων τʼ Ἀργείων σέο τʼ αὐτοῦ κήδεα λυγρά.(11.363-369), Odisseu, olhando para ti, não te julgamos um enganador ou impostor, desses que a terra escura alimenta em grande número, espalhados, e que forjam mentiras de onde ninguém vê; em ti há beleza de palavras, e dentro de ti há bom juízo. Contaste a história como um aedo, com saber, as penas tristes de todos os argivos e as tuas.
No Canto XII, ouve o relato até o fim, e Odisseu o encerra dizendo que já contou a chegada a Ogígia no dia anterior a ele e à esposa.
No Canto XIII, o relato termina, a sala fica em silêncio, e Alcínoo propõe que cada nobre acrescente um tripé e um caldeirão aos presentes. Odisseu reza para encontrar em casa a esposa irrepreensível. A nau dos feácios deixa Odisseu em Ítaca, e Poseidon a transforma em pedra diante da cidade. Alcínoo reconhece a antiga profecia do pai, manda que cessem as escoltas e oferece doze touros ao deus.
πομπῆς μὲν παύσασθε βροτῶν, ὅτε κέν τις ἵκηται / ἡμέτερον προτὶ ἄστυ· Ποσειδάωνι δὲ ταύρους / δώδεκα κεκριμένους ἱερεύσομεν, αἴ κʼ ἐλεήσῃ,(13.180-182), Deixai de dar escolta aos mortais, quando alguém chegar à nossa cidade; e a Poseidon sacrificaremos doze touros escolhidos, para ver se ele se compadece.
Temas que encarna
Alcínoo encarna a hospitalidade como instituição, a xenia que o poema usa de régua: acolhe antes de perguntar, escolta, dá presentes, e só depois exige o nome. Também a Família, quando oferece a filha ao hóspede que pensa como ele, e o Lar, exílio e retorno, porque é a escolta dele que leva Odisseu a Ítaca.
A hospitalidade de Alcínoo é uma regra que ele cumpre mesmo quando sabe do risco, a profecia do pai. O que a cena de Equeneu mostra é que a regra também depende de alguém lembrar. No fim do Canto XIII, o preço aparece inteiro: o último hóspede levado é o que encerra as escoltas, e o poema deixa o rei rezando ao pé do altar, sem dizer se o deus aceitou.