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Personagem

Menelau

Quem é

Menelau é o rei de Esparta, filho de Atreu, irmão de Agamêmnon e marido de Helena. Voltou de Troia depois de anos de errância pelo Egito e por outras terras, e vive agora no palácio cheio da riqueza que juntou. Na Odisseia, é o anfitrião que recebe Telêmaco e lhe conta o que sabe do pai. Recebe bem, chora o amigo e lembra aos jovens que a hospitalidade é uma medida entre a pressa e a retenção.

Trajetória

No Canto III, Nestor conta que Menelau alcançou tarde, em Lesbos, Nestor e os seus, e que teve uma viagem odiosa depois de enterrar o piloto Frôntis, com naus levadas ao Egito. Chegou no mesmo dia em que Orestes deu aos argivos o banquete fúnebre de Egisto. Nestor manda Telêmaco procurá-lo, porque voltou há pouco de onde ninguém espera voltar.

No Canto IV, festeja dois casamentos, o da filha Hermíone e o do filho Megapentes, quando Telêmaco chega com Pisístrato. Repreende o servo que quer mandá-los a outro anfitrião e os serve antes de perguntar quem são. Diz que reuniu a riqueza em oito anos de errância, enquanto outro, por dolo de uma esposa, matou o irmão, e por isso não goza o que tem.

ἧος ἐγὼ περὶ κεῖνα πολὺν βίοτον συναγείρων / ἠλώμην, τῆός μοι ἀδελφεὸν ἄλλος ἔπεφνεν / λάθρῃ, ἀνωιστί, δόλῳ οὐλομένης ἀλόχοιο· / ὣς οὔ τοι χαίρων τοῖσδε κτεάτεσσιν ἀνάσσω (4.90-93), enquanto eu errava por aquelas terras reunindo muita riqueza, outro matou meu irmão às escondidas, de surpresa, pelo dolo de uma esposa funesta: assim não governo com alegria estes bens.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

Chora por todos os mortos de Troia, mas por um acima dos outros, Odisseu. Hesita entre deixar o rapaz falar e perguntar primeiro, e Helena diz quem ele é, e Menelau concorda. Na manhã seguinte, indigna-se de que homens fracos queiram deitar-se no leito de um forte, como filhotes de corça no covil de um leão, e conta o que o velho do mar lhe disse. Preso vinte dias na ilha de Faro, junto ao Egito, porque não oferecera hecatombes aos deuses, foi achado pela filha de Proteu, que lhe ensinou como apanhar o velho. Ele e três companheiros, cobertos de peles de foca, agarram Proteu, que toma a forma de leão, serpente, pantera, javali, água e árvore, e que só fala quando se cansa de fugir.

ὢ πόποι, ἦ μάλα δὴ κρατερόφρονος ἀνδρὸς ἐν εὐνῇ / ἤθελον εὐνηθῆναι ἀνάλκιδες αὐτοὶ ἐόντες [...] ὣς Ὀδυσεὺς κείνοισιν ἀεικέα πότμον ἐφήσει (4.333-334, 340), ai de nós, em verdade queriam deitar-se no leito de um homem de coração forte, sendo eles mesmos fracos! [...] assim Odisseu dará a eles um destino indigno.
Canto IV: Telêmaco em Esparta
Αἰγύπτῳ μʼ ἔτι δεῦρο θεοὶ μεμαῶτα νέεσθαι / ἔσχον, ἐπεὶ οὔ σφιν ἔρεξα τεληέσσας ἑκατόμβας (4.351-352), os deuses ainda me retinham no Egito, ansioso por voltar, porque eu não lhes oferecera hecatombes completas.
Canto IV: Telêmaco em Esparta
ἀλλʼ ἦ τοι πρώτιστα λέων γένετʼ ἠυγένειος, / αὐτὰρ ἔπειτα δράκων καὶ πάρδαλις ἠδὲ μέγας σῦς· / γίγνετο δʼ ὑγρὸν ὕδωρ καὶ δένδρεον ὑψιπέτηλον· / ἡμεῖς δʼ ἀστεμφέως ἔχομεν τετληότι θυμῷ (4.456-459), primeiro tornou-se um leão de bela juba, depois serpente, pantera e javali enorme; tornava-se água corrente e árvore de folhas altas; nós, porém, o segurávamos firmes, com ânimo paciente.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

Proteu lhe conta a morte de Agamêmnon, numa cilada, num banquete, como um boi na manjedoura, e a situação de Odisseu, numa ilha, chorando, retido por Calipso. Anuncia a Menelau que os deuses o enviarão ao campo Elísio, por ser genro de Zeus. Menelau volta ao Egito, oferece as hecatombes, ergue um túmulo a Agamêmnon e chega a casa. Depois do relato de Helena, conta outro feito de Odisseu: dentro do cavalo, ele segurou a boca de Anticlo quando a voz das esposas chamava os chefes.

τὸν δʼ οὐκ εἰδότʼ ὄλεθρον ἀνήγαγε καὶ κατέπεφνεν / δειπνίσσας, ὥς τίς τε κατέκτανε βοῦν ἐπὶ φάτνῃ (4.534-535), conduziu-o, sem que ele soubesse da ruína, e o matou depois de o banquetear, como se mata um boi junto à manjedoura.
Canto IV: Telêmaco em Esparta
τὸν δʼ ἴδον ἐν νήσῳ θαλερὸν κατὰ δάκρυ χέοντα, / νύμφης ἐν μεγάροισι Καλυψοῦς, ἥ μιν ἀνάγκῃ / ἴσχει· ὁ δʼ οὐ δύναται ἣν πατρίδα γαῖαν ἱκέσθαι (4.556-558), vi-o numa ilha, derramando lágrimas abundantes, no palácio da ninfa Calipso, que o retém à força; e ele não pode chegar à sua terra.
Canto IV: Telêmaco em Esparta
ἀλλʼ Ὀδυσεὺς ἐπὶ μάστακα χερσὶ πίεζεν / νωλεμέως κρατερῇσι, σάωσε δὲ πάντας Ἀχαιούς (4.287-288), mas Odisseu apertou-lhe a boca com as mãos, firmes, sem folga, e salvou todos os aqueus.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

Quando Telêmaco recusa os cavalos, porque Ítaca não tem pistas nem prados, Menelau sorri, elogia-lhe o sangue e troca o presente por uma cratera de prata de borda dourada, obra de Hefesto.

ἐν δʼ Ἰθάκῃ οὔτʼ ἂρ δρόμοι εὐρέες οὔτε τι λειμών· / αἰγίβοτος, καὶ μᾶλλον ἐπήρατος ἱπποβότοιο (4.605-606), em Ítaca não há pistas largas nem prado; é terra de pasto de cabras, e mais amável que a de pasto de cavalos.
Canto IV: Telêmaco em Esparta

No Canto VIII, na canção de Demódoco, Odisseu e Menelau vão à casa de Deífobo no saque de Troia, e Odisseu chora. No Canto XI, Agamêmnon pergunta a Odisseu se ouviu falar de Orestes, em Pilos ou em Esparta, com Menelau.

No Canto XIII, Atena diz a Odisseu que Telêmaco está na casa de Menelau, em fartura. No Canto XIV, na história que o mendigo conta a Eumeu, Odisseu aparece numa emboscada diante de Troia, comandada com Menelau.

No Canto XV, quando Telêmaco pede para partir, Menelau diz que não o reterá, porque é igual mal o que expulsa o hóspede que não quer partir e o que retém o que tem pressa. Oferece esperar a refeição e os presentes, e até acompanhá-lo pela Hélade e por Argos. Telêmaco recusa, e Menelau escolhe uma taça de duas alças e a cratera de Fédimo. Quando uma águia passa com um ganso, pensa em como responder, mas Helena se adianta.

ἶσόν τοι κακόν ἐσθʼ, ὅς τʼ οὐκ ἐθέλοντα νέεσθαι / ξεῖνον ἐποτρύνει καὶ ὃς ἐσσύμενον κατερύκει. / χρὴ ξεῖνον παρεόντα φιλεῖν, ἐθέλοντα δὲ πέμπειν. (15.72-74), igual mal é o que incita a partir um hóspede que não quer, e o que retém quem tem pressa; convém amar o hóspede presente e despachar o que quer ir.
Canto XV: A volta de Telêmaco

No Canto XVII, Telêmaco repete a Penélope o que Menelau disse dos pretendentes e o que Proteu contou de Odisseu. No Canto XXIV, Agamêmnon lembra que foi a Ítaca com Menelau persuadir Odisseu a ir a Troia, e que levaram um mês inteiro para convencê-lo.

Temas que encarna

Menelau encarna a Família e o Lar, exílio e retorno: é o rei que voltou depois de anos, e o poema o usa como espelho, com o irmão assassinado e a esposa recuperada. A hospitalidade dele é medida e generosa. Também a Lealdade e traição: a riqueza não o alegra, porque o irmão foi morto pelo dolo da esposa, e ele trocaria dois terços dela pelos mortos de Troia.

Menelau fala a Telêmaco como quem sabe o que custa chegar em casa. Conta duas voltas de Troia, a de Agamêmnon, morto no banquete, e a sua, errante e rica, e põe a hospitalidade como a única regra que serve aos dois casos. O que ele não diz, e o poema deixa em aberto, é o que pensa de Helena ao lado dele.

Relações

  • Telêmaco: o hóspede que ele reconhece por chorar, a quem dá notícia do pai e presentes.
  • Helena: a esposa que se adianta em seu lugar e com quem convive sem rancor aparente.
  • Odisseu: o amigo que ele chora acima dos outros mortos de Troia.
  • Zeus e Poseidon: o deus de quem é genro e o que Proteu serve.