O tema na obra
O romance não pergunta se a revolução vai vencer. Pergunta como se fabrica uma, numa cidade de província, com pouca gente, pouca doutrina e muito aproveitamento do que já estava lá. O ponto de partida é uma genealogia: os liberais idealistas dos anos 1840 criaram, sem querer, filhos que não querem mais conversar. Do outro lado está um grupo de cinco que acredita fazer parte de uma rede mundial que ninguém viu, um sistema que parte da liberdade e chega ao despotismo, e um organizador, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, que não precisa de doutrina porque usa a dos outros. O que o livro mostra com detalhe é o método: oferecer a cada um o tamanho de conspiração que ele precisa crer, atar o grupo pelo sangue, dar-lhe um chefe que não aparece e deixar que a cidade ceda por vaidade e conforto.
No capítulo I da Primeira Parte, o cronista prepara a genealogia, e a revolução dos filhos sai dela.
«Высший либерализм» и «высший либерал», то есть либерал без всякой цели, возможны только в одной России, o "liberalismo superior" e o "liberal superior", isto é, o liberal sem objetivo nenhum, só são possíveis na Rússia.
No capítulo VI da Segunda Parte, Piotr, que acaba de dizer a Lembke que o movimento cabe em três homens e meio, expõe a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin a verdadeira organização: o uniforme, a sentimentalidade, os trapaceiros, e por cima de tudo o cimento da vergonha de ter opinião própria.
Да кто управляет-то? три человека с полчеловеком. Ведь, на них глядя, только скука возьмет, quem é que dirige, afinal? Três homens com meio homem. Só de olhar para eles dá tédio.
Antes disso, Karmazínov já dissera a Piotr o que julga ser a essência da ideia revolucionária russa.
вся суть русской революционной идеи заключается в отрицании чести [...] Русскому человеку честь одно только лишнее бремя. Да и всегда было бременем, во всю его историю. Открытым «правом на бесчестье» его скорей всего увлечь можно, toda a essência da ideia revolucionária russa está na negação da honra. [...] Para o russo, a honra é só um fardo a mais. E sempre foi um fardo, em toda a sua história. É pelo aberto «direito à desonra» que mais depressa se pode arrastá-lo.
No capítulo VII da Segunda Parte, na casa de Virguinski, o cronista descreve a fé que prende os cinco.
Все эти пятеро деятелей составили свою первую кучку с теплою верой, что она лишь единица между сотнями и тысячами таких же пятерок, как и ихняя, разбросанных по России, и что все зависят от какого-то центрального, огромного, но тайного места, которое в свою очередь связано органически с европейскою всемирною революцией, todos esses cinco militantes formaram o seu primeiro grupinho com a fé calorosa de que era só uma unidade entre centenas e milhares de quintetos iguais ao deles, espalhados pela Rússia, e de que todos dependiam de algum lugar central, enorme mas secreto, ligado por sua vez, organicamente, à revolução mundial europeia.
Chigalióv, sombrio, com um caderno grosso de letra miúda, lê o sistema que escreveu e confessa a contradição.
Выходя из безграничной свободы, я заключаю безграничным деспотизмом, partindo da liberdade ilimitada, concluo com o despotismo ilimitado.
O professor coxo, que fala sempre com um sorriso que não deixa saber se zomba, resume o que isso quer dizer na prática.
Он предлагает, в виде конечного разрешения вопроса, — разделение человечества на две неравные части. Одна десятая доля получает свободу личности и безграничное право над остальными девятью десятыми. Те же должны потерять личность и обратиться вроде как в стадо и при безграничном повиновении достигнуть рядом перерождений первобытной невинности, вроде как бы первобытного рая, хотя, впрочем, и будут работать, ele propõe, como solução definitiva do problema, a divisão da humanidade em duas partes desiguais. Um décimo recebe a liberdade da pessoa e o direito ilimitado sobre os outros nove décimos. Estes devem perder a personalidade e virar uma espécie de rebanho e, com obediência ilimitada, alcançar, por uma série de renascimentos, a inocência primitiva, uma espécie de paraíso primitivo, ainda que, de resto, vão trabalhar.
No capítulo VIII da Segunda Parte, na volta da casa de Kiríllov, Piotr elogia o sistema de Chigalióv como obra de gênio e o dispensa, minutos depois, como coisa de ourives. O que ele quer é outra coisa, um chefe que não aparece.
Мы скажем, что он «скрывается», diremos que ele «se oculta».
No capítulo I da Terceira Parte, o cronista explica, depois do desastre, como funciona uma cidade em tempo de transição.
эта сволочь, сама не зная того, почти всегда подпадает под команду той малой кучки «передовых», которые действуют с определенною целью, и та направляет весь этот сор куда ей угодно, essa ralé, sem o saber, quase sempre cai sob o comando daquele punhadinho de "avançados" que agem com objetivo determinado, e este dirige todo esse entulho para onde bem entende.
No capítulo IV da Terceira Parte, quando o quinteto se rebela, Chigalióv repete a Piotr o programa que ele mesmo traçou, e Piotr só consegue acusá-los de agir por conta própria.
систематическою обличительною пропагандой беспрерывно ронять значение местной власти, произвести в селениях недоумение, зародить цинизм и скандалы, полное безверие во что бы то ни было, жажду лучшего и, наконец, действуя пожарами, как средством народным по преимуществу, ввергнуть страну, в предписанный момент, если надо, даже в отчаяние, derrubar sem cessar, por meio de uma propaganda denunciadora sistemática, o prestígio do poder local, provocar nos povoados perplexidade, gerar cinismo e escândalos, descrença total em tudo o que existe, sede de algo melhor e, por fim, valendo-se de incêndios como meio popular por excelência, lançar o país, no momento prescrito, até no desespero, se for preciso.
No capítulo VI da Terceira Parte, depois do tiro no parque, Piotr promete aos que gritaram que são os que se destinam a receber o poder.
Останемся только мы, заранее предназначившие себя для приема власти: умных приобщим к себе, а на глупцах поедем верхом. Этого вы не должны конфузиться. Надо перевоспитать поколение, чтобы сделать достойным свободы, ficaremos só nós, que de antemão nos destinamos a receber o poder: os inteligentes, juntaremos a nós; os tolos, cavalgaremos. Disso vocês não devem se envergonhar. É preciso reeducar a geração para torná-la digna da liberdade.
E Lipútin, na volta, pergunta a verdade que sempre soube.
Глупый вы человек! Ведь уж теперь-то, кажется, вам всё бы равно — одна пятерка или тысяча. — Значит, одна! Так я и знал! — вскричал Липутин. — Я всё время знал, что одна, до самых этих пор, que homem tolo o senhor é! A esta altura, ao que parece, tanto lhe faria um quinteto ou mil. Então é um só! Eu sabia! exclamou Lipútin. Eu soube o tempo todo que era um só, até agora.
A revolução do livro não tem doutrina própria. Chigalióv fornece a lógica, que o próprio Chigalióv não sabe usar; Kiríllov fornece a morte que serve de assinatura; Chátov fornece o delator em potencial; Karmazínov fornece a tese de que a honra é um fardo. Piotr as combina conforme o ouvinte: sete figuras entediantes para o governador, uma rede internacional para o quinteto, um príncipe escondido para Stavróguin. O que dá unidade ao conjunto é a vergonha de ter opinião própria e o medo de parecer atrasado, e nenhum dos dois é doutrina. O romance mostra que uma organização assim se mantém em pé até o primeiro corpo, quando os que gritaram de pavor descobrem que já não podem sair.
Quem o encarna
Piotr é o método: dá a cada um a mentira de que precisa, inventa cargos e comitês, e sai ileso. Chigalióv é a lógica sem escrúpulo: chega ao despotismo contra a vontade, recusa o assassinato de Chátov porque contradiz o programa e vai embora sem renegar o sistema. Virguinski é o idealista de coração puro, que grita «não é isso» depois do tiro. Lipútin é o vigarista que só quer saber se a rede existe quando já fez o que ela pedia. Stiepan Trofímovitch é a origem, o liberal que nunca fez e a quem o filho, no capítulo IV da Segunda Parte, diz que ele era um agregado.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: Stiepan Trofímovitch e o círculo dele praticam o que o cronista chama de liberalismo superior, conversa leve sobre o futuro da Europa e a espera da emancipação.
- Segunda Parte, capítulo IV: Piotr cerca o governador com a lógica do próprio liberalismo dele, e Lembke responde que governo e revolucionários se necessitam e só diferem no prazo.
- Segunda Parte, capítulo VI: Piotr descreve a Stavróguin o cimento do grupo, a vergonha de ter opinião própria, e Stavróguin, rindo, dá a receita de fazer quatro matarem o quinto.
- Segunda Parte, capítulo VII: Chigalióv lê o sistema que parte da liberdade ilimitada e termina no despotismo ilimitado, e Piotr pergunta à sala quem denunciaria um assassinato político.
- Segunda Parte, capítulo VIII: Piotr propõe fazer de Stavróguin o Ivan Czariêvitch, um chefe que se oculta, e despreza como obra de ourives o sistema de Chigalióv que acabara de elogiar.
- Segunda Parte, capítulo X: Setenta operários vão ao governador, Lembke grita «De joelhos!» e «Varas!» sem saber que vai gritar, e a autoridade se desfaz sem a ajuda de Piotr.
- Terceira Parte, capítulo I: O cronista diz que, em tempo de transição, a ralé cai sob o comando de um punhado de avançados, e a matinê literária mostra a plateia descobrindo que pode responder.
- Terceira Parte, capítulo II: O Zariétchie arde em três pontos durante o baile, e Lembke grita que o incêndio está nas mentes e não nos telhados das casas.
- Terceira Parte, capítulo IV: Piotr inventa uma denúncia de Chátov para prender o quinteto a um assassinato, e Chigalióv lhe devolve o programa de propaganda e incêndios que ele mesmo traçou.
- Terceira Parte, capítulo VI: Chátov é morto no parque pelos cinco, que gritam depois do tiro, e Piotr lhes promete poder: os inteligentes serão juntados e os tolos cavalgados.
- Terceira Parte, capítulo VIII: Piotr parte de trem para Petersburgo, e três meses depois há quem o trate no clube quase como um gênio, de dedo erguido, pela organização.
Onde as leituras divergem
Piotr pode ser lido como o conspirador competente, e o clube que o louva depois do desastre faz essa leitura: uma organização. Pode ser lido como o vigarista que acerta por acaso: o mesmo cronista nota que há quem lhe reconheça a agudeza e o desconhecimento da realidade, o desenvolvimento torto em um só sentido. A leitura do romance como panfleto contra uma ideologia também tem partidários, e Joseph Frank, ao lê-lo como mito e não como reportagem, a recusa.
É claro que seu romance não se limita às dimensões reais, um tanto insignificantes, do caso Nietcháiev.
Os fatos que o livro mostra sustentam as duas leituras de Piotr. A favor da competência: o método funciona com cada interlocutor, o grupo se prende pelo crime, ele sai de cena antes de pagar. Contra: nada do que ele afirma sobre a rede é verificado, a denúncia de Chátov é inventada, e o quinteto, que gritou na hora do tiro, não é o instrumento que ele imaginava. A resposta que Lipútin quase ouve no parque, a de que talvez só exista um quinteto, é a que o livro deixa sem confirmar. O que sobra é um organizador cuja força depende de ninguém se levantar para dizer que o centro é ele só.