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Personagem

Karmazínov

Quem é

Karmazínov é o grande escritor, na expressão de Lipútin, parente de Yúlia Mikháilovna e velho conhecido de Stiepan Trofímovitch, que vive havia sete anos em Karlsruhe e volta à Rússia para vender a propriedade e se despedir. O cronista, que o leu desde a infância e se embriagou com as primeiras novelas, acha as últimas sem graça. Pequeno, correto, de cachos grisalhos e lorgnon de tartaruga, fala com voz de mel e, segundo os rumores que o cronista repete, preza as relações com os poderosos mais que a própria alma e esquece quem o procura na presença do primeiro príncipe ou da primeira condessa (capítulo III da Primeira Parte). Quer ser admirado e quer partir com graça; teme ser esquecido pela geração que vem. O traço que o define é o amor-próprio que se faz de despedida: o que ele leva à festa é um texto em que se despede do público, para que o público o aplauda por isso.

Trajetória

No capítulo III da Primeira Parte, no oitavo dia da espera do noivado de Stiepan, o cronista o encontra na rua e quase corre a buscar um cocheiro porque ele, depois de agradecer o caminho da rua Bíkova, volta a chamá-lo para perguntar onde há; quando o escritor deixa cair a bolsinha, o cronista se curva, e é Karmazínov quem a apanha, com delicadeza, deixando-o ridículo. No mesmo capítulo o cronista recorda o artigo que o escritor publicou numa revista sobre um naufrágio de que foi testemunha, escrito, lê o cronista entre as linhas, só para se pôr em cena: que ninguém olhe a tempestade nem a afogada com o filho morto nos braços, mas ele, que se virou de costas, apavorado, sem coragem de olhar. E Varvara Pietrovna Stavróguina escreve a Stiepan três bilhetes ansiosos só sobre a visita dele: se vier, nem uma palavra a meu respeito; receba-o com requinte; se hoje também não vier, nunca virá.

No capítulo IV da Segunda Parte, Yúlia Mikháilovna von Lembke anuncia a Varvara Pietrovna que ele lerá, na matinê, uma despedida intitulada Merci. No capítulo V da Segunda Parte, Karmazínov é um dos que circulam em volta dela, e uma frase dele sobre as brincadeiras do grupo, que acha características e ousadas, faz Yúlia perdoar as travessuras dos jovens. Quando Stiepan o chama de escritor acabado, Varvara Pietrovna responde que ele tem um espírito quase de estadista.

No capítulo VI da Segunda Parte, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski entra na casa dele, na rua Bíkova, e o encontra almoçando. Karmazínov se levanta do sofá para beijá-lo e oferece a bochecha; Piotr, avisado pela experiência anterior, oferece a sua também, e as duas bochechas se encontram. Assusta-se ao saber que Piotr esqueceu o manuscrito do Merci, até este tirá-lo, amassado, do bolso de trás. Vem vender a propriedade e partir; diz que não crê em nenhum Deus, que a Rússia, como é, não tem futuro, que os russos de posses fogem para o exterior por instinto, como os ratos que abandonam primeiro o navio que vai a pique, e que se tornou alemão e tem isso por honra. O cronista acrescenta que Karmazínov odiava Stavróguin porque ele tinha o hábito de não o notar. Sobre as proclamações, diz o que, para ele, as torna eficazes:

вся суть русской революционной идеи заключается в отрицании чести [...] Русскому человеку честь одно только лишнее бремя. Да и всегда было бременем, во всю его историю. Открытым «правом на бесчестье» его скорей всего увлечь можно, toda a essência da ideia revolucionária russa está na negação da honra. [...] Para o russo, a honra é só um fardo a mais. E sempre foi um fardo, em toda a sua história. É pelo aberto «direito à desonra» que mais depressa se pode arrastá-lo.
Segunda Parte: A cidade à espera

Logo lhe pergunta, com voz adocicada, quando tudo isso poderia acontecer. Piotr responde que ele terá tempo de vender a propriedade e fugir, e dá a data: começa no início de maio e termina no Pokrov. Karmazínov agradece de coração, e Piotr conclui, devolvendo-lhe a imagem, que um rato que sai do navio não denuncia. Na porta da casa de Virguinski, Piotr conta a Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin que disse a Karmazínov que Stavróguin achava que o escritor merecia ser açoitado como se açoita um mujique, e repete a frase de Karmazínov sobre o direito à desonra, que Stavróguin acolhe com entusiasmo.

No capítulo X da Segunda Parte, Karmazínov vem com o grupo de Yúlia à casa do governador, a pedido dela. Abraça Stiepan, a quem não via havia vinte e quatro anos, com a bochecha à frente, e Stiepan é obrigado a beijá-la. À noite, conta ao cronista o que pensou então:

я подумал в ту минуту: кто из нас подлее? Он ли, обнимающий меня с тем, чтобы тут же унизить, я ли, презирающий его и его щеку и тут же ее лобызающий, хотя и мог отвернуться… тьфу!, pensei naquele instante: quem de nós é mais baixo? Ele, que me abraça para me humilhar na mesma hora, ou eu, que o desprezo, e a ele e à sua face, e na mesma hora a beijo, embora pudesse virar o rosto... arre!
Segunda Parte: A cidade em desordem

Karmazínov diz que o tubo de esgoto de Karlsruhe lhe é mais caro que todas as questões da pátria; quando Yúlia o contraria, lembrando que foi ele quem pintou os tipos do eslavófilo e do ocidentalista, admite que o fez de passagem, para matar o tempo e satisfazer as exigências dos compatriotas. Ao ouvir elogios, amolece: lá em Karlsruhe fechará os olhos, e aos grandes homens, cumprida a obra, resta fechá-los sem procurar recompensa.

No capítulo I da Terceira Parte, dizia-se na cidade que, para aumentar a arrecadação, ele leria o Merci vestido de preceptora da província; entra em cena de fraque e gravata branca, e a sala o recebe com respeito. Ele aceitara ler, de fato, para tirar da cabeça do público a ideia de um banquete. Lê quase duas folhas de uma prosa de impressões e lembranças sem tema, em que passam um primeiro beijo sob uma laranjeira, Pompeu na véspera da batalha, uma sereia nos arbustos, o nevoeiro que parece um milhão de travesseiros, um gênio que cai num buraco do gelo do Volga e uma gruta de eremita sob uma torre de Moscou. Lê de cima, como quem faz favor. Quando alguém no fundo diz, sem demonstração nenhuma, que aquilo é uma bobagem, ele pergunta com ar de camareiro ferido se aborreceu os presentes, e as respostas começam. O cronista aponta o erro dele:

Вот в том-то и вина его, что он первый заговорил; ибо, вызывая таким образом на ответ, тем самым дал возможность всякой сволочи тоже заговорить и, так сказать, даже законно, é aí que está a culpa dele: foi o primeiro a falar; pois, provocando assim uma resposta, deu por isso mesmo a toda ralé a possibilidade de também falar e, por assim dizer, até de modo legítimo.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Um jovem professor do distrito diz que, se tivesse a felicidade de amar como o autor descreve, não poria o amor num texto de leitura pública, e Karmazínov abrevia e lê só as seis linhas finais:

Нет уж, довольно мы повозились друг с другом, милые соотечественники, merci! Пора нам в разные стороны! merci, merci, merci, não, já lidamos bastante um com o outro, queridos compatriotas, merci! Está na hora de cada um ir para o seu lado! merci, merci, merci.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Quando Yúlia traz o laurel numa almofada de veludo, ele responde que em nosso século os louros ficam melhor na mão de um cozinheiro hábil, e os gritos por bufê recomeçam. Na cena de lágrimas com Yúlia, no capítulo II da Terceira Parte, Piotr dirá que Karmazínov saiu como um asno verde e arrastou o texto por uma hora inteira, e que isso o põe, ironicamente, na conspiração contra a festa. Depois da matinê, o livro não o traz mais em cena.

Temas que encarna

Karmazínov é a Verdade e mentira do escritor que não distingue o que escreve da pose com que escreve. O artigo do naufrágio, o beijo sob a laranjeira, o merci repetido três vezes são o mesmo gesto: uma coisa grande acontece, e o autor se põe diante dela. O livro não o trata como vilão; trata-o como um homem de talento médio, aceito em vida como gênio, a quem o tempo novo esquece e que, em vez de ficar, escolhe sair aplaudido.

A tese sobre a honra, de que o russo sempre a achou um fardo e que o direito aberto à desonra é o que mais depressa o arrasta, sustenta duas leituras. Na primeira, é a de um oportunista lúcido que sabe o que diz: ele fala para ser ouvido por quem julga chefe da revolução, e dá a Piotr a fórmula de que Piotr depois se serve com Stavróguin. Na segunda, é a de um covarde que se esconde atrás de uma tese que talvez também o convença, e que ainda defende a honra, por hábito e fraqueza de ânimo, como diz de si. O que Piotr obtém dele, a data do desastre e a certeza de que o escritor não denunciará, não depende de qual das duas valha.

O desfecho da leitura pública confirma a pose pelo avesso. Karmazínov pediu o aplauso do público, e despede-se dele como quem dispensa criados; quer a admiração e quer sair, e o merci repetido três vezes é o modo de dizer as duas coisas ao mesmo tempo. A plateia, que em parte vaia e em parte aplaude, recebe o gesto com a mesma ambiguidade com que ele o fez.

Leituras divergentes

Os personagens do livro dão três pesos a Karmazínov. Stiepan, no capítulo V da Segunda Parte, o chama de escritor acabado, e depois de velha esgotada e raivosa; Varvara Pietrovna, de espírito quase de estadista. Piotr, no capítulo VIII da Segunda Parte, diz a Stavróguin que ele é muito inteligente e tem razão em dizer que não há onde se agarrar. O cronista, no capítulo III da Primeira Parte, o põe entre os talentos de média grandeza que se esgotam sem notar e se tomam por deuses.

O retrato tem uma chave fora do romance, que o leitor da época reconhecia de imediato:

A despedida do "Merci" parodia a mensagem real de Turguêniev aos leitores em "A propósito de Pais e filhos", e a leitura pública fracassada de Karmazínov é caricatura direta do próprio Turguêniev, com quem Dostoiévski havia rompido anos antes.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

As leituras se encaixam: o retrato é caricatura de pessoa real, e o tipo que fixa, o do escritor consagrado que prefere sair a ser contestado, vale fora dela. O livro não mostra a obra dele, só o que ele faz com ela diante do público, e é nesse espaço que cabe o julgamento: um talento que perdeu o assunto e conserva o gesto.

Relações