O tema na obra
Em Os Demônios a família quase nunca é o que o sangue faz. É o que alguém inventa e depois cobra. Varvara Pietrovna Stavróguina inventou Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski, que por sua vez educou o filho dela, Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin, como se fosse seu, e gerou Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, o filho que esqueceu e que volta para cobrar. Mães e pais governam por dote, pensão, data de casamento e carta guardada numa caixinha, e os filhos respondem com a pergunta que ninguém consegue responder, a de quem são. Os poucos laços sem dívida aparecem tarde e duram pouco: o de Ivan Chátov com o menino que nasce em sua casa dura um dia, porque ele é morto na noite do mesmo dia.
No capítulo I da Primeira Parte, o cronista conta que Varvara Pietrovna fez de Stiepan um filho, uma criatura sua, e foi a primeira a crer na invenção.
что стал наконец для нее ее сыном, ее созданием, даже, можно сказать, ее изобретением [...] Она его выдумала и в свою выдумку сама же первая и уверовала, que ele acabou virando para ela um filho, uma criatura sua, até, dá para dizer, uma invenção sua [...] Ela o inventou, e foi a primeira a crer na invenção que fez.
No capítulo II da Primeira Parte, ao casar a pupila Dária Pávlovna Chátova com o amigo, Varvara declara que tudo depende da vontade da moça e já resolveu marido, dote, pensão e dia.
Я эгоистка, будь и ты эгоисткой. Я ведь не неволю; всё в твоей воле, как скажешь, так и будет., sou egoísta, seja você também egoísta. Eu não obrigo; tudo depende da sua vontade, o que você disser será feito.
Na mesma manhã, Stiepan pergunta por que os socialistas desesperados são tão proprietários, sem saber que descreve o filho que está para chegar.
почему это все эти отчаянные социалисты и коммунисты в то же время и такие неимоверные скряги, приобретатели, собственники, и даже так, что чем больше он социалист, чем дальше пошел, тем сильнее и собственник…, por que será que todos esses socialistas e comunistas desesperados são ao mesmo tempo avarentos incríveis, acumuladores, proprietários, e a tal ponto que quanto mais socialista, quanto mais longe foi, mais forte é proprietário...
No capítulo IV da Primeira Parte, Mária Timofêievna Lebiádkina conta a história de um filho que ela não sabe se existiu, e diz de que chora mais.
и всего больше я плачу о том, что родила я его, а мужа не знаю, e o que mais me faz chorar é isto: que o dei à luz e não conheço o marido.
No capítulo V da Primeira Parte, no salão, Varvara faz ao filho Nikolai a pergunta que nunca fizera, e ele a responde beijando-lhe a mão. Em seguida Piotr lê em voz alta a carta do pai, e é ele, e não a mãe, quem expõe Stiepan; Varvara é quem o manda embora.
правда ли, что она… законная жена ваша, é verdade que ela... é sua esposa legítima?
No capítulo IV da Segunda Parte, Piotr reduz vinte anos de convivência do pai a uma palavra e, quando o pai lhe pergunta se é ou não seu filho, devolve a dúvida.
ты был приживальщиком, то есть лакеем добровольным, você era um agregado, quer dizer, um lacaio de livre vontade.
Но скажи же мне наконец, изверг, сын ли ты мой или нет? — Об этом тебе лучше знать, mas diga-me, afinal, monstro: você é ou não é meu filho? Isso é você que deve saber melhor.
No capítulo V da Terceira Parte, Marie volta a Chátov grávida, o filho nasce, e o homem que passou o livro pregando um Deus que não tem diz que não há nada mais alto no mundo.
Тайна появления нового существа, великая тайна и необъяснимая, Арина Прохоровна, и как жаль, что вы этого не понимаете! [...] Было двое, и вдруг третий человек, новый дух, цельный, законченный, как не бывает от рук человеческих; новая мысль и новая любовь, даже страшно… И нет ничего выше на свете!, o mistério do aparecimento de um novo ser, um grande mistério, inexplicável, Arina Prókhorovna, e que pena que a senhora não entenda isso! [...] Eram dois, e de repente um terceiro ser, um espírito novo, inteiro, acabado, como não vem de mãos humanas; um pensamento novo e um amor novo, até dá medo... E não há nada mais alto no mundo!
A família do livro é um sistema de invenções que se cobram. Varvara inventa Stiepan, Stiepan educa um aluno e gera um filho, e a ambos oferece sobretudo palavras, e os dois voltam, um com o rosto de máscara e o outro com a conta na mão. A dívida muda de moeda a cada geração: dinheiro com Piotr, silêncio com Nikolai, obediência com Dária. O que o romance não oferece é uma família em que alguém tenha gerado sem inventar, e é por isso que o único laço que não cobra nada, o de Chátov com o filho, é também o único que dura um dia e não resiste ao que vem depois.
Quem o encarna
Varvara Pietrovna é a família como poder: educa, sustenta, decide casamentos, guarda cartas e não esquece nada. No capítulo V da Segunda Parte, dá a Stiepan a pensão e a lista de agravos de vinte anos no mesmo encontro, e os dois trocam acusações com palavras que vieram de outros. Stiepan é pai e dependente ao mesmo tempo, filho de uma protetora e pai de dois rapazes que não o escutam. Piotr é o filho que cobra, e Nikolai o filho que se deixa cobrar e não responde. Chátov é o único a cuidar sem inventar: cobre Marie com o próprio sobretudo, corre atrás de parteira, e recebe como uma honra o nome Ivan que Marie dá ao menino.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: Varvara Pietrovna inventou e sustenta Stiepan Trofímovitch há mais de vinte anos, e ele lhe escreve até duas cartas por dia morando na mesma casa.
- Primeira Parte, capítulo II: Varvara Pietrovna casa a pupila Dária Pávlovna com Stiepan Trofímovitch, fixa dote, pensão e dia, e diz que tudo depende da vontade da moça.
- Primeira Parte, capítulo IV: Mária Timofêievna diz chorar mais por ter dado à luz sem conhecer o marido do que por ter perdido o filho.
- Primeira Parte, capítulo V: Piotr Stiepánovitch lê em voz alta a carta do pai, que diz casar por pecados alheios, e Varvara Pietrovna manda Stiepan deixar a casa dela.
- Segunda Parte, capítulo III: Gagánov exige o duelo a qualquer preço por ódio à afronta feita ao pai dele quatro anos antes.
- Segunda Parte, capítulo IV: Piotr chama o pai de agregado e devolve-lhe a pergunta sobre a paternidade com a resposta de que ele deve saber melhor.
- Segunda Parte, capítulo V: Varvara Pietrovna oferece três mil rublos por ano a Stiepan Trofímovitch para viver longe dela, e os dois trocam vinte anos de acusações.
- Terceira Parte, capítulo V: Marie volta a Chátov grávida, o filho nasce na casa dele, e ela exige que o menino se chame Ivan.
- Terceira Parte, capítulo VII: Stiepan Trofímovitch pede para ver Pietrucha, e Varvara Pietrovna responde ao médico que não tem filho.
- Terceira Parte, capítulo VIII: Marie e o menino morrem do frio e do pânico da manhã em que ela entra no anexo de Kiríllov.
Onde as leituras divergem
A tese do primeiro capítulo diz que os pais liberais geraram os filhos niilistas, e o livro pode ser lido como a prova dessa filiação: Stiepan, que nunca fez, gera Piotr, que faz. Mas o texto sustenta também outra leitura, a de que não há filiação em nenhum dos dois sentidos, e que o que se vê é pais que não reconhecem o que geraram e filhos que não reconhecem a quem devem. Gagánov, no capítulo III da Segunda Parte, quer o duelo por uma afronta feita ao pai quatro anos antes, o que faz dele um filho que age por lealdade ao pai, ao contrário de quase todos os outros. No fim, Varvara Pietrovna, ao ouvir do médico que tem um filho, responde que não tem, no capítulo VII da Terceira Parte, e o cronista diz que foi como se tivesse profetizado.
A frase de Varvara à beira do leito de Stiepan fecha as duas leituras ao mesmo tempo. Se a filiação é a tese, ela nega o filho que a tese lhe atribui, e a conta fica sem credor. Se não há filiação, ela diz em voz alta o que o livro mostrou o tempo todo: que o filho dela, desde a bofetada, era um estranho que ela tentava reinventar. O texto não escolhe, mas o desfecho de Nikolai no capítulo VIII da Terceira Parte aponta para um lado: a mãe, que ia partir com ele, sobe ao sótão e o acha enforcado.