Quem é
Chigalióv é o irmão da mulher do funcionário Virguinski, hóspede da cidade havia uns dois meses quando o livro o mostra, e o autor de um caderno grosso de letra miúda em que propõe a organização definitiva da sociedade. O cronista, que só ouviu dizer que ele publicou um artigo numa revista progressista de Petersburgo, nunca viu rosto tão sombrio e carrancudo: tem orelhas enormes, longas e abertas, movimentos lentos e desajeitados, e o ar de quem espera o fim do mundo para depois de amanhã, às dez e vinte e cinco da manhã (capítulo IV da Primeira Parte). É um dos cinco do grupo que Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski moldou na cidade, e a fórmula de seu sistema, partir da liberdade ilimitada e chegar ao despotismo ilimitado, resume o que o romance diz sobre a lógica da igualdade levada até o fim. Não é um dos discípulos de Stavróguin: o sistema é dele, e Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin só o ouve, calado, na sala. O traço que o define é uma honestidade que não consegue consertar a própria conclusão e não a retira.
Trajetória
No capítulo IV da Primeira Parte, o cronista o encontra num serão no quarto de Ivan Chátov, com Alexei Kiríllov: os três discutem em voz alta, calam-se quando ele entra, e passam três minutos de silêncio. Chigalióv faz que não o reconhece, olha-o com severidade na esperança ingênua de que ele se levante e vá embora, e, quando Chátov se ergue e todos saem sem se despedir, diz da porta que Chátov deve prestar contas. Chátov responde que cuspa nas contas dele, que não deve nada a nenhum diabo, e chama os dois de maçaricos.
No capítulo VII da Segunda Parte, na reunião da casa de Virguinski, que é também a casa da irmã dele, Chigalióv está entre os cinco: o quinteto nasceu magoado, tratado com severidade e displicência por Piotr, e Chigalióv já quer cobrar satisfações, mas não diante de tanta gente. Quando a estudante tenta expor o sofrimento dos estudantes, ele se levanta, sombrio, e põe sobre a mesa o caderno. Abre com um prefácio: os construtores de sistemas sociais, de Platão a Fourier, foram sonhadores e tolos que nada entendiam do estranho animal chamado homem, e a fórmula dele exigiria dez noites de leitura, uma por capítulo. Enquanto Piotr pede tesouras e apara as unhas, confessa que o sistema está inacabado, porque se enredou nos próprios dados:
Выходя из безграничной свободы, я заключаю безграничным деспотизмом, partindo da liberdade ilimitada, concluo com o despotismo ilimitado.
A sala se divide: os mais jovens riem, a anfitriã, Lipútin e o professor coxo se irritam, e ele não cede. Quem não gostar pode ir para o serviço público ou para a cozinha, que voltará ao mesmo. Quem resume o livro é o professor coxo:
Он предлагает, в виде конечного разрешения вопроса, — разделение человечества на две неравные части. Одна десятая доля получает свободу личности и безграничное право над остальными девятью десятыми. Те же должны потерять личность и обратиться вроде как в стадо и при безграничном повиновении достигнуть рядом перерождений первобытной невинности, вроде как бы первобытного рая, хотя, впрочем, и будут работать, ele propõe, como solução definitiva do problema, a divisão da humanidade em duas partes desiguais. Um décimo recebe a liberdade da pessoa e o direito ilimitado sobre os outros nove décimos. Estes devem perder a personalidade e virar uma espécie de rebanho e, com obediência ilimitada, alcançar, por uma série de renascimentos, a inocência primitiva, uma espécie de paraíso primitivo, ainda que, de resto, vão trabalhar.
Chigalióv responde ao grito de que aquilo é uma canalhice com uma distinção:
Я предлагаю не подлость, а рай, земной рай, и другого на земле быть не может, eu proponho não uma canalhice, mas o paraíso, o paraíso terrestre, e outro na terra não pode haver.
Quando Liámchin brinca que seria melhor explodir os nove décimos, ele o leva a sério e diz que talvez fosse a melhor solução, só inexequível. No capítulo VIII da Segunda Parte, Stavróguin diz a Piotr que fique com Chigalióv e o deixe em paz, e Piotr, que na sala chamara a chigaliovada de passatempo estético de gente de província, a exalta como obra de um gênio mais ousado que Fourier, que inventou a igualdade, e a desprezará minutos depois como obra de ourives:
Цицерону отрезывается язык, Копернику выкалывают глаза, Шекспир побивается каменьями — вот шигалевщина!, a Cícero cortam a língua, a Copérnico furam os olhos, Shakespeare é apedrejado: eis o chigaliovismo!
No capítulo IV da Terceira Parte, na casa do alferes Erkel, depois do incêndio e dos Lebiádkin mortos, o quinteto quer uma explicação categórica de Piotr. Chigalióv pede licença para constatar um fato e repete, com a calma de um parecer, o programa que Piotr lhes traçou, para perguntar de que ele se queixa:
систематическою обличительною пропагандой беспрерывно ронять значение местной власти, произвести в селениях недоумение, зародить цинизм и скандалы, полное безверие во что бы то ни было, жажду лучшего и, наконец, действуя пожарами, как средством народным по преимуществу, ввергнуть страну, в предписанный момент, если надо, даже в отчаяние, derrubar sem cessar, por meio de uma propaganda denunciadora sistemática, o prestígio do poder local, provocar nos povoados perplexidade, gerar cinismo e escândalos, descrença total em tudo o que existe, sede de algo melhor e, por fim, valendo-se de incêndios como meio popular por excelência, lançar o país, no momento prescrito, até no desespero, se for preciso.
Quando Piotr propõe matar Chátov com uma denúncia que ninguém viu e jogar a culpa em Kiríllov, Chigalióv duvida de que Kiríllov, um louco, cumpra o que prometeu. No capítulo VI da Terceira Parte, no parque, observa que ninguém viu a denúncia, e quando Piotr diz que os que tremem na hora do perigo são subornados do governo, dá três passos à frente e declara, com o método de sempre, que o assassinato é perda de tempo e desvio que sempre prejudicou a causa ao entregá-la a gente leviana e política em vez de puros socialistas, e que contradiz o programa dele do começo ao fim. Vai embora, mas não por medo nem por sentimento por Chátov, com quem não quer se beijar, e promete que não haverá denúncia. Piotr arma o revólver e o chama de senhor Fourier; ele responde que se engana quanto ao nome e quanto ao cálculo, pois matá-lo não rende nada hoje, e, matando-o ou não, Piotr chegará mais cedo ou mais tarde ao sistema dele. Ao se afastar pelo parque, não avisa Chátov. Ouve de longe o grito e o tiro, mas, segundo o próprio depoimento dele depois, não olha para trás nem se detém. No capítulo VIII da Terceira Parte, quando o grupo se desfaz, o cronista ouve dizer que ele será solto em breve, por não caber em nenhuma categoria de acusados, ainda que seja só conversa.
Temas que encarna
Chigalióv é o raciocínio que chega ao despotismo contra a própria vontade, e que, por isso, é mais perigoso que o cinismo: ele não quer o que concluiu, mede a proposta pelo que ela resolve e não pelo que custa, e responde à acusação de canalhice com a palavra paraíso. A Revolução que Piotr organiza usa exatamente isso: o desespero lógico de um fornece o argumento, e a vaidade dos outros, a obediência. O que sobra do sistema nas mãos de Piotr é só a parte que derruba, a mutilação do talento e a igualdade que nivela por baixo; a parte que construiria, ele chama de coisa de ourives.
Sua saída do parque sustenta duas leituras, e o texto dá razão às duas. A primeira é a da coerência sem escrúpulo:
Chigalióv sai porque o crime contradiz o seu programa e roubaria tempo ao trabalho que lhe parece verdadeiro, e diz expressamente que não o move o medo nem a pena. Recusa o assassinato e conserva o sistema, e o texto não o trata como o justo do grupo: ele se afasta do corpo, nunca da doutrina que o produz.
Na segunda, a saída é a de quem se exclui do crime sem deter o crime: ele sabe do que se trata, não avisa Chátov, não volta ao ouvir o tiro. A frase final dele a Piotr, de que mais cedo ou mais tarde Piotr chegará ao sistema, pode ser lida como previsão lúcida ou como o consolo de quem sai com a doutrina intacta.
No tema Indivíduo e sociedade, o sistema de Chigalióv é a versão mais nua: o indivíduo vale como material, e nove décimos perdem a personalidade para que um décimo a tenha. Kiríllov leva a ideia à própria morte, Chátov a leva à fé que não consegue declarar, Piotr a usa sem acreditar; Chigalióv a leva até o fim do argumento e não passa dali. O texto não o mostra executando nada. O que ele é, no livro, é a prova de que o sistema pode ser produzido por alguém que não o deseja.
Leituras divergentes
O próprio Dostoiévski se afastou do sistema que deu a Chigalióv:
O próprio Dostoiévski protestou contra essa proporção no Diário de um escritor de 1876: disse nunca ter entendido a ideia de que só um décimo dos homens deva chegar ao máximo do desenvolvimento enquanto os outros nove décimos servem de material e de meio, e declarou querer viver acreditando que todos os russos serão um dia instruídos e felizes.
As leituras divergem quanto ao tipo de texto que o sistema é: a nota do autor o mostra tomando distância dele, e há quem leia na fórmula o núcleo profético do livro, o que o século XX faria. Não se excluem, e o romance não decide entre elas: dá a fórmula a um homem que a produz sem desejá-la e se desespera com o que concluiu, e é essa recusa, somada à execução por outros, que a torna legível nas duas direções.
Relações
- Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski: o chefe do quinteto que o trata com displicência, que exalta o sistema e o despreza no mesmo fôlego (capítulo VIII da Segunda Parte) e que o chama de senhor Fourier quando ele se recusa ao assassinato (capítulo VI da Terceira Parte).
- Ivan Chátov: a quem exige contas no quarto (capítulo IV da Primeira Parte) e que ele deixa de avisar na noite do parque (capítulo VI da Terceira Parte).
- Alexei Kiríllov: o companheiro de serão em casa de Chátov (capítulo IV da Primeira Parte), cuja promessa de suicídio ele considera obra de um louco (capítulo IV da Terceira Parte).
- Lipútin: o colega de quinteto que, como ele, se irrita com o sistema na sala e, ao contrário dele, fica no parque (capítulo VII da Segunda Parte, capítulo VI da Terceira Parte).
- Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin: o ouvinte calado na casa de Virguinski (capítulo VII da Segunda Parte) e o homem a quem Piotr quer entregar o lugar de chefe, em vez do sistema de Chigalióv (capítulo VIII da Segunda Parte).