É um livro exigente, mas a dificuldade é de tamanho e de nomes, não de enredo. A história cabe em poucas linhas: um pai, proprietário e bufão, tem três filhos que não criou e é morto numa noite; um dos filhos é preso, julgado e condenado, embora o assassino tenha confessado a Ivan e se enforcado. O resto do livro é o que cada pessoa faz com esse crime.
A extensão se vence por unidades de cena. São quatro partes, doze livros e um epílogo, com o prefácio «Do autor» e 96 capítulos numerados, e cada livro tem um eixo nítido: a reunião na cela, a conversa dos irmãos no botequim, a última tarde de Zossima, a corrida de Mítia atrás de três mil rublos, o julgamento. O primeiro obstáculo é o começo: o prefácio e o Livro I são pré-história contada por um cronista da cidade, que avisa que a biografia do herói é uma só em dois romances e chega a dar ao leitor delicado o pretexto para largar o livro no primeiro episódio.
Os nomes são a segunda barreira, porque cada pessoa tem mais de um. Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov é Aliócha; Dmitri Fiódorovitch é Mítia; Catierina Ivánovna é Kátia; Agrafiena Alieksándrovna é Grúchenka, no diminutivo popular. Smierdiakóv foi batizado Pável, e todos o chamam pelo patronímico Fiodórovitch. Quem tropeça num nome pode se guiar pelo patronímico: os três irmãos são Fiódorovitch, filhos de Fiódor Pávlovitch.
Dois trechos pedem mais atenção que o resto: o Livro V, em que Ivan expõe A Revolta e O Grande Inquisidor, o ataque mais completo do romance à harmonia paga com as lágrimas de uma criança, e o Livro VI, que responde com a vida de Zossima. Dostoiévski anotou, depois de concluído o livro, que todo ele é a resposta à lenda do Grande Inquisidor. Convém ler os dois livros sem pressa e na sequência, porque o segundo responde ao primeiro.