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Os Irmãos Karamázov · Livro XII

Um erro judiciário

Resumo do livro

O Livro XII é o julgamento, e o narrador, que se diz sem forças para contar tudo, escolhe o que mais o feriu: a sala cheia de gente que veio ver um espetáculo, os depoimentos que se desfazem, a catástrofe que atira Ivan e Catierina Ivánovna contra o réu que queriam salvar, e os dois discursos. O promotor Hippolit Kiríllovitch ergue uma explicação psicológica do crime, o advogado Fietiukóvitch ergue outra, com os mesmos fatos, e o próprio advogado diz o que isso vale: a psicologia é uma vara de duas pontas. Dmitri Fiódorovitch Karamázov, que não matou, ouve ser descrito como calculista e como vítima, e não cabe em nenhum dos retratos. O tribunal funciona sem falha visível, e é por isso que erra: a pergunta que fica é o que se perde quando a vida de um homem é reconstruída pela dedução, e quem, numa sala assim, ainda ouve o que ele diz.

Capítulo I: Abre-se a sessão

Resumo do capítulo

No dia seguinte aos fatos do Livro XI, às dez da manhã, abre-se o julgamento de Dmitri Fiódorovitch Karamázov. O narrador avisa que não tem forças para contar tudo, nem na ordem, e que dirá só o que o impressionou. A sala está tomada, com gente de outras cidades, de Moscou e de Petersburgo, juristas amontoados atrás de uma grade, e pelo menos metade do público de mulheres, quase todas a favor de Mítia, porque o imaginam um conquistador, enquanto os homens, em geral, são hostis. Esperam as duas rivais, Catierina Ivánovna, de quem se conta que pedirá para acompanhá-lo aos trabalhos forçados, e Grúchenka, que as damas conhecem como a mulher que perdeu pai e filho. O promotor Hippolit Kiríllovitch é ambicioso e doente, magoado desde Petersburgo por ter sido pouco reconhecido, e vê no caso a chance de ressuscitar a carreira, com o temor de encontrar o mestre da defesa, Fietiukóvitch. O presidente é culto e humano, e interessado no fenômeno, não nas pessoas. Sobre a mesa, o corpo de delito: o roupão de seda manchado de sangue de Fiódor Pávlovitch, o pilão de cobre, a camisa e o paletó de Mítia, o lenço endurecido, a pistola, o envelope com a fita rosa. Os doze jurados são quatro funcionários, dois comerciantes e seis camponeses e pequeno-burgueses. O narrador reconhece o que as damas diziam, que gente assim pouco entenderia de um caso tão sutil:

Análise

Тем не менее лица их производили какое-то странно внушительное и почти грозящее впечатление, были строги и нахмурены., mesmo assim os rostos deles causavam uma impressão estranhamente imponente e quase ameaçadora, severos e carrancudos.

O narrador examina os doze jurados com a dúvida das damas, que um caso tão fino caia em mãos de funcionários miúdos e mujiques, e reconhece, mesmo assim, que os rostos impõem. Prepara o leitor: o veredicto virá do povo que a sala julga incapaz, e a surpresa, a dele e a nossa, será a medida da distância entre a plateia letrada e quem decide.

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Capítulo II: As testemunhas da acusação

Resumo do capítulo

O narrador diz que não descreverá todos os interrogatórios, porque o essencial vai estar nos discursos, e nota o que todos viram desde o começo: a acusação é muito mais forte que a defesa. As damas, que querem a absolvição, estão convencidas da culpa, e a absolvição seria "por humanidade"; os homens querem ver o que Fietiukóvitch pode tirar de um caso perdido. O advogado, que estudou o processo em três dias, não propõe nenhuma versão alternativa: manchar a reputação de cada testemunha da acusação. Grigori depõe tranquilo e majestoso, diz que Fiódor Pávlovitch foi injusto com o filho, e confirma a porta aberta, sem ceder. Fietiukóvitch lhe pergunta do que era feito o bálsamo com que esfregou as costas: sálvia, tanchagem, pimenta, em álcool, e do que sobrou bebeu cerca de um copo; um copo e meio, insinua o advogado. Pergunta se não pode ter visto as portas do paraíso abertas em vez da porta do jardim, e que ano é hoje; Grigori, atordoado, não responde, e acaba dizendo:

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Capítulo III: Os peritos e as nozes

Resumo do capítulo

A perícia médica ajudou pouco, e Fietiukóvitch não contava com ela; ela nasceu da insistência de Catierina Ivánovna, que fez vir o médico famoso de Moscou. Os três peritos são o médico de Moscou, o doutor Herzenstube e o jovem Varvínski. Herzenstube, setenta anos, honesto e piedoso, fala um russo de construção alemã, que ele julga melhor que o dos russos, e esquece palavras, que procura com a mão no ar. Declara que a anormalidade do réu é evidente, porque Dmitri Fiódorovitch Karamázov entrou na sala olhando fixo à frente, quando, sendo grande admirador das mulheres, devia olhar à esquerda, para as damas. O médico de Moscou fala em "afeto" e "mania" e diz que Mítia devia olhar à direita, procurando o defensor. Varvínski declara o réu normal, e que olhar diretamente aos juízes de que dependia era justamente o sinal de normalidade. Mítia grita "Bravo, médico!", e a opinião do mais jovem pesa mais. Depois, como testemunha, Herzenstube conta de Mítia criança, sem botinas, no quintal do pai, e como lhe levou uma libra de nozes, ensinando-lhe "Gott der Vater". Vinte e três anos depois o jovem entrou em seu consultório, levantou o dedo e disse:

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Capítulo IV: A sorte sorri a Mítia

Resumo do capítulo

Começam as testemunhas da defesa, e a sorte sorri a Dmitri Fiódorovitch Karamázov, inesperadamente até para a própria defesa. Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov depõe sem juramento, tratado com simpatia, e pinta o irmão como violento e passional, mas nobre, e nega que pudesse matar por dinheiro. O promotor lhe pergunta se Mítia lhe disse que mataria o pai. Aliócha responde que não diretamente, que falou de ódio e do medo de que "num momento de repulsa" pudesse matá-lo:

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Capítulo V: A catástrofe

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Ivan Fiódorovitch Karamázov fora chamado antes, mas o oficial de justiça avisara que ele passava mal e depunha quando melhorasse; agora se aproxima devagar, sem olhar ninguém, de cabeça baixa, o rosto "tocado pela terra", como o de um moribundo. Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov se levanta e geme "ah". O presidente lembra que ele depõe sem juramento, e Ivan começa a rir. Responde de má vontade, curto, com um desgosto crescente, que não tem nada de especial a dizer, e pede para sair; dá quatro passos, para, sorri sozinho e volta. Conta a história da camponesa que diz "quero, pulo, quero, não pulo" e tira do bolso um maço de dinheiro, que manda entregar ao presidente: é o dinheiro do envelope, recebido ontem de Smierdiakóv, o assassino, antes de se enforcar. Quem matou o pai foi ele, e não o irmão, e ele próprio, Ivan, o ensinou a matar, pois quem não deseja a morte do pai? O presidente, atônito, pergunta se está louco, e Ivan, virando-se à plateia:

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Capítulo VI: O promotor e a família Karamázov

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Hippolit Kiríllovitch começa trêmulo, com suor frio e calafrios, e considera a fala a sua obra-prima, o seu canto do cisne: nove meses depois morreria de tuberculose. Põe nela o coração e o espírito, e vence porque é sincero: crê de verdade na culpa do réu, e treme de desejo de "salvar a sociedade". Abre pelo horror: já nos horroriza pouco o que devia horrorizar, e esse é o horror verdadeiro:

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Capítulo VII: Esboço histórico do caso

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O promotor passa à perícia: o réu não é louco, e isso é pior, porque, louco, seria mais esperto. Concorda com o jovem médico, mas explica o "delírio" dos três mil rublos por outra causa, mais próxima que a mania:

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Capítulo VIII: O tratado sobre Smierdiakóv

Resumo do capítulo

O promotor examina a suspeita sobre Smierdiakóv. O primeiro a gritar que fora ele foi o próprio réu, na prisão, sem apresentar um fato; só três pessoas o apoiam, os dois irmãos e Grúchenka, e todas por laços: Ivan Fiódorovitch Karamázov, só hoje, doente; Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov, "pela expressão do rosto"; Grúchenka, porque Dmitri Fiódorovitch Karamázov não mente. Descreve o morto como fraco de espírito, confuso com ideias filosóficas, aterrorizado por Mítia, servindo-lhe de espião, torturado por remorsos de infiel, e que cai na crise ao se ver sem proteção, ao descer ao porão a pensar "e se vier agora?" Pergunta de que adiantaria fingir, e conta quem esteve na casa naquela noite, cinco pessoas, das quais três estão fora de cogitação, restando Mítia e Smierdiakóv. A acusação ao morto nasce, diz, de que não há outro nome:

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Capítulo IX: Psicologia, a troika e a peroração

Resumo do capítulo

O promotor segue o método histórico, que os oradores nervosos amam porque os contém, e chega ao momento em que Dmitri Fiódorovitch Karamázov, ciumento de todos, cai diante do "antigo" e "indiscutível". Diz que a sua queda tem uma lógica: entende que o "outro" foi o seu único bem para Grúchenka, que ela o ama, e que ele, com o sangue do pai nas mãos, nada tem a lhe oferecer. A saída que lhe vem é o suicídio. Corre atrás das pistolas empenhadas a Pierkhótin, tira do bolso todo o dinheiro e planeja uma última festa, para depois estourar a cabeça aos pés dela. O promotor vê nisso muita pose romântica e, além dela, algo que bate sem parar no cérebro e envenena o coração: a consciência. E, antes de fechar a análise:

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Capítulo X: A defesa de Fietiukóvitch

Resumo do capítulo

Quando Fietiukóvitch começa, a sala o devora com os olhos: fala direto, simples, convicto, sem patético nem frases sonoras, com a voz bonita, curvando a espinha comprida como que lançando-se aos ouvintes. Apresenta-se como um homem que só defende quem tem por inocente, e formula a sua tese no início, porque não guarda efeitos:

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Capítulo XI: Nem dinheiro, nem roubo

Resumo do capítulo

Um ponto surpreende a todos: a negação de que os três mil rublos tenham existido, e portanto de que houvesse roubo. Fietiukóvitch nota que só Smierdiakóv viu o dinheiro, e que ninguém sabe quando o viu pela última vez; a cama não estava revolvida, e o envelope no chão, que o próprio promotor disse ser o único indício, pode ter sido aberto e lançado ao chão pelo velho, ansioso, para mostrar as cédulas à amada. Cita o caso de um rapaz de dezoito anos que em Petersburgo matou um cambista e fugiu com mil e quinhentos rublos, preso horas depois com a soma e a composição das cédulas, e confessou: isso, diz, é uma prova. Aqui nada. Os mil e quinhentos achados são os que o réu sempre disse ter, e a metade escondida em Mókroie é "o castelo de Udolfo". O advogado resume o que o promotor construiu e o que a realidade diz:

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Capítulo XII: Não houve assassinato

Resumo do capítulo

Fietiukóvitch lembra aos jurados que ali há uma vida e que a própria acusação admitiu hesitar em afirmar premeditação até a carta "bêbada" desse dia. Dmitri Fiódorovitch Karamázov, diz, correu atrás de Grúchenka só para saber onde estava; se ela estivesse em casa, ficaria com ela e não faria o que a carta dizia. O pilão estava à vista, na prateleira; num armário, o réu teria saído de mãos vazias e talvez ninguém tivesse morrido. Os gritos nas tavernas, diz, são de bêbados e de crianças, e a carta pode ser mais um grito de quem sai de um botequim. A lógica da acusação, "esteve no jardim, logo matou", se resume em "esteve, logo foi". E se não foi, ainda que tenha estado? Mítia pode ter entrado, empurrado ou até batido no pai, e fugido aliviado por não achar Grúchenka ali; pulou o muro para socorrer Grigori porque o coração estava limpo; não se matou em Mókroie porque "a mãe rezara por ele". Resta a pergunta do promotor: quem então matou? O promotor diz que não há outro nome. O advogado responde que não há porque ele excluiu Smierdiakóv de antemão, e lista o que aponta para o criado: o ataque no dia do crime, o suicídio na véspera do julgamento, o testemunho de Ivan Fiódorovitch Karamázov. Descreve o morto como o conheceu: não fraco nem simples, mas desconfiado, ambicioso, rancoroso e invejoso, envergonhado da origem e do apelido de "filho da Fedorenta", a sonhar com a França, e que ficou deslumbrado ao ver três mil rublos em notas de uma só vez. Imagina que ele acordou com o grito de Grigori, foi ao jardim, ouviu do patrão aterrorizado o que se passara e, num cérebro doente, concebeu a ideia terrível e irresistível: matar, tomar os três mil e lançar tudo sobre o filho. Nota que o raciocínio do promotor sobre o envelope era o mesmo que Smierdiakóv lhe expusera dois dias antes, com ar de ingenuidade, como se o quisesse impor. Responde à pergunta do bilhete, por que o criado não confessou na carta:

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Capítulo XIII: Um sofista e o parricídio

Resumo do capítulo

O advogado diz que não é a soma dos fatos que perde Dmitri Fiódorovitch Karamázov, e sim um só: o cadáver do pai. Tivesse sido assassinato simples, os jurados o rejeitariam por falta de prova; como é parricídio, o corpo impõe. O sangue de um pai que amou, que sofreu com as doenças do filho, é sagrado; mas Fiódor Pávlovitch não era isso. Lembra o que o doutor Herzenstube contou, o menino sem botinas e as nozes. Pergunta quem é culpado, por trás da brutalidade do réu, de ter recebido tal educação: Mítia cresceu como animal selvagem, pelo amparo divino, e reunia ternura onde só se vê violência. E diz o que é um pai:

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Capítulo XIV: O veredicto

Resumo do capítulo

O entusiasmo é incontrolável, as mulheres choram, alguns homens também, o presidente cede. O promotor se levanta para réplica, odiado pela sala, pálido e trêmulo, e fala por pouco tempo. Diz que o advogado fez romance sobre romance, um Smierdiakóv byroniano e um réu que mata e não mata, "uma esfinge", e que da tribuna da verdade e das ideias sãs saiu a tese de que chamar de parricídio a morte de um pai é preconceito:

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