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Os Irmãos Karamázov · Livro IX

O processo preparatório

Resumo do livro

O Livro IX vira o romance do avesso. O que os dois livros anteriores deixaram só para o leitor (o ciúme, o pilão, a corrida a Mókroie) precisa agora virar depoimento diante de gente que não esteve lá, e é a distância entre os dois lados que o livro mede. O funcionário Pierkhótin põe a engrenagem em movimento sem querer, por inquietação e por medo de escândalo; a cidade, quando ele chega, já sabe; e, em três «provações» que ocupam a madrugada, Dmitri Fiódorovitch Karamázov fala demais, se irrita, esconde só o que mais o envergonha e, quando enfim o conta, conta-o bem e não é acreditado. O promotor Hippolit Kiríllovitch e o juiz de instrução Nikolai Parfiónovitch leem Mítia como um tipo conhecido, o fanfarrão que se mata depois da farra, e cada testemunha, sem querer prejudicá-lo, o confirma. A parte que o inquérito não escuta, a pena que o fez pular sobre Grigori, volta num sonho em forma de uma criança com frio, e é com ela que o livro fecha.

Capítulo I: Pierkhótin e a senhora Khokhlakova

Resumo do capítulo

Pierkhótin continua a bater no portão de Morózova até que o porteiro, depois de perguntar quem é, o deixa entrar. Fénia, aterrorizada duas horas antes e agora de novo, conta a ele o pilão que Mítia levou da cozinha e que voltou sem o pilão, mas com as mãos sangrando («o sangue pingava, pingava!», exagera ela), e que Mítia lhe teria dito que era sangue humano e que acabava de matar alguém. Pierkhótin, que viu as mãos e ajudou a lavá-las, insiste só na pergunta de aonde Mítia correu com o pilão; sai convencido de que ele só podia ter ido à casa do pai. O caminho mais curto seria ir à casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov ver se aconteceu algo; mas a noite está escura, o portão é forte, ele mal conhece o velho, e o escândalo de bater e ser ridicularizado na cidade é o que mais teme no mundo. Decide, em vez disso, a coisa mais escandalosa que poderia fazer: bater às onze da noite à porta de uma senhora que não conhece e perguntar-lhe se deu três mil rublos a Mítia. Se ela disser que não, vai direto ao isprávnik; se disser que sim, volta para casa.

Análise

Pierkhótin troca duas vezes de destino na mesma rua porque o que o move não é a dedução, é a inquietação, que cresce até virar dor e o leva «contra a vontade». Escolhe verificar a origem do dinheiro de Mítia, e não o sangue, por ser o ponto mais fácil de provar ou desmentir. Assim a pergunta a que a cidade vai reduzir o caso, de onde veio o dinheiro, nasce como pretexto de um funcionário com medo do ridículo.

A senhora Khokhlakova se recusa a recebê-lo, depois cede à curiosidade, e quando ele pronuncia o nome de Mítia explode: pergunta quando vão deixá-la em paz com aquele homem horrível, que há três horas veio ali matá-la. Pierkhótin lhe conta a pistola, o dinheiro, o sangue, e que Mítia afirmou ter recebido os três mil dela, para ir às minas de ouro. O rosto dela muda:

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Capítulo II: O alarme

Resumo do capítulo

Na casa do isprávnik Mikhail Makárovitch, oficial reformado, viúvo, bom anfitrião, de pouco saber da própria função e muita hospitalidade, estavam por acaso nessa noite o promotor adjunto Hippolit Kiríllovitch, de uns trinta e cinco anos, doente do peito, casado com uma gorda sem filhos, ambicioso e irritadiço, que se julga psicólogo e injustiçado na carreira; o médico Varvínski; e, com as moças, o jovem juiz de instrução Nikolai Parfiónovitch Nieliúdov, recém-chegado de Petersburgo, pequeno, vaidoso, fino. Pierkhótin entra e vê que todos já sabem: Fiódor Pávlovitch foi assassinado e roubado.

O alarme fora dado por Grigori e sua mulher. Marfa Ignátievna acordara com o grito que abre os ataques de epilepsia de Smierdiakóv, viu a cama do marido vazia, saiu, ouviu gemidos no jardim e o encontrou a vinte passos da cerca, para onde se arrastara depois de desmaiar e voltar a si, com a cabeça coberta de sangue e murmurando «matou… o pai matou… não grite, boba… corra, chame». Pela janela viu o patrão caído no chão, de roupão, com o peito banhado em sangue; correu às vizinhas, Maria Kondrátievna e a filha, e a um vagabundo que dormia ali, Foma. Maria Kondrátievna lembrou o grito que ouvira às nove, «alguém gritou e calou de repente», o de Grigori ao agarrar a perna de Mítia. Lavaram a cabeça do velho com água e vinagre; acordado, ele perguntou pelo patrão e mandou chamar o isprávnik. Maria Kondrátievna chegou cinco minutos antes de Pierkhótin.

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Capítulo III: A primeira provação

Resumo do capítulo

Quase de madrugada chegam a Mókroie o isprávnik, o promotor e o juiz de instrução, e começa o inquérito que o título do capítulo chama de primeira provação, a primeira das passagens por que Mítia terá de passar para responder pela morte do pai. Ele está sentado numa sala, com olhar selvagem, sem entender o que lhe dizem. De repente se levanta, ergue os braços e grita, num só fôlego, a recusa da culpa e a confissão do desejo, que o processo vai querer separar:

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Capítulo IV: A segunda provação

Resumo do capítulo

Nikolai Parfiónovitch se anima com a disposição de Mítia, e o narrador esclarece o par: o juiz, recém-chegado, venera o promotor, o único que acredita no talento psicológico e oratório de Hippolit Kiríllovitch e na sua injustiça de carreira; e este, em troca, ama o rapazinho como a única pessoa que o admira. Os dois combinaram na viagem o plano do caso e leem um ao outro no olhar. Sabem o que querem de Mítia.

Mítia pede que o deixem contar sozinho, sem interrupções. Começam por uma bagatela, os dez rublos das pistolas, que o fazem voltar atrás: ele conta o dia desde o começo, do plano com Samsónov. À pergunta do promotor sobre por que precisava justamente de três mil rublos, responde que isso não se explica sem três volumes; à pergunta a quem devia, nega-se.

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Capítulo V: A terceira provação

Resumo do capítulo

Mítia conta como saltou a cerca, como andou até a janela e o que sentiu ali, com precisão, e os dois ouvem com estranha reserva. Ao falar do sinal que deu ao pai, o promotor e o juiz não reparam na palavra, como se não entendessem o que ela significava. Quando chega ao instante em que viu o pai na janela e tirou o pilão do bolso, para, olhando a parede. O juiz pergunta o que aconteceu então.

Mítia, de repente, com ironia violenta: «Então matei, rachei-lhe o crânio, não é assim, na versão de vocês?». Depois, devagar: a versão dele é que, por lágrimas de alguém, por uma prece de sua mãe, por um espírito de luz que o beijou, o diabo foi vencido; ele fugiu da janela, o pai se assustou, viu-o pela primeira vez e saltou para trás, e quando já estava montado na cerca Grigori o alcançou. Os dois ouvem com atenção serena, e Mítia explode: não acreditam em nada. O promotor pergunta, como que sem notar, se a porta do jardim, na outra ponta da casa, estava aberta.

Mítia responde que estava fechada, e quem a abriria? Mas então a porta! Os senhores a encontraram aberta? Encontraram, e o promotor, devagar, declara que o assassino de seu pai entrou por ela e saiu por ela, isto lhes é claríssimo. Mítia fica atônito: jura que não entrou, que a porta estava fechada o tempo todo. Só ele, Smierdiakóv e o morto conheciam os sinais, e sem sinais o velho não abriria a ninguém. O promotor, com curiosidade quase histérica, quer saber que sinais são esses; Mítia, que adora saber algo que eles ignoram, os expõe e os bate sobre a mesa, e confessa que ele mesmo bateu o sinal «Grúchenka chegou». O promotor, de súbito, tem uma ideia: Smierdiakóv, que também conhecia os sinais, não teria sido ele quem os bateu e fez o velho abrir?

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Capítulo VI: Mítia despido

Resumo do capítulo

Atrás das cortinas, na presença de camponeses que ele julga ali «para a força, e talvez para algo mais», pedem-lhe que tire o paletó, depois que se dispa por inteiro. Tudo é feito com um desprezo que ele sente nas costas: o juiz e o promotor examinam o casaco, as calças, o colete, a boina; apalpam as costuras à procura de dinheiro; o escrivão lembra o caso de um copista que escondeu notas de cem dobradas no forro de uma boina. Encontram as grandes manchas de sangue seco, o punho da camisa virado para dentro e encharcado, que Mítia explica pelo contato com Grigori. A camisa também será levada, como prova.

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Capítulo VII: O segredo dos mil e quinhentos

Resumo do capítulo

«Senhores, esse dinheiro era meu», começa Mítia. Os dois ficam de queixo caído: não esperavam isso. Era dele, ou melhor, «roubado», e eram mil e quinhentos rublos, que estiveram o tempo todo com ele, num trapo, pendurados no pescoço, havia um mês, com vergonha e opróbrio. Roubados de quem? Não do pai: de Catierina Ivánovna. Um mês antes ela lhe dera três mil rublos para enviar a uma irmã e a uma parente em Moscou, e ele, que acabava de se apaixonar por Grúchenka, a levou a Mókroie e gastou em dois dias metade deles; a outra metade ficou sobre o peito, num trapo, para o dia em que ela dissesse «leva-me para o fim do mundo» e ele não tivesse com que ir. Os oitocentos e trinta e seis rublos que entregou são o troco dos mil e quinhentos que gastou ontem à noite. O promotor pergunta se alguém sabia; ninguém. A cidade inteira sabe que ele gastou três mil, mas foi ele que o disse, ao mundo, e o mundo passou a contar assim.

O promotor se irrita: a explicação lhe parece pouca para um segredo tão custoso. Apropriar-se de três mil rublos alheios, e provisoriamente, é leviandade, quando muito algo reprovável, não uma desonra; muita gente já suspeitava, a cidade tinha por lenda que ele dissipara o dinheiro de Kátia. Por que então tamanho horror ao segredo?

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Capítulo VIII: As testemunhas e o sonho

Resumo do capítulo

Começa o interrogatório das testemunhas, e o narrador resume: o ponto que concentra tudo é se foram três mil ou mil e quinhentos, no primeiro farreado e agora. Todos os depoimentos vão contra Mítia, e alguns trazem fatos novos que o desmentem. O hospedeiro Trifon Borissitch, severo e indignado, afirma que um mês atrás não se gastou menos de três mil, só com os ciganos mais de mil, e que ontem Mítia lhe disse, ao descer da troica, que trazia três mil; e, no salão, ao festejar o coro, gritou que deixava ali a sexta mil, somando à de um mês atrás. A cifra «seis mil» agrada aos magistrados: três mais três. Camponeses, o cocheiro Andriéi (que conta ainda a conversa da estrada, «se vou para o céu ou para o inferno, e se me perdoarão lá») e Kalganov confirmam. Kalganov, de má vontade, diz que viu os poloneses trapacearem, que depois de os expulsarem Grúchenka disse amá-lo e fala dela com respeito, sem nunca dizer «Grúchenka».

Os poloneses são o ex-veterinário Mussiálovitch e o dentista Vrublévski; chamam o isprávnik de «coronel», e Mítia grita «canalha» e pede que se registre. Os dois contam como ele os comprou, no quartinho, com três mil, setecentos de entrada e dois mil e trezentos «na cidade, amanhã», jurando que não os tinha ali. Mítia primeiro nega e depois admite que deve ter dito. O promotor se agarra a isso: parte do dinheiro ficou escondida na cidade, ou ali mesmo, o que tira de Mítia a única circunstância a favor, a de que só se achassem oitocentos rublos. Mítia explica que ofereceria ao polaco um documento sobre os direitos a Tchermachniá, o mesmo que oferecera a Samsónov e a Khokhlakova, e o promotor sorri da «inocência do artifício». Os poloneses saem, com os duzentos rublos no bolso. Maksímov, em lágrimas, jura que Mítia tinha «vinte mil» na mão; mas só viu uma pilha assim uma vez, de sete mil, quando a mulher hipotecou a aldeia dele.

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Capítulo IX: O auto de prisão

Resumo do capítulo

Assinado o protocolo, Nikolai Parfiónovitch lê a Mítia o «Despacho» que, dadas as provas contrárias e a falta de qualquer prova a favor, manda recolhê-lo à cadeia. Mítia dá de ombros: não os acusa, compreende que não lhes resta outra coisa. O juiz diz que o levará o comissário Mavríki Mavríkievitch.

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