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Os Irmãos Karamázov · Livro III

Os sensuais

Resumo do livro

O Livro III desce do palco do mosteiro para dentro da casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov e para o que a família esconde. Nele aparece a origem de Smierdiakóv, filho de uma louca de Deus que ninguém sabe de quem engravidou e criado por Grigori; Dmitri Fiódorovitch Karamázov se confessa a Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov em três etapas (em versos, em anedotas e de cabeça para baixo) e abre o triângulo com Catierina Ivánovna e Grúchenka, com três mil rublos num envelope no meio; Ivan Fiódorovitch Karamázov responde ao pai que não há Deus nem imortalidade, e a invasão de Mítia à casa do velho põe a violência no lugar da ameaça. O título é a chave dita pelo próprio Mítia: os Karamázov são sensuais por herança, insetos que a beleza tanto salva quanto arruína. A pergunta que o Livro deixa é até onde um homem responde pelo que ele mesmo chama de queda bonita.

Capítulo I: A casa de Fiódor e os criados

Resumo do capítulo

A casa de Fiódor Pávlovitch Karamázov não fica nem no centro nem na periferia, velha mas agradável, de um andar e mezanino, cheia de despensas, esconderijos e escadinhas. Nela moram agora só Fiódor e Ivan Fiódorovitch Karamázov; no pavilhão do pátio, três criados: o velho Grigori Vassílievitch, sua mulher Marfa Ignátievna e o jovem Smierdiakóv. Grigori é um homem firme e inflexível, que vai em linha reta a um ponto sempre que o toma por verdade, honesto e incorruptível. Quando veio a emancipação dos servos, Marfa quis deixar Fiódor, ir a Moscou e abrir um comércio com o dinheirinho que tinham, mas Grigori decidiu de uma vez por todas que a mulher falava à toa e que ficar com o antigo senhor, fosse ele como fosse, era dever deles.

Análise

И не понимай, а оно так будет. Впредь молчи., E não entenda, mas assim será. Daqui em diante, cale-se.

Grigori impõe o dever sem dar razão: para ele vale mesmo o que não se entende, e basta que Marfa o cumpra. Marfa, mais ponderada que o marido, cede, e o texto diz que o respeita pela altura de espírito. A cena mostra o que sustenta a casa: a lealdade de um criado que não pergunta se o patrão a merece.

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Capítulo II: Lisavieta e a origem de Smierdiakóv

Resumo do capítulo

O narrador volta atrás para dizer quem era Lisavieta, a Fedorenta, e por que o achado abalou Grigori. Pouco mais de um metro e quarenta, rosto largo, corado e idiota de vinte anos, descalça o ano inteiro e só de camisa de estopa, o cabelo negro e crespo sempre sujo de terra e folhas, falava só mugidos. O pai, Ilia, bêbado e doente, a espancava; os patrões dele e muita gente piedosa tentaram vesti-la, e ela deixava tudo no adro da catedral. Era querida: nem os meninos a ofendiam, entrava em qualquer casa e recebia moedas, que levava à caixa da igreja ou da prisão, comia só pão preto com água, dormia nos pátios, e nas lojas ricas não tocava num copeque mesmo com milhares à vista. Os senhores diziam que era orgulho, mas ela nem falava.

Numa noite de setembro, de lua cheia, um bando de cavalheiros bêbados que voltava para casa pelos fundos achou Lisavieta dormindo entre urtigas e bardanas. Riram, e um deles propôs a pergunta absurda: poderia alguém tomar tal bicho por mulher? Todos disseram com nojo que não. Fiódor, que então representava de propósito o bufão, saltou a dizer que sim, e até com certa pimenta. O bando riu e foi embora; Fiódor depois jurou que foi com eles.

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Capítulo III: Mítia confessa em versos

Resumo do capítulo

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov sai do mosteiro sem saber o que fazer com o grito do pai, que o mandava mudar-se hoje, com colchão e travesseiro: não tem medo do pai, sabe que foi arroubo de teatro, como o de um burguês bêbado que quebra a própria louça no dia do santo e no dia seguinte lamenta os pratos. Seu medo é de outra espécie, e maior: Catierina Ivánovna, que o chamou por bilhete e que ele não sabe por que teme. Ela é bela, altiva e dominadora, e os fins dela são nobres, salvar Mítia, que a ofendeu. Para chegar à casa dela, e não perder tempo, corta caminho pelos fundos, e, passando junto ao jardim da vizinha do pai, vê Dmitri Fiódorovitch Karamázov debruçado sobre a cerca, fazendo sinais com as mãos, sem poder gritar. Mítia o ajuda a pular e o leva, aos sussurros, a uma velha glorieta no canto do jardim, com mesa verde e meia garrafa de conhaque.

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Capítulo IV: Mítia confessa em anedotas

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Mítia passa dos versos às anedotas e começa pelo que o pai disse na cela: que ele pagava milhares para seduzir moças. Isso, diz, é um fantasma porco, que nunca existiu; o que houve não pedia dinheiro, o dinheiro era acessório. Gostava das vielas escuras e do vexame da devassidão, e da crueldade, e se pergunta se não é um percevejo, um inseto mau. Conta de um piquenique de sete troikas, em que, no escuro do trenó, apertou a mão de uma filha de funcionário pobre e a levou a beijos, e depois a ignorou por cinco meses, enquanto ela o seguia do canto do salão com um fogozinho de mansa indignação; só por prazer do inseto. Ela casou com um funcionário e vive feliz, e ele nunca contou a ninguém. Aliócha cora, e diz que não é pelas palavras nem pelos atos do irmão, mas por ser igual a ele, e o explica com a escada:

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Capítulo V: Os três mil e o pedido a Aliócha

Resumo do capítulo

Aliócha diz que a primeira metade da história ele entende, e Mítia a chama de drama; a segunda é tragédia, e é aqui. No dia seguinte, a criada de Catierina trouxe um pacote com o troco da nota de cinco mil, duzentos e sessenta rublos, sem bilhete. O tenente-coronel prestou contas com sucesso, mas caiu doente e morreu em cinco dias; Catierina, a irmã e a tia partiram para Moscou, e antes um bilhetinho azul, a lápis, disse que ela escreveria e que Mítia esperasse. Em Moscou a generala parenta delas perdeu as duas sobrinhas de varíola, adotou Catierina como filha e lhe deu oitenta mil de dote. Mítia recebeu os quatro mil e quinhentos pelo correio e, três dias depois, a carta prometida. Guarda-a sempre, e a mostraria; nela Catierina se oferece em casamento:

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Capítulo VI: Smierdiakóv à mesa de Fiódor

Resumo do capítulo

Aliócha encontra o pai ainda à mesa, na sala (a casa tem sala de jantar de verdade, mas ele prefere a grande sala, com móveis antigos brancos de estofo vermelho gasto, dois retratos e ícones com lamparina). O almoço acabou; servem geleia, café e licor. Ivan está ali, e Grigori e Smierdiakóv de pé. Todos de bom humor. Fiódor festeja a chegada de Aliócha, manda buscar licor e pergunta pelo colchão; diz que o ama e que lhe dará a bênção paterna, mas se corrige, e só o persigna: agora vai ser divertido, pois a burra de Balaão se pôs a falar.

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Capítulo VII: A controvérsia sobre o soldado e a fé

Resumo do capítulo

A burra de Balaão fala. Grigori ouvira de manhã, na venda de Lukiánov, a história de um soldado russo que, preso por asiáticos e ameaçado de morte atroz se não renegasse o cristianismo e abraçasse o islã, recusou, deixou-se esfolar vivo e morreu louvando a Cristo, e o jornal do dia trazia a notícia. Conta-a à mesa. Fiódor, de bom humor, diz que o soldado devia ser promovido a santo na hora, e a pele dele mandada a algum mosteiro, para chover gente e dinheiro:

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Capítulo VIII: O conhaque e a pergunta sobre Deus

Resumo do capítulo

O debate acaba, e Fiódor, alegre há pouco, franze a testa e bebe uma taça de conhaque a mais. Despacha os criados, com o ducado prometido a Smierdiakóv, e pergunta a Ivan por que o criado frequenta a mesa desde que ele chegou. Ivan diz que é lacaio e boçal, carne de vanguarda quando chegar a hora; Fiódor, que uma burra dessas pensa, pensa, e ninguém sabe onde chegará. Ele não rouba, não fofoca, faz boas empadas; que o diabo o leve. Os mujiques devem ser surrados, Rússia é porcaria, e conta a história de Mókroie, onde os velhos adoram açoitar as moças por sentença para que os rapazes as tomem depois por noivas. Aliócha cora, e ele lamenta ter ofendido o abade.

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Capítulo IX: Mítia invade a casa e bate no pai

Resumo do capítulo

Grigori e Smierdiakóv entram atrás de Mítia: tinham lutado com ele no vestíbulo, por ordem do próprio Fiódor, dada dias antes. Grigori corre à frente, fecha as portas dos aposentos internos e fica diante delas de braços em cruz, pronto a defender a entrada até a última gota. Mítia, ao ver isso, quase uiva, grita que ela está ali, escondida, e se atira sobre ele; Grigori o repele, e Mítia, fora de si, desfere um soco que o derruba e passa por cima dele. Smierdiakóv fica na ponta da sala, pálido e trêmulo, grudado em Fiódor.

O grito de Mítia, ela está aqui, muda o velho: o medo salta fora dele, e Fiódor corre atrás do filho, berrando que o agarrem. Um vaso de vidro cai e se estilhaça. Ivan e Aliócha o trazem de volta à sala. Fiódor se descontrola ao pensar que Grúchenka está em casa. Mítia volta, por ter achado a entrada dos fundos trancada, com a chave no bolso do pai, e todas as janelas fechadas; ela não podia ter entrado nem saído. Fiódor grita que ele roubou dinheiro do quarto; Mítia agarra o velho pelos dois tufos de cabelo que lhe restam nas têmporas, puxa-o e o joga no chão com estrondo, e ainda lhe dá duas ou três pisadas de salto no rosto. Ivan o arranca; Aliócha ajuda.

Mítia pede a Aliócha que jure se ela esteve ali, e Aliócha jura que não. Lembra-lhe que ao velho não se fale de dinheiro e que vá já a Catierina Ivánovna. Antes de sair, grita ao pai que não se arrepende do sangue, que guarde o sonho, porque ele também tem um, e o amaldiçoa e renega.

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Capítulo X: Catierina Ivánovna e Grúchenka frente a frente

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Aliócha sai da casa do pai abatido e com o espírito em pedaços, e teme juntar o que se espalhou. Paira sobre ele a pergunta principal: como acabará isso entre o pai, Mítia e a mulher? E há outros envolvidos, mais do que ele supunha. Ivan deu um passo em sua direção, e Aliócha se assusta. Curioso: ia a Catierina Ivánovna aterrorizado, e agora vai apressado, esperando orientação. Mas o recado ficou mais pesado, pois o caso dos três mil está decidido e Mítia, sentindo-se desonrado, já não parará diante de nenhuma queda.

São sete horas e escurece. Catierina vive numa casa ampla da rua Grande, com duas tias: uma, que só é tia da irmã Agáfia, calada, e outra, uma dama de Moscou, ainda que pobre, e as duas estão ali só por etiqueta. Na sala há sinais de visita: duas xícaras de chocolate pela metade, biscoitos, uvas-passas, doces; atrás das portas, passos e vestidos que correm. Catierina entra depressa, sorrindo com as duas mãos estendidas, e diz que não rezou por outra coisa o dia inteiro. Aliócha lembra que três semanas antes, quando Mítia o levou a apresentar-se, ela lhe pareceu altiva e dominadora, e que ele disse a Mítia que seria feliz com ela, mas sem sossego; agora vê no rosto dela bondade e franqueza, uma energia generosa e uma fé em si, e se sente culpado diante dela.

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Capítulo XI: Mítia na estrada e a carta de Lise

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Do centro ao mosteiro há pouco mais de uma versta. Já é quase noite. No meio do caminho, num cruzamento, sob um salgueiro, uma figura se atira sobre Aliócha, gritando que lhe dê a bolsa ou a vida. É Mítia, que o esperou ali porque é o único caminho ao mosteiro. Aliócha, abalado, chora, o que queria fazer havia tempo, por causa do sangue do pai, de há pouco, e agora esta brincadeira. Mítia pergunta se é inconveniente. E explica que, escondido sob o salgueiro, esperava Aliócha e pensou:

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