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Perguntas · Os Irmãos Karamázov

O que Freud disse sobre Os Irmãos Karamázov?

Freud dedicou ao romance e ao seu autor um ensaio, «Dostoiévski e o parricídio», de 1928. A tese é que Os Irmãos Karamázov trata do parricídio como Édipo Rei, de Sófocles, e Hamlet, de Shakespeare, e que isso não é acaso: para ele, dificilmente pode dever-se ao acaso que três das obras-primas da literatura de todos os tempos tratem do mesmo assunto.

Freud lê as três como graus crescentes de disfarce do mesmo desejo de matar o pai. Em Édipo Rei o próprio herói mata o pai, ainda que sem intenção consciente; em Hamlet o crime é cometido por outro, e o herói só é paralisado pela culpa que sente por identificação; em Os Irmãos Karamázov o assassino também é outro, Smierdiakóv, mas Dostoiévski dá ao personagem a própria epilepsia, como se confessasse que o neurótico nele era um parricida. Freud lê ainda a cena em que Zossima se ajoelha diante de Mítia como sinal da simpatia ilimitada do autor pelo criminoso, que seria quase um Redentor, o que tomou sobre si a culpa que outros deveriam carregar.

O ensaio também interpreta a vida do escritor. Freud sustenta que os ataques «epiléticos» de Dostoiévski eram histeria, não epilepsia orgânica, uma autopunição por um desejo de morte contra o pai, e supõe que as crises só tomaram forma epiléptica depois do assassinato do pai do escritor, aos dezoito anos. No mecanismo que descreve, o menino odeia o pai como rival e o ama como modelo, e o que sobra se deposita num superego sádico, diante do qual o ego se torna masoquista; a paixão pelo jogo, em que ele nunca descansava antes de perder tudo, seria também método de autopunição. Freud separa quatro facetas no escritor, o artista criador, o neurótico, o moralista e o pecador, e lamenta que a neurose o tenha unido aos carcereiros, em vez de fazê-lo mestre e libertador da humanidade.

É uma leitura, não um fato do livro. O romance mostra o crime de Smierdiakóv e a culpa dos filhos; que isso venha do complexo de Édipo e da neurose do autor é a hipótese de Freud. O próprio ensaio traz os limites: declara, na abertura, que o artista criador escapa à análise; assume uma visão de mundo que não é neutra, a ponto de prever que um conservador tomaria o partido do Grande Inquisidor e julgaria Dostoiévski de outro modo; e, segundo uma carta de Freud, foi escrito como favor a outra pessoa e com relutância. O próprio romance admite, pela boca de Ivan no julgamento, que todos desejam a morte do pai, mas tira disso uma conclusão moral, e não clínica: cada um é culpado diante de todos, e por isso ninguém pode julgar. Onde Freud vê sintoma, o livro vê uma verdade sobre a condição humana.

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