Os Irmãos Karamázov é narrado por um cronista, morador da cidade, que escreve em primeira pessoa treze anos depois dos fatos e que, antes de contar qualquer coisa, pede desculpas por ter escolhido um herói tão pouco notável.
No prefácio, ele diz que Aliócha não é um grande homem e que a biografia é uma só, mas os romances são dois: o primeiro, de treze anos antes, é preciso para entender o segundo. Chama o herói de excêntrico e diz que, às vezes, o excêntrico traz em si o cerne do todo. Mostra-se disposto a perder o leitor: dá-lhe, por cortesia, o direito de largar no primeiro episódio.
Diz o que viu e o que lhe contaram, admite o que não sabe, interrompe cenas para explicar o que Aliócha sentia, e confessa, no julgamento, que não tem forças para contar tudo. Inclui no livro um manuscrito de Aliócha, a vida do stáriets Zossima, escrito de memória, e avisa que não sabe se tudo foi dito naquela tarde ou acrescentado depois.
A escolha tem um efeito: o leitor lê as cenas decisivas com a dúvida de quem as conta. O cronista ama Aliócha, trata Fiódor com ironia e, ao falar do promotor e do tribunal, deixa ver o que pensa. Não decide por nós, mas também não deixa que os fatos falem sozinhos.