O tema na obra
O dinheiro entra no romance antes de Emma Bovary. No capítulo 2 da Parte I, a fortuna anunciada de Héloïse, a primeira mulher de Charles Bovary, se revela mentira quando o tabelião que a guardava foge com o dinheiro do escritório e a casa de Dieppe aparece hipotecada até os alicerces. No capítulo 8, o baile de La Vaubyessard mostra a Emma a riqueza como espetáculo: o champanhe gelado, as romãs que ela nunca tinha visto e os abacaxis que nunca tinha provado.
Na Parte II aparece o homem que vai decidir o enredo. Lheureux visita Emma no capítulo 5 com a caixa de fazendas, não insiste na venda e semeia o crédito. No capítulo 12 chega a fatura de duzentos e setenta francos pelos presentes que ela dá a Rodolphe Boulanger, e no capítulo 14 Charles assina um título pelos objetos da fuga que não houve e, ao tomar mil francos emprestados, outro que leva a dívida a mil duzentos e cinquenta francos.
Na Parte III a dívida toma conta do livro. No capítulo 2, em pleno luto pelo pai de Charles, Lheureux sugere a procuração; no 4, Emma compra cortinas a crédito; no 5, assina quatro letras de mil francos, e Lheureux lhe traz mil e oitocentos francos em vez de dois mil, porque o banqueiro Vinçart ficou com duzentos; no 6, chega a intimação de oito mil francos em vinte e quatro horas, e Lheureux fecha a porta. No capítulo 7 o oficial de diligências faz o inventário da casa, e Emma bate em vão à porta de Léon, do tabelião Guillaumin e de Binet; no 8, Rodolphe recusa os três mil francos, e ela come o arsênico. No capítulo 11, Charles vende a prata e os móveis, Berthe Bovary acaba numa fábrica de fiação e Homais recebe a Legião de Honra.
Lheureux nunca discute moral, e é ele, não um marido traído nem um padre, quem leva Emma à morte. A exaltação e a dívida crescem juntas: o crédito que compra os cenários do amor é o mesmo que a mata, e o pedido de dinheiro a Rodolphe é a prova que o amor romântico não aguenta. O desfecho distribui o dinheiro com ironia: a filha da mulher que gastou em luxo vai ganhar a vida numa fiação, e o homem que nunca arriscou nada é condecorado.
Onde aparece
- Parte I, capítulo 2: a fortuna da primeira mulher de Charles se revela uma mentira.
- Parte I, capítulo 8: o luxo do castelo mostra a Emma uma riqueza que ela nunca tinha visto.
- Parte II, capítulo 5: Lheureux oferece crédito sem pressa e sem vender nada.
- Parte II, capítulo 12: os presentes a Rodolphe geram a primeira fatura que Emma não pode pagar.
- Parte II, capítulo 14: Charles assina as letras que somam mil duzentos e cinquenta francos.
- Parte III, capítulo 2: em pleno luto, Lheureux planta a procuração.
- Parte III, capítulo 4: Emma compra a crédito as cortinas do quarto e sonha com um tapete.
- Parte III, capítulo 5: as quatro letras de mil francos, o desconto de Vinçart e a segunda procuração.
- Parte III, capítulo 6: a intimação de oito mil francos e a porta fechada de Lheureux.
- Parte III, capítulo 7: o inventário da casa e a volta inútil de Emma atrás de dinheiro.
- Parte III, capítulo 8: Rodolphe recusa os três mil francos, e Emma se envenena.
- Parte III, capítulo 11: a ruína de Charles, a fiação de Berthe e a condecoração de Homais.
Passagens
O crédito de Lheureux começa como gentileza.
- Uma miséria - respondeu -, uma miséria, mas não há pressa, quando desejar, não somos judeus!
A procuração entra no livro como um conselho.
Lheureux planta a procuração entre uma gentileza e outra:com uma procuração, seria simples, e então poderíamos fazer uns negociozinhos
O inventário expõe a vida de Emma como um corpo aberto.
e a sua vida, até aos recantos mais íntimos, foi, como um cadáver a que se faz a autópsia, exposta de par em par aos olhares daqueles três homens.
O narrador diz o que o pedido de dinheiro faz ao amor.
porque um pedido pecuniário é a mais fria e devastadora de todas as tempestades que podem desabar sobre o amor.
A última conta é paga pela filha.
Essa tia é pobre e manda a pequena trabalhar numa fábrica de fiação para ganhar a vida.