Clavis Libri

Personagem

Lipútin

Quem é

Lipútin é um funcionário avarento, liberal tido por ateu e mexeriqueiro, punido mais de uma vez por isso, de quem todos gostam pela graça má, uma das três figuras que o círculo de Stiepan Trofímovitch faz crescer (capítulo I da Primeira Parte). Sonha com o falanstério de Fourier e lê Considérant, mas guarda as sobras do jantar a chave. É casado com uma jovem bonita e tímida e tem uma criada, Agáfia, que serve de mensageira e, mais tarde, de espiã. No primeiro terço do livro leva notícias de uma casa a outra e goza, com prazer furioso, de ver duas pessoas se exporem uma à outra por intermédio dele; no segundo é um dos cinco do quinteto que Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski moldou na cidade; no terceiro acaba com um passaporte falso, numa bebedeira e num bordel de Petersburgo. O traço que o define é querer estar sempre um passo à frente de quem tem mais poder, e descobrir, na hora do corpo, que não estava à frente de ninguém.

Trajetória

No capítulo II da Primeira Parte, depois que Nikolai Vsievolódovitch Stavróguin agarra pelo nariz o velho Gagánov no clube, Lipútin, que adivinha o quanto o escândalo agrada a Nicolas, vai convidá-lo para o aniversário da mulher. Nicolas dança com a dona da casa, faz com que ela ria e a beija na boca três vezes diante de todos; Lipútin o leva até a escada com reverências. No dia seguinte a criada Agáfia aparece em casa de Varvara Pietrovna com o recado de que o patrão pergunta pela saúde de Nicolas depois da véspera, e Nicolas manda dizer que o patrão é o homem mais inteligente da cidade. A criada devolve a resposta que Lipútin previu:

Сами оченно хорошо про то знаем-с и вам того же самого желаем-с…, nós mesmos sabemos isso muito bem, senhor, e o mesmo desejamos ao senhor.
Primeira Parte: O pai dos demônios

Quando a cidade, depois da mordida no governador, conclui que Nicolas estava doente, Lipútin, dizem, foi o primeiro a adivinhar. Na despedida, Nicolas pergunta como ele conseguiu prever a resposta, e Lipútin diz que o tinha por inteligente e fingiu crer que estava fora de si. Nicolas replica que errou um pouco, pois esteve de fato doente, e pergunta se Lipútin pensa mesmo que se joga sobre pessoas em juízo perfeito, e com que fim; Lipútin se encolhe e não responde. Ao ver sobre a mesa um volume de Considérant, Nicolas o chama de fourierista; Lipútin salta e diz que a tradução é para a língua universal da república social e da harmonia, e Nicolas ri: essa língua não existe. Dos rostos que viu na cidade, é o dele que Nicolas guarda:

из всех впечатлений его, за всё время, проведенное им в нашем городе, всего резче отпечаталась в его памяти невзрачная и чуть не подленькая фигурка, de todas as impressões dele, em todo o tempo passado na nossa cidade, a que mais nitidamente ficou gravada na sua memória foi a figurinha apagada e quase vil.
Primeira Parte: O pai dos demônios

No capítulo III da Primeira Parte, o cronista, que o teme, o encontra na rua: Lipútin não pergunta nada e despeja as novidades da cidade, a governadora e suas conversas novas, a oposição que se forma no clube. À noite, Stiepan faz uma pergunta absurda, se Lipútin sabe ou não, e conclui que ele sabe tudo e ainda algo a mais. Lipútin entra na casa de Stiepan com Alexei Kiríllov, que apresenta como conhecido de Piotr, e logo revela, diante dele, que o engenheiro escreve um estudo sobre as causas do aumento dos suicídios, e acrescenta com deboche que Kiríllov rejeita toda moral, adota o princípio da destruição geral por bons fins e pede mais de cem milhões de cabeças para pôr a razão na Europa. Kiríllov se ofende. Na soleira, de passagem, Lipútin solta a primeira bomba: Kiríllov está de mau humor porque teve ruído com o capitão Ignat Lebiádkin por causa da irmã doida dele, que o capitão chicoteia de manhã e à noite. E conta o resto, quando Stiepan o agarra pelos ombros e o senta no meio da sala: Varvara Pietrovna o mandou chamar, perguntou-lhe confidencialmente se Nikolai Vsievolódovitch é são ou doente e pediu a verdade, prometendo gratidão para sempre; a cidade já fala de dinheiro, e a fonte, diz, é o próprio Kiríllov, que teria confirmado a quantia em nome de Nicolas. O cronista nota que o manejo preferido dele é levar uma pessoa a falar por intermédio de uma terceira, e que goza de ver os dois se expondo. Mais tarde, quando o capitão agarra o cronista na saída da casa de Filíppov, Lipútin o alcança e conta que Lebiádkin pretende mandar versos a Lizavieta Nikoláievna Tuchina, que está apaixonado como um gato e pensa em fazer o pedido, porque Nicolas lhe vendeu a antiga propriedade de duzentas almas.

No capítulo V da Primeira Parte, o capitão chega ao salão de Varvara Pietrovna Stavróguina de fraque e roupa branca, por conselho de Lipútin. Varvara Pietrovna diz a Praskóvia Ivánovna que também recebeu uma carta anônima, de palhaço, que lhe assegura a loucura de Nicolas e a avisa de uma mulher coxa, e que soube, em conversa com um dos inimigos mais secretos e desprezíveis do filho, de onde vinha o anônimo; o texto não o nomeia, e tudo indica que seja Lipútin.

No capítulo II da Segunda Parte, o capitão confessa a Stavróguin, em lágrimas, que só falou do segredo a Lipútin, bêbado. No capítulo V da Segunda Parte, Lipútin é um dos que circulam em volta de Yúlia Mikháilovna von Lembke, que o quer como redator do jornal que sonha fundar. No capítulo VII da Segunda Parte, na reunião da casa de Virguinski, está entre os cinco do quinteto de Piotr, com Virguinski, Chigalióv, Liámchin e Tolkatchenko; é dos que se irritam com o sistema de Chigalióv, e é ele quem lembra ao major que ele próprio dissera não crer em Deus. No capítulo VIII da Segunda Parte, Piotr o descreve a Stavróguin como um vigarista de quem conhece o ponto fraco. No capítulo X da Segunda Parte, o cronista admite que Piotr, Lipútin e talvez Fiedka falaram antes com alguns operários da fábrica.

No capítulo I da Terceira Parte, na matinê, é um dos organizadores com laço no ombro, e o cronista tem hoje dados firmes de que ele e Liámchin introduziram a pior ralé da cidade sem ingresso. Quando o capitão bêbado aparece no palco e solta uma risada longa e feliz, é Lipútin quem o leva, com dois criados; um instante depois volta, com o melhor sorriso de vinagre com açúcar, pedindo licença para ler os versos de um poeta local que quer ficar incógnito. A plateia grita Leia, e os versos zombam da preceptora que ensina francês a crianças ranhosas, na abertura de uma festa em benefício das preceptoras. Perguntado nos bastidores se fez o poema com o capitão, responde ao cronista que isso não é da conta dele; depois de ler, fica parado no palco, como se quisesse acrescentar algo, assustado, na opinião do cronista, com a própria ousadia. No capítulo II da Terceira Parte, Piotr diz a Yúlia que não houve conspiração além de Lipútin, cujo gesto com os versos do imbecil podia parecer espirituoso. No baile, Lipútin e Liámchin perdem os laços e estão na quadrilha da literatura.

No capítulo III da Terceira Parte, Piotr conta a Stavróguin e a Liza, em sua versão, que encarregou Lipútin de pôr os Lebiádkin no trem, com duzentos e trinta rublos dados do próprio bolso; que Lipútin quis divertir-se na matinê e tirou duzentos rublos do capitão quando este chegou semimorto; e que Fiedka aproveitou. No capítulo IV da Terceira Parte, na casa do alferes Erkel, depois do incêndio e dos mortos, Lipútin fala em nome do quinteto: o que têm a ver com o grupo as intrigazinhas do senhor Stavróguin? Piotr o culpa de não ter despachado Lebiádkin e diz que ele beliscou a mulher no quarto, o que lhe contou a criada Agáfia, a quem Piotr paga por espionagem. Quando Piotr diz que há uma denúncia pronta, Lipútin grita que certamente é de Stavróguin, e Piotr tropeça e se corrige: é de Chátov. O cronista conta o que se passava nos cinco:

Чувствовали, что вдруг как мухи попали в паутину к огромному пауку; злились, но тряслись от страху, sentiam que de repente tinham caído, como moscas, na teia de uma aranha enorme; irritavam-se, mas tremiam de medo.
Terceira Parte: A última decisão

Piotr e Lipútin vão juntos à casa de Kiríllov. Lipútin, que o detesta pela arrogância e sabe que irá como escravo ser o primeiro no lugar, trota ao lado. Piotr entra numa taverna para comer um bife, e ele o vê comer durante meia hora com um ódio que quase o faz passar mal. Ao sair, Piotr lhe dá uma proclamação para ler e lhe diz que ele mesmo a comporá e imprimirá na tipografia de Chátov, que será desenterrada; Lipútin acha o texto uma tolice, recusa e, no calor, diz que talvez só exista o quinteto deles e rede nenhuma. Piotr o chama de cachorrinho covarde e, depois de um idiota, segue. Na casa de Kiríllov, Lipútin assiste da porta à cena em que Fiedka cobra Piotr e o derruba a socos; depois, na esquina, ouve de Piotr a pergunta se viu o que o galé bebeu na cozinha, e que foi a última vez na vida que ele bebeu vodca. Corre para casa. Há muito guarda um passaporte em outro nome e, desde o idiota de Piotr, decidira fugir ao amanhecer, mas ao arrumar o saco percebe que a fuga só pode vir depois de Chátov, decidida, assinada e selada. Às onze da manhã descobre que Fiedka foi achado morto, e a profecia de Piotr sobre a vodca o faz deixar de hesitar: chuta o saco para baixo da cama e, à noite, com o passaporte no bolso, é o primeiro a chegar ao lugar marcado.

No capítulo VI da Terceira Parte, no parque, sai da gruta quando o chamam e responde ao assobio vindo do lago com um apito de barro de criança que comprou de manhã por um copeque. Recebe Chátov junto à gruta e o ataca de frente, enquanto Tolkatchenko se lança de uma árvore e Erkel lhe segura os cotovelos. Depois do assassinato, alcança Piotr no caminho para dizer que Liámchin denunciará, e ouve que não. Então lhe pede uma resposta, mas verdadeira: existe um só quinteto no mundo ou centenas, no sentido mais alto?

Глупый вы человек! Ведь уж теперь-то, кажется, вам всё бы равно — одна пятерка или тысяча. — Значит, одна! Так я и знал! — вскричал Липутин. — Я всё время знал, что одна, до самых этих пор, que homem tolo o senhor é! A esta altura, ao que parece, tanto lhe faria um quinteto ou mil. Então é um só! Eu sabia! exclamou Lipútin. Eu soube o tempo todo que era um só, até agora.
Terceira Parte: A última decisão

No capítulo VIII da Terceira Parte, Lipútin sumira antes do meio-dia, e a polícia só o sabe no dia seguinte, quando interroga a família, muda de medo. É preso em Petersburgo duas semanas depois, bêbado, num bordel, embora tivesse passaporte em outro nome, dinheiro e a possibilidade de fugir ao exterior: procurou Stavróguin e Piotr, de repente se entregou à bebida e à devassidão, e agora mente e se prepara para falar no julgamento. Nem ele nem Tolkatchenko parecem assustados, o que o cronista acha estranho.

Temas que encarna

Lipútin é a Verdade e mentira como poder de quem sabe e não diz, ou diz por intermédio de outro. Ele vive de manejar informação, do cronista a Varvara Pietrovna e a Stiepan, e a inteligência que Nicolas lhe reconhece com ironia é a de adivinhar a resposta antes de ela ser dada. É também o liberal sem convicção que a Revolução encontra pronto para usar: fourierista e avarento, ateu e mexeriqueiro, entra no quinteto com os mesmos gestos com que entrava nos salões.

O mesmo hábito, o de estar um passo à frente de quem tem mais poder, explica a mudança de lado dele sem que ele a decida. Com Nicolas, o passo à frente é prever a resposta e fazê-la chegar pela criada. Com Piotr, é o contrário: ele fala em nome dos cinco quando querem uma explicação, mas cede em poucos minutos, obedece mesmo detestando, e é o primeiro a chegar ao lugar marcado. A pergunta que faz na estrada, se o quinteto é um só ou são centenas, só aparece depois do crime, quando a rede teria de justificá-lo; ele diz que sempre soube que era um só, e o texto mostra que ele soube e foi assim mesmo.

O texto sustenta duas leituras do que o move na matinê, e nenhuma é desmentida. Pode ter sido sabotagem combinada com alguém que ainda não aparece, e a versão de Piotr, que dilui o episódio e depois o culpa, não o confirma. Pode ter sido ousadia de quem sente que ninguém vai detê-lo, e o detalhe de que fica parado no palco depois de ler, assustado com a própria ousadia, combina com essa segunda leitura. Em qualquer delas, o gesto mostra o que ele é no livro: alguém que age em direções que lhe parecem prudentes e termina fazendo algo de que não sabe a dimensão.

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