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Personagem

Andrei Antónovitch von Lembke

Quem é

Andriêi Antónovitch von Lembke é o governador da província, de ascendência alemã, aluno de uma escola alta para filhos de famílias bem relacionadas, e o marido de Yúlia Mikháilovna von Lembke. Substitui o macio Ivan Óssipovitch, afastado do cargo, e a chegada dele muda o tratamento que a cidade dá a Varvara Pietrovna Stavróguina (capítulo II da Primeira Parte). O cronista o apresenta como um homem brincalhão e fraco, que passava o tempo colando teatros, trens e igrejas de papel e foi tirado desse repouso pela ambição da mulher, que lhe tomou as obras de papel, deixou-o escrever um romance às escondidas e tenta fazer dele o administrador de seus planos de governar a província (capítulo IV da Segunda Parte). Quer ordem, respeito e não parecer bobo; o que o preocupa, no verão em que chega a cólera, o gado morre e os incêndios se repetem, é que alguém os esteja provocando, e uma nova geração que ele não entende. O traço que o define é o de um homem que presidia a calma e, quando ela acaba, grita ordens que não sabia que ia dar.

Trajetória

No capítulo IV da Segunda Parte, Piotr Stiepánovitch Verkhoviénski, que o trata sem respeito desde que chegou, dorme no sofá do gabinete dele e leva o manuscrito do romance que o governador lhe lera, "perdendo-o" depois. Lembke, magoado, mostra-lhe a coleção de proclamações que reúne desde 1859, na esperança de desarmá-lo com o liberalismo; Piotr diz que uma linha delas vale mais que a chancelaria inteira, e, quando Lembke observa que há ali um chamado a destruir igrejas e que é cedo, o acua:

Ведь вы же умный человек и, конечно, сами не веруете, а слишком хорошо понимаете, что вера вам нужна, чтобы народ абрютировать. Правда честнее лжи, afinal o senhor é um homem inteligente e, claro, não crê por conta própria, mas entende muito bem que precisa da fé para embrutecer o povo. A verdade é mais honesta que a mentira.
Segunda Parte: A cidade à espera

Lembke responde que ele e os revolucionários são necessários uns aos outros, como os liberais e os conservadores na Inglaterra, e que governar é fazer as instituições existirem ou não conforme o vento do governo. Piotr pergunta se ele não precisaria de dois sentinelas à porta.

No capítulo VI da Segunda Parte, a festa está marcada e Lembke fica a cada dia mais sombrio, com a cólera chegando, o gado morrendo, os incêndios do verão e o boato de que alguém os provoca. Um subtenente do distrito mordeu o ombro do comandante e tinha proclamações nos bolsos; o administrador da fábrica dos Chpigúlin entregou à polícia pacotes das mesmas folhas. Piotr aparece e, fingindo-se amigo, devolve o romance com uma crítica franca, pede que ele poupe Ivan Chátov, a quem atribui o poema Svétlaia litchnost e uma nota ao engenheiro Alexei Kiríllov, diz que o movimento cabe em sete pessoas e pede seis dias de quietude e segredo diante da mulher. Lembke começa exigindo respeito, é desarmado por manobras sucessivas e ouve que Piotr veio pedir a salvação de um tolo, quase louco, em nome da humanidade do governador. Quando pergunta quem dirige tudo isso, ouve:

Да кто управляет-то? три человека с полчеловеком. Ведь, на них глядя, только скука возьмет, quem é que dirige, afinal? Três homens com meio homem. Só de olhar para eles dá tédio.
Segunda Parte: A cidade à espera

Ao sair, Lembke lhe mostra uma carta anônima recebida na véspera, de um homem desesperado que oferece uma denúncia em troca de perdão e pensão, e lhe suplica, em pânico, que não a mostre a Yúlia. Piotr sai convencido de que o acalmou por seis dias e se engana, porque o inventou como um simplório desde o começo: o governador sente que há algo desconexo no que ouviu e não entende a nova geração. O funcionário Blum, parente distante que a mulher nunca aceitou, insiste numa busca súbita, de manhã cedo, em casa de Stiepan Trofímovitch Verkhoviénski. Lembke recusa, pensa na zombaria e em Yúlia; quando ouve a voz da mulher no quarto ao lado, grita a Blum que faça o que quiser, depois, e Blum entende como autorização.

No capítulo X da Segunda Parte, o cronista volta à noite anterior para dar a causa antes do efeito. Às três da madrugada Lembke acorda a mulher para o ultimato: dois centros de poder, o dele e o do budoar dela, não podem existir; a vida a dois foi ela lhe provar a toda hora que era nulo e ele lhe provar que não era; tem ciúme de Piotr; não permitirá que se negue Deus. Ela ri um longo riso de atriz parisiense, e ele, de punho erguido, não bate: foge ao gabinete, cobre-se com o lençol e passa duas horas sem dormir, lembrando coisas sem sentido. Acorda tarde, corre ao quarto da mulher, que saiu, abre ao acaso o Cândido, de Voltaire, e lê que tudo vai pelo melhor dos mundos possíveis; cospe e parte. À vista de Skvoriéchniki manda voltar, desce à beira do campo e fica olhando florzinhas amarelas, até que o comissário Flibustiêrov anuncia o motim. Na praça vê a multidão firme, a cadeia de policiais, o chefe de polícia impotente, e a expectativa geral nele, e o sangue lhe sobe ao coração:

Шапки долой! [...] На колени!, tirem os gorros! [...] De joelhos!
Segunda Parte: A cidade em desordem

Segundo o cronista, a ordem saiu inesperada até para ele. Ela repete um gesto histórico:

"De joelhos!" parodia o que Nicolau I disse em 22 de junho de 1831, na praça Siénnaia, em Petersburgo, a uma multidão em pleno motim do cólera, mandando que se ajoelhasse e rezasse a Deus.
Segunda Parte: A cidade em desordem

Lembke grita ainda Flibusteiros, de voz quebrada, sem saber o que fará e sabendo que fará algo. Os operários avançam três passos e falam todos juntos, de pagamentos por quarenta e do gerente, e ele, com as flores ainda na mão, não os entende; vê entre os operários Piotr, a incitá-los, que mais ninguém viu, e dá a segunda ordem:

Розог!, varas!
Segunda Parte: A cidade em desordem

As varas aparecem tão depressa que o chefe de polícia devia tê-las prontas; o cronista garante que só dois ou três homens, no máximo, foram castigados. Stiepan, que escapou do cronista e veio dar no centro do acontecimento, barra a passagem do governador na sala de recepção e diz que veio defender os seus direitos, porque foi revistado de manhã. Lembke o toma por um peticionário, entende de repente quem é, e então, transfigurado, diz a Blum que só faz tolices e pede desculpas a Stiepan: engano, mal-entendido. Stiepan conta a anedota do homem que, no teatro, deu uma bofetada em quem não devia e, ao ver o engano, disse a mesma coisa e se espantou de o ofendido ainda gritar. Lembke sorri torto e, em vez de se defender, pede compaixão:

Это… это, конечно, очень смешно… [...] но… но неужели вы не видите, как я сам несчастен?, isso... isso, é claro, é muito engraçado... [...] mas... mas o senhor não vê como eu mesmo sou infeliz?
Segunda Parte: A cidade em desordem

Yúlia chega com todo o grupo e passa pelo marido como se ele não existisse, sem palavra nem olhar. Lembke, que estava no salão desde antes sem que ninguém o notasse, avança sobre Stiepan, aperta-lhe a mão e declara que basta: os flibusteiros do nosso tempo estão identificados, as medidas foram tomadas. Ao sair, tropeça no tapete, quase cai, olha o lugar e diz trocar. Yúlia vai atrás, e o salão cochicha que ele está transtornado, ou sujeito a acessos.

No capítulo I da Terceira Parte, na matinê, tem aparência sadia: na véspera a mulher entrou no gabinete dele e ficou até muito depois da meia-noite, e ele saiu perdoado e consolado. Olha o salão com o sorriso perigoso da véspera e uma expressão já meio cômica, a de quem se oferece em sacrifício aos fins elevados da esposa. Quando Stiepan perde o controle, Yúlia o puxa da poltrona. No capítulo II da Terceira Parte, no baile, ele parece pior que de manhã, com momentos de severidade súbita; quando Liámchin cai de cabeça para baixo na quadrilha da literatura e o salão ri, manda agarrá-lo e expulsar quem ri, e, ao ouvir de um canto o grito de Flibusteiros, empalidece como se de repente entendesse e se lembrasse. Quando gritam que Zariétchie está em chamas, manda que ninguém saia, e então:

Арестовать первую! [...] Обыскать первую! Бал устроен с целью поджога, prender a primeira! [...] Revistar a primeira! O baile foi organizado com o fim de provocar um incêndio.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Sai da festa na carruagem do chefe de polícia, a caminho do fogo, gesticulando e gritando ideias impossíveis de executar. No Zariétchie o cronista o acha sobre os restos de uma cerca, sem chapéu, dando ordens que ninguém cumpre diante de uma multidão que o escuta com curiosidade e não o toca. Grita que é tudo incêndio criminoso, que é o niilismo, que as lágrimas dos desabrigados secarão mas a cidade arderá:

Пожар в умах, а не на крышах домов, o incêndio está nas mentes, e não nos telhados das casas.
Terceira Parte: A festa e o incêndio

Logo depois se atira a uma velha de oitenta anos que voltou ao fogo para tirar a colcha de plumas da janela e, quando ele a puxa, uma tábua desprendida do telhado o derruba pelo pescoço. O cronista escreve que o campo de Andriêi Antónovitch, ao menos na cidade, acaba ali. Depois disso o livro não o mostra mais em cena.

Temas que encarna

Lembke é a autoridade que existe só enquanto convence, e o romance a mostra perdendo o convencimento em três lados ao mesmo tempo, o da mulher, o dos operários e o de Piotr. No tema Indivíduo e sociedade, ele carrega a pergunta do que sustenta uma ordem quando já não há quem a acate: o medo de um velho, o orgulho de um governador, a lisonja de um salão. A fórmula de sua tolerância, a de que governo e revolucionários se necessitam, como na Inglaterra, o deixa sem defesa diante de quem a usa contra ele.

O cronista põe a madrugada antes da manhã para dar a causa antes do efeito: Lembke não perde o controle diante dos operários, chega à praça sem ele, e o que o derruba é o riso da mulher, não a fábrica. Duas leituras: o colapso vinha de dias, ou a praça foi onde esse colapso achou um pretexto. Em qualquer delas, o grito de joelhos e a ordem das varas pedem ao povo o reconhecimento que a casa lhe negou.

O que Piotr inventou foi um Lembke simplório, e o narrador o diz como erro dele: o governador sente que há algo desconexo no que ouviu, e essa desconfiança, que Piotr não conta, reaparece no baile, quando o grito de Flibusteiros o faz empalidecer como se de repente entendesse e se lembrasse. A fala do incêndio nas mentes e não nos telhados descreve o que a noite mostrou, e quem a diz é um homem em colapso que minutos antes via conspiração em tudo. As duas coisas cabem ao mesmo tempo: a lucidez de uma frase e a incapacidade de um homem de agir segundo ela.

Relações