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Personagem

Grúchenka

Quem é

Agrafena Alieksándrovna, Grúchenka no diminutivo popular, é a mulher em torno de quem gira a rivalidade entre Fiódor Pávlovitch Karamázov e o filho Dmitri Fiódorovitch Karamázov, e o polo que a leitura corrente reduz a outra do triângulo com Catierina Ivánovna. Tem vinte e dois anos quando Aliócha a vê pela primeira vez, de beleza russa, pele muito branca, olhos cinza-azulados, ar infantil e um jeito de arrastar as palavras que contrasta com a alegria de menina (capítulo X do Livro III). Foi seduzida e abandonada por um oficial polonês cinco anos antes, e quem a salvou do suicídio foi o velho comerciante Samsónov, pai e amigo (capítulo X do Livro III), que a instalou havia quatro anos, aos dezoito, assustada e magra, num pavilhão alugado da viúva Morózova, de onde ela saiu mulher decidida, boa para negócios, que chegou a comprar letras por tostões em sociedade com Fiódor (capítulo III do Livro VII). O que a distingue do papel de sedutora é a virada do Livro VII: ela pede a Rakítin que lhe traga Aliócha para destruí-lo, e é ela quem se desarma, e dela é a fábula de a cebola, que se torna uma das imagens centrais da misericórdia no romance (capítulo III do Livro VII).

Trajetória

Até o capítulo X do Livro III, existe só como ausência, descrita por Mítia em termos que misturam desejo e ódio. No capítulo V do Livro III, ele diz a Aliócha o que ela fez com ele e o que o corpo dela lembra:

Грянула гроза, ударила чума, заразился и заражен доселе, и знаю, что уж всё кончено, что ничего другого и никогда не будет. Цикл времен совершен., Estourou a tempestade, caiu a peste, contagiei-me e estou contagiado até hoje, e sei que tudo já acabou, que nada mais e nunca mais haverá. O ciclo dos tempos se cumpriu.
Livro III: Os sensuais
У Грушеньки, шельмы, есть такой один изгиб тела, он и на ножке у ней отразился, даже в пальчике-мизинчике на левой ножке отозвался., A Grúchenka, a danada, tem uma curva do corpo, que se refletiu até no pezinho dela, ecoou até no dedinho mínimo do pé esquerdo.
Livro III: Os sensuais

No capítulo VII do Livro II, Rakítin garante a Aliócha que ela brinca com pai e filho à espera do melhor lance e lhe pede que o traga para lhe tirar a batina. No capítulo IX do Livro III, Mítia invade a casa do velho à procura dela e ela não está lá, e o velho, tomado de alegria ao saber que ela não irá a Mítia, lhe pede que descubra quem ela prefere, mas logo se desdiz: ela não dirá a verdade. No capítulo X do Livro III, na sala de Catierina Ivánovna, aparece em cena pela primeira vez, a convite da dona da casa, que a beija nos lábios e nas mãos. Grúchenka nega ter prometido salvar Mítia, diz que é caprichosa e que pode voltar a ele, e Catierina empalidece. Ao pedir a mão dela para ficar quites, a leva aos lábios e para no ar:

А так и оставайтесь с тем на память, что вы-то у меня ручку целовали, а я у вас нет., Pois fique com isto de lembrança: que a senhorita beijou a minha mãozinha, e eu a sua não.
Livro III: Os sensuais

Quando Catierina a chama de criatura venal, responde:

Ну уж и продажная. Сами вы девицей к кавалерам за деньгами в сумерки хаживали, свою красоту продавать приносили, ведь я же знаю., Pois sim, vendida. A senhorita mesma, quando moça, ia ao cair da tarde procurar cavalheiros em busca de dinheiro, levava a sua beleza para vender, eu bem sei.
Livro III: Os sensuais

Sai rindo, diz a Aliócha que fez a cena para ele e que depois vai gostar. No capítulo III do Livro VII, vestida de seda preta, espera um correio de Mókroie com notícia do oficial; mentiu a Mítia que passaria a noite contando dinheiro com Samsónov. Quando Rakítin e Aliócha chegam, grita, achando que é o capitão que arromba a porta, e se alegra ao reconhecê-los, e Aliócha vê outra mulher, simples e rápida. Senta-se no colo dele e ele não se mexe; Aliócha diz a Rakítin o que viu nela:

нашел сестру искреннюю, нашел сокровище — душу любящую… [...] Ты мою душу сейчас восстановила., encontrei uma irmã sincera, encontrei um tesouro, uma alma que ama… [...] Você restaurou a minha alma agora mesmo.
Livro VII: Aliócha

Grúchenka manda os dois calarem e conta a Aliócha a fábula que ouviu da cozinheira Matriona, a da mulher malvada que deu uma cebola a uma mendiga:

Жила-была одна баба злющая-презлющая и померла. И не осталось после нее ни одной добродетели. Схватили ее черти и кинули в огненное озеро. А ангел-хранитель ее стоит да и думает: какую бы мне такую добродетель ее припомнить, чтобы богу сказать. Вспомнил и говорит богу: она, говорит, в огороде луковку выдернула и нищенке подала. И отвечает ему бог: возьми ж ты, говорит, эту самую луковку, протяни ей в озеро, пусть ухватится и тянется, и коли вытянешь ее вон из озера, то пусть в рай идет, а оборвется луковка, то там и оставаться бабе, где теперь. Побежал ангел к бабе, протянул ей луковку: на, говорит, баба, схватись и тянись. И стал он ее осторожно тянуть и уж всю было вытянул, да грешники прочие в озере, как увидали, что ее тянут вон, и стали все за нее хвататься, чтоб и их вместе с нею вытянули. А баба-то была злющая-презлющая, и почала она их ногами брыкать: „Меня тянут, а не вас, моя луковка, а не ваша“. Только что она это выговорила, луковка-то и порвалась. И упала баба в озеро и горит по сей день. А ангел заплакал и отошел, Era uma vez uma mulher malvada, malvadíssima, e ela morreu. E não ficou dela nenhuma virtude. Os diabos a agarraram e a jogaram no lago de fogo. E o anjo da guarda dela ali parado, pensando: que virtude dela eu poderia lembrar, para dizer a Deus? Lembrou-se e diz a Deus: ela, diz, arrancou uma cebola na horta e deu a uma mendiga. E Deus lhe responde: pega, diz, essa mesma cebola, estende-a a ela no lago, que se agarre e se puxe; e se a tirares de lá, que vá para o paraíso, mas se a cebola arrebentar, que a mulher fique onde está agora. O anjo correu até a mulher, estendeu-lhe a cebola: toma, diz, mulher, agarra e puxa. E começou a puxá-la com cuidado e já a tinha quase toda fora, mas os outros pecadores no lago, quando viram que a puxavam para fora, agarraram-se todos a ela, para que os tirassem junto. E a mulher era malvada, malvadíssima, e pôs-se a escoiceá-los: «Estão puxando a mim, e não a vocês, minha cebola, não a de vocês». Mal ela disse isso, a cebola arrebentou. E a mulher caiu no lago e queima até hoje. E o anjo chorou e foi embora.
Livro VII: Aliócha

Atira a Rakítin os vinte e cinco rublos do preço de trazer Aliócha e faz a este, só a ele, a confissão inteira:

Хотела я тебя погубить, Алеша, правда это великая, совсем положила [...] Но на тебя глядя, положила: его проглочу. Проглочу и смеяться буду., Queria te destruir, Aliócha, é uma grande verdade, estava decidida [...] Mas, olhando para você, decidi: vou devorá-lo. Devoro e depois rio.
Livro VII: Aliócha

Conta os cinco anos de ódio ao ofensor e cai de joelhos aos pés dele, esperando que alguém a ame, vil como é. Aliócha lhe responde que o que ele lhe deu foi uma cebola só, a mínima:

луковку я тебе подал, одну самую малую луковку, только, только!.., uma cebola, foi o que eu te dei, uma só, a menor de todas, só isso, só isso!..
Livro VII: Aliócha

Quando o correio chega, lê o bilhete, empalidece, chama-se cadela que deve rastejar e logo, com o sangue subindo ao rosto, grita que parte. Da janela manda um recado a Mítia:

Подлецу досталась Грушенька, а не тебе, благородному!, Para o canalha coube Grúchenka, e não para você, o nobre!
Livro VII: Aliócha

No capítulo VII do Livro VIII, em Mókroie, grita ao ver Mítia. Quando o pan denuncia que Mítia lhe ofereceu dinheiro para ir embora, ela se sente vendida e se volta contra os dois: percebe que o oficial veio casar por dinheiro e diz, em voz alta, diante de todos:

Дура, дура была я, что пять лет себя мучила! Да и не за него себя мучила вовсе, я со злобы себя мучила! Да и не он это вовсе! Разве он был такой? Это отец его какой-то! [...] Тот был сокол, а это селезень., Boba, boba fui eu, de me atormentar cinco anos! [...] Aquele era um falcão, e este é um pato.
Livro VIII: Mítia

No capítulo VIII do Livro VIII, depois da orgia de música e vinho, é Mítia quem a encontra atrás da cortina, chorando, e a ouve dizer a si mesma:

Его ли любила али только злобу мою? Нет, его! Ох, его!, Era a ele que eu amava, ou só a minha raiva? Não, a ele! Ah, a ele!
Livro VIII: Mítia

Pergunta a ele quem ama ali, diz que vai arar a terra com ele, e quando a cortina se abre e entram o isprávnik e o juiz de instrução, fica olhando por cima da cabeça dele, assustada. No capítulo III do Livro IX, mantida no cômodo vizinho durante o interrogatório de Mítia, não resiste, atira-se para a sala e grita:

Это я, я, окаянная, я виновата!, Fui eu, eu, a maldita, eu sou a culpada!
Livro IX: O processo preparatório

No capítulo VIII do Livro IX, trazida pelo isprávnik, pálida, grave, no xale negro, responde às perguntas dos magistrados como se Mítia fosse um conhecido, de quem não gostava e que a atraía por maldade vil, para se divertir com o ciúme dele; mas, quando Mítia jura diante dela que não é culpado do sangue do pai, benze-se diante do ícone:

Как он теперь сказал, тому и верьте! Знаю его: сболтнуть что сболтнет, али для смеху, али с упрямства, но если против совести, то никогда не обманет. Прямо правду скажет, тому верьте!, Como ele disse agora, é nisso que devem acreditar! Eu o conheço: pode dizer qualquer bobagem, por brincadeira ou por teimosia, mas contra a consciência nunca engana. Dirá a verdade direta, nisso devem acreditar!
Livro IX: O processo preparatório

No capítulo I do Livro XI, dois meses depois da prisão, já saiu de cinco semanas de doença, uma delas sem sentidos, emagrecida, de olhar firme e com uma ruga entre as sobrancelhas. Vai à cadeia todos os dias, briga com Mítia, e diz a Aliócha do ciúme dele:

Мне не то обидно, что он меня, такую, приревновал, а то стало бы мне обидно, коли бы вовсе не ревновал [...] Только мне то обидно, что он меня вовсе не любит и теперь нарочно приревновал, não me ofende que ele tenha ciúme de mim, do jeito que sou; ofenderia se não tivesse ciúme nenhum [...] só me ofende que ele não me ame nada e agora tenha ciúme de propósito.
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

O que a inquieta mais é que Mítia fala sem parar de um menino e jura que irá à Sibéria por ele, embora não tenha matado:

За дитё-то это я теперь и в Сибирь пойду, я не убил, но мне надо в Сибирь пойти!, por esse menino eu vou agora até à Sibéria, eu não matei, mas preciso ir à Sibéria!
Livro XI: Ivan Fiódorovitch

No capítulo IV do Livro XII, no tribunal, depõe de preto, altiva, com momentos de rudeza e de sinceridade, e diz que Smierdiakóv é o malfeitor e que a causa de tudo é Catierina, a destruidora. No capítulo V do Livro XII, quando a retiram, lança-se na direção de Mítia:

Митя! [...] погубила тебя твоя змея! Вон она вам себя показала!, Mítia! [...] a sua serpente te perdeu! Vejam como ela se mostrou!
Livro XII: Um erro judiciário

No capítulo XIV do Livro XII, no fundo da sala, ouve-se o grito dela quando o veredicto sai. No capítulo II do Epílogo, no hospital, entra no quarto quando Catierina está lá, e Catierina lhe pede perdão, e Grúchenka não perdoa.

Temas que encarna

Grúchenka encena um orgulho que nasce de ferida antiga, não de vaidade: cinco anos de abandono e vergonha viram, primeiro, cálculo e crueldade, a humilhação de Catierina, e depois, diante de quem não a julga, confissão e entrega (capítulo X do Livro III, capítulo III do Livro VII). A parábola da cebola é a chave que ela mesma escolhe para se descrever, uma alma sem outra virtude que quase se salva por um gesto mínimo, e o romance a usa para medir tanto ela quanto Aliócha, que lhe responde ter dado uma cebola só, a mínima (capítulo III do Livro VII, capítulo IV do Livro VII). O tema que carrega é o de Sofrimento, vivido na espera do oficial e na culpa que ela atribui a si (capítulo III do Livro IX).

O que ela quer é ser amada vil como é, e não só pela vergonha dos cinco anos (capítulo III do Livro VII); o que teme é rastejar diante do homem que a abandonou (capítulo III do Livro VII); o que sabe, no Livro VIII, é que o falcão que amava era só lembrança (capítulo VII do Livro VIII); onde se engana é em achar que a ferida antiga é o amor. Ao lado de Catierina Ivánovna, Grúchenka mostra o perdão que se recebe, o gesto de Aliócha a desarma sem que ela peça nada, enquanto Catierina mostra o perdão que se declara e não se sente (capítulo III do Livro VII, capítulo II do Epílogo).

Leituras divergentes

O livro põe em volta dela leituras opostas. Para Mítia, uma peste (capítulo V do Livro III) e uma «infernal» (capítulo XI do Livro III); para Catierina, uma tigresa e uma criatura venal (capítulo X do Livro III); para Rakítin, a pecadora que Aliócha não converteu (capítulo III do Livro VII). Para Aliócha, uma irmã sincera, uma alma que ama (capítulo III do Livro VII). E para ela mesma, depois da prisão, a culpada de tudo (capítulo III do Livro IX), que diante dos magistrados jura que Mítia, ainda que diga bobagens por teimosia, não engana contra a consciência (capítulo VIII do Livro IX).

As leituras divergem sobre se Grúchenka é perigo ou salvação, mulher fatal ou santa. As de Mítia e de Catierina a leem pelo que ela lhes faz; a de Aliócha, pelo que ela é quando não está em jogo. O livro dá razão às duas, porque a mesma mulher que humilha Catierina e mente a Mítia sobre Samsónov é a que conta a cebola e jura pela consciência dele (capítulo X do Livro III, capítulo III do Livro VII, capítulo VIII do Livro IX). Contra a leitura da fatal, vale notar que ela se desarma diante de quem não a julga; contra a da santa, que o gesto de Aliócha dura minutos, e quando o bilhete chega ela corre para Mókroie (capítulo III do Livro VII).

Relações