Quem é
Constança é a luz à direita de Piccarda Donati, acesa com todo o clarão da esfera da Lua, que quer dizer de si o que Piccarda disse de si: foi também irmã, e também lhe tiraram da cabeça a sombra das sagradas faixas. Não fala: quem fala por ela é a companheira. O que o poema afirma é o essencial: foi arrancada do claustro contra a vontade e contra o bom costume, e nunca se soltou do véu do coração. É a grande Constança que do segundo vento da Suábia gerou o terceiro e último poder, e aí o poema deixa a identificação à tradição, que a lê como a imperatriz mãe de Frederico II. A lenda de que a imperatriz tivesse sido monja é de comentadores, não do verso. O interesse de Constança no poema não é dinástico, é lógico: ela é o caso que obriga Beatriz a distinguir duas formas de querer. Piccarda disse que Constança guardou a afeição do véu, e isso parece contradizer a razão por que as duas ocupam o degrau mais baixo, a negligência dos votos. O canto IV desfaz o nó com a distinção entre vontade absoluta e vontade que cede por medo de um mal maior.
Trajetória
No canto III do Paraíso a luz aparece como a que a companheira aponta à direita, e Dante a vê arder de todo o clarão da esfera. O que ela é, diz Piccarda, vale também para ela, e o poema a deixa ser nomeada no mesmo passo em que é apresentada: é a grande Constança. A causa do lugar das duas é dita na frase em que Piccarda fala no plural:
E questa sorte che par giù cotanto, / però n’è data, perché fuor negletti / li nostri voti, e vòti in alcun canto, e esta sorte, que parece tão baixa, nos foi dada porque os nossos votos foram negligenciados e vazios em algum ponto.
No canto IV Beatriz retoma a objeção que o poema mesmo pôs na boca de Dante: Constança manteve a afeição do véu, e ainda assim ocupa o degrau mais baixo. A resposta traz o exemplo de Alcmeão, que, pedido pelo pai, matou a própria mãe e, para não faltar à piedade, tornou-se sem piedade, e a regra geral:
Voglia assoluta non consente al danno; / ma consentevi in tanto in quanto teme, / se si ritrae, cadere in più affanno, vontade absoluta não consente no dano, mas consente nele na medida em que teme, se recua, cair em pior aflição.
O caso de Constança é, portanto, o de quem consente no dano por medo de cair em pior aflição, e o poema não a desculpa: a força se mistura ao querer, e as ofensas não se escusam. A distinção também diz que o véu do coração não é falsa lembrança: ela o guardou, e o céu o reconhece.
Temas que encarna
Constança encarna a Fé que sobrevive à violência e o limite do que a violência desculpa. O que ela guarda, o véu do coração, é a prova de que a vontade absoluta nunca consentiu, e o que o poema lhe cobra é o consentimento relativo, o de quem cedeu por temor. A medida dela é a do canto IV: a vontade que não quer não se extingue, mas pode ceder, e a cessão tem lugar na escala.
O texto sustenta duas leituras. Na primeira, Constança é a prova de que o degrau mais baixo não é castigo: ela é feliz ali como Piccarda, e o céu a honra com o mesmo clarão. Na segunda, é a prova de que a medida da vontade firme é alta, porque a tradição fala de uma imperatriz poderosa e o poema a deixa no lugar dos que cederam. As duas se sustentam, e o poema não decide entre elas.
Relações
- Piccarda Donati: a companheira que fala por ela e a nomeia.
- Beatriz: quem resolve, no canto IV, a objeção que o caso de Constança levanta.
- Dante: o vivo que pergunta e a quem Piccarda responde.