Quem é
Piccarda é a primeira alma que Dante encontra no Paraíso, no céu da Lua, o mais baixo e o mais lento. Aparece como uma face tênue, quase um reflexo em vidro limpo, e é por tomá-la por reflexo que o peregrino vira os olhos para trás à procura de quem seria a imagem. Responde ao primeiro pedido com a cortesia de quem não fecha a porta, nomeia-se sem ressalva e define o lugar dela sem queixa: foi irmã virgem no mundo, está entre os bem-aventurados e é feliz na esfera mais lenta. A causa do degrau também é dita por ela, com um jogo de palavras entre votos e vazios: os votos foram negligenciados. O que a trouxe ali é contado mais adiante, com poucos verbos: seguiu ainda moça uma mulher de vida perfeita, vestiu o hábito de claustro e prometeu a regra, e homens mais afeitos ao mal do que ao bem a arrancaram do doce claustro. A tradição lê nessa mulher mais alta Santa Clara, que o poema não nomeia. A identificação com a florentina Piccarda Donati, irmã de Forese, vem do próprio canto XXIV do Purgatório, onde o irmão a descreve, e do nome que ela mesma diz aqui.
Trajetória
No canto III do Paraíso ela surge ao lado de uma luz que ela mesma vai apresentar como a grande Constança. O peregrino lhe pede o nome e a sorte, e a resposta já define o lugar que lhe foi dado:
E questa sorte che par giù cotanto, / però n’è data, perché fuor negletti / li nostri voti, e vòti in alcun canto, e esta sorte, que parece tão baixa, nos foi dada porque os nossos votos foram negligenciados e vazios em algum ponto.
Dante nota algo divino que lhe transmuda os rostos das lembranças e por isso demorou a reconhecê-la; pergunta se elas não desejam um lugar mais alto, para ver mais e ser mais amigas de Deus. Piccarda sorri com as outras sombras e responde como quem arde no primeiro fogo do amor, sem ressentimento:
«Frate, la nostra volontà quïeta / virtù di carità, che fa volerne / sol quel ch’avemo, e d’altro non ci asseta, irmão, a nossa vontade é aquietada pela virtude da caridade, que nos faz querer só o que temos e de outra coisa não nos dá sede.
O argumento é lógico: desejar estar mais no alto seria discordar da vontade de quem as pôs ali, e isso não cabe onde a caridade é necessária. A frase que fecha o raciocínio:
A resposta de Piccarda sobre a paz na vontade de Deus.E ’n la sua volontade è nostra pace: / ell’ è quel mare al qual tutto si move / ciò ch’ella crïa o che natura faceNa vontade de Deus está a paz de quem já não deseja nada além do que recebeu: é o mar para o qual se move tudo o que Ele cria e tudo o que a natureza faz. A tese resolve de saída a dúvida que vai voltar em cada céu daqui até o fim: não há hierarquia de inveja entre os bem-aventurados, porque desejar mais já seria discordar da própria vontade que os faz felizes.
Carpeaux a lê como a utopia que a poesia realiza onde o mundo não a realiza:
In la sua voluntate è nostra pace.
Dante entende então que em todo lugar do céu é paraíso, ainda que a graça não chova do mesmo modo:
Chiaro mi fu allor come ogne dove / in cielo è paradiso, etsi la grazia / del sommo ben d’un modo non vi piove, ficou-me claro então como em toda parte do céu é paraíso, embora a graça do sumo bem não chova ali de um só modo.
Ela se despede cantando, e a imagem é a de uma coisa pesada que some em água funda:
Così parlommi, e poi cominciò ‘Ave, / Maria’ cantando, e cantando vanio / come per acqua cupa cosa grave, assim me falou, e depois começou "Ave, Maria", cantando, e cantando desapareceu como coisa pesada em água funda.
No canto IV Beatriz retoma o caso de Piccarda e de Constança para resolver uma contradição aparente: as almas dizem que ficaram na esfera mais baixa por negligência, mas foram arrancadas por força. A resposta distingue a vontade absoluta, que não consente no dano, da vontade que consente por medo de um mal maior, e diz que Piccarda falava da primeira e Beatriz da outra:
Voglia assoluta non consente al danno; / ma consentevi in tanto in quanto teme, / se si ritrae, cadere in più affanno, vontade absoluta não consente no dano, mas consente nele na medida em que teme, se recua, cair em pior aflição.
Temas que encarna
Piccarda encarna a Fé que se resolve em obediência alegre e o Amor que quer só o que tem. Ela não pede e não reclama: a caridade que a acalma é a mesma que o poema define na boca dela, e o que Dante vê, pela primeira vez no Paraíso, é que o degrau mais baixo não mede a felicidade de quem o ocupa.
O texto sustenta duas leituras. Na primeira, Piccarda é o exemplo da vontade plenamente conformada: se a paz está em querer o que Deus quer, ela já chegou. Na segunda, o poema deixa uma pergunta que ela não responde: foi a negligência dela ou a violência de outros que a pôs ali, e a diferença entre as duas não aparece no sorriso. Beatriz, no canto IV, não a desculpa: deixa a medida da vontade firme alta, e as duas almas ficam onde estão.
Relações
- Constança: a luz que a acompanha, também arrancada do claustro.
- Beatriz: quem explica, no canto IV, o que Piccarda disse no III.
- Dante: o vivo que tomou o rosto dela por reflexo.
- Forese Donati: o irmão que, no Purgatório, diz que ela triunfa alegre no alto.