Quem é
Carlos Martel é o espírito que, no céu de Vênus, vem sozinho na direção de Dante e se apresenta citando-o. A alegria que o irradia o esconde como a seda esconde o bicho que a fia, e é por isso que o peregrino não o reconhece. O poema não diz o sobrenome: o texto o chama pelo nome só no começo do canto seguinte, em que Dante fala à viúva ou à filha dele, e a tradição o lê como Carlos Martel de Anjou, herdeiro do reino de Nápoles e da coroa da Hungria. Diz que o mundo o teve pouco tempo, que o amor de Dante teria dado frutos além das folhas se ele tivesse vivido, e que teria governado a margem do Ródano, a Ausônia, a terra que o Danúbio rega e a Trinácria, que a leitura corrente lê como a Provença, o sul da Itália, a Hungria e a Sicília, esta última perdida pelo mau governo que sempre amargura os povos súditos e que moveu Palermo a gritar a sua revolta. Fala do irmão, que a leitura corrente identifica com Roberto, como de uma natureza que desceu de generosa a parca, e Dante lhe faz a pergunta que muda o canto: como pode, de doce semente, sair amargo. A resposta que ele dá é a explicação do Paraíso sobre linhagem e vocação.
Trajetória
O canto VIII do Paraíso abre por Vênus e logo apresenta o espírito, que vem com os príncipes celestes, num só giro e numa só sede. A senha é um verso de Dante:
Noi ci volgiam coi principi celesti / d’un giro e d’un girare e d’una sete, / ai quali tu del mondo già dicesti: / ‘Voi che ’ntendendo il terzo ciel movete’, giramos com os príncipes celestes num só giro e num só girar e numa só sede, aos quais tu no mundo já disseste: "Vós que, entendendo, moveis o terceiro céu".
Ele explica o que não se vê, por que Dante não o reconhece, e o que não houve, o amor mostrado em frutos:
La mia letizia mi ti tien celato / che mi raggia dintorno e mi nasconde / quasi animal di sua seta fasciato. / Assai m’amasti, e avesti ben onde; / che s’io fossi giù stato, io ti mostrava / di mio amor più oltre che le fronde, a minha alegria me tem escondido de ti, pois me irradia em volta e me oculta, como animal fasciado pela sua seda. Muito me amaste, e tiveste motivo: se eu tivesse ficado lá embaixo, te mostraria do meu amor mais do que as folhas.
A profecia do governo que não foi traz o irmão, e a dúvida de Dante vem dela:
Fatto m’hai lieto, e così mi fa chiaro, / poi che, parlando, a dubitar m’hai mosso / com’ esser può, di dolce seme, amaro, fizeste-me alegre, e assim me faz claro, pois, falando, me moveste a duvidar como pode, de doce semente, vir amargo.
A resposta de Carlos parte de uma condição, se ele mostrar um vero, Dante terá o rosto onde hoje tem as costas, e desce à providência: o Bem que move e contenta o reino faz do seu desígnio virtude nos corpos celestes, e tudo o que esse arco dispara cai disposto a um fim previsto. A natureza dos céus age como um selo que imprime sem distinguir uma casa de outra:
La circular natura, ch’è suggello / a la cera mortal, fa ben sua arte, / ma non distingue l’un da l’altro ostello, a natureza circular, que é selo da cera mortal, faz bem a sua arte, mas não distingue uma casa de outra.
Daí Esaú diferente de Jacó e Quirino de pai tão vil que o atribuem a Marte: a natureza dá a diferença e a providência vence a geração. O corolário volta à vida civil, e o mau resultado é de quem põe cada um no ofício errado:
Ma voi torcete a la religïone / tal che fia nato a cignersi la spada, / e fate re di tal ch’è da sermone; / onde la traccia vostra è fuor di strada, mas vós torceis à religião aquele que nasceu para cingir a espada, e fazeis rei aquele que é de sermão; por isso o vosso rastro está fora de estrada.
No canto IX Dante abre falando a Clemência, que os comentadores tomam ora pela viúva, ora pela filha de Carlos, e o espírito já não aparece: ele pediu só que se calasse e deixasse correr os anos, e o poeta pode dizer apenas que um pranto justo virá depois dos danos.
Temas que encarna
Carlos Martel encarna a Justiça e lei como providência: o que parece azar de linhagem é a ordem dos céus, e o erro está em quem põe o nascido num ofício que não é o seu. Encarna também o Amor de Vênus, o dos que amaram o mundo e o seguem amando em Deus, e a perda, o reino que ele teria governado.
O texto sustenta duas leituras da amizade que ele evoca. Na primeira, é cortesia de príncipe a poeta, e o verso citado faz o papel de carta de apresentação. Na segunda, é o desejo de quem sabe que o amor de Dante teria dado frutos além das folhas se ele tivesse vivido. O grito de Palermo e as terras do Ródano ao Danúbio que ele enumera dão ao canto uma política que o resto da linhagem explica.
Relações
- Dante: o poeta que ele cita e a quem responde.
- Beatriz: a que faz o peregrino ver que subiu a Vênus e o assegura de estar ali.
- Justiniano: o imperador do céu anterior, cuja voz também julga a política do tempo.
- Cunizza da Romano: a alma de Vênus que fala no canto seguinte.