Clavis Libri

Personagem

Cunizza da Romano

Quem é

Cunizza é a alma de Vênus que se apresenta a Dante descrevendo o lugar antes do nome: na parte corrompida da Itália, entre Rialto e as nascentes do Brenta e do Piave, ergue-se uma colina pouco alta, de onde desceu uma tocha que assaltou a região. A tocha é o irmão, que a tradição lê como Ezzelino III da Romano, o tirano que Dante deixou no rio de sangue do Inferno, e Cunizza nasceu da mesma raiz. O que a trouxe a Vênus cabe num verso: o astro a venceu. O perdão que dá a si mesma é alegre e sem pena. A tradição lhe atribui uma vida de amores, entre eles o do poeta Sordello, que Dante encontra no Purgatório, mas o poema diz só que a luz do astro a venceu. Ela aponta a joia mais próxima, a de Folquet, e passa à terra de onde veio: prediz castigo à Marca Trevisana, a Pádua, a um senhor de Treviso e ao bispo de Feltre. Fecha explicando a fonte do que diz, os Tronos em que Deus julgador resplandece. Aparece só no canto IX, e é ali que cumpre a função, a de alma que se perdoa sem se arrepender e fala sem indulgência dos delitos alheios.

Trajetória

No canto IX do Paraíso ela se diz pelo parentesco e pelo astro:

D’una radice nacqui e io ed ella: / Cunizza fui chiamata, e qui refulgo / perché mi vinse il lume d’esta stella; / ma lietamente a me medesma indulgo / la cagion di mia sorte, e non mi noia; / che parria forse forte al vostro vulgo, de uma só raiz nascemos eu e ela: fui chamada Cunizza, e aqui resplandeço porque me venceu a luz desta estrela; mas alegremente me perdoo a causa da minha sorte, e não me pesa, o que talvez pareça duro ao vosso vulgo.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

A profecia vem a seguir: os comentadores veem fatos posteriores à data da viagem, e Cunizza explica de onde tira as palavras:

Sù sono specchi, voi dicete Troni, / onde refulge a noi Dio giudicante; / sì che questi parlar ne paion buoni, lá em cima há espelhos, que vós chamais Tronos, de onde nos resplandece Deus julgador; por isso estas palavras nos parecem boas.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

Temas que encarna

Cunizza encarna o Amor de Vênus depois da paixão: o que a venceu foi o astro, e ali a alegria substitui o arrependimento. Encarna também a Justiça e lei, porque a mesma boca que se perdoa fala sem indulgência dos delitos da Marca.

O texto sustenta duas leituras. Na primeira, o perdão que ela se dá é o de quem entendeu de onde veio a inclinação. Na segunda, o poema antecipa o que Folquet dirá sobre a culpa que já não volta à mente. Em ambas a postura de Cunizza não anula a profecia: o perdão é pela inclinação do astro, e a condenação é pelo que a gente da Marca fez depois de golpeada.

Relações

  • Folquet de Marselha: a joia que ela aponta e que fala depois.
  • Dante: o vivo que ela atende com cortesia.
  • Beatriz: a que dá o assentimento que certifica o querer de Dante.