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Recurso literário

Paradoxo

Afirmação que parece contradizer a si mesma ou o bom senso, mas que, pensada, revela uma verdade.

Em Um, Nenhum e Cem Mil

Quando eu me punha diante de um espelho, dava-se como uma parada em mim; toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fingido ou refeito. Eu não podia me ver viver.

Ver-se e viver parecem compatíveis, mas na frase se excluem: no instante em que o gesto é visto, a espontaneidade "acabava". "Eu não podia me ver viver" soa como uma contradição que ele apenas constata, sem resolver.

Livro I: O nariz e o espelho, Vitangelo Moscarda, sobre o que lhe acontece quando se põe diante de um espelho

Com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
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Livro I: O nariz e o espelho, Vitangelo Moscarda, resumindo o que a perseguição do estranho lhe mostrou

Foi um instante, mas a eternidade. Senti ali dentro todo o pavor das necessidades cegas, das coisas que não se podem mudar: a prisão do tempo; o nascer agora, e não antes nem depois; o nome e o corpo que nos são dados; a cadeia das causas.
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Livro III: O pai e os cem mil, Vitangelo Moscarda, diante da visão do pai

O senhor mandou embora a si mesmo, aquele um que é para o seu velho amigo, porque o sentiu totalmente diferente do que é, ou quer ser, para o novo.
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Livro III: O pai e os cem mil, Vitangelo Moscarda ao leitor, que acabou de mandar embora o velho amigo quando chegou um novo

E aquele não, não o vê, porque vê outra coisa, quando os senhores acham que deva ver a coisa dos senhores, como lhes parece. Ele a vê como lhe parece a ele, e para ele, portanto, o cego são os senhores.
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Livro IV: O primeiro experimento, Vitangelo Moscarda ao leitor, a caminho do cartório do notário Stampa

Quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
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Livro V: O ponto vital, Vitangelo Moscarda, no cercado do terreno vazio, depois de pensar em se matar

Dois, portanto, não aos olhos deles, mas somente para mim, que me sabia, para aqueles dois, um e um; o que para mim não fazia um a mais, e sim um a menos, pois queria dizer que, aos olhos deles, eu como eu não era ninguém.
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Livro V: O ponto vital, Vitangelo Moscarda, ao entrar no salão onde Dida e Quantorzo o esperam

A senhora só pode se conhecer posando: estátua, não viva. Quando alguém vive, vive e não se vê. Conhecer-se é morrer. A senhora passa tanto tempo se mirando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive; não sabe, não pode ou não quer viver. Quer demais se conhecer, e não vive.
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Livro VII: O revólver e o bispo, Vitangelo Moscarda a Anna Rosa, no quarto dela

Eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.
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Livro VIII: Sem nome e sem conclusão, Vitangelo Moscarda, no fim do romance, ouvindo os sinos da cidade distante

Assinatura

A explicação de cada passagem, em todos os recursos e em todas as obras, está na assinatura.

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