Afirmação que parece contradizer a si mesma ou o bom senso, mas que, pensada, revela uma verdade.
Em Um, Nenhum e Cem Mil
Quando eu me punha diante de um espelho, dava-se como uma parada em mim; toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fingido ou refeito. Eu não podia me ver viver.
Ver-se e viver parecem compatíveis, mas na frase se excluem: no instante em que o gesto é visto, a espontaneidade "acabava". "Eu não podia me ver viver" soa como uma contradição que ele apenas constata, sem resolver.
Com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
Foi um instante, mas a eternidade. Senti ali dentro todo o pavor das necessidades cegas, das coisas que não se podem mudar: a prisão do tempo; o nascer agora, e não antes nem depois; o nome e o corpo que nos são dados; a cadeia das causas.
Livro III: O pai e os cem mil, Vitangelo Moscarda, diante da visão do pai
O senhor mandou embora a si mesmo, aquele um que é para o seu velho amigo, porque o sentiu totalmente diferente do que é, ou quer ser, para o novo.
E aquele não, não o vê, porque vê outra coisa, quando os senhores acham que deva ver a coisa dos senhores, como lhes parece. Ele a vê como lhe parece a ele, e para ele, portanto, o cego são os senhores.
Quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
Dois, portanto, não aos olhos deles, mas somente para mim, que me sabia, para aqueles dois, um e um; o que para mim não fazia um a mais, e sim um a menos, pois queria dizer que, aos olhos deles, eu como eu não era ninguém.
Livro V: O ponto vital, Vitangelo Moscarda, ao entrar no salão onde Dida e Quantorzo o esperam
A senhora só pode se conhecer posando: estátua, não viva. Quando alguém vive, vive e não se vê. Conhecer-se é morrer. A senhora passa tanto tempo se mirando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive; não sabe, não pode ou não quer viver. Quer demais se conhecer, e não vive.
Livro VII: O revólver e o bispo, Vitangelo Moscarda a Anna Rosa, no quarto dela
Eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.
Assinatura
A explicação de cada passagem, em todos os recursos e em todas as obras, está na assinatura.