Dizer uma coisa por meio de outra, sem palavra de comparação: em vez de dizer que algo é como outra coisa, diz-se que é. A imagem transfere para o assunto as qualidades da coisa com que foi identificado.
Em A Montanha Mágica
o amor oprimido não estava morto, não; vivia, continuava, nas trevas, no mais profundo segredo, a almejar a sua realização, rompia o círculo mágico da castidade e ressurgia, ainda que sob forma metamorfoseada, dificílima de reconhecer [...] Sob a forma de doença. O sintoma da doença nada é senão a manifestação disfarçada da potência do amor; e toda doença é apenas amor transformado
Krokowski chama a castidade de “círculo mágico”, como se fosse uma fronteira de feitiço, e diz que o amor reprimido a “rompia” para voltar sob a forma de doença. A imagem faz da repressão um encantamento e do sintoma a saída do que ficou preso.
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, Dr. Krokowski
E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, em realidade, não cabe ver ao homem, e que jamais teria crido poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. [...] e pela primeira vez na vida compreendeu que estava destinado a morrer.
Ao olhar a própria mão no anteparo, Hans “lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo”. O túmulo não é um lugar real, e sim a imagem do esqueleto que ele vê, e ela faz do exame a primeira certeza visual da morte.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, o narrador
uma febre da matéria que acompanhava o processo de incessante decomposição e reconstituição de moléculas de albumina [...]. Não era nem matéria nem espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenômeno sustentado pela matéria, tal e qual o arco-íris sobre a queda-d'água, e igual à chama. [...] A enfermidade era a forma licenciosa da vida.
Chamar a vida de “febre da matéria” e a doença de “forma licenciosa da vida” identifica uma coisa com outra sem ponte nenhuma. A imagem da febre dá à vida calor, desordem e sensualidade, e junta corpo e espírito.
estrondeou o trovão de que todos temos ciência, essa detonação ensurdecedora da mistura sinistra de tédio e irritação há muito acumulados [...] e o trovão que, para nós, porém, faz explodir a montanha mágica e lança ante seus portões, insuavemente, o nosso dorminhoco.
O trovão é o nome dado à guerra: “estrondeou o trovão” faz da catástrofe histórica um fenômeno do céu, e a “montanha mágica” explode como se fosse um objeto. A imagem dá ao fim do encanto a violência de um raio.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, o narrador
Será que também desta festa mundial da morte, e também da perniciosa febre que inflama o céu da noite chuvosa, ainda surgirá o amor?
A guerra é nomeada como “festa mundial da morte” e a febre “inflama o céu da noite chuvosa”. As imagens tratam o conflito como celebração e como doença que atinge o mundo, ligando a guerra ao que o sanatório já tinha mostrado.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, o narrador