O narrador interrompe a história para comentar, julgar, dar opinião ou falar diretamente com o leitor.
Em A Montanha Mágica
Dois dias de viagem apartam um homem [...] do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem podia imaginar enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, roja-se de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que se costuma julgar privilégio do tempo
Em vez de seguir o rapaz no trem, o narrador interrompe a cena e fala por conta própria: “Dois dias de viagem apartam um homem” do seu mundo. A observação geral revela o que Hans Castorp ainda não percebe.
Capítulo I: A chegada ao Berghof, o narrador
O homem não vive somente sua vida pessoal como indivíduo; consciente ou inconscientemente, participa também da vida de sua época e de seus contemporâneos
Antes de contar o que Hans Castorp faz ao crescer, o narrador interrompe a biografia para dizer algo que vale para todos: o homem “participa também da vida de sua época”. É um comentário geral dirigido ao leitor, fora da ação.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô, o narrador
esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo [...] Para alguém se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida da necessidade pura e simples, sem que seu tempo saiba uma resposta satisfatória à pergunta "Para quê?", é indispensável um isolamento e prontidão moral, algo raro e de natureza heroica, ou então uma vitalidade muito robusta
O narrador interrompe a história para explicar, como numa lição, o que acontece a quem vive numa época sem resposta ao “Para quê?”. O diagnóstico geral sobre “isolamento e prontidão moral” serve de retrato de Hans Castorp antes de ele agir.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô, o narrador
Um conteúdo rico e interessante é [...] capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia [...] de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia
O narrador deixa a cena das espreguiçadeiras para teorizar sobre o tempo, e a digressão chega a uma definição: o tédio seria “uma brevidade mórbida do tempo”. A voz que explica e conclui fica acima da ação, dirigindo-se ao leitor.
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, o narrador
É o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas, justamente por se tratar sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo "repetição"; melhor seria falar de monotonia, de um agora que parou ou de eternidade. Trazem a sopa até você na hora do almoço, assim como a trouxeram ontem e a trarão amanhã. [...] os tempos confundem-se, misturam-se no seu espírito, e o que se revela a você como verdadeira forma da existência é um presente sem extensão, no qual lhe trazem a sopa eternamente.
O narrador passa a falar com o leitor em segunda pessoa: “Trazem a sopa até você na hora do almoço”. Ao pôr o leitor na cama, a voz deixa de relatar o que Hans vive e o faz sentir a monotonia como própria.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, o narrador
Pode-se narrar o tempo, ele próprio, o tempo como tal, em si mesmo? Não, de fato não, algo assim seria um arrojo insano!
A voz do narrador fala da própria tarefa, chama de “arrojo insano” narrar o tempo e comenta o livro antes de seguir a ação. É um comentário sobre o que está sendo contado, e não um fato da história.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, o narrador
estrondeou o trovão de que todos temos ciência, essa detonação ensurdecedora da mistura sinistra de tédio e irritação há muito acumulados [...] e o trovão que, para nós, porém, faz explodir a montanha mágica e lança ante seus portões, insuavemente, o nosso dorminhoco.
O narrador se inclui com o leitor ao dizer “de que todos temos ciência” e ao chamar Hans de “nosso dorminhoco”. Ele fala por cima da história, com cumplicidade e tom de comentário, e não só relata.
Capítulo VII: Peeperkorn, o grande tédio e o trovão, o narrador