Afirmação que parece contradizer a si mesma ou o bom senso, mas que, pensada, revela uma verdade.
Em A Montanha Mágica
a impressão estranha, entre sonhadora e angustiante, de algo que desfilava sem se mover, que se mudava e contudo permanecia, algo que era tanto reiteração como vertiginosa monotonia
A passagem afirma que algo “desfilava sem se mover” e “se mudava e contudo permanecia”. Dizer que há movimento sem deslocamento parece impossível, mas descreve a impressão do menino diante das gerações que passam e repetem sempre o mesmo gesto.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô, o narrador
Assim o menino aprovou no seu íntimo que o avô surgisse em plena autenticidade e perfeição no dia em que chegou a hora de lhe dizer adeus para sempre [...] o avô, solenemente desobrigado daquela adaptação passageira, assumira em definitivo o seu genuíno e merecido aspecto
O menino aprova que o avô morto apareça em “plena autenticidade e perfeição”, como se só a morte mostrasse o seu “genuíno e merecido aspecto”. Parece estranho que quem morreu fique mais verdadeiro do que quem vivia, e a frase deixa essa estranheza de pé.
Capítulo II: A pia batismal e as duas figuras do avô, o narrador
Às vezes me vem a ideia de que essa coisa da doença e da morte no fundo não é séria; é antes uma espécie de relaxamento.
Joachim diz que a doença e a morte “no fundo não é séria” e são “uma espécie de relaxamento”. Associar duas coisas graves a alívio inverte o que se espera de quem convive com a morte, e mostra como o sanatório muda os valores.
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini, Joachim Ziemssen
Incurável, minhas senhoras! Olhem o homem que aqui está à sua frente; é um caso incurável [...] Nada mais preciso fazer; não entro mais no balanço; posso me rir de tudo…
O sr. Albin comemora ser “incurável” como quem ganha um privilégio: sem esperança, pode “rir de tudo”. Que a condição mais grave traga liberdade e alegria é um contrassenso aparente, e é ele que desperta inveja em Hans Castorp.
Capítulo III: O primeiro dia inteiro e a chegada de Settembrini, o sr. Albin
Um conteúdo rico e interessante é [...] capaz de abreviar a hora e até mesmo o dia [...] de maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e se vão voando. O que se chama tédio é, portanto, na realidade, antes uma brevidade mórbida do tempo, provocada pela monotonia
Chamar o tédio de “brevidade mórbida do tempo” contraria a ideia comum de que ele faz o tempo se arrastar. Os anos “pobres, vazios, leves” correm depressa e os cheios de acontecimentos passam devagar, e a inversão é o ponto da passagem.
Capítulo IV: O sentido do tempo, Hippe e o termômetro, o narrador
É o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas, justamente por se tratar sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo "repetição"; melhor seria falar de monotonia, de um agora que parou ou de eternidade. Trazem a sopa até você na hora do almoço, assim como a trouxeram ontem e a trarão amanhã. [...] os tempos confundem-se, misturam-se no seu espírito, e o que se revela a você como verdadeira forma da existência é um presente sem extensão, no qual lhe trazem a sopa eternamente.
O narrador nega que se trate de “repetição” justamente porque é sempre “o mesmo dia”, e propõe “um agora que parou”. A correção parece contraditória, mas descreve um tempo em que nada sucede e tudo se confunde.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, o narrador
Digo "sim" ao corpo, honro-o e sinto amor por ele [...] não ignoro que, dentro da antítese de corpo e espírito, o primeiro representa o princípio mau e diabólico; pois o corpo é natureza, e a natureza [...] é má: mística e má!
Ele diz amar o corpo, “honro-o e sinto amor por ele”, e logo depois o chama de “mística e má”. Amar e condenar a mesma coisa soa contraditório, e é essa tensão que define a sua posição.
Capítulo V: Humaniora, a análise e a Noite de Walpurgis, Lodovico Settembrini
Já sabemos que o poder é mau. Mas, para que chegue o reino, é preciso suspender momentaneamente o dualismo entre bem e mal, aquém e além, espírito e arbítrio, e uni-lo em um princípio que reúna o ascetismo e o domínio. Eis aí o que chamo necessidade do terror
Naphta afirma que “o poder é mau” e, na mesma frase, declara o terror necessário ao reino. Usar o mal como caminho do bem parece contradição, mas é a lógica da sua doutrina: só um poder que une ascetismo e domínio serve ao reino.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Leo Naphta
quanto mais enfermo, tanto mais humano, e o gênio da enfermidade é mais humano que o da saúde
Para Naphta, “quanto mais enfermo, tanto mais humano”. Associar mais doença a mais humanidade vira de cabeça para baixo a ideia de que a saúde é o estado ideal, e a frase só se sustenta se humano significar espírito.
Capítulo VI: Naphta, a Neve e a morte de Joachim, Leo Naphta