O tema na obra
Em Os Irmãos Karamázov a pergunta jurídica, quem matou o velho, e a pergunta moral, quem é culpado, não têm a mesma resposta, e é na distância entre elas que o tema vive. A primeira se resolve no enredo: foi Smierdiakóv, e Dmitri Fiódorovitch Karamázov é condenado do mesmo jeito. A segunda se espalha. Stáriets Zossima a formula como doutrina, a de que cada um é culpado por todos e por tudo, e a deixa operar em cenas pequenas: um rapaz moribundo pede perdão aos criados e aos passarinhos, um oficial pede perdão ao ordenança que bateu e ao rival que desafiou, um noviço pergunta a um menino que o morde em que o ofendeu. Os personagens recebem a doutrina de modos diferentes. Mítia nega a autoria e aceita a pena por ter querido o crime; Ivan Fiódorovitch Karamázov se acusa de ter instigado o que nunca ordenou; Catierina Ivánovna toma para si a causa de tudo; Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov é o que mais pratica a doutrina. O romance não escolhe entre a culpa que se recusa, a que se assume sem ter agido e a que se espalha.
No capítulo I do Livro IV, na despedida, com a cela cheia de monges, Zossima diz o que chama de coroamento do caminho.
каждый единый из нас виновен за всех и за вся на земле несомненно, не только по общей мировой вине, а единолично каждый за всех людей и за всякого человека на сей земле, cada um de nós é, sem dúvida, culpado por todos e por tudo na terra, não só pela culpa comum do mundo, mas cada um, sozinho, por todos os homens e por cada homem desta terra.
No capítulo III do Livro IV, mordido até o osso por um menino que não conhece, Aliócha não revida e faz a pergunta que a doutrina manda fazer.
не может быть, чтоб я вам ничего не сделал, — не стали бы вы меня так мучить даром. Так что же я сделал и чем я виноват пред вами, скажите?, não pode ser que eu não tenha feito nada a você; você não me atormentaria assim, de graça. Então o que foi que eu fiz, em que sou culpado diante de você, diga?
No capítulo II do Livro VI, o irmão Márkel, doente, diz à mãe o que descobriu, e anos depois o oficial Zinóvi acha a mesma frase sozinho, na manhã de um duelo.
воистину всякий пред всеми за всех и за всё виноват. Не знаю я, как истолковать тебе это, но чувствую, что это так до мучения., na verdade cada um é culpado diante de todos, por todos e por tudo. Não sei como lhe explicar isso, mas sinto que é assim, até o tormento.
воистину всякий пред всеми за всех виноват, не знают только этого люди, а если б узнали — сейчас был бы рай!, na verdade cada um é culpado diante de todos, por todos, só que os homens não sabem disso, e se soubessem, seria na hora o paraíso!
No capítulo III do Livro VI, Zossima tira da culpa recíproca uma regra de justiça.
Помни особенно, что не можешь ничьим судиею быти. Ибо не может быть на земле судья преступника, прежде чем сам сей судья не познает, что и он такой же точно преступник, как и стоящий пред ним, и что он-то за преступление стоящего пред ним, может, прежде всех и виноват., lembre-se sobretudo de que você não pode ser juiz de ninguém. Pois não pode haver na terra juiz de criminoso antes que o próprio juiz reconheça que também ele é um criminoso exatamente como o que está diante dele, e que talvez seja, antes de todos, culpado do crime do que está diante dele.
No capítulo III do Livro IX, no interrogatório, Mítia recusa a culpa pelo sangue do pai, e Grúchenka sai de trás da cortina para tomar toda a culpa para si.
Не повинен! В этой крови не повинен! В крови отца моего не повинен… Хотел убить, но не повинен! Не я!, Não sou culpado! Desse sangue não sou culpado! Do sangue do meu pai não sou culpado… Quis matar, mas não sou culpado! Não fui eu!
Это я, я, окаянная, я виновата!, Fui eu, eu, a maldita, eu sou a culpada!
No capítulo IX do Livro IX, depois do sonho da criança com frio, Mítia estende a todos a culpa e a si mesmo a pior parte.
Господа, все мы жестоки, все мы изверги, все плакать заставляем людей, матерей и грудных детей, но из всех — пусть уж так будет решено теперь — из всех я самый подлый гад!, Senhores, somos todos cruéis, somos todos monstros, todos fazemos as pessoas chorarem, as mães e as crianças de peito, mas de todos, que se decida assim agora, sou eu o mais vil dos vermes!
Ele aceita a pena, mas por outro motivo que o da lei.
Принимаю казнь не за то, что убил его, а за то, что хотел убить и, может быть, в самом деле убил бы…, Aceito a execução, não porque o matei, mas porque quis matá-lo, e talvez de fato o tivesse feito…
No capítulo IV do Livro XI, na cadeia, ele diz a Aliócha por que irá à Sibéria sem ter matado.
За «дитё» и пойду. Потому что все за всех виноваты. За всех «дитё», потому что есть малые дети и большие дети. Все — «дитё». За всех и пойду, потому что надобно же кому-нибудь и за всех пойти. Я не убил отца, но мне надо пойти. Принимаю!, pelo menino é que irei. Porque todos são culpados por todos. Por todos o menino, porque há crianças pequenas e crianças grandes. Todos são menino. Irei por todos, porque é preciso que alguém vá por todos. Não matei meu pai, mas preciso ir. Aceito!
No capítulo VII do Livro XI, Ivan, depois de ouvir Smierdiakóv, conclui diante de Catierina que, se foi o criado quem matou, ele também é assassino.
Если б убил не Дмитрий, а Смердяков, то, конечно, я тогда с ним солидарен, ибо я подбивал его. Подбивал ли я его — еще не знаю. Но если только он убил, а не Дмитрий, то, конечно, убийца и я., se não foi Dmitri quem matou, e sim Smierdiakóv, então estou, claro, solidário com ele, porque eu o instiguei. Se o instiguei, ainda não sei. Mas se foi só ele quem matou, e não Dmitri, então, claro, o assassino sou eu também.
No capítulo XIV do Livro XII, no instante em que é condenado, Mítia perdoa a mulher que o perdeu.
Катя, прощаю тебе! Братья, други, пощадите другую!, Kátia, eu te perdoo! Irmãos, amigos, poupem a outra!
No capítulo I do Epílogo, Catierina diz a Aliócha o que não disse a ninguém sobre o tribunal.
О, всему, всему причиною мое бешенство! Это я, я и приготовила эту проклятую сцену в суде! [...] Я всему причиною, я одна виновата!, ah, de tudo, de tudo a causa é a minha fúria! Fui eu, eu mesma que preparei aquela maldita cena no tribunal! [...] Eu sou a causa de tudo, só eu sou culpada!
Quem o encarna
Mítia é a culpa que se divide entre o ato e a intenção: não matou, quis matar, e aceita pagar pela intenção. Ivan é a culpa de quem pensou o que o outro executou, e é a que o adoece. Smierdiakóv, que executa e se mata sem pedir perdão a ninguém, é a culpa sem destinatário. Catierina é a culpa que se confessa em voz alta para ser absolvida, e Grúchenka, a que se oferece em lugar de outro. Zossima e Aliócha são a culpa que se assume por todos, e o texto os mostra pondo isso em prática antes de pregar.
Onde aparece
- Livro IV, capítulo I: Zossima diz aos monges que cada um é culpado por todos e por tudo.
- Livro IV, capítulo III: Aliócha, mordido por Iliúcha, pergunta ao menino em que é culpado diante dele.
- Livro VI, capítulo II: Márkel e, depois, Zinóvi dizem que cada um é culpado diante de todos.
- Livro VI, capítulo III: Zossima diz que ninguém pode ser juiz antes de reconhecer que é tão criminoso quanto o réu.
- Livro IX, capítulo III: Mítia nega a culpa pelo sangue do pai, e Grúchenka toma a culpa para si.
- Livro IX, capítulo IX: Mítia aceita a pena não por ter matado, mas por ter querido matar.
- Livro XI, capítulo IV: Mítia diz que irá pelo menino do sonho, porque todos são culpados por todos.
- Livro XI, capítulo VII: Ivan diz a Catierina que, se foi Smierdiakóv quem matou, ele também é assassino.
- Livro XII, capítulo XIV: O júri declara Mítia culpado em todos os pontos, e ele, de braços abertos, perdoa Catierina e pede que poupem Grúchenka.
- Epílogo, capítulo I: Catierina diz a Aliócha que a cena do tribunal foi obra da sua fúria.
Onde as leituras divergem
Há duas maneiras de ler a culpa de todos por todos. Numa, é a resposta do romance à pergunta sobre quem responde pelo mal: o parricídio se dissolve numa responsabilidade que ninguém tem o direito de recusar, e o que a doutrina dá a Mítia, a Ivan e a Catierina é a possibilidade de assumir sem sentir que paga por outro. Na outra, a mesma frase serve de alívio: dizer que todos são culpados é uma maneira de ninguém precisar responder pelo ato próprio.
Os dois usos aparecem em cenas vizinhas. No capítulo IX do Livro IX, Mítia diz que todos são monstros e, na mesma frase, que ele é o pior deles; a doutrina da culpa comum e o superlativo da culpa pessoal cabem na mesma fala. No capítulo I do Epílogo, Catierina usa a forma de Zossima, é culpada de tudo, e o que quer da frase é que Aliócha a absolva, e o texto não a deixa sem a suspeita de que a confissão é uma outra forma de orgulho. O que distingue a culpa de Zossima da dos outros é o gesto que vem junto: pede perdão a quem não o cobra, ajoelha-se diante de Mítia, pergunta a um menino em que o ofendeu. A culpa de todos, no livro, tem valor quando vem com um ato e perde o valor quando vem como frase.