Quem é
Alonso Quijano é o fidalgo de um lugar da Mancha de cujo nome o narrador não quer se lembrar: tem uns cinquenta anos, é magro, madrugador e amigo da caça, vive com uma ama de mais de quarenta, uma sobrinha de menos de vinte e um moço que tanto sela o rocim como maneja a podadeira (capítulo I da Primeira Parte). Nem o sobrenome é certo (Quijada, Quesada, talvez Quejana), e o narrador diz que isso pouco importa, contanto que a narração não se afaste da verdade. O que o define é a leitura: de tanto ler os livros de cavalaria, toma por verdade tudo o que leu, remenda uma armadura com o que acha em casa, dá a si o nome de dom Quixote de la Mancha, ao rocim o de Rocinante e a uma moça de lavoura o de Dulcineia del Toboso, e sai para desfazer agravos. O livro de 1605 o leva de casa duas vezes e o devolve à aldeia enjaulado num carro de bois (capítulo LII da Primeira Parte); o de 1615 o leva a uma terceira saída e o devolve para morrer na cama, com o juízo de volta e o nome de Alonso Quijano, o Bom (capítulo LXXIV da Segunda Parte). O traço que o liga de ponta a ponta é duplo: lê o mundo como um livro que já conhece, e, fora do que toca a cavalaria, fala com um discernimento que faz os ouvintes duvidarem do que acabaram de ver (capítulo XVIII da Segunda Parte, capítulo XLIII da Segunda Parte).
Trajetória
No capítulo I da Primeira Parte o fidalgo é apresentado só por objetos e comida: lança de suporte, adarga velha, rocim magro, galgo corredor, uma panela de mais vaca que carneiro. É desse inventário de pouco dinheiro e muito tempo livre que sai o homem que vai querer ser outro:
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor, num lugar da Mancha, de cujo nome não desejo me lembrar, vivia, faz pouco tempo, um fidalgo dos de lança em suporte, adarga velha, rocim magro e galgo corredor.
O narrador explica a loucura como acidente do corpo, sono curto e cérebro seco, e em seguida mostra o que ela faz com a cabeça: tudo o que ele lê passa a ser fato.
En resolución, él se enfrascó tanto en su letura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio, em resolução, ele se embebeu tanto na sua leitura que as noites lhe passavam lendo de claro em claro, e os dias de turvo em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, ressecou-se-lhe o cérebro, de tal sorte que chegou a perder o juízo.
O texto sustenta duas leituras: a de um homem doente, e a de um leitor que escolheu acreditar porque a vida real lhe oferecia pouco. O método já aparece na primeira armadura. Ele prova a celada uma vez, vê que ela se desfaz num golpe, refaz com tiras de ferro por dentro e, na segunda vez, não prova:
y, por asegurarse deste peligro, la tornó a hacer de nuevo, poniéndole unas barras de hierro por de dentro, de tal manera que él quedó satisfecho de su fortaleza; y, sin querer hacer nueva experiencia della, la diputó y tuvo por celada finísima de encaje, e, para se garantir desse perigo, tornou a fazê-la, metendo-lhe por dentro umas tiras de ferro, até ficar contente com a sua resistência; e, sem querer repetir a prova, deu-a por boa e a teve por capacete finíssimo de encaixe.
A dama sai do mesmo gesto. Aldonza Lorenzo, moça de lavoura que talvez nem soubesse da paixão, ganha um nome que soe a romance, como o cavalo e o próprio fidalgo, porque o que ele quer não é a mulher, é a peça que falta para o conjunto estar completo:
Llamábase Aldonza Lorenzo, y a ésta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y, buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo, y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso, porque era natural del Toboso, chamava-se Aldonza Lorenzo, e a ela julgou conveniente dar o título de senhora de seus pensamentos; e, procurando-lhe um nome que combinasse com o seu e tendesse ao de princesa e grande dama, passou a chamá-la Dulcineia del Toboso, por ser natural do Toboso.
No capítulo II da Primeira Parte sai numa manhã quente de julho, antes do dia, por uma porta falsa do quintal, sem avisar ninguém. À tarde vê a estalagem através de uma lista de peças que os livros lhe deram, torres, ponte, fosso, e o porqueiro que toca o berrante para recolher os porcos vira o anão que anuncia o cavaleiro:
como a nuestro aventurero todo cuanto pensaba, veía o imaginaba le parecía ser hecho y pasar al modo de lo que había leído, luego que vio la venta, se le representó que era un castillo con sus cuatro torres y chapiteles de luciente plata, sin faltarle su puente levadiza y honda cava, con todos aquellos adherentes que semejantes castillos se pintan, como a esse nosso aventureiro tudo o que pensava, via ou imaginava lhe parecia feito e acontecido ao modo do que lera, assim que viu a estalagem se lhe figurou um castelo com suas quatro torres e agulhas de luzente prata, sem faltar-lhe ponte levadiça e fosso fundo, com todos os apetrechos que tais castelos trazem nas pinturas.
No capítulo III da Primeira Parte ajoelha-se diante do estalajadeiro e pede o dom de ser armado cavaleiro. O estalajadeiro, que já o toma por louco, finge rezar lendo o caderno de contas e dá-lhe a investidura para se livrar dele. O fidalgo não nota que ninguém lê nada: a forma está cumprida, e para ele a forma é o que vale. Esse mesmo capítulo mostra o regime duplo em que ele vive, o cavaleiro que julga ser e o louco que os outros julgam ver, e é o segundo que o protege dos efeitos do primeiro:
El ventero daba voces que le dejasen, porque ya les había dicho como era loco, y que por loco se libraría, aunque los matase a todos, o estalajadeiro bradava que o deixassem em paz, pois já lhes avisara que ele era louco, e que a loucura o absolveria mesmo que matasse todos eles.
No capítulo IV da Primeira Parte faz a primeira intervenção de cavaleiro, contra o lavrador que açoita o menino Andrés. Não investiga: ordena que o patrão pague e, quando Andrés lembra que o homem não é cavaleiro e tem razão de temer ficar a sós com ele, responde com a máxima que o livro vai repetir a seu favor:
Importa eso poco -respondió don Quijote-, que Haldudos puede haber caballeros; cuanto más, que cada uno es hijo de sus obras, isso importa pouco, respondeu dom Quixote, pois pode haver Haldudos cavaleiros; tanto mais que cada um é filho de suas obras.
O lavrador cumpre a promessa na forma e a desfaz na prática: assim que o cavaleiro some, Andrés apanha mais. No capítulo XXXI da Primeira Parte, o menino reaparece e dá ao fidalgo a notícia do que o socorro custou:
Por amor de Dios, señor caballero andante, que si otra vez me encontrare, aunque vea que me hacen pedazos, no me socorra ni ayude, sino déjeme con mi desgracia; que no será tanta, que no sea mayor la que me vendrá de su ayuda de vuestra merced, a quien Dios maldiga, y a todos cuantos caballeros andantes han nacido en el mundo, por amor de Deus, senhor cavaleiro andante, que se outra vez me encontrar, ainda que veja que me fazem em pedaços, não me socorra nem ajude, mas deixe-me com a minha desgraça, que não será tanta que não seja maior a que me virá de sua ajuda, a quem Deus maldiga, e a todos os cavaleiros andantes que nasceram no mundo.
No capítulo V da Primeira Parte, moído na estrada, ele não tem palavras para a dor e recita o romance de Valdovinos, deixado ferido na montanha, e do marquês de Mântua. Quando o vizinho Pedro Alonso lhe diz que não é Valdovinos nem Abindarráez, é o honrado fidalgo Quijana, ele responde:
Yo sé quién soy -respondió don Quijote-; y sé que puedo ser no sólo los que he dicho, sino todos los Doce Pares de Francia, y aun todos los Nueve de la Fama, eu sei quem sou, respondeu dom Quixote; e sei que posso ser não somente os que nomeei, mas todos os Doze Pares de França e também todos os Nove da Fama.
A frase tem duas leituras: a de quem perdeu o chão e infla o que é, e a de quem decidiu quem será e trata a identidade que os outros lhe oferecem como uma entre as possíveis. Entre o capítulo VI da Primeira Parte e o capítulo VII da Primeira Parte, enquanto ele dorme e se recupera, o padre e o barbeiro examinam a biblioteca, condenam quase tudo à fogueira e emparedam o aposento. Ao se levantar, ele recebe a explicação que o padre e o barbeiro mandaram dar e que a sobrinha enfeitou, um encantador que veio numa nuvem, e a adota e engorda: corrige o nome do mago para Frestón e dá ao sumiço uma causa que vem de fora e de cima:
ése es un sabio encantador, grande enemigo mío, que me tiene ojeriza, porque sabe por sus artes y letras que tengo de venir, andando los tiempos, a pelear en singular batalla con un caballero a quien él favorece, y le tengo de vencer, sin que él lo pueda estorbar, y por esto procura hacerme todos los sinsabores que puede, esse é um sábio encantador, grande inimigo meu, que me tem ojeriza porque sabe, por suas artes e letras, que hei de vir, com o correr dos tempos, a pelejar em batalha singular com um cavaleiro a quem ele protege, e devo vencê-lo sem que ele possa impedir, e por isso procura causar-me todos os dissabores que pode.
A perda dos livros deixa de ser perda e vira prova de que o destino que ele leu existe. É também no capítulo VII da Primeira Parte que ele convida Sancho Pança e lhe promete uma ínsula:
Has de saber, amigo Sancho Panza, que fue costumbre muy usada de los caballeros andantes antiguos hacer gobernadores a sus escuderos de las ínsulas o reinos que ganaban, y yo tengo determinado de que por mí no falte tan agradecida usanza; antes, pienso aventajarme en ella: porque ellos algunas veces, y quizá las más, esperaban a que sus escuderos fuesen viejos; y, ya después de hartos de servir y de llevar malos días y peores noches, les daban algún título de conde, o, por lo mucho, de marqués, de algún valle o provincia de poco más a menos; pero, si tú vives y yo vivo, bien podría ser que antes de seis días ganase yo tal reino que tuviese otros a él adherentes, que viniesen de molde para coronarte por rey de uno dellos, fica sabendo, amigo Sancho Pança, que era costume muito corrente entre os antigos cavaleiros andantes nomear governadores de suas ínsulas ou reinos conquistados os seus escudeiros, e estou resolvido a que por mim não se perca tão grata usança; antes, penso superá-la: porque eles, às vezes, e talvez as mais delas, aguardavam que os escudeiros envelhecessem; e então, cansados de servir e de levar dias ruins e noites piores, davam-lhes um título de conde ou, quando muito, de marquês, de algum vale ou província de pouca monta; mas, se tu viveres e eu viver, bem pode acontecer que em menos de seis dias eu ganhe um reino com outros a ele ligados, que calhem para te coroar rei de um deles.
No capítulo VIII da Primeira Parte vê trinta ou quarenta moinhos de vento e os toma por gigantes, com uma razão a mais: tirar da terra tão má semente é grande serviço a Deus, e os despojos começarão a enriquecer os dois. Os moinhos de vento são a cena que a memória do leitor guarda, e o texto a dá em duas falas:
ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta, o pocos más, desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla y quitarles a todos las vidas, olha ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta, ou pouco mais, desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha e tirar a todos a vida.
Sancho responde com as peças do que vê, pás, vento, pedra de moinho. Dom Quixote não discute os fatos: diz que o escudeiro não é versado em aventuras e, depois do tombo, reaproveita o mago do capítulo anterior, de modo que o desmentido passa a ser obra do inimigo e prova de que o cavaleiro valia o bastante para ser temido:
aquel sabio Frestón que me robó el aposento y los libros ha vuelto estos gigantes en molinos por quitarme la gloria de su vencimiento: tal es la enemistad que me tiene, aquele sábio Frestón que me roubou o aposento e os livros mudou estes gigantes em moinhos para me privar da glória de os vencer: tal é a inimizade que me tem.
No capítulo X da Primeira Parte, com a orelha ferida, não fala de dor nem de curativo, fala de uma poção cuja receita diz ter na memória e que dispensaria tempo e remédios. Ele não nega o ferimento, desloca-o para uma medicina dos livros, e com isso prende o escudeiro ao serviço:
cuando vieres que en alguna batalla me han partido por medio del cuerpo (como muchas veces suele acontecer), bonitamente la parte del cuerpo que hubiere caído en el suelo, y con mucha sotileza, antes que la sangre se yele, la pondrás sobre la otra mitad que quedare en la silla, advirtiendo de encajallo igualmente y al justo, quando vires que numa batalha me partiram ao meio (como muitas vezes acontece), pegarás com delicadeza a parte do corpo que tiver caído no chão e, com muito cuidado, antes que o sangue esfrie, a porás sobre a outra metade que ficar na sela, tendo o cuidado de encaixá-las por igual e no ponto exato.
No capítulo XI da Primeira Parte, entre os cabreiros, olha um punhado de bolotas e faz o elogio da idade de ouro:
Dichosa edad y siglos dichosos aquéllos a quien los antiguos pusieron nombre de dorados, y no porque en ellos el oro, que en esta nuestra edad de hierro tanto se estima, se alcanzase en aquella venturosa sin fatiga alguna, sino porque entonces los que en ella vivían ignoraban estas dos palabras de tuyo y mío, ditosa idade e ditosos séculos aqueles a quem os antigos puseram o nome de dourados, e não porque neles o ouro, que nesta nossa idade de ferro tanto se estima, se alcançasse naquela venturosa sem fadiga alguma, mas porque então os que nela viviam ignoravam estas duas palavras: teu e meu.
O elogio da comunhão dos bens vem de um fidalgo que vendeu terras para comprar livros, e o texto deixa duas leituras: ele diz o que sente, ou repete uma fala de livro pastoril. A mesma incerteza acompanha o capítulo XIV da Primeira Parte: depois do discurso em que Marcela pede apenas que a deixem em paz, ele põe a mão no punho da espada e proíbe que alguém a siga. O caso cabe no ofício, há uma donzela que os homens perseguem e ele tem uma espada; falta o que a cavalaria pressupõe, uma dama que peça socorro.
No capítulo XV da Primeira Parte a regra do ofício decide quem apanha. Antes da briga com os arrieiros galegos, classifica:
A lo que yo veo, amigo Sancho, éstos no son caballeros, sino gente soez y de baja ralea, pelo que vejo, amigo Sancho, estes não são cavaleiros, mas gente soez e de baixa raça.
Depois da surra, reclassifica. O ferimento não afronta, diz, porque as armas dos arrieiros eram estacas e nenhum tinha estoque, espada ou punhal, e a lei do duelo é expressa:
no afrentan las heridas que se dan con los instrumentos que acaso se hallan en las manos; y esto está en la ley del duelo, escrito por palabras expresas: que si el zapatero da a otro con la horma que tiene en la mano, puesto que verdaderamente es de palo, no por eso se dirá que queda apaleado aquel a quien dio con ella, não afrontam as feridas que se dão com os instrumentos que por acaso se acham nas mãos; e isto está na lei do duelo, escrito por palavras expressas: que se o sapateiro dá em outro com a forma que tem na mão, ainda que de verdade seja de pau, nem por isso se dirá que fica apaleado aquele a quem ela acertou.
A regra se ajusta ao caso depois do caso e salva a honra sem desmentir o corpo moído. Nos capítulos XVI da Primeira Parte e XVII da Primeira Parte, na estalagem, monta o enredo inteiro antes de a moça aparecer, a filha enamorada, o encontro às escondidas, e o perigo que mais o ocupa é falhar com Dulcineia. O murro do arrieiro ciumento vira a mão de um gigante, e a surra tem autor:
Por donde conjeturo que el tesoro de la fermosura desta doncella le debe de guardar algún encantado moro, y no debe de ser para mí, por onde conjecturo que o tesouro da formosura desta donzela deve de guardá-lo algum mouro encantado, e não deve de ser para mim.
Ao sair, aceita o desmentido sem renegar o que acreditou. Pensou que era castelo, e não dos piores, e para pagar tem uma regra à mão, a de que os cavaleiros andantes nunca pagam pouso:
Engañado he vivido hasta aquí -respondió don Quijote-, que en verdad que pensé que era castillo, y no malo, enganado vivi até aqui, respondeu dom Quixote, pois em verdade pensei que era castelo, e não dos piores.
No capítulo XVIII da Primeira Parte duas nuvens de poeira viram dois exércitos. O narrador não diz que ele inventa do nada: diz que traz a fantasia cheia, a toda hora, de batalhas, encantamentos e desafios, e que tudo o que fala, pensa ou faz vai encaminhado a coisas semelhantes.
viendo en su imaginación lo que no veía ni había, vendo em sua imaginação o que não via nem havia.
Sancho e o amo ouvem o mesmo som e o nomeiam de dois modos, e o texto confirma o escudeiro: eram rebanhos. Dom Quixote não nega o ruído, nega o ouvinte: o medo turba os sentidos, regra que aplica a Sancho e não a si. No fim do capítulo, quando Sancho pensa em ir embora, responde com uma máxima que serve a ele e ao escudeiro:
Sábete, Sancho, que no es un hombre más que otro si no hace más que otro, sabe, Sancho, que um homem não é mais que outro se não faz mais que outro.
Nos capítulos seguintes o livro lhe dá o nome e a divisa. No capítulo XIX da Primeira Parte, Sancho o chama de Triste Figura pelo rosto que a tocha mostrou, e o amo troca a causa pela do sábio cronista que lhe quer dar alcunha como aos antigos:
diráles vuestra merced que es el famoso don Quijote de la Mancha, que por otro nombre se llama el Caballero de la Triste Figura, dirá vossa mercê a eles que é o famoso dom Quixote de la Mancha, que por outro nome se chama o Cavaleiro da Triste Figura.
No capítulo XX da Primeira Parte, no escuro dos pisões, transforma o motivo de fuga de Sancho em motivo de ânimo:
yo nací, por querer del cielo, en esta nuestra edad de hierro, para resucitar en ella la de oro, o la dorada, como suele llamarse. Yo soy aquél para quien están guardados los peligros, las grandes hazañas, los valerosos hechos, eu nasci, por querer do céu, nesta nossa idade de ferro, para ressuscitar nela a de ouro, ou a dourada, como costuma chamar-se. Eu sou aquele para quem estão guardados os perigos, as grandes façanhas, os valorosos feitos.
No capítulo XXI da Primeira Parte vê um cavaleiro com um elmo de ouro, quando Sancho vê um homem sobre um burro pardo com uma coisa que reluz. O narrador explica o mecanismo sem chamá-lo de invenção:
todas las cosas que veía, con mucha facilidad las acomodaba a sus desvariadas caballerías y malandantes pensamientos, todas as coisas que via, com muita facilidade as acomodava a suas desvairadas cavalarias e malandantes pensamentos.
Por isso a mudança de nome do objeto, elmo, celada, almete, não o perturba, e a bacia de barbeiro que Sancho lhe entrega vira o resto do elmo de Mambrino. Pode ser sistema coerente de loucura, e pode ser vontade de que o juramento se cumpra. No capítulo XXII da Primeira Parte ouve a causa de cada galeote, junta tudo numa só, a de que a justiça falhou com cada um, e dali tira o dever de agir: primeiro pede aos guardas, por prudência, e a lança vem depois. Entre os soltos está Ginés de Pasamonte:
no es bien que los hombres honrados sean verdugos de los otros hombres, no yéndoles nada en ello, não é bom que os homens honrados sejam verdugos de outros homens, sem que lhes vá nada nisso.
Os soltos o apedrejam e levam-lhe a roupa, e a regra que ele sustenta no capítulo XXX da Primeira Parte diz por que a conta não o move: o cavaleiro vê a pena e não pergunta pela culpa, porque perguntar já seria julgar.
a los caballeros andantes no les toca ni atañe averiguar si los afligidos, encadenados y opresos que encuentran por los caminos van de aquella manera, o están en aquella angustia, por sus culpas o por sus gracias; sólo le toca ayudarles como a menesterosos, poniendo los ojos en sus penas y no en sus bellaquerías, aos cavaleiros andantes não toca nem cabe averiguar se os aflitos, encadeados e oprimidos que encontram pelos caminhos vão daquela maneira, ou estão naquela angústia, por suas culpas ou por suas graças; só lhes toca ajudá-los como necessitados, pondo os olhos em suas penas e não em suas velhacarias.
Na Serra Morena, no capítulo XXV da Primeira Parte, a loucura vira método. Escolhe Amadís como original a copiar, no sentido em que o pintor copia o mestre:
Amadís fue el norte, el lucero, el sol de los valientes y enamorados caballeros, a quien debemos de imitar todos aquellos que debajo de la bandera de amor y de la caballería militamos, Amadís foi o norte, a estrela, o sol dos cavaleiros valentes e enamorados, a quem devemos imitar todos os que militamos sob a bandeira do amor e da cavalaria.
E decide enlouquecer sem motivo, porque o valor está em desatinar sem ocasião e mostrar à dama o que faria com ela:
que volverse loco un caballero andante con causa, ni grado ni gracias: el toque está desatinar sin ocasión y dar a entender a mi dama que si en seco hago esto, ¿qué hiciera en mojado?, que enlouquecer um cavaleiro andante com motivo, nem mérito nem agradecimento: o toque está em desatinar sem ocasião e dar a entender à minha dama que, se faço isto a seco, o que não faria molhado?
Quando Sancho junta a camponesa que conhece e a dama a quem o amo manda vencidos, ele confirma sem se perturbar, e diz que as Amarílis e as Galateias dos livros quase nunca foram damas de carne e osso. Sabe, portanto, que a dama é obra sua:
Así que, Sancho, por lo que yo quiero a Dulcinea del Toboso, tanto vale como la más alta princesa de la tierra [...] píntola en mi imaginación como la deseo, así en la belleza como en la principalidad, assim, Sancho, pelo que eu quero a Dulcineia del Toboso, vale tanto quanto a mais alta princesa da terra [...] pinto-a na minha imaginação como a desejo, tanto na beleza como na primazia.
O texto deixa em aberto se isso o torna menos louco ou mais. No capítulo XXVI da Primeira Parte recusa a loucura de Orlando por respeito a Dulcineia, porque supô-la infiel seria agravá-la, e fica com a de Amadís, que chora sem perder o juízo:
Pero yo, ¿cómo puedo imitalle en las locuras, si no le imito en la ocasión dellas? [...] y haríale agravio manifiesto si, imaginando otra cosa della, me volviese loco de aquel género de locura de Roldán el furioso, mas eu, como posso imitá-lo nas loucuras, se não o imito na ocasião delas? [...] e eu lhe faria agravo manifesto se, imaginando outra coisa dela, me tornasse louco daquele gênero de loucura de Orlando, o furioso.
A ficção que construiu lhe impõe lealdade à dama que ele mesmo imaginou. No capítulo XXX da Primeira Parte, quando Sancho compara a princesa Micomicona a Dulcineia, a ofensa o atinge no lugar mais fundo:
Ella pelea en mí, y vence en mí, y yo vivo y respiro en ella, y tengo vida y ser, ela peleja em mim, e vence em mim, e eu vivo e respiro nela, e tenho vida e ser.
No capítulo XXXI da Primeira Parte Sancho inventa a visita que nunca fez, e o fidalgo transforma cada desmentido em elogio. Diante da viagem de três dias, impossível para quem foi e voltou, ele escora o escudeiro com um mago amigo:
aquel sabio nigromante que tiene cuenta con mis cosas y es mi amigo [...] algún sabio amigo te debió de llevar en volandillas, sin que tú lo sintieses, aquele sábio nigromante que tem conta de minhas coisas e é meu amigo [...] algum sábio amigo te deve ter levado em voos, sem que tu o sentisses.
Cada um protege, a seu modo, a mesma ficção. No capítulo XXXVIII da Primeira Parte, à mesa da estalagem, discursa sobre a pobreza do soldado com método e pesa trabalho contra prêmio; o que o preocupa não é morrer, é morrer sem ser visto:
Y así, considerando esto, estoy por decir que en el alma me pesa de haber tomado este ejercicio de caballero andante en edad tan detestable como es esta en que ahora vivimos; porque, aunque a mí ningún peligro me pone miedo, todavía me pone recelo pensar si la pólvora y el estaño me han de quitar la ocasión de hacerme famoso y conocido por el valor de mi brazo y filos de mi espada, e assim, considerando isto, estou por dizer que em minha alma me pesa ter tomado este exercício de cavaleiro andante em idade tão detestável como esta em que agora vivemos; porque, ainda que a mim nenhum perigo ponha medo, todavia me põe receio pensar se a pólvora e o estanho hão de tirar-me a ocasião de fazer-me famoso e conhecido pelo valor de meu braço e pelos fios de minha espada.
Enquanto fala, nenhum dos ouvintes o tem por louco (capítulo XXXVII da Primeira Parte). No capítulo XLVI da Primeira Parte, preso no carro pela profecia que o barbeiro compôs no estilo dos livros, aceita a jaula como encantamento e a transforma em espera de um prêmio:
ruégote que pidas de mi parte al sabio encantador que mis cosas tiene a cargo, que no me deje perecer en esta prisión donde agora me llevan, hasta ver cumplidas tan alegres e incomparables promesas como son las que aquí se me han hecho, rogo-te que peças da minha parte ao sábio encantador que tem a meu cargo as minhas coisas que não me deixe perecer nesta prisão onde agora me levam, até ver cumpridas tão alegres e incomparáveis promessas como são as que aqui me fizeram.
A explicação de que está encantado cobre o fato de não saber quem o prendeu. No capítulo XLIX da Primeira Parte, quando Sancho prova pelo corpo e pelas necessidades que ele não está encantado, a resposta responde a outra pergunta, a do que deve fazer:
Yo sé y tengo para mí que voy encantado, y esto me basta para la seguridad de mi conciencia; que la formaría muy grande si yo pensase que no estaba encantado y me dejase estar en esta jaula, perezoso y cobarde, defraudando el socorro que podría dar a muchos menesterosos y necesitados que de mi ayuda y amparo deben tener a la hora de ahora precisa y estrema necesidad, eu sei e tenho para mim que vou encantado, e isto me basta para a segurança de minha consciência; que a formaria muito grande se eu pensasse que não estava encantado e me deixasse estar nesta jaula, preguiçoso e covarde, defraudando o socorro que poderia dar a muitos necessitados e carentes que de minha ajuda e amparo devem ter a esta hora precisa e extrema necessidade.
Se está encantado, não pode socorrer ninguém e a jaula não o acusa; se não está, a jaula o faria covarde. A hipótese de estar são é a que o obrigaria a sair, e é a que ele não escolhe. Pode ser fé na doutrina, e pode ser a saída que lhe permite ficar quieto sem remorso. No mesmo capítulo defende Floripes e Fierabrás ao cônego de Toledo:
¿qué ingenio puede haber en el mundo que pueda persuadir a otro que no fue verdad lo de la infanta Floripes y Guy de Borgoña, y lo de Fierabrás con la puente de Mantible, que sucedió en el tiempo de Carlomagno; que voto a tal que es tanta verdad como es ahora de día, que engenho pode haver no mundo que possa persuadir a outro que não foi verdade o da infanta Floripes e Guy de Borgonha, e o de Fierabrás com a ponte de Mantible, que sucedeu no tempo de Carlos Magno; que voto a tal que é tanta verdade como é agora de dia?
Não aceita graus de verdade, só a alternativa entre tudo verdadeiro e tudo mentira: se Floripes é mentira, também não houve Heitor nem a guerra de Troia. No capítulo L da Primeira Parte apresenta a si mesmo como prova da leitura:
De mí sé decir que, después que soy caballero andante, soy valiente, comedido, liberal, bien criado, generoso, cortés, atrevido, blando, paciente, sufridor de trabajos, de prisiones, de encantos, de mim sei dizer que, depois que sou cavaleiro andante, sou valente, comedido, liberal, bem criado, generoso, cortês, atrevido, brando, paciente, sofredor de trabalhos, de prisões, de encantos.
O cônego pode ler isso como prova de que a leitura o fez melhor, ou de que o fez prisioneiro, e o texto deixa as duas coisas lado a lado. No capítulo LII da Primeira Parte confunde uma Virgem de madeira, de luto, com uma cativa, ataca a procissão e é derrubado. Sancho chora sobre ele e faz, sem querer, o retrato que o livro deu:
¡Oh flor de la caballería, que con solo un garrotazo acabaste la carrera de tus tan bien gastados años [...] enamorado sin causa, imitador de los buenos, azote de los malos, enemigo de los ruines, en fin, caballero andante, que es todo lo que decir se puede, oh flor da cavalaria, que com uma só garrotada acabaste a carreira de teus anos tão bem gastos [...] enamorado sem causa, imitador dos bons, açoite dos maus, inimigo dos ruins, enfim, cavaleiro andante, que é tudo o que dizer se pode!
O livro de 1605 se fecha com a volta pública, ao meio-dia de domingo, o contrário da primeira saída escondida, e com a promessa de uma terceira.
Na Segunda Parte o livro já existe dentro do livro. No capítulo I da Segunda Parte o padre e o barbeiro põem à prova a cura e a veem desmentir-se em minutos, quando o fidalgo propõe ao rei que convoque os cavaleiros andantes da Espanha contra o Turco. Visto de dentro, não é delírio, é prática corrente em qualquer livro de cavalaria, e ele sabe que está sendo avaliado e não esconde. Pintando Amadís como um homem sereno que fala pouco e perdoa depressa, o contrário do cavaleiro de olhos injetados que ele costuma ser, diz:
estoy por decir que con mis propios ojos vi a Amadís de Gaula, que era un hombre alto de cuerpo, blanco de rostro, bien puesto de barba, aunque negra, de vista entre blanda y rigurosa, corto de razones, tardo en airarse y presto en deponer la ira, estou por dizer que com meus próprios olhos vi Amadis de Gaula, que era homem alto de corpo, branco de rosto, de barba bem posta, ainda que preta, de olhar entre brando e rigoroso, de poucas palavras, lento em se irar e pronto em depor a ira.
Duas leituras: loucura inteira, ou fé de quem trata os livros como testemunhas e deduz as caras como o leitor deduz os caracteres. No capítulo III da Segunda Parte, ao saber pelo bacharel Sansão Carrasco que a Primeira Parte circula impressa, a exigência que faz ao livro é a verdade:
no fuera escribir verdades, sino mentiras; y los historiadores que de mentiras se valen habían de ser quemados, como los que hacen moneda falsa, não seria escrever verdades, mas mentiras; e os historiadores que se valem de mentiras deviam ser queimados, como os que fazem moeda falsa.
Para ele a história é coisa sagrada, e a ironia fica à vista do leitor: quem exige a verdade total é quem toma moinhos por gigantes. Duas leituras: ele julga o autor com a régua que aplica a si mesmo, ou a régua é a única que lhe permite não duvidar do que conta. No capítulo VI da Segunda Parte, diante da objeção da sobrinha de que é pobre, muda o critério de sangue para conduta:
solos aquéllos parecen grandes y ilustres que lo muestran en la virtud, y en la riqueza y liberalidad de sus dueños, só aquelas parecem grandes e ilustres que o mostram na virtude, na riqueza e na liberalidade de seus donos.
No capítulo IX da Segunda Parte, procurando de noite o palácio de Dulcineia no Toboso, diz a Sancho que em todos os dias da vida nunca a viu, o que a Primeira Parte contava de outro modo (em doze anos de amor, não a viu quatro vezes, capítulo XXV da Primeira Parte):
¿no te he dicho mil veces que en todos los días de mi vida no he visto a la sin par Dulcinea, ni jamás atravesé los umbrales de su palacio, y que sólo estoy enamorado de oídas y de la gran fama que tiene de hermosa y discreta?, não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida não vi a sem-par Dulcineia, nem jamais atravessei os umbrais do seu palácio, e que só estou enamorado de ouvir dizer e da grande fama que ela tem de formosa e discreta?
Dom Quixote não vê contradição em procurar o endereço da ideia, e a ideia lhe basta. No capítulo X da Segunda Parte, quando Sancho põe uma aldeã diante dele como se fosse a dama, escolhe entre duas hipóteses, Sancho mentiu ou um encantador mudou o que ele vê, e fica com a segunda, que estende a si mesmo:
ya que el maligno encantador me persigue, y ha puesto nubes y cataratas en mis ojos, y para sólo ellos y no para otros ha mudado y transformado tu sin igual hermosura y rostro en el de una labradora pobre, si ya también el mío no le ha cambiado en el de algún vestiglo, para hacerle aborrecible a tus ojos, já que o maligno encantador me persegue, pôs nuvens e cataratas nos meus olhos e, só para eles e não para outros, mudou e transformou a tua sem-igual formosura e rosto no de uma lavradora pobre, se é que também o meu não mudou no de algum monstrengo, para me fazer aborrecível aos teus olhos.
A hipótese impede que a dama seja uma aldeã e protege a causa. O cheiro de alho cru é o único dado dos sentidos que ele registra contra a ilusão, e o desfaz de pronto: o encantamento tirou da dama o bom odor. Duas leituras: fé que lhe custa a própria vista, ou escolha lúcida de quem sabe que sem Dulcineia não há razão para a busca. No capítulo XI da Segunda Parte, diante do carro das Cortes da Morte, mostra o outro lado do método:
así como vi este carro, imaginé que alguna grande aventura se me ofrecía; y ahora digo que es menester tocar las apariencias con la mano para dar lugar al desengaño, quando vi este carro, imaginei que me aparecia alguma grande aventura; e agora digo que é forçoso apalpar as aparências para dar lugar ao desengano.
O dom Quixote da Segunda Parte sabe distinguir o que a vista dá do que a verificação confirma, ao menos onde a aparência não toca a dama. No capítulo XIV da Segunda Parte vence o Cavaleiro dos Espelhos e impõe ao vencido uma cláusula de reciprocidade, que torna a explicação dos encantadores regra de cortesia:
También habéis de confesar y creer -añadió don Quijote- que aquel caballero que vencistes no fue ni pudo ser don Quijote de la Mancha, sino otro que se le parecía, como yo confieso y creo que vos, aunque parecéis el bachiller Sansón Carrasco, no lo sois, sino otro que le parece, y que en su figura aquí me le han puesto mis enemigos, para que detenga y temple el ímpetu de mi cólera, y para que use blandamente de la gloria del vencimiento, haveis ainda de confessar e crer, acrescentou dom Quixote, que aquele cavaleiro que vencestes não foi nem pôde ser dom Quixote de la Mancha, mas outro que se lhe parecia, como eu confesso e creio que vós, ainda que pareceis o bacharel Sansão Carrasco, não o sois, mas outro que lhe parece, e que em sua figura aqui me puseram meus inimigos, para que detenha e tempere o ímpeto de minha cólera, e para que use brandamente da glória do vencimento.
No capítulo XVII da Segunda Parte, ao mandar abrir a jaula dos leões, define a coragem pelo meio-termo e se coloca, de propósito, do lado do excesso:
bien sé lo que es valentía, que es una virtud que está puesta entre dos estremos viciosos, como son la cobardía y la temeridad; pero menos mal será que el que es valiente toque y suba al punto de temerario, que no que baje y toque en el punto de cobarde, sei muito bem o que é valentia, virtude situada entre dois extremos viciosos, que são a covardia e a temeridade; mas menos mal será que o que é valente toque e suba ao ponto de temerário, do que baixe e toque no ponto de covarde.
O leão boceja, lava o rosto com a língua e dá as costas, e o fidalgo toma isso por vitória. No capítulo XXII da Segunda Parte desce à gruta de Montesinos, e no capítulo XXIII da Segunda Parte conta que viveu ali três dias, quando para Sancho e o primo foi uma hora. Antes de narrar, examina-se:
vi que no dormía, sino que realmente estaba despierto [...] me certificaron que yo era allí entonces el que soy aquí ahora, vi que não dormia, e sim que estava realmente desperto [...] me certificaram de que eu era ali naquele momento o que sou aqui agora.
O teste prova só que ele está desperto enquanto se examina, não que estava desperto quando o sono o pegou. A visão se apoia ainda numa mentira de Sancho que ele não sabe: a dama encantada aparece com as roupas que o escudeiro lhe mostrou no Toboso. No capítulo XXVI da Segunda Parte, destroçando o retábulo de mestre Pedro como se os bonecos fossem mouros, declara que os encantadores só lhe põem as figuras como elas são e depois as trocam; no capítulo XXIX da Segunda Parte, no barco encantado, a mesma doutrina responde à objeção de Sancho de que são azenhas:
todas las cosas trastruecan y mudan de su ser natural los encantos. No quiero decir que las mudan de en uno en otro ser realmente, sino que lo parece, como lo mostró la experiencia en la transformación de Dulcinea, único refugio de mis esperanzas, todas as coisas trastrocam e mudam de seu ser natural os encantos. Não quero dizer que as mudem de um ser em outro realmente, mas que o parece, como mostrou a experiência na transformação de Dulcineia, único refúgio de minhas esperanças.
Na Primeira Parte ele via gigante e o escudeiro dizia moinho. Aqui concede a Sancho a aparência e lhe tira o valor, e a teoria se fecha sobre a mentira do escudeiro e precisa dela para sustentar-se. No capítulo XXXI da Segunda Parte, no castelo dos duques, recebe o tratamento que os livros prescrevem:
aquél fue el primer día que de todo en todo conoció y creyó ser caballero andante verdadero, y no fantástico, viéndose tratar del mesmo modo que él había leído se trataban los tales caballeros en los pasados siglos, aquele foi o primeiro dia em que de todo em todo conheceu e creu ser cavaleiro andante verdadeiro, e não fantástico, vendo-se tratar do mesmo modo que ele tinha lido que se tratavam os tais cavaleiros nos séculos passados.
Pela primeira vez a ficção lhe vem de fora, de leitores dos mesmos livros que já se prepararam para o papel. No capítulo XXXII da Segunda Parte, depois de responder ao eclesiástico que o tratou mal à mesa, responde à duquesa sobre Dulcineia sem dizer se ela existe:
Dios sabe si hay Dulcinea o no en el mundo, o si es fantástica o no es fantástica; y éstas no son de las cosas cuya averiguación se ha de llevar hasta el cabo. Ni yo engendré ni parí a mi señora, puesto que la contemplo como conviene que sea una dama que contenga en sí las partes que puedan hacerla famosa en todas las del mundo, Deus sabe se há Dulcineia ou não no mundo, ou se é fantástica ou não é fantástica; e estas não são das coisas cuja averiguação se há de levar até o cabo. Nem eu engendrei nem pari minha senhora, ainda que a contemple como convém que seja uma dama que contenha em si os dotes que possam fazê-la famosa em todas as partes do mundo.
A frase serve a quem aposta na existência dela e a quem aposta na invenção. No capítulo XLI da Segunda Parte, depois do voo no Cravelenho, propõe a Sancho, ao ouvido, o pacto de dois homens que se pedem, um ao outro, que creiam no que não viram:
Sancho, pues vos queréis que se os crea lo que habéis visto en el cielo, yo quiero que vos me creáis a mí lo que vi en la cueva de Montesinos; y no os digo más, Sancho, pois vós quereis que se vos creia o que vistes no céu, eu quero que vós me creiais a mim o que vi na gruta de Montesinos; e não vos digo mais.
No capítulo XLII da Segunda Parte dá a Sancho, que vai governar a ínsula de Barataria, os conselhos mais sensatos do livro, e os dá com o que ele mesmo viveu, o fidalgo pobre que se fez cavaleiro por vontade:
Mira, Sancho: si tomas por medio a la virtud, y te precias de hacer hechos virtuosos, no hay para qué tener envidia a los que los tienen de príncipes y señores, porque la sangre se hereda y la virtud se aquista, y la virtud vale por sí sola lo que la sangre no vale, olha, Sancho: se tomares a virtude por meio e te prezares de fazer feitos virtuosos, não há por que ter inveja dos que os têm de príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude se adquire, e a virtude vale por si só o que o sangue não vale.
O narrador observa no capítulo XLIII da Segunda Parte que, nos segundos documentos, ele pôs a discrição e a loucura num ponto elevado. No capítulo LII da Segunda Parte, para que um lavrador possa combater a causa de uma dona, desce de nível:
desde aquí digo que por esta vez renuncio a mi hidalguía, y me allano y ajusto con la llaneza del dañador, y me hago igual con él, habilitándole para poder combatir conmigo; y así, aunque ausente, le desafío y repto, desde aqui digo que por esta vez renuncio à minha fidalguia, e me aplano e ajusto com a lhaneza do danador, e me faço igual a ele, habilitando-o para poder combater comigo; e assim, ainda que ausente, o desafio e repto.
A regra cede quando um agravo real a pede e um senhor oferece o campo. No capítulo LVIII da Segunda Parte, depois de deixar o castelo, faz o elogio da liberdade, e a palavra que o sustenta é obrigação: o pão curto do caminho sem dívida de favor vale mais que a mesa farta que prende.
La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres, a liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens; com ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra nem o mar encobre; pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se aventurar a vida, e, ao contrário, o cativeiro é o maior mal que pode vir aos homens.
No capítulo LIX da Segunda Parte, ao ouvir numa estalagem, através do tabique, dois hóspedes lerem o livro apócrifo, e reagir à acusação de que esqueceu Dulcineia, muda o roteiro da viagem para que o mundo veja que o verdadeiro dom Quixote decide por si aonde vai:
Quienquiera que dijere que don Quijote de la Mancha ha olvidado, ni puede olvidar, a Dulcinea del Toboso, yo le haré entender con armas iguales que va muy lejos de la verdad; porque la sin par Dulcinea del Toboso ni puede ser olvidada, ni en don Quijote puede caber olvido: su blasón es la firmeza, y su profesión, el guardarla con suavidad y sin hacerse fuerza alguna, quem quer que diga que dom Quixote de la Mancha esqueceu, nem pode esquecer, Dulcineia del Toboso, eu lhe farei entender com armas iguais que vai muito longe da verdade; porque a sem-par Dulcineia del Toboso nem pode ser esquecida, nem em dom Quixote pode caber esquecimento: seu brasão é a firmeza, e sua profissão, guardá-la com suavidade e sem fazer força alguma.
No capítulo LXIV da Segunda Parte, na praia de Barcelona, o Cavaleiro da Lua Branca o derruba e exige que se retire a sua aldeia por um ano. Caído, sem levantar a viseira, confessa a beleza de Dulcineia e põe a honra na própria queda:
Dulcinea del Toboso es la más hermosa mujer del mundo, y yo el más desdichado caballero de la tierra, y no es bien que mi flaqueza defraude esta verdad. Aprieta, caballero, la lanza, y quítame la vida, pues me has quitado la honra, Dulcineia del Toboso é a mais formosa mulher do mundo, e eu o mais desditoso cavaleiro da terra, e não é bem que minha fraqueza defraude esta verdade. Aperta, cavaleiro, a lança, e tira-me a vida, pois me tiraste a honra.
No capítulo LXV da Segunda Parte sabe-se que o vencedor é Sansão Carrasco, que venceu para curar. No capítulo LXVI da Segunda Parte lamenta, no mesmo lugar, a desdita; logo se corrige e reconhece que desafiou com a fraqueza de Rocinante contra o cavalo poderoso do outro. No capítulo LXVII da Segunda Parte muda de papel sem mudar de ficção, e propõe fazer-se pastor durante o ano de recolhimento:
querría, ¡oh Sancho!, que nos convirtiésemos en pastores, siquiera el tiempo que tengo de estar recogido. Yo compraré algunas ovejas, y todas las demás cosas que al pastoral ejercicio son necesarias, y llamándome yo el pastor Quijotiz, y tú el pastor Pancino [...] con que podremos hacernos eternos y famosos, no sólo en los presentes, sino en los venideros siglos, queria, oh Sancho, que nos convertêssemos em pastores, ao menos o tempo que tenho de estar recolhido. Eu comprarei algumas ovelhas e todas as demais coisas que ao pastoral exercício são necessárias, e, chamando-me eu o pastor Quixotiz e tu o pastor Pancino [...] com que poderemos fazer-nos eternos e famosos, não só nos presentes, mas nos vindouros séculos.
No capítulo LXXII da Segunda Parte, na estalagem, diante de dom Álvaro Tarfe, personagem do livro apócrifo, resolve o que o livro rival lhe tirou:
Yo -dijo don Quijote- no sé si soy bueno, pero sé decir que no soy el malo; para prueba de lo cual quiero que sepa vuesa merced, mi señor don Álvaro Tarfe, que en todos los días de mi vida no he estado en Zaragoza; antes, por haberme dicho que ese don Quijote fantástico se había hallado en las justas desa ciudad, no quise yo entrar en ella, por sacar a las barbas del mundo su mentira, eu, disse dom Quixote, não sei se sou bom, mas sei dizer que não sou o mau; para prova do que quero que saiba vossa mercê, meu senhor dom Álvaro Tarfe, que em todos os dias de minha vida não estive em Saragoça; antes, por me haverem dito que esse dom Quixote fantástico se achara nas justas dessa cidade, não quis eu entrar nela, para tirar às barbas do mundo sua mentira.
A modéstia do começo se esgota na certeza do fim: sabe que não é o outro. No capítulo LXXIV da Segunda Parte, depois de dormir mais de seis horas, desperta e diz que tem o juízo livre e claro. O diagnóstico vem do próprio doente, em termos de leitura:
Yo tengo juicio ya, libre y claro, sin las sombras caliginosas de la ignorancia, que sobre él me pusieron mi amarga y continua leyenda de los detestables libros de las caballerías. Ya conozco sus disparates y sus embelecos, y no me pesa sino que este desengaño ha llegado tan tarde, que no me deja tiempo para hacer alguna recompensa, leyendo otros que sean luz del alma, eu tenho juízo já, livre e claro, sem as sombras caliginosas da ignorância que sobre ele me puseram minha amarga e contínua leitura dos detestáveis livros de cavalaria. Já conheço seus disparates e seus embelecos, e não me pesa senão que este desengano tenha chegado tão tarde, que não me deixa tempo para fazer alguma recompensa, lendo outros que sejam luz da alma.
Lamenta o atraso do desengano, e não o fato de ter sido enganado. Pede o padre, Sansão e o barbeiro para confessar-se e fazer testamento, e anuncia a troca de nome, que é o centro do capítulo:
Dadme albricias, buenos señores, de que ya yo no soy don Quijote de la Mancha, sino Alonso Quijano, a quien mis costumbres me dieron renombre de Bueno. Ya soy enemigo de Amadís de Gaula y de toda la infinita caterva de su linaje, dai-me parabéns, bons senhores, de que já eu não sou dom Quixote de la Mancha, mas Alonso Quijano, a quem meus costumes deram renome de Bom. Já sou inimigo de Amadis de Gaula e de toda a infinita caterva de sua linhagem.
Os três creem que uma nova loucura o tomou, e ele repete que em tais transes não se burla o homem com a alma. Quando Sancho, chorando, lhe pede que não morra e aceite o ano de pastor, ele responde:
vámonos poco a poco, pues ya en los nidos de antaño no hay pájaros hogaño: yo fui loco, y ya soy cuerdo; fui don Quijote de la Mancha, y soy agora, como he dicho, Alonso Quijano el Bueno, vamos pouco a pouco, pois já nos ninhos de antanho não há pássaros de hoje: eu fui louco, e já sou sensato; fui dom Quixote de la Mancha, e sou agora, como disse, Alonso Quijano o Bom.
No testamento, manda a fazenda à sobrinha Antonia Quijana, paga o salário da ama e pede perdão a Sancho pelo erro em que o pôs, e a cláusula sobre a sobrinha diz que ela não se case com homem que saiba o que são livros de cavalaria. O escrivão registra que nenhum cavaleiro dos livros morreu na cama tão sossegado e cristão, e o narrador acrescenta que ele deu seu espírito, quer dizer, morreu. Sansão escreve o epitáfio, e Cide Hamete fecha o livro pendurando a pena e guardando o personagem para si.
Temas que encarna
O fidalgo é a Loucura posta em cena como método e não como névoa contínua. A loucura de dom Quixote tem causa declarada (a leitura, capítulo I da Primeira Parte), regra de defesa (o encantador, capítulo VII da Primeira Parte), escolha deliberada (a penitência de Beltenebros, capítulo XXV da Primeira Parte) e saída (o desengano, capítulo LXXIV da Segunda Parte). O livro lhe dá a lucidez sobre outros assuntos, a poesia, as armas, o governo, e por isso o próprio narrador diz que as obras desacreditam o juízo dele e o juízo as obras (capítulo XLIII da Segunda Parte). Esse regime duplo é o que torna a loucura matéria de Honra e reputação: o que ele pede ao morrer é que a fama não o sele de louco (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
O que o liga a Aparência e realidade é uma gramática da explicação. Todo desmentido, a manta, os moinhos, a bacia, o leão que não sai, a aldeã do Toboso, é recolhido por uma só doutrina, os encantadores, e a doutrina nunca se esgota porque o desmentido passa a ser prova do valor de quem é desmentido (capítulo VIII da Primeira Parte, capítulo X da Segunda Parte, capítulo XXIX da Segunda Parte). Na Segunda Parte a doutrina muda de dono: Sancho a aprende para encobrir a própria mentira e os duques a armam como espetáculo (capítulo XXXI da Segunda Parte), e é depois do voo do Cravelenho que o fidalgo propõe a Sancho o pacto que o livro pede ao leitor, crer no outro sem prova (capítulo XLI da Segunda Parte).
Cervantes faz do romance de cavalaria uma questão de Linguagem e narração: o fidalgo fala a língua dos livros, exige do cronista a verdade da história e acaba traduzido em livro impresso, lido pelos duques e imitado por um apócrifo (capítulo II da Primeira Parte, capítulo III da Segunda Parte, capítulo LIX da Segunda Parte). A defesa que faz de si mesmo no final, diante de dom Álvaro Tarfe, é a de um personagem que se sabe lido e responde à duplicata com a única arma que tem, não se pôr onde o outro o pôs (capítulo LXXII da Segunda Parte).
A relação com Amor e com Liberdade e opressão passa por Dulcineia. Ele a ama de ouvir dizer, e fabrica em si o amor que o ofício exige, a ponto de recusar a loucura de Orlando para não supô-la infiel (capítulo XXVI da Primeira Parte, capítulo IX da Segunda Parte). Defende a liberdade dos outros por regra de ofício, a de Marcela, a dos galeotes, a dos amantes nas bodas de Camacho (capítulo XIV da Primeira Parte, capítulo XXII da Primeira Parte, capítulo XXI da Segunda Parte), e a sua própria quando diz que a liberdade é um dos dons mais preciosos (capítulo LVIII da Segunda Parte); no capítulo XLVII da Primeira Parte, porém, aceita a jaula sem resistência, porque a lê como encantamento.
Leituras divergentes
O próprio livro põe na boca de quem o observa leituras que não se desmentem. Dom Lorenzo, o filho poeta de dom Diego, vê nele um veio de loucura atravessando uma inteligência boa, e por isso não se cura nem se descarta (capítulo XVIII da Segunda Parte):
No le sacarán del borrador de su locura cuantos médicos y buenos escribanos tiene el mundo: él es un entreverado loco, lleno de lúcidos intervalos, não o tirarão do borrão de sua loucura quantos médicos e bons escrivães tem o mundo: ele é um louco entremeado, cheio de lúcidos intervalos.
Dom Antônio Moreno, ao saber que o Cavaleiro da Lua Branca é o bacharel, faz o elogio contrário, o de não querer curar o mais gracioso louco do mundo (capítulo LXV da Segunda Parte):
Dios os perdone el agravio que habéis hecho a todo el mundo en querer volver cuerdo al más gracioso loco que hay en él! ¿No veis, señor, que no podrá llegar el provecho que cause la cordura de don Quijote a lo que llega el gusto que da con sus desvaríos, Deus vos perdoe o agravo que haveis feito a todo o mundo em querer voltar sensato o mais gracioso louco que há nele! Não vedes, senhor, que o proveito que cause a sensatez de dom Quixote não poderá chegar ao gosto que dá com seus desvarios?
Para uma leitura, o livro muda de temperamento à medida que avança, da ironia inicial a um final amargo, e o fidalgo é uma consciência antiga, ambígua e ligada ao sagrado, derrotada no plano social por uma ordem racionalista, mas vindicada por um horizonte mais alto.
Erich Auerbach, em Mimesis - Cap. 14 - A Dulcineia encantada, contesta a leitura que faz do fidalgo um símbolo da grandeza idealista, nascida do romantismo e mantida contra a crítica filológica, e recusa a ideia de que a loucura dele deva ser lida de modo trágico ou simbólico:
Auerbach localiza o adversário: a leitura que faz de Dom Quixote um símbolo da grandeza idealista nasce com o romantismo e persiste mesmo contra os filólogos que já haviam demonstrado que Cervantes não tinha essa intenção.Deve haver poucos amantes da arte literária que não liguem a Dom Quixote a concepção da grandeza idealista [...] Sobretudo depois do romantismo, esta idéia tornou-se quase generalizada, e ela se mantém mesmo contra a crítica filológica, na medida em que esta pretende demonstrar que Cervantes não tinha a intenção de despertar uma tal impressão.
No fim do ensaio, Auerbach estende à loucura de Dom Quixote inteira o veredicto que dera à cena da Dulcineia encantada.Mas considerar esta loucura simbólica ou tràgicamente, isto eu acho um ato de violêncja. É possível introduzi-lo através da interpretação, mas não está no texto.
Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental - 5.6 - Antibarroco, lê o livro como o romance dos romances, porque o contraste entre as aparências e a realidade é a própria substância do gênero, e prevê que ele conservará para sempre duas classes de leitores, as crianças e os experimentados pela vida:
o contraste entre as aparências e a realidade é a própria substância do gênero "romance". Nesse sentido é o Don Quijote "o romance dos romances".
o Don Quijote conservará para sempre as suas duas classes de leitores: as crianças, que ainda não conhecem a vida, e os outros, duramente experimentados por ela.
As leituras divergem sobre o que o fim do livro faz com o resto. Quem lê pela ironia que azeda vê no desengano de Alonso Quijano a cena em que o riso cede e o personagem renega a vida que lhe deu fama (capítulo LXXIV da Segunda Parte). Quem lê como Auerbach vê a lucidez final como a piada mais funda de Cervantes, que não troca de registro: o próprio livro troca o nome do personagem, deita-o na cama e continua a brincar com o testamento, o escrivão e a pena pendurada. Contra a leitura do final amargo vale lembrar que a morte vem acompanhada de riso, o escrivão que compara o fidalgo aos cavaleiros dos livros, a cláusula que proíbe a sobrinha de casar com leitor de cavalaria, a pena que discursa do cabide; contra a de que o livro não muda de registro, que Alonso Quijano, o Bom, é a única vez em que o livro troca o nome do personagem, e o nome novo vem com parabéns pedidos aos amigos (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
Relações
- Sancho Pança: o vizinho pobre a quem ele promete uma ínsula (capítulo VII da Primeira Parte), que o segue com a conta na mão e o corpo moído (capítulo XV da Primeira Parte), que inventa a visita a Dulcineia e a aldeã encantada (capítulo XXXI da Primeira Parte, capítulo X da Segunda Parte), que discute salário e recebe dele os conselhos de governador (capítulo VII da Segunda Parte, capítulo XLII da Segunda Parte) e que o chora no leito de morte (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Dulcineia del Toboso: a dama que ele fabrica de uma moça de lavoura (capítulo I da Primeira Parte), defende com a lança (capítulo XXX da Primeira Parte), procura de noite no Toboso (capítulo IX da Segunda Parte), vê encantada numa aldeã (capítulo X da Segunda Parte) e sustenta caído, na praia de Barcelona (capítulo LXIV da Segunda Parte).
- O padre e o barbeiro: queimam-lhe os livros e emparedam o aposento (capítulo VI da Primeira Parte), armam a jaula e a profecia (capítulo XLVI da Primeira Parte), testam-lhe a cura (capítulo I da Segunda Parte) e o padre o confessa na morte (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Sansão Carrasco: o bacharel que lhe traz a notícia do livro impresso (capítulo III da Segunda Parte), o enfrenta duas vezes disfarçado de cavaleiro, vencido no capítulo XIV da Segunda Parte e vencedor no capítulo LXIV da Segunda Parte, e escreve o epitáfio (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Cide Hamete Benengeli: o historiador que o narrador finge seguir, de quem o fidalgo teme que, por ser mouro, não diga verdade (capítulo III da Segunda Parte), e que fecha o livro guardando o personagem para si (capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Os duques: os leitores da Primeira Parte que o recebem como cavaleiro de verdade e fazem dele o hóspede de uma longa burla (capítulo XXXI da Segunda Parte, capítulo XXXV da Segunda Parte, capítulo LVII da Segunda Parte).
- Ginés de Pasamonte: o galeote que ele solta e que o apedreja (capítulo XXII da Primeira Parte), e que reaparece como mestre Pedro, o titereiro cujo retábulo ele destroça (capítulo XXVI da Segunda Parte) e que só se descobre quem é no capítulo XXVII da Segunda Parte.
- Cardênio e Doroteia: o louco da serra com quem ele troca golpes por uma rainha de livro (capítulo XXIV da Primeira Parte) e a princesa Micomicona que o tira da penitência (capítulo XXIX da Primeira Parte).
- Marcela: a pastora que ele defende sem que ela o peça (capítulo XIV da Primeira Parte).
- Altisidora: a donzela dos duques que o assedia por burla e que ele lê como adoração, ficando fiel a Dulcineia (capítulo XLIV da Segunda Parte, capítulo LXVII da Segunda Parte).
- Teresa Pança: a mulher de Sancho, cuja recusa do dom e cuja pergunta sobre quem o pôs em dom Quixote medem o nome que ele deu a si (capítulo V da Segunda Parte).