Quem é
Teresa Pança é a mulher de Sancho Pança, lavradora de uma aldeia da Mancha, mãe de Mari Sancha, também chamada Sanchica, e de um filho que Teresa quer mandar com o pai para que aprenda desde já a governar (capítulo V da Segunda Parte). Na Primeira Parte ela já está em casa, anônima: quando o escudeiro volta da segunda saída do amo, no capítulo LII da Primeira Parte, é a mulher que lhe pergunta que bem tirou das escuderias, que saia lhe traz, que sapatinhos aos filhos, e o texto a chama de Joana Pança, a mesma que na Segunda Parte será Teresa (na Mancha as mulheres tomam o sobrenome dos maridos). Só na Segunda Parte ganha voz. Quer a vida que conhece; teme o olhar dos vizinhos mais que a pobreza; sabe, por refrões, como a aldeia vigia quem sobe; e se engana, ou antes é enganada, quando a duquesa lhe manda uma carta com um colar de corais, no capítulo L da Segunda Parte, e ela crê no governo do marido pela primeira vez. O livro a faz o contrapeso do escudeiro: Sancho sonha com a ínsula, e ela mede o sonho pelo preço que a vizinhança cobraria.
Trajetória
No capítulo LII da Primeira Parte, quando Sancho chega da segunda saída do amo, a mulher lhe pergunta pelo que traz, e ele lhe responde com um provérbio, que ela verá a seu tempo, e lhe promete que se admirará de ouvir-se chamar Senhoria de todos os seus vassalos:
No es la miel para la boca del asno -respondió Sancho-; a su tiempo lo verás, mujer, y aun te admirarás de oírte llamar Señoría de todos tus vasallos, não é o mel para a boca do asno, respondeu Sancho; a seu tempo o verás, mulher, e até te admirarás de ouvir-te chamar Senhoria de todos os teus vassalos.
Sancho trata a mulher como um interlocutor que não tem o vocabulário da empresa e, em vez de explicar, retorna a promessa: a ínsula, o condado e a senhoria. Ela responde com o que sabe, as roupas e os sapatinhos dos filhos. Os dois falam de duas economias, a das coisas de casa e a dos títulos, e o provérbio é a ponte curta entre elas.
No capítulo V da Segunda Parte o livro lhe dá o capítulo inteiro. O tradutor do manuscrito abre o capítulo com uma advertência: acha-o apócrifo, porque Sancho nele fala com estilo e diz coisas sutis demais para o seu curto engenho. Sancho chega em casa tão alegre que Teresa lhe vê a alegria a tiro de besta, e lhe diz que desde que ele virou membro de cavaleiro andante fala de modo tão rodeado que ninguém o entende. Quando ele manda dobrar a ração do ruço e rever a albarda, e diz que vão lidar com gigantes, ela responde que escudeiros andantes não comem o pão de graça. Quando ele fala de casar Mari Sancha tão alto que só a alcançarão chamando-a senhora, e de fazer dela dona Teresa Pança, ela responde com a coisa que mais a define:
Siempre, hermano, fui amiga de la igualdad, y no puedo ver entonos sin fundamentos. Teresa me pusieron en el bautismo, nombre mondo y escueto, sin añadiduras ni cortapisas, ni arrequives de dones ni donas, sempre fui amiga da igualdade, irmão, e não posso ver soberba sem fundamento. Teresa me puseram no batismo, nome pelado e simples, sem acréscimos nem entraves, nem enfeites de dons nem donas.
Teresa recusa o dom por medo do riso dos vizinhos (olhem a entonada!) e porque o nome simples é o único que sabe carregar. Chama a igualdade de gosto, não de princípio, e prefere a vida que conhece. O pai dela se chamava Cascajo, e só por ser mulher de Sancho a chamam Pança, quando a bom direito seria Teresa Cascajo; pergunta ainda quem pôs dom em dom Quixote, que seus pais e avós não tiveram. O mesmo olhar alheio que ela teme é o que Sancho quer vencer. Sancho diz que ela deve ter um familiar no corpo e mistura Cascajo, broches e provérbios sem pés nem cabeça. Teresa dá, então, a razão que faz o capítulo girar:
por el refrán que dice: "¡Quien te cubre, te descubre!" Por el pobre todos pasan los ojos como de corrida, y en el rico los detienen; y si el tal rico fue un tiempo pobre, allí es el murmurar y el maldecir, y el peor perseverar de los maldicientes, que los hay por esas calles a montones, como enjambres de abejas, pelo ditado que diz quem te cobre te descobre. Pelo pobre todos passam os olhos como de corrida, e no rico os detêm; e se o tal rico foi um dia pobre, ali é o murmurar e o maldizer, e o pior é a perseverança dos maldizentes, que os há por essas ruas aos montões, como enxames de abelhas.
Teresa descreve em duas frases como a vizinhança vigia quem sobe: o pobre passa despercebido, o rico é olhado, e o rico que foi pobre é perseguido. Não argumenta contra o governo, argumenta contra o olhar dos outros, que é o que Sancho não leva em conta. O ditado diz que o disfarce denuncia. A resposta de Sancho é a contrapartida: repetindo sentenças do pregador da última Quaresma, diz que o presente apaga o passado, desde que o promovido seja bem-criado, liberal e cortês, e que ninguém se lembrará do que foi, exceto os invejosos. O tradutor intervém outra vez, dizendo que estas são as segundas razões que excedem a capacidade de Sancho. Teresa não o entende e pede que não lhe quebre a cabeça com arengas e retóricas; se está resolvido a ter governo, que leve o filho para aprender o ofício do pai. Combinam que a filha será condessa, e Teresa começa a chorar como se já a visse morta: o dia em que a vir condessa, fará de conta que a enterra.
No capítulo VII da Segunda Parte, a conta de Sancho com o amo passa por ela: quando o amo oferece despedi-lo e procurar outro escudeiro, ele jura lealdade e atribui as contas ao desejo de agradar Teresa, que aperta como o malho nos aros do tonel. No capítulo XXXVI da Segunda Parte, escreve-lhe da casa dos duques, e a carta junta numa frase o que ele diz ao amo e o que diz dele:
Don Quijote, mi amo, según he oído decir en esta tierra, es un loco cuerdo y un mentecato gracioso, y que yo no le voy en zaga. Hemos estado en la cueva de Montesinos, y el sabio Merlín ha echado mano de mí para el desencanto de Dulcinea del Toboso, que por allá se llama Aldonza Lorenzo: con tres mil y trecientos azotes, menos cinco, que me he de dar, quedará desencantada como la madre que la parió, Dom Quixote, meu amo, segundo ouvi dizer nesta terra, é um louco sensato e um mentecapto gracioso, e eu não lhe fico atrás. Estivemos na gruta de Montesinos, e o sábio Merlin lançou mão de mim para o desencanto de Dulcineia del Toboso, que por lá se chama Aldonza Lorenzo: com três mil e trezentos açoites, menos cinco, que hei de me dar, ficará desencantada como a mãe que a pariu.
Em vez de contar à mulher a gruta onde o amo desceu e ele ficou à boca segurando a corda, escreve estivemos, e na mesma linha dá a Dulcineia o nome antigo, Aldonza Lorenzo. A carta termina dizendo que ele vai ao governo com grandíssimo desejo de fazer dinheiro, e que tomará o pulso para avisar se ela deve vir ficar com ele.
No capítulo L da Segunda Parte, a duquesa despacha à aldeia o pajem que fizera a figura de Dulcineia, com a carta do marido, outra sua e um grande colar de corais. O pajem pergunta a umas lavadeiras pela casa de Teresa, e uma moça de uns catorze anos, descalça e desgrenhada, responde que é a filha. Teresa sai de casa fiando um novelo de estopa, de saia parda, magra e nervuda; o pajem se ajoelha a seus pés e a trata de dona Teresa Pança, mulher do senhor dom Sancho Pança, governador próprio da ínsula Barataria, e ela responde que é pobre lavradora, filha de um estripaterrões e mulher de um escudeiro andante. Não sabe ler, nem Sanchica; o pajem lê a carta de Sancho e depois a da duquesa, que a chama de amiga, diz que o marido governa como um girifalte, pede duas dúzias de bolotas e promete casar Sanchica altamente. Teresa diz:
¡Ay -dijo Teresa en oyendo la carta-, y qué buena y qué llana y qué humilde señora! Con estas tales señoras me entierren a mí, y no las hidalgas que en este pueblo se usan, que piensan que por ser hidalgas no las ha de tocar el viento, ai, disse Teresa ao ouvir a carta, e que boa e que simples e que humilde senhora! Com tais senhoras me enterrem a mim, e não com as fidalgas que neste povoado se usam, que pensam que, por serem fidalgas, não as há de tocar o vento.
Teresa mede a duquesa pela vizinhança: a carta a chama de amiga, e as fidalgas da aldeia têm por desonra olhar uma lavradora. Já pensa em mandar um celemim de bolotas e em contar tudo às vizinhas. Duas leituras: gratidão simples a quem a trata como igual, ou o gosto de ter, contra as fidalgas, uma duquesa a seu favor, que é também a isca da burla. Teresa sai pelas ruas tangendo as cartas como pandeiro, com o colar no pescoço, e topa com o padre e o bacharel, que não acreditam: Sansão, que já se disfarçou de cavaleiro para curar o vizinho, aplica ao pajem a regra do fidalgo e quer tocá-lo para ver se é embaixador fantástico ou homem de carne e osso. Teresa não quer que o bacharel escreva as respostas, que o tem por algo burlão, e paga um bolo e dois ovos a um sacristão que sabe escrever.
No capítulo LII da Segunda Parte, o pajem leva as duas cartas à duquesa e ao marido. Na da duquesa, Teresa agradece os corais e o vestido de caça, diz que o povoado não crê no governo de Sancho, nem o padre, nem o barbeiro, nem Sansão Carrasco, e que ela mesma, não viessem os corais e o vestido, tampouco creria. Quer ir à corte de coche, para quebrar os olhos a mil invejosos, e pede dinheirinho. Na carta ao marido, abre-se em espanto:
¿quién podía pensar que un pastor de cabras había de venir a ser gobernador de ínsulas?, quem podia pensar que um pastor de cabras havia de vir a ser governador de ínsulas?
Teresa mede o governo pela distância do que o marido foi, e a mede com espanto, não com desprezo. Logo em seguida deseja vê-lo arrendador ou alcabaleiro, ofícios que sempre têm e manejam dinheiros, e o leitor acaba de ler a carta em que Sancho conta não ter tocado direito nem levado suborno. Duas leituras: contentamento de mulher que não crê no que vê, ou ambição prática de quem entende o poder como renda. No capítulo LVII da Segunda Parte, Sancho, na despedida dos duques, chora lendo as cartas dela, pensando em quão grandes eram as esperanças que as notícias do governo tinham posto no peito de Teresa e como todas pararam em ele voltar às arrastadas aventuras do amo. No capítulo LXXIII da Segunda Parte, ao saber que o marido chegou, ela acode desgrenhada e meio nua, com a filha pela mão, e ao vê-lo a pé e despeado, mais parecido com um desgovernado que com um governador, ouve dele que dinheiros traz, ganhos por sua indústria e sem dano de ninguém. Teresa lhe diz que traga dinheiro, e seja ganho por aqui ou por ali, que de qualquer modo que o tenha ganho não terá feito usança nova no mundo.
Temas que encarna
Teresa carrega a Honra e reputação pela vizinhança: o que ela teme é o olhar dos outros, o riso, o murmurar, mais do que o pouco que tem (capítulo V da Segunda Parte). A pergunta de quem pôs dom em dom Quixote, que seus pais e avós não tiveram, mede o nome que o fidalgo deu a si pela régua da aldeia. A recusa do dom, a pergunta e o ditado da vizinhança formam uma sociologia de aldeia que o livro deixa à vista sem a corrigir.
Em Aparência e realidade, Teresa é a outra descrente do governo: o povoado não crê, e ela mesma não creria não viessem os corais e o vestido (capítulo LII da Segunda Parte). A diferença é que ela precisa de uma prova no corpo para crer, o colar, e Sancho precisa de uma promessa no ouvido. O mecanismo é o mesmo do fidalgo, com sinal contrário: a prova concreta basta para ela passar de descrente a ansiosa por ir à corte de coche.
O tema de Amor passa por ela de uma forma que o livro raras vezes mostra, o casamento que dura: o marido diz que a quer mais que às pestanas dos olhos (capítulo LXX da Segunda Parte), e Teresa o recebe de volta chamando-o de desgovernado (capítulo LXXIII da Segunda Parte). A ternura de ambos é feita de deboche, de refrões e de conta de casa.
Leituras divergentes
O livro põe nas cartas a divergência sobre o que Teresa quer. Em uma, ela quer ir à corte de coche, para quebrar os olhos a mil invejosos; na outra, espanta-se de que um pastor de cabras tenha chegado a governador (capítulo LII da Segunda Parte). Quem a lê pela primeira carta vê uma ambição que a duquesa fomenta; quem a lê pela segunda vê uma descrença que a prova do colar vence. O texto sustenta as duas coisas.
As leituras divergem sobre o que o contraste entre Sancho e Teresa diz do livro. Quem lê a recusa do dom como lucidez de classe vê nela a voz que o romance concede ao mundo que o fidalgo ignora; quem a lê como medo de aldeia vê uma mulher que prefere o riso dos vizinhos a qualquer ventura. Contra a primeira leitura vale lembrar que ela, ao receber os corais, já pensa em mandar bolotas, em contar às vizinhas e em andar de coche; contra a segunda, que a frase final do capítulo V, o dia em que vir a filha condessa fará de conta que a enterra, mostra que o que ela teme é perder a filha, e não o riso.
Relações
- Sancho Pança: o marido que lhe promete a ínsula (capítulo LII da Primeira Parte), que discute com ela a condessa (capítulo V da Segunda Parte), a quem escreve do castelo dos duques (capítulo XXXVI da Segunda Parte) e que volta a ela sem governo e diz trazer dinheiro ganho sem dano de ninguém (capítulo LXXIII da Segunda Parte).
- Os duques: a duquesa que lhe manda a carta e o colar, e o pajem que representa a ficção na aldeia (capítulo L da Segunda Parte).
- Sansão Carrasco: o bacharel que não crê na notícia e que ela tem por algo burlão (capítulo L da Segunda Parte).
- O padre e o barbeiro: o padre que comenta que todos os Panças nasceram com um costal de refrões no corpo (capítulo L da Segunda Parte).
- Dom Quixote: o fidalgo cujo dom ela questiona (capítulo V da Segunda Parte).