Quem é
Os duques são o casal de grandes senhores que recebe Dom Quixote e Sancho Pança na Segunda Parte e os hospeda por mais de vinte capítulos em sua casa de prazer, que o fidalgo toma por castelo (capítulo XXX da Segunda Parte, capítulo XXXI da Segunda Parte). Não têm nome; o livro os chama o duque e a duquesa, e sua marca é terem lido a Primeira Parte, de modo que sabem o que esperar do fidalgo e de Sancho e armam, uma por uma, as aventuras que os livros lhes ensinaram a admirar. Querem entreter-se; temem que o hóspede se envergonhe e a diversão acabe, e por isso disfarçam o riso (capítulo XXXI da Segunda Parte); sabem de cavalaria, de encenação e do humor de cada um; e se enganam, diz Cide Hamete, ao acharem que burlam dois tontos sem se parecer com eles (capítulo LXX da Segunda Parte). A mulher é a que mais pergunta e mais engendra; o marido, o que dá a ordem e firma a promessa. Fazem do castelo um teatro: Merlin, a Aia Dolorida, o Cravelenho, a ínsula Barataria, a ressurreição de Altisidora, o duelo com o lacaio Tosilos. É a primeira vez que a ficção de dom Quixote lhe vem de fora, de leitores que a encenam por ele.
Trajetória
No capítulo XXX da Segunda Parte, depois de perder tempo e dinheiro no barco encantado, o fidalgo avista no prado uma senhora de verde, sobre um palafrém branquíssimo, com um falcão na mão esquerda: é a duquesa. Sancho lhe leva o recado, ajoelhado, com todos os requintes, e ela, que já tem muita notícia do fidalgo, convida o amo a servir-se dela e do duque seu marido numa casa de prazer que ali têm. Depois pergunta ao escudeiro:
Decidme, hermano escudero: este vuestro señor, ¿no es uno de quien anda impresa una historia que se llama del ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, que tiene por señora de su alma a una tal Dulcinea del Toboso?, dizei-me, irmão escudeiro: este vosso senhor não é daqueles de quem anda impressa uma história que se intitula do engenhoso fidalgo dom Quixote da Mancha, que tem por senhora da sua alma uma tal Dulcineia del Toboso?
A pergunta muda o terreno: dom Quixote deixa de ser alguém que se reconhece pelo que faz e passa a ser alguém que se reconhece pelo que está impresso. Pelo que ela diz, vem lendo a Primeira Parte, e isso a põe, sem aviso, do lado do leitor que vai armar a cena. Duas leituras: curiosidade de leitora que encontra o personagem, ou isca, em que ela confirma o que precisa para saber que papel oferecer. Sancho, a quem Sansão Carrasco já dissera que o livro anda impresso, recebe a notícia de ser personagem com a graça de quem mexe numa troca de criança: o Sancho da estampa pode não ser ele. O narrador esclarece, então, o ânimo dos dois:
por haber leído la primera parte desta historia y haber entendido por ella el disparatado humor de don Quijote, con grandísimo gusto y con deseo de conocerle le atendían, con prosupuesto de seguirle el humor y conceder con él en cuanto les dijese [...] tratándole como a caballero andante los días que con ellos se detuviese, con todas las ceremonias acostumbradas en los libros de caballerías, que ellos habían leído, y aun les eran muy aficionados, por terem lido a primeira parte desta história e entendido por ela o humor disparatado de dom Quixote, com grandíssimo gosto e desejo de conhecê-lo o aguardavam, com o propósito de lhe seguir o humor e concordar com ele em tudo o que dissesse [...] tratando-o como cavaleiro andante os dias em que com eles se detivesse, com todas as cerimônias costumadas nos livros de cavalaria, que eles tinham lido e de que ainda gostavam muito.
Sobre os duques, o narrador não vai além do seguir o humor: hospitalidade que entra no jogo de quem hospeda, ou espetáculo armado tendo o hóspede por atração, e o texto se limita aos meios, as cerimônias dos livros que eles amam. A frase anuncia o que vem pelos capítulos seguintes. No capítulo XXXI da Segunda Parte, o duque se adianta e instrui os criados sobre como tratar o fidalgo. À porta, dois lacaios de seda carmesim o pegam nos braços, sem que ele os veja nem ouça, e lhe dizem que vá apear a duquesa; a duquesa só desce nos braços do duque, por não se achar digna de dar tão inútil carga a tão grande cavaleiro. No pátio, duas donzelas põem um manto de escarlata nos ombros do fidalgo, os corredores se enchem de criados que gritam bem-vinda seja a flor e a nata dos cavaleiros andantes, e todos derramam águas aromáticas sobre ele:
aquél fue el primer día que de todo en todo conoció y creyó ser caballero andante verdadero, y no fantástico, viéndose tratar del mesmo modo que él había leído se trataban los tales caballeros en los pasados siglos, aquele foi o primeiro dia em que de todo em todo conheceu e creu ser cavaleiro andante verdadeiro, e não fantástico, vendo-se tratar do mesmo modo que ele tinha lido que se tratavam os tais cavaleiros nos séculos passados.
O que faltava a ele nas estalagens, nas estradas e nas gaiolas era ser tratado como os livros mandam, e quem lhe dá isso são leitores dos mesmos livros, que já se prepararam para o papel. A palavra do narrador é fantástico, e ela opõe o cavaleiro de verdade ao de fantasia. Duas leituras: a primeira satisfação plena que o livro lhe dá, ou a primeira vez em que a crença dele se apoia em outros e não mais em si.
No capítulo XXXII da Segunda Parte, à mesa, um eclesiástico do castelo desqualifica o fidalgo, e este responde a ele diante dos duques, que o ouvem e o admiram. No capítulo XXXIII da Segunda Parte, a duquesa recebe Sancho a sós, o faz sentar numa cadeira baixa junto a si, e lhe diz que se sente como governador e fale como escudeiro. Declara as dúvidas que a história impressa lhe deixou, a primeira das quais é como o bom Sancho se atreveu a fingir a resposta de Dulcineia. Quando Sancho confessa, ela inverte o jogo sem desmentir a confissão:
porque real y verdaderamente yo sé de buena parte que la villana que dio el brinco sobre la pollina era y es Dulcinea del Toboso, y que el buen Sancho, pensando ser el engañador, es el engañado, porque real e verdadeiramente eu sei de boa parte que a vilã que deu o pulo sobre a burrinha era e é Dulcineia del Toboso, e que o bom Sancho, pensando ser o enganador, é o enganado.
A duquesa não diz que ele mentiu, diz que a mentira dele foi obra dos encantadores e que os fatos, sim, eram verdade. Com isso a farsa que Sancho dirigia passa às mãos dela, e a pessoa que dizia eu inventei ouve que apenas foi instrumento. Duas leituras: armadilha de quem quer entreter-se à custa do escudeiro, ou prolongamento de uma crença que a corte decidiu compartilhar com o hóspede, e na qual Sancho pode se acomodar. No capítulo XXXIV da Segunda Parte os duques tomam a gruta que o fidalgo contou e a transformam em mensageiro. Numa caçada de montaria, ao anoitecer o bosque parece arder, e um postilhão em traje de diabo anuncia:
Yo soy el Diablo; voy a buscar a don Quijote de la Mancha; la gente que por aquí viene son seis tropas de encantadores, que sobre un carro triunfante traen a la sin par Dulcinea del Toboso. Encantada viene con el gallardo francés Montesinos, a dar orden a don Quijote de cómo ha de ser desencantada la tal señora, eu sou o Diabo; vou buscar dom Quixote de la Mancha; a gente que por aqui vem são seis tropas de encantadores, que sobre um carro triunfante trazem a sem par Dulcineia del Toboso. Encantada vem com o galhardo francês Montesinos, para dar ordem a dom Quixote de como há de ser desencantada a tal senhora.
Montesinos, que o fidalgo disse ter visto debaixo da terra, aparece agora com Dulcineia num carro de encantadores, e a ordem sobre o desencanto chega ao dono da história. Dom Quixote e Sancho se perturbam por razões opostas: o escudeiro porque querem encantar à força o que ele sabe falso, o fidalgo porque não consegue mais afirmar se a gruta foi verdade. No capítulo XXXV da Segunda Parte, um carro de disciplinantes com tochas leva uma figura que diz ser Merlin e dita a sentença:
es menester que Sancho, tu escudero, se dé tres mil azotes y trecientos en ambas sus valientes posaderas, al aire descubiertas, y de modo que le escuezan, le amarguen y le enfaden, é preciso que Sancho, teu escudeiro, se dê três mil açoites e trezentos em ambas as suas valentes nádegas, ao ar descobertas, e de modo que lhe ardam, lhe amarguem e lhe enfadem.
O remédio ao encanto que Sancho inventou é pago com a pele de Sancho, e a burla dos duques aproveita o que ele confessou à duquesa dois capítulos antes: a mentira dita em segredo vira a dívida que ele terá de saldar em público. Duas leituras: justiça poética para o embusteiro que paga o que forjou, ou crueldade de um jogo que cobra de um homem simples, em açoites, uma mentira que ele já confessou a quem agora o castiga. O mordomo do duque, de engenho burlesco e desenfadado, é o autor de Merlin, dos versos e do pajem que fez Dulcineia (capítulo XXXVI da Segunda Parte). A Aia Dolorida, a condessa Trifaldi, e o cavalo de pau Cravelenho completam o cenário da farsa (capítulo XXXVIII da Segunda Parte, capítulo XL da Segunda Parte).
Antes do voo, o duque tranquiliza Sancho, que não quer subir:
la ínsula que yo os he prometido no es movible ni fugitiva: raíces tiene tan hondas, echadas en los abismos de la tierra, que no la arrancarán ni mudarán de donde está a tres tirones, a ínsula que eu vos prometi não é movível nem fugitiva: raízes tem tão fundas, lançadas nos abismos da terra, que não a arrancarão nem mudarão de onde está a três puxões.
O duque trata a ínsula como coisa que não foge de quem confia, e logo diz a Sancho o que realmente cobra por ela: sabe que todo ofício de importância se granjeia com alguma espécie de suborno, e o que quer por este governo é que o escudeiro vá com o amo e dê cima à aventura. A promessa é isca, e é palavra de quem vai cumpri-la. Duas leituras: a ínsula é a corda que mantém Sancho na garupa do cavalo de pau, ou é a única coisa séria do jogo, e o duque a firma à vista de todos para tornar o resto suportável.
No capítulo XLII da Segunda Parte, os duques, contentes com o êxito da aventura da Dolorida, resolvem levar as burlas adiante, porque têm em Sancho um sujeito tão acomodado que as faz passar por veras, e o mandam tomar posse da ínsula. No capítulo XLVII da Segunda Parte, o duque monta a burla de dentro para fora e manda a Sancho uma carta de aviso:
Sé también, por espías verdaderas, que han entrado en ese lugar cuatro personas disfrazadas para quitaros la vida, porque se temen de vuestro ingenio; abrid el ojo, y mirad quién llega a hablaros, y no comáis de cosa que os presentaren, sei também, por espiões verdadeiros, que entraram neste lugar quatro pessoas disfarçadas para vos tirar a vida, porque se temem de vosso engenho; abri o olho, e vede quem chega a vos falar, e não comais de coisa que vos apresentarem.
Um perigo sem data para a ínsula, um perigo sem rosto para o governador, e um elogio ao engenho que o faz parecer ameaça. O aviso termina onde a fome começa, no não comais de coisa que vos apresentarem. O mordomo, que é peça da burla, escreve aos duques que o governador sentencia e dá avisos, e que nele andam misturados os assomos discretos e os tontos (capítulo XLIX da Segunda Parte, capítulo LI da Segunda Parte). No capítulo L da Segunda Parte, a duquesa, prosseguindo com sua intenção de burlar-se e receber passatempo com dom Quixote, despacha à aldeia o pajem que fizera Dulcineia, com a carta do marido, outra sua e um grande colar de corais. No capítulo LII da Segunda Parte, a segunda dona Angustiada, dona Rodríguez, pede ao fidalgo, de luto, que desafie o lavrador que desonrou a filha; o duque lhe dá licença e campo seguro. Quando o desafio chega, no capítulo LVI da Segunda Parte, o duque instrui o lacaio Tosilos sobre como vencer o fidalgo sem feri-lo e manda tirar os ferros das lanças, alegando que a cristandade não permite tanto risco de vidas. O lacaio desiste por causa da moça, e a cólera do duque só passa quando o riso a substitui. No capítulo LVII da Segunda Parte, a duquesa entrega a Sancho as cartas da mulher, e Sancho, acusado de roubo por Altisidora, lembra aos duques que as ocasiões de roubar estiveram todas no governo; os duques lhe haviam dado duzentos escudos de que o fidalgo ainda não sabe.
No capítulo LXIX da Segunda Parte, os duques fazem o funeral de Altisidora, com quase cem tochas, um túmulo de duas varas de altura e dois personagens de coroa, que parecem reis verdadeiros ou fingidos. No capítulo LXX da Segunda Parte, Cide Hamete dá a sua opinião sobre a burla:
Y dice más Cide Hamete: que tiene para sí ser tan locos los burladores como los burlados, y que no estaban los duques dos dedos de parecer tontos, pues tanto ahínco ponían en burlarse de dos tontos, e diz mais Cide Hamete: que tem para si serem tão loucos os burladores como os burlados, e que os duques não estavam a dois dedos de parecer tontos, pois tanto empenho punham em burlar-se de dois tontos.
O narrador nivela a hierarquia da farsa: o que parecia espetáculo de nobres para divertir-se com dois simplórios é, aos olhos dele, tão demente quanto os burlados, porque gasta tochas, atores e aparato por uma diversão. Duas leituras: uma repreensão de moralista contra os ociosos que fazem do louco um brinquedo, ou um jeito de proteger dom Quixote, a quem o texto retira o ar de única vítima, e Sancho, a quem poupa o ridículo do açoite.
Temas que encarna
Os duques são a Aparência e realidade com dono. O que o fidalgo vê por doença e Sancho por esperteza, eles fabricam por ofício: o carro de Merlin, o diabo mensageiro, o cavalo de pau, a ínsula com governador e médico. O livro mostra a mesma estrutura de fé agora instalada por quem sabe que é farsa, e sem pretexto de crença. O resultado é que o fidalgo se vê cavaleiro de verdade pela primeira vez (capítulo XXXI da Segunda Parte), e Sancho paga em açoites uma mentira que era sua (capítulo XXXV da Segunda Parte).
Em Linguagem e narração, os duques são os leitores da Primeira Parte que a encenam. A duquesa abre a conversa com Sancho citando o livro (capítulo XXX da Segunda Parte), cobra dele a inconsistência da história (capítulo XXXIII da Segunda Parte) e a faz render. O apócrifo de Avellaneda é o contraponto: depois do castelo, o fidalgo ouve a duplicata através de um tabique e muda de rumo para desmenti-la (capítulo LIX da Segunda Parte).
O tema da Justiça e lei os coloca no centro e no avesso: a ínsula é governada por um escudeiro de mentira, e é a burla que lhe dá a ocasião de ser juiz de verdade. Quando o duque instrui Tosilos para vencer sem ferir e manda tirar os ferros das lanças, dá campo franco ao duelo em nome da cristandade, embora o duelo vá contra o decreto do Santo Concílio, que proíbe desafios (capítulo LVI da Segunda Parte).
Leituras divergentes
O próprio livro põe duas leituras do que os duques são, e nenhuma é desmentida. Para Cide Hamete, tão loucos como os burlados são os burladores, e os duques não estavam a dois dedos de parecer tontos (capítulo LXX da Segunda Parte). Para o escudeiro, o governo é a ocasião de mostrar-se melhor do que os burladores esperavam (capítulo XLIX da Segunda Parte), e para o fidalgo, a hospitalidade mais generosa que o livro lhe dá (capítulo XXXI da Segunda Parte).
As leituras divergem sobre se a burla é crueldade. Quem lê pela dor vê um jogo que cobra de dois homens simples o preço do riso de uma corte: o fidalgo arranhado (capítulo XLVIII da Segunda Parte), Sancho pisado entre dois escudos (capítulo LIII da Segunda Parte), Altisidora ressuscitada à custa de vinte e quatro tapas e alfinetadas (capítulo LXIX da Segunda Parte). Quem lê pela graça vê um teatro que honra o fidalgo como ele sempre quis ser honrado, com tochas, mantos e o título de flor e nata dos cavaleiros andantes, e que dá a Sancho a ínsula que ele cobrava (capítulo XXXI da Segunda Parte, capítulo XLV da Segunda Parte). Contra a primeira leitura vale lembrar que o fidalgo deixa o castelo por vontade própria, pedindo licença (capítulo LVII da Segunda Parte); contra a segunda, que o narrador, ao julgar a burla, a chama de demência igual à dos burlados (capítulo LXX da Segunda Parte).
Relações
- Dom Quixote: o hóspede a quem tratam como os livros mandam (capítulo XXXI da Segunda Parte) e a quem armam as aventuras da Dolorida e do Cravelenho (capítulo XXXVIII da Segunda Parte, capítulo XLI da Segunda Parte).
- Sancho Pança: o escudeiro a quem a duquesa faz sentar como governador e a quem o duque promete a ínsula (capítulo XXXIII da Segunda Parte, capítulo XLI da Segunda Parte).
- Dulcineia del Toboso: a figura de que fazem uma personagem de farsa, no carro de Merlin (capítulo XXXV da Segunda Parte).
- Altisidora: a donzela da casa que assedia o fidalgo por encomenda (capítulo XLIV da Segunda Parte) e é ressuscitada na farsa do funeral (capítulo LXIX da Segunda Parte).
- Teresa Pança: a mulher de Sancho, a quem a duquesa escreve e manda um colar de corais (capítulo L da Segunda Parte).
- Cide Hamete Benengeli: o historiador que julga os burladores tão loucos quanto os burlados (capítulo LXX da Segunda Parte).