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Personagem

Cide Hamete Benengeli

Quem é

Cide Hamete Benengeli é o historiador árabe a quem o livro atribui a história de Dom Quixote, e o único narrador do romance que tem nome. Nasce no capítulo IX da Primeira Parte, quando o narrador, que ficara sem fonte no meio de um duelo (capítulo VIII da Primeira Parte), acha num mercado de Toledo uns cadernos de caracteres árabes, procura um mouro que os leia e o paga em passas e trigo; o que ele traduz é a história que o narrador procurava, e assim Cide Hamete entra como um autor de segunda mão, vertido por um tradutor pago em comida. O livro o chama autor arábigo e manchego (capítulo XXII da Primeira Parte) e, na Segunda Parte, o faz comentar a própria história em margens, prefácios e despedidas (capítulo XXIV da Segunda Parte, capítulo XLIV da Segunda Parte, capítulo LIII da Segunda Parte, capítulo LXXIV da Segunda Parte). Ele quer ser crido e deixa ao leitor a decisão do que crer; teme não ser acreditado e por isso diz que escreve como foi, sem acrescentar nem tirar um átomo (capítulo X da Segunda Parte); sabe mais do que mostra e confessa que não sabe garantir o que conta da gruta de Montesinos (capítulo XXIV da Segunda Parte); e é o fiador de uma verdade que o livro põe sob suspeita desde o início, porque o narrador que o encontra lembra que os árabes são tidos por mentirosos (capítulo IX da Primeira Parte).

Trajetória

No capítulo VIII da Primeira Parte, o narrador de 1605 interrompe a batalha do biscainho com as espadas erguidas e diz que a fonte acabou:

Pero está el daño de todo esto que en este punto y término deja pendiente el autor desta historia esta batalla, disculpándose que no halló más escrito destas hazañas de don Quijote de las que deja referidas, mas o dano de tudo isto está em que neste ponto e termo deixa pendente o autor desta história esta batalha, desculpando-se de que não achou mais escrito destas façanhas de dom Quixote do que as que deixa referidas.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

O corte vem no pico do suspense e é justificado por falta de fonte, o que é uma confissão: quem conta depende de papéis que alguém escreveu antes. No capítulo IX da Primeira Parte o narrador retoma o fio, em primeira pessoa, e diz o que isso lhe custou:

Causóme esto mucha pesadumbre, porque el gusto de haber leído tan poco se volvía en disgusto, de pensar el mal camino que se ofrecía para hallar lo mucho que, a mi parecer, faltaba de tan sabroso cuento, causou-me isto muito pesar, porque o gosto de ter lido tão pouco se voltava em desgosto, de pensar no mau caminho que se oferecia para achar o muito que, a meu ver, faltava de tão saboroso relato.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Ele fala como leitor frustrado, que não aceita que a história de um cavaleiro tão bom tenha ficado sem cronista quando todos os cavaleiros andantes tiveram um ou dois sábios que lhes escreviam até os pensamentos mais miúdos. Acha então, no Alcaná de Toledo, o caderno, e o mouro que o lê começa a rir ao abri-lo ao acaso:

Está, como he dicho, aquí en el margen escrito esto: "Esta Dulcinea del Toboso, tantas veces en esta historia referida, dicen que tuvo la mejor mano para salar puercos que otra mujer de toda la Mancha, está, como disse, aqui na margem escrito isto: Esta Dulcineia del Toboso, tantas vezes mencionada nesta história, dizem que tinha melhor mão para salgar porcos do que qualquer outra mulher de toda a Mancha.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

O narrador esconde o contentamento para pagar meio real pelos papéis e leva o mouro para casa, onde em mês e meio ele traduz tudo por duas arrobas de passas e dois alqueires de trigo. O título que o mouro lê é o que dá nome ao autor:

volviendo de improviso el arábigo en castellano, dijo que decía: Historia de don Quijote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador arábigo, voltando de improviso o árabe em castelhano, disse que dizia: História de dom Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador árabe.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Cide Hamete nasce assim: um autor árabe de segunda mão, vertido por um mouro pago em comida, e é essa distância, em vez de uma testemunha direta, que o livro escolhe como fonte da sua verdade. O narrador apresenta a fonte e logo aponta o defeito possível:

Si a ésta se le puede poner alguna objeción cerca de su verdad, no podrá ser otra sino haber sido su autor arábigo, siendo muy propio de los de aquella nación ser mentirosos, se a esta se lhe puder pôr alguma objeção quanto à sua verdade, não poderá ser outra senão ter sido seu autor árabe, sendo muito próprio dos daquela nação serem mentirosos.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Em seguida o corrige: por serem inimigos dos espanhóis, os árabes tenderiam mais a omitir elogios do que a exagerá-los, e o autor parece de propósito silenciar os louvores ao cavaleiro. O texto sustenta duas leituras: a de um narrador que se protege da acusação de crédulo, e a de um humorista que faz a autoridade que inventou tropeçar no primeiro passo. A definição de história que o narrador dá é de manual, e ele a usa como régua para cobrar do árabe o louvor que faltou ao seu cavaleiro:

habiendo y debiendo ser los historiadores puntuales, verdaderos y no nada apasionados, y que ni el interés ni el miedo, el rancor ni la afición, no les hagan torcer del camino de la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir, sendo os historiadores, como devem ser, exatos, verdadeiros e nada passionais, de modo que nem o interesse nem o medo, nem o rancor nem a afeição os desviem do caminho da verdade, cuja mãe é a história, rival do tempo, arquivo das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do que há de vir.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Ao exigir isso do autor árabe, o narrador pede ao leitor que exija o mesmo dele, e é nessa troca, entre cobrar a verdade e contar um caso de gigantes, que o livro se equilibra. No capítulo XXII da Primeira Parte a voz do historiador abre o episódio dos galeotes, e no capítulo LII da Primeira Parte o livro de 1605 se fecha com um pedido de crédito que o iguala aos livros de cavalaria:

El cual autor no pide a los que la leyeren, en premio del inmenso trabajo que le costó inquerir y buscar todos los archivos manchegos, por sacarla a luz, sino que le den el mesmo crédito que suelen dar los discretos a los libros de caballerías, que tan validos andan en el mundo, o qual autor não pede aos que a lerem, em prêmio do imenso trabalho que lhe custou inquirir e buscar todos os arquivos manchegos, para a tirar à luz, senão que lhe deem o mesmo crédito que costumam dar os discretos aos livros de cavalarias, que tão valorizados andam no mundo.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

Quem pede é o narrador que acabou de apresentar caixa de chumbo e pergaminhos góticos, os apetrechos de verdade que dom Quixote exigia dos livros. Pode ser ironia contra os livros, contra o leitor ou contra o próprio pedido.

Na Segunda Parte Cide Hamete passa a comentar. No capítulo III da Segunda Parte, dom Quixote, ao saber que a história existe, teme que o autor seja mouro, e de mouros não se espera verdade alguma, porque todos são embelecadores, falsários e quimeristas. No capítulo V da Segunda Parte, o tradutor adverte que acha apócrifo o capítulo, porque Sancho fala em estilo e diz coisas sutis demais para o seu curto engenho, mas não quis deixar de traduzi-lo, por cumprir o que o ofício lhe devia. No capítulo VIII da Segunda Parte, Cide Hamete abre o capítulo bendizendo três vezes a Alá, por ver os dois já em campanha, e pede aos leitores que esqueçam as cavalarias passadas e ponham os olhos nas que estão por vir. No capítulo X da Segunda Parte avisa que preferiria passar o capítulo em silêncio, por medo de não ser acreditado, porque as loucuras de dom Quixote chegam ali ao termo das maiores que se podem imaginar e passam dois tiros de besta além delas; escreveu tal como foram, porque a verdade adelgaça e não quebra, e anda sempre sobre a mentira como o azeite sobre a água. No capítulo XXIV da Segunda Parte, na margem da gruta de Montesinos, deixa escrito de próprio punho que não pode persuadir-se de que tudo aconteceu como foi contado:

No me puedo dar a entender, ni me puedo persuadir, que al valeroso don Quijote le pasase puntualmente todo lo que en el antecedente capítulo queda escrito [...] y si esta aventura parece apócrifa, yo no tengo la culpa; y así, sin afirmarla por falsa o verdadera, la escribo, não posso dar a entender, nem posso persuadir-me, de que ao valoroso dom Quixote tenha acontecido pontualmente tudo o que no capítulo anterior fica escrito [...] e se esta aventura parece apócrifa, eu não tenho a culpa; e assim, sem afirmá-la falsa ou verdadeira, a escrevo.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O historiador mede a gruta pela régua das aventuras anteriores, que lhe pareceram contingíveis e verossímeis, e por essa régua ela não tem entrada. Sustenta duas coisas que não cabem juntas: o fidalgo, o mais verdadeiro dos fidalgos, não mentiria nem atravessado de setas, e não teria tempo de fabricar tamanha máquina de disparates. Por isso não decide e passa ao leitor a tarefa. Acrescenta que se tem por certo que, ao morrer, o fidalgo se retratou e disse que a inventara, e deixa o rumor sem confirmar. No capítulo XXVII da Segunda Parte jura como católico cristão, e o tradutor explica que o mouro quis dizer só que, assim como o cristão que jura diz a verdade, ele diz a verdade sobre quem eram mestre Pedro e o macaco:

Este Ginés de Pasamonte, a quien don Quijote llamaba Ginesillo de Parapilla, fue el que hurtó a Sancho Panza el rucio [...] determinó pasarse al reino de Aragón y cubrirse el ojo izquierdo, acomodándose al oficio de titerero, este Ginés de Pasamonte, a quem dom Quixote chamava Ginesillo de Parapilla, foi quem furtou de Sancho Pança o ruço [...] resolveu passar-se ao reino de Aragão e cobrir o olho esquerdo, acomodando-se ao ofício de titereiro.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O capítulo responde aos críticos do livro impresso, que apontaram o ruço que reaparece sem explicação, e atribui a falta aos impressores e não à memória do autor. No capítulo XXXVIII da Segunda Parte, ao nomear a condessa Trifaldi, chama-se Benengeli como testemunha de uma coisa que o leitor já sabe fabricada, e a explica com o cuidado de um genealogista:

y así dice Benengeli que fue verdad, y que de su propio apellido se llama la condesa Lobuna, a causa que se criaban en su condado muchos lobos, y que si como eran lobos fueran zorras, la llamaran la condesa Zorruna, por ser costumbre en aquellas partes tomar los señores la denominación de sus nombres de la cosa o cosas en que más sus estados abundan; empero esta condesa, por favorecer la novedad de su falda, dejó el Lobuna y tomó el Trifaldi, e assim diz Benengeli que foi verdade, e que de seu próprio sobrenome se chama a condessa Lobuna, porque no seu condado se criavam muitos lobos, e que, se em vez de lobos fossem raposas, a chamariam a condessa Zorruna, por ser costume naquelas partes tomarem os senhores a denominação de seus nomes da coisa ou coisas em que mais abundam seus estados; porém esta condessa, para favorecer a novidade de sua saia, deixou o Lobuna e tomou o Trifaldi.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

A graça está em que a aventura inteira é feita de peças assim, o véu, a barba, o cavalo, e o nome sai do figurino. No capítulo XL da Segunda Parte o narrador lhe agradece por contar até as semínimas da história. No capítulo XLIV da Segunda Parte, o capítulo abre com uma queixa que se diz do próprio original:

y decía que el ir siempre atenido el entendimiento, la mano y la pluma a escribir de un solo sujeto y hablar por las bocas de pocas personas era un trabajo incomportable, cuyo fruto no redundaba en el de su autor [...] pide no se desprecie su trabajo, y se le den alabanzas, no por lo que escribe, sino por lo que ha dejado de escribir, e dizia que ir sempre com o entendimento, a mão e a pena presos a escrever de um só sujeito e a falar pelas bocas de poucas pessoas era um trabalho incomportável, cujo fruto não redundava em proveito de seu autor [...] pede que não se despreze seu trabalho, e que se lhe deem louvores não pelo que escreve, mas pelo que deixou de escrever.
Segunda Parte: O governo da ilha

Cide Hamete teria achado seca e limitada a história que tomou entre mãos, sempre a falar do fidalgo e de Sancho, e o intérprete não a traduziu como ele a escreveu. O narrador responde a uma crítica que a Primeira Parte recebeu, a das novelas que interrompiam a história, e responde pondo o defeito na estreiteza do tema, não nas novelas. No capítulo LIII da Segunda Parte, "filósofo maometano", abre o capítulo com uma reflexão sobre o tempo, que gira em roda como as estações:

sola la vida humana corre a su fin ligera más que el tiempo, sin esperar renovarse si no es en la otra, que no tiene términos que la limiten, só a vida humana corre a seu fim mais ligeira que o tempo, sem esperar renovar-se a não ser na outra, que não tem termos que a limitem.
Segunda Parte: O governo da ilha

A reflexão, que muitos sem lume de fé, só com a luz natural, entenderam, vem antes da noite em que Sancho cai entre dois escudos, e dá à burla um fundo de vaidade das coisas. No capítulo LIX da Segunda Parte, dom Juan, hóspede de uma estalagem que lê o livro apócrifo, formula a regra de autoria:

si fuera posible, se había de mandar que ninguno fuera osado a tratar de las cosas del gran don Quijote, si no fuese Cide Hamete, su primer autor, bien así como mandó Alejandro que ninguno fuese osado a retratarle sino Apeles, se fosse possível, dever-se-ia mandar que ninguém fosse ousado de tratar das coisas do grande dom Quixote, a não ser Cide Hamete, seu primeiro autor, assim como mandou Alexandre que ninguém fosse ousado de retratá-lo senão Apeles.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

Dom Juan leu a Primeira Parte, sabe quem é o autor e propõe um direito exclusivo de retrato: só quem desenhou o rosto pode refazê-lo. No capítulo LXII da Segunda Parte, numa tipografia de Barcelona, dom Quixote fala de tradução como crítico que conhece a matéria:

el traducir de una lengua en otra, como no sea de las reinas de las lenguas, griega y latina, es como quien mira los tapices flamencos por el revés, que, aunque se veen las figuras, son llenas de hilos que las escurecen, y no se veen con la lisura y tez de la haz, o traduzir de uma língua em outra, como não seja das rainhas das línguas, a grega e a latina, é como quem olha os tapetes flamengos pelo avesso, que, ainda que se vejam as figuras, estão cheias de fios que as escurecem, e não se veem com a lisura e a tez do lado direito.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

No capítulo LXX da Segunda Parte, Cide Hamete dá a sua opinião sobre a burla dos duques:

Y dice más Cide Hamete: que tiene para sí ser tan locos los burladores como los burlados, y que no estaban los duques dos dedos de parecer tontos, pues tanto ahínco ponían en burlarse de dos tontos, e diz mais Cide Hamete: que tem para si serem tão loucos os burladores como os burlados, e que os duques não estavam a dois dedos de parecer tontos, pois tanto empenho punham em burlar-se de dois tontos.
Segunda Parte: A derrota e a morte

Dá-se assim o nivelamento da hierarquia da farsa: o que parecia espetáculo de nobres para divertir-se com dois simplórios é, aos olhos dele, tão demente quanto os burlados, porque gasta tochas, atores e aparato por uma diversão. No capítulo LXXIV da Segunda Parte, depois do testamento e da morte do fidalgo, o padre pede ao escrivão um testemunho para tirar a ocasião de que outro autor que não Cide Hamete o ressuscite falsamente. Cide Hamete pendura a pena num cabide de cozinha e fala-lhe:

Aquí quedarás, colgada desta espetera y deste hilo de alambre, ni sé si bien cortada o mal tajada péñola mía, adonde vivirás luengos siglos, si presuntuosos y malandrines historiadores no te descuelgan para profanarte, aqui ficarás, pendurada deste cabide de cozinha e deste fio de arame, não sei se bem cortada ou mal talhada pena minha, onde viverás longos séculos, se presunçosos e malandrins historiadores não te descem para profanar-te.
Segunda Parte: A derrota e a morte

A primeira preocupação que expressa é a de que alguém a toque. O verbo dá à pena a sacralidade de um objeto de culto, mas o lugar em que ela fica, o cabide de cozinha, devolve o conjunto ao comum. Duas leituras: a ironia de um autor que sabe o valor de sua obra e a põe, de brincadeira, entre utensílios, ou o orgulho de quem tem certeza de que ninguém mais deve escrever. A pena, por fim, lhe diz a frase que reparte o ofício entre personagem e autor:

Para mí sola nació don Quijote, y yo para él; él supo obrar y yo escribir; solos los dos somos para en uno, a despecho y pesar del escritor fingido y tordesillesco, para mim só nasceu dom Quixote, e eu para ele; ele soube obrar e eu escrever; só nós dois somos feitos um para o outro, a despeito e pesar do escritor fingido e tordesilhesco.
Segunda Parte: A derrota e a morte

Duas leituras: uma declaração de amor ao personagem, em que o autor se faz o único guardião, ou uma cláusula de propriedade, no tom das coisas de cartório. Cide Hamete diz que o seu desejo único foi pôr em aborrecimento dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalaria, que, pelas de seu verdadeiro dom Quixote, já vão tropeçando e hão de cair de todo.

Temas que encarna

Cide Hamete é o centro de Linguagem e narração: o livro põe o fidalgo dentro de um documento, e o documento dentro de um tradutor, e o tradutor dentro de um mercado. A cadeia de testemunhos (autor, tradutor, narrador, impressor, leitor) é a forma que o romance dá à pergunta de quem controla a ficção quando todos a leram. Cada elo pode falhar: o tradutor acha apócrifo o capítulo de Sancho e Teresa (capítulo V da Segunda Parte), o impressor perde o como do furto do ruço (capítulo XXVII da Segunda Parte), o intérprete não traduz a queixa do original (capítulo XLIV da Segunda Parte).

Em Aparência e realidade, Cide Hamete é o testemunho que não decide. Na gruta de Montesinos o fidalgo conta uma coisa, o macaco responde parte falsa e parte verossímil, e o historiador devolve a tarefa ao leitor (capítulo XXIV da Segunda Parte, capítulo XXV da Segunda Parte). Essa recusa de decidir é coerente com o resto do livro: o desmentido da realidade, que o fidalgo recolhe na doutrina dos encantadores, o historiador recolhe na doutrina da incerteza, e deixa as duas lado a lado.

A relação com a Honra e reputação está na exclusividade de autoria. No capítulo LIX da Segunda Parte, o livro de Tordesilhas é o rival que usurpa o nome, e Cide Hamete, por boca de um leitor, é o único que pode retratar o fidalgo. O pedido de perdão ao rival no testamento (capítulo LXXIV da Segunda Parte), a pena pendurada e a ameaça aos continuadores fecham o argumento: a honra do personagem e a do autor se confundem.

Leituras divergentes

O próprio livro faz do historiador árabe objeto de duas leituras opostas, e nenhuma é desmentida. O fidalgo teme que, por ser árabe, ele minta (capítulo III da Segunda Parte). O narrador, ao apresentá-lo, ironiza o preconceito: se há objeção à verdade da história, é ser árabe o autor, e os árabes são mentirosos, mas o texto cobra dele justamente o louvor que faltou (capítulo IX da Primeira Parte). O leitor decide se a verdade vem apesar do árabe, ou se a mentira estava na ironia.

As duas leituras da gruta de Montesinos também ficam sem desfecho. Cide Hamete diz que não pode garantir (capítulo XXIV da Segunda Parte); o macaco de mestre Pedro, que se vem a saber ser Ginés de Pasamonte, diz que parte é falsa e parte verossímil (capítulo XXV da Segunda Parte); o fidalgo, depois do Cravelenho, propõe a Sancho a troca de mentiras (capítulo XLI da Segunda Parte); a cabeça encantada responde que há de tudo (capítulo LXII da Segunda Parte).

As leituras divergem sobre o que Cide Hamete faz. Quem o lê como mecanismo de ironia vê no historiador um recurso para desmentir a autoridade dos livros de cavalaria com as armas da própria autoridade: documento, tradutor, margem, prefácio. Quem o lê como personagem vê no fim do livro, quando ele pendura a pena e reserva o fidalgo para si, uma declaração de afeto. Contra a primeira leitura vale lembrar que ele é o primeiro a duvidar de si, na margem da gruta; contra a segunda, que a mesma pena é advertência de propriedade, no tom das coisas de cartório (capítulo XXIV da Segunda Parte, capítulo LXXIV da Segunda Parte).

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