Quem é
Sancho Pança é o lavrador vizinho de Dom Quixote: pobre, com mulher e filhos, homem de bem na medida em que o título cabe a quem é pobre e de pouco sal na moleira, diz o narrador quando ele entra (capítulo VII da Primeira Parte). Sai de casa de noite, sem despedidas, montado num asno e com alforjes, atraído pela promessa de uma ínsula. O que o define é o corpo e a conta: sabe o que é fome, pancada, cansaço e preço, e mede cada aventura pelo que ela custa ao lombo e à bolsa. Fala por refrões, discute salário, cobra a ínsula, e é ao mesmo tempo o único que chora o amo de verdade e o único a quem o livro deixa dizer, no fim, que a maior loucura é deixar-se morrer (capítulo LXXIV da Segunda Parte). O romance o faz crescer: de vizinho que acredita no que não vê passa a inventor do encantamento de Dulcineia (capítulo X da Segunda Parte), a governador de Barataria por dez dias (capítulo XLV da Segunda Parte) e a escudeiro que sai do governo como entrou (capítulo LIII da Segunda Parte), e o nome dele já anda em livros pelo mundo quando conversa com os duques (capítulo XXXIII da Segunda Parte).
Trajetória
No caminho da segunda saída, no capítulo VII da Primeira Parte, Sancho cobra o que lhe foi prometido, e o amo faz a promessa crescer enquanto fala, de conde a marquês e de marquês a rei em seis dias. Sancho responde com a conta concreta de quem tem mulher e filhos: se virasse rei, a mulher seria rainha, e ele duvida que a coroa assente na cabeça dela.
Has de saber, amigo Sancho Panza, que fue costumbre muy usada de los caballeros andantes antiguos hacer gobernadores a sus escuderos de las ínsulas o reinos que ganaban, y yo tengo determinado de que por mí no falte tan agradecida usanza; antes, pienso aventajarme en ella: porque ellos algunas veces, y quizá las más, esperaban a que sus escuderos fuesen viejos; y, ya después de hartos de servir y de llevar malos días y peores noches, les daban algún título de conde, o, por lo mucho, de marqués, de algún valle o provincia de poco más a menos; pero, si tú vives y yo vivo, bien podría ser que antes de seis días ganase yo tal reino que tuviese otros a él adherentes, que viniesen de molde para coronarte por rey de uno dellos, fica sabendo, amigo Sancho Pança, que era costume muito corrente entre os antigos cavaleiros andantes nomear governadores de suas ínsulas ou reinos conquistados os seus escudeiros, e estou resolvido a que por mim não se perca tão grata usança; antes, penso superá-la: porque eles, às vezes, e talvez as mais delas, aguardavam que os escudeiros envelhecessem; e então, cansados de servir e de levar dias ruins e noites piores, davam-lhes um título de conde ou, quando muito, de marquês, de algum vale ou província de pouca monta; mas, se tu viveres e eu viver, bem pode acontecer que em menos de seis dias eu ganhe um reino com outros a ele ligados, que calhem para te coroar rei de um deles.
O que o move é a esperança de ganho, mas com o pé no chão. No capítulo X da Primeira Parte, quando o amo descreve a receita do bálsamo de Fierabrás, Sancho a aceita sem perguntar, porque a conta lhe fecha, e entre um governo que só existe na boca do amo e uma receita que se vende escolhe o que tem preço:
Si eso hay -dijo Panza-, yo renuncio desde aquí el gobierno de la prometida ínsula, y no quiero otra cosa, en pago de mis muchos y buenos servicios, sino que vuestra merced me dé la receta de ese estremado licor, se há tal coisa, disse Pança, renuncio daqui mesmo ao governo da ínsula prometida, e outra paga não quero, pelos muitos bons serviços que prestei, senão que vossa mercê me passe a receita desse licor extremado.
No capítulo XI da Primeira Parte, entre os cabreiros, o amo o quer sentado à mesa e ele recusa pelo corpo: quer comer sossegado, sem a cerimônia que a honra traz.
mucho mejor me sabe lo que como en mi rincón, sin melindres ni respetos, aunque sea pan y cebolla, que los gallipavos de otras mesas donde me sea forzoso mascar despacio, beber poco, limpiarme a menudo, no estornudar ni toser si me viene gana, ni hacer otras cosas que la soledad y la libertad traen consigo, muito melhor me sabe o que como no meu canto, sem melindres nem respeitos, ainda que seja pão e cebola, do que os perus de outras mesas, onde me seja forçoso mastigar devagar, beber pouco, limpar-me com frequência, não espirrar nem tossir se me der vontade, nem fazer outras coisas que a solidão e a liberdade trazem consigo.
Nos capítulos XV da Primeira Parte e XVI da Primeira Parte a surra lhe dá a definição do ofício. Perguntado por que ainda não tem nem um condado, responde que é cedo, que faz só um mês que andam atrás de aventuras:
caballero aventurero es una cosa que en dos palabras se ve apaleado y emperador. Hoy está la más desdichada criatura del mundo y la más menesterosa, y mañana tendría dos o tres coronas de reinos que dar a su escudero, cavaleiro aventureiro é uma coisa que em duas palavras se vê apaleado e imperador. Hoje é a mais desditosa criatura do mundo e a mais necessitada, e amanhã teria duas ou três coroas de reinos para dar a seu escudeiro.
Pode ser fé ingênua no amo, e pode ser a aposta de quem já pôs tempo demais para recuar. No capítulo XVII da Primeira Parte, manteado na estalagem, aceita o encantamento como hipótese e o cobra pelo corpo: se o mouro não se mostra, mostra-se no que pesa.
Si no se dejan ver, déjanse sentir -dijo Sancho-; si no, díganlo mis espaldas, se não se deixam ver, deixam-se sentir, disse Sancho; senão, digam-no minhas costas.
Na saída, adota a regra dos cavaleiros no momento em que ela lhe poupa dinheiro: ontem jurava nunca mais pôr mão em espada, hoje invoca a lei da cavalaria para não pagar. No capítulo XVIII da Primeira Parte, sem os alforjes, pensa em ir embora, e diante da poeira que o amo toma por exército diz o que ouve:
No oigo otra cosa -respondió Sancho- sino muchos balidos de ovejas y carneros, não ouço outra coisa, respondeu Sancho, senão muitos balidos de ovelhas e carneiros.
Sancho traz o fato e o amo, o sentido, e de tanto o amo afirmar o escudeiro acaba por crer. No capítulo XXV da Primeira Parte, na Serra Morena, levantada a proibição de falar, pergunta se Dulcineia é a filha de Lorenzo Corchuelo, a mesma Aldonza, e a elogia com o que sabe dela, a força, a voz que chega a meia légua, o gosto da troça:
Bien la conozco -dijo Sancho-, y sé decir que tira tan bien una barra como el más forzudo zagal de todo el pueblo [...] que es moza de chapa, hecha y derecha y de pelo en pecho, bem a conheço, disse Sancho, e sei dizer que atira tão bem uma barra como o mais forte rapaz de toda a aldeia [...] é moça de primeira, feita e direita e de pelo no peito.
Dá à dama a medida da aldeia, e o amo, sem refutar, a leva para outra medida. O espanto não é desprezo: ele quer saber se a Dulcineia dos livros é a moça que conhece de vista. No capítulo XXVI da Primeira Parte, escalado para levar a carta, crê saber o recado de cor e o diz errado diante do padre e do barbeiro, de modo que "sobajada" ocupa o lugar de soberana:
Por Dios, señor licenciado, que los diablos lleven la cosa que de la carta se me acuerda; aunque en el principio decía: «Alta y sobajada señora». - No diría -dijo el barbero- sobajada, sino sobrehumana o soberana señora, por Deus, senhor licenciado, que os diabos levem a coisa de que me lembro da carta, mas no princípio dizia: «Alta e sobajada senhora». Não diria sobajada, disse o barbeiro, mas sobre-humana ou soberana senhora.
No capítulo XXXI da Primeira Parte, sem ter levado carta alguma, inventa a visita que nunca fez, e cada resposta nova traz um desmentido que o amo dobra em elogio:
No la hallé -respondió Sancho- sino ahechando dos hanegas de trigo en un corral de su casa, não a achei, respondeu Sancho, senão peneirando duas fanegas de trigo num pátio de sua casa.
Sancho mente para sustentar a devoção do amo, e o amo explica o impossível para não desmentir o escudeiro. No capítulo XXXV da Primeira Parte, na estalagem, grita por socorro ao amo que luta contra odres de vinho, e jura ter visto correr o sangue e a cabeça cortada:
Acudid, señores, presto y socorred a mi señor, que anda envuelto en la más reñida y trabada batalla que mis ojos han visto, acudi, senhores, depressa e socorrei meu senhor, que anda envolvido na mais renhida e travada batalha que meus olhos viram.
A loucura pega nele por interesse, porque o gigante morto lhe daria o condado. Quando, no capítulo XXXVII da Primeira Parte, a princesa vira Doroteia, ele recusa o encantamento da estalagem com a única prova que tem:
Todo lo creyera yo -respondió Sancho-, si también mi manteamiento fuera cosa dese jaez, mas no lo fue, sino real y verdaderamente; y vi yo que el ventero que aquí está hoy día tenía del un cabo de la manta, y me empujaba hacia el cielo con mucho donaire y brío, y con tanta risa como fuerza; y donde interviene conocerse las personas, tengo para mí, aunque simple y pecador, que no hay encantamento alguno, sino mucho molimiento y mucha mala ventura, tudo isso eu creria, respondeu Sancho, se também o meu manteamento fosse coisa dessa laia, mas não foi, e sim real e verdadeiramente; e vi eu que o estalajadeiro que aqui está hoje tinha uma ponta da manta e me empurrava para o céu com muito donaire e brio, e com tanto riso como força; e onde se conhecem as pessoas, tenho para mim, ainda que simples e pecador, que não há encantamento algum, mas muita moedura e muita má ventura.
A regra dele é conhecer as pessoas: onde se sabe quem age, não há mago. No capítulo XLVII da Primeira Parte, ao tocar os mascarados que conduzem o carro de bois, faz a observação que o amo recolhe na doutrina:
Par Dios, señor -replicó Sancho-, ya yo los he tocado; y este diablo que aquí anda tan solícito es rollizo de carnes, y tiene otra propiedad muy diferente de la que yo he oído decir que tienen los demonios; porque, según se dice, todos huelen a piedra azufre y a otros malos olores; pero éste huele a ámbar de media legua, por Deus, senhor, replicou Sancho, já os toquei; e este diabo que anda aqui tão solícito é roliço de carnes e tem outra propriedade muito diferente da que ouvi dizer que têm os demônios; porque, segundo se diz, todos cheiram a enxofre e a outros maus cheiros; mas este cheira a âmbar a meia légua.
No capítulo XLIX da Primeira Parte vai à prova pelo corpo e pelas necessidades, o terreno onde o escudeiro sabe tudo, e não consegue tirar o amo da jaula, porque o amo recolhe cada prova na doutrina dos encantadores:
De donde se viene a sacar que los que no comen, ni beben, ni duermen, ni hacen las obras naturales que yo digo, estos tales están encantados; pero no aquellos que tienen la gana que vuestra merced tiene y que bebe cuando se lo dan, y come cuando lo tiene, y responde a todo aquello que le preguntan, de onde se vem a tirar que os que não comem, nem bebem, nem dormem, nem fazem as obras naturais que digo, esses tais estão encantados; mas não aqueles que têm a vontade que vossa mercê tem, e que bebe quando lhe dão, e come quando tem, e responde a tudo o que lhe perguntam.
No capítulo L da Primeira Parte, para o único defeito que o amo vê nele, a falta de habilidade para governar, acha a saída:
yo he oído decir que hay hombres en el mundo que toman en arrendamiento los estados de los señores, y les dan un tanto cada año, y ellos se tienen cuidado del gobierno, y el señor se está a pierna tendida, gozando de la renta que le dan, sin curarse de otra cosa, eu ouvi dizer que há homens no mundo que tomam em arrendamento os estados dos senhores, e lhes dão um tanto cada ano, e eles têm cuidado do governo, e o senhor fica a perna estendida, gozando da renda que lhe dão, sem se preocupar com outra coisa.
No capítulo LII da Primeira Parte, quando o amo é derrubado pelos penitentes, Sancho se joga sobre o corpo, crê-o morto e faz o elogio fúnebre que é, sem querer, o retrato que o livro deu do fidalgo:
¡Oh flor de la caballería, que con solo un garrotazo acabaste la carrera de tus tan bien gastados años [...] enamorado sin causa, imitador de los buenos, azote de los malos, enemigo de los ruines, en fin, caballero andante, que es todo lo que decir se puede, oh flor da cavalaria, que com uma só garrotada acabaste a carreira de teus anos tão bem gastos [...] enamorado sem causa, imitador dos bons, açoite dos maus, inimigo dos ruins, enfim, cavaleiro andante, que é tudo o que dizer se pode!
Na Segunda Parte Sancho já não é o escudeiro de uma promessa. No capítulo II da Segunda Parte, barrado à porta pela sobrinha e pela criada, que o acusam de sonsacar o amo, responde à pergunta sobre o que é uma ínsula:
sino de gobernar y regir mejor que cuatro ciudades y que cuatro alcaldes de corte, mas de governar e reger melhor do que quatro cidades e quatro alcaides de corte.
Sancho ouviu a palavra no capítulo VII da Primeira Parte e faz dela, ao longo do livro, um cargo e não um pedaço de terra: o que a promessa lhe deu é a ideia de mandar melhor do que quem manda. Duas leituras: ambição já formada de um homem que sabe o que quer da vida, ou orgulho ferido de quem foi chamado de comilão. No capítulo IV da Segunda Parte, quando o bacharel Sansão Carrasco lhe diz que os ofícios mudam os costumes, ele não discute se o ofício muda e discute em quem:
Sancho nací, y Sancho pienso morir; pero si con todo esto, de buenas a buenas, sin mucha solicitud y sin mucho riesgo, me deparase el cielo alguna ínsula, o otra cosa semejante, no soy tan necio que la desechase, Sancho nasci e Sancho penso morrer; mas, ainda assim, por bem, sem muita solicitude e sem muito risco, se o céu me deparasse alguma ínsula, ou coisa semelhante, não sou tão tolo que a recusasse.
Duas leituras: vaidade de quem não se enxerga, ou sinceridade de quem não conhece outra garantia. No capítulo V da Segunda Parte volta a casa e fala com Teresa Pança sobre a nova saída:
siempre he oído decir a mis mayores que el que no sabe gozar de la ventura cuando le viene, que no se debe quejar si se le pasa. Y no sería bien que ahora, que está llamando a nuestra puerta, se la cerremos; dejémonos llevar deste viento favorable que nos sopla, sempre ouvi dizer aos meus maiores que quem não sabe gozar da ventura quando ela vem não deve se queixar se ela passa. E não seria bom que agora, que está chamando à nossa porta, lha fechemos; deixemo-nos levar por este vento favorável que nos sopra.
A ambição, mais que de riqueza, é de ser visto de outro modo pelos vizinhos: netos que se chamem senhoria, Teresa sentada na igreja sobre alcatifa. Duas leituras: amor ao filho e à mulher, ou desforra de quem foi sempre olhado de cima. No capítulo VII da Segunda Parte, ao saber do plano, pede salário, pouco ou muito, e diz que o quer saber:
yo quiero saber lo que gano, poco o mucho que sea, que sobre un huevo pone la gallina, y muchos pocos hacen un mucho, y mientras se gana algo no se pierde nada, eu quero saber o que ganho, pouco ou muito que seja, que sobre um ovo põe a galinha, e muitos poucos fazem um muito, e enquanto se ganha algo não se perde nada.
No capítulo VIII da Segunda Parte, a caminho do Toboso, aceita o princípio do amo, o de que se faz tudo pela fama, e dele tira a conclusão que desmonta a cavalaria:
más vale ser humilde frailecito, de cualquier orden que sea, que valiente y andante caballero; mas alcanzan con Dios dos docenas de diciplinas que dos mil lanzadas, mais vale ser humilde frade, de qualquer ordem que seja, que valente cavaleiro andante; pois alcançam mais de Deus duas dúzias de disciplinas do que dois mil golpes de lança.
No capítulo X da Segunda Parte, sem saber onde mora Dulcineia, prepara-se para apresentar como dama a primeira lavradora que encontrar no caminho:
no será muy difícil hacerle creer que una labradora, la primera que me topare por aquí, es la señora Dulcinea, não será muito difícil fazê-lo crer que uma lavradora, a primeira que eu encontrar por aqui, é a senhora Dulcineia.
Duas leituras: gesto de pânico de quem foge de ser desmascarado, ou primeiro uso de uma esperteza que passa a divertir o escudeiro. A comicidade da cena nasce também dessa inversão, o escudeiro realista fabricando a mesma ilusão cavaleiresca que antes só via de fora, e o cavaleiro salvando a ilusão contra o próprio olfato. No capítulo XIII da Segunda Parte, conversando com o escudeiro do Bosque, diz o que não diria ao amo, e diz o que o prende:
el diablo me pone ante los ojos aquí, allí, acá no, sino acullá, un talego lleno de doblones, que me parece que a cada paso le toco con la mano, y me abrazo con él, y lo llevo a mi casa, y echo censos, y fundo rentas, y vivo como un príncipe; y el rato que en esto pienso se me hacen fáciles y llevaderos cuantos trabajos padezco con este mentecato de mi amo, de quien sé que tiene más de loco que de caballero, o diabo me mostra, aqui, ali, aqui não, mas acolá, um talego cheio de dobrões, que me parece que a cada passo o toco com a mão, e me abraço com ele, e o levo para minha casa, e aplico em censos, e fundo rendas, e vivo como um príncipe; e o tempo em que nisto penso me faz fáceis e suportáveis quantos trabalhos padeço com este mentecapto de meu amo, de quem sei que tem mais de louco que de cavaleiro.
O que ele vê nessa ilusão, abraçar a bolsa, tem a mesma forma da aventura do amo e a mesma consistência, o que ele não nota. No capítulo XXVIII da Segunda Parte, ao fazer a conta do serviço pelo calendário, vinte e três dias, e a da promessa pelo peso que ela tem para ele, vinte anos, fala:
debe de haber más de veinte años, tres días más a menos, deve haver mais de vinte anos, três dias a mais ou a menos.
Duas leituras: regateio de quem sabe que exagera e tem em mão a moeda que o amo mais teme, a ameaça de ir embora, ou prova de que ele já vive dentro da promessa. No capítulo XXXI da Segunda Parte, no castelo dos duques, sobre a encantada Dulcineia, diz a frase que só ele entende por inteiro:
¿quién diablos sino yo fue el primero que cayó en el achaque del encantorio? ¡Tan encantada está como mi padre!, quem diabos senão eu foi o primeiro que caiu no achaque do encantório? Tão encantada está quanto meu pai!
Duas leituras: gracejo de escudeiro, ou confissão que o próprio Sancho faz em público sem que ninguém além dele saiba o que confessou. No capítulo XXXIII da Segunda Parte, diante da duquesa, levanta os dosséis do salão antes de falar, e a precaução mostra o que ele sabe do risco:
yo tengo a mi señor don Quijote por loco rematado, puesto que algunas veces dice cosas que, a mi parecer, y aun de todos aquellos que le escuchan, son tan discretas y por tan buen carril encaminadas, que el mesmo Satanás no las podría decir mejores; pero, con todo esto, verdaderamente y sin escrúpulo, a mí se me ha asentado que es un mentecato. Pues, como yo tengo esto en el magín, me atrevo a hacerle creer lo que no lleva pies ni cabeza, como fue aquello de la respuesta de la carta, y lo de habrá seis o ocho días, que aún no está en historia; conviene a saber: lo del encanto de mi señora doña Dulcinea, que le he dado a entender que está encantada, no siendo más verdad que por los cerros de Úbeda, eu tenho meu senhor dom Quixote por louco rematado, ainda que algumas vezes diga coisas que, a meu parecer, e ainda de todos aqueles que o escutam, são tão discretas e por tão bom carril encaminhadas, que o próprio Satanás não as poderia dizer melhores; mas, com tudo isso, verdadeiramente e sem escrúpulo, a mim se me assentou que é um mentecapto. Pois, como eu tenho isto no magín, atrevo-me a fazê-lo crer no que não leva pés nem cabeça, como foi aquilo da resposta da carta, e o de há seis ou oito dias, que ainda não está em história; convém saber: o do encanto de minha senhora dona Dulcineia, que lhe dei a entender que está encantada, não sendo mais verdade que pelos cerros de Úbeda.
A duquesa pergunta por que ele, que sabe o amo louco, o serve e segue. Sancho não usa a esperança da ínsula para explicar por que fica; usa um inventário de dívidas miúdas, o pão comido, o carinho, os burrinhos recebidos, e fecha com uma palavra que não precisa de prova:
si yo fuera discreto, días ha que había de haber dejado a mi amo. Pero ésta fue mi suerte, y ésta mi malandanza; no puedo más, seguirle tengo: somos de un mismo lugar, he comido su pan, quiérole bien, es agradecido, diome sus pollinos, y, sobre todo, yo soy fiel; y así, es imposible que nos pueda apartar otro suceso que el de la pala y azadón, se eu fosse discreto, há dias que havia de ter deixado meu amo. Mas esta foi minha sorte, e esta, minha malandança; não posso mais, tenho de segui-lo: somos de um mesmo lugar, comi seu pão, quero-lhe bem, é agradecido, deu-me seus burrinhos e, sobretudo, eu sou fiel; e assim, é impossível que nos possa apartar outro sucesso que o da pá e do enxadão.
Duas leituras: a fidelidade é o motivo que ele de fato acredita ter, ou é o motivo que sabe dizer a uma duquesa, no mesmo capítulo em que acaba de chamar o amo de mentecapto. A duquesa então inverte o jogo, sem desmentir a confissão:
porque real y verdaderamente yo sé de buena parte que la villana que dio el brinco sobre la pollina era y es Dulcinea del Toboso, y que el buen Sancho, pensando ser el engañador, es el engañado, porque real e verdadeiramente eu sei de boa parte que a vilã que deu o pulo sobre a burrinha era e é Dulcineia del Toboso, e que o bom Sancho, pensando ser o enganador, é o enganado.
Quem dizia que inventou ouve que apenas foi instrumento. No capítulo XXXV da Segunda Parte, Merlin impõe os três mil e trezentos açoites para desencantar Dulcineia, e a mentira dita em segredo vira a dívida que ele terá de saldar em público. Sancho recusa com uma pergunta que repete, em linguagem de parto, a regra da responsabilidade:
¿Parí yo, por ventura, a la señora Dulcinea del Toboso, para que paguen mis posas lo que pecaron sus ojos?, eu pari, por ventura, a senhora Dulcineia del Toboso, para que paguem minhas nádegas o que pecaram seus olhos?
No capítulo XXXVI da Segunda Parte, escreve a Teresa que o amo é um louco sensato e que ele não lhe fica atrás:
Don Quijote, mi amo, según he oído decir en esta tierra, es un loco cuerdo y un mentecato gracioso, y que yo no le voy en zaga. Hemos estado en la cueva de Montesinos, y el sabio Merlín ha echado mano de mí para el desencanto de Dulcinea del Toboso, que por allá se llama Aldonza Lorenzo: con tres mil y trecientos azotes, menos cinco, que me he de dar, quedará desencantada como la madre que la parió, Dom Quixote, meu amo, segundo ouvi dizer nesta terra, é um louco sensato e um mentecapto gracioso, e eu não lhe fico atrás. Estivemos na gruta de Montesinos, e o sábio Merlin lançou mão de mim para o desencanto de Dulcineia del Toboso, que por lá se chama Aldonza Lorenzo: com três mil e trezentos açoites, menos cinco, que hei de me dar, ficará desencantada como a mãe que a pariu.
Em vez de contar à mulher a gruta onde o amo desceu e ele ficou à boca segurando a corda, escreve "estivemos". No capítulo XLI da Segunda Parte, de volta do voo do Cravelenho, conta que viu a terra do tamanho de um grão de mostarda e os homens do tamanho de avelãs, e, quando o duque duvida de cabras de tais cores:
Son -respondió Sancho- las dos verdes, las dos encarnadas, las dos azules, y la una de mezcla, são, respondeu Sancho, as duas verdes, as duas encarnadas, as duas azuis, e uma de mistura.
Sancho, que havia duvidado da gruta do amo, fabrica agora a sua mentira celeste com o mesmo desembaraço. Duas leituras: imitação deliberada do amo, que lhe ensinou o que se pode afirmar quando não há quem refute, ou fantasia de quem, vendado e abanado por foles, quase acredita. O amo lhe propõe então o pacto de crer no outro sem prova.
No capítulo XLV da Segunda Parte, ao tomar posse de Barataria, o governo lhe dá de saída um nome que não é o dele, e Sancho o devolve:
Pues advertid, hermano -dijo Sancho-, que yo no tengo don, ni en todo mi linaje le ha habido: Sancho Panza me llaman a secas, y Sancho se llamó mi padre, y Sancho mi agüelo, y todos fueron Panzas, sin añadiduras de dones ni donas, pois notai, irmão, disse Sancho, que eu não tenho dom, nem em toda a minha linhagem o houve: Sancho Pança me chamam a secas, e Sancho se chamou meu pai, e Sancho meu avô, e todos foram Panças, sem acréscimos de dons nem donas.
No caso da bengala que guarda os dez escudos, aposta a reputação inteira antes de saber se acertou, e a cana quebrada traz o dinheiro no oco:
Sí -dijo el gobernador-; o si no, yo soy el mayor porro del mundo. Y ahora se verá si tengo yo caletre para gobernar todo un reino, sim, disse o governador; ou então eu sou o maior tolo do mundo. E agora se verá se tenho eu tino para governar todo um reino.
No caso da mulher que diz ter sido forçada, a prova que ele escolhe está no gesto: quem não deixou arrancar a bolsa não podia ter sido vencida no corpo.
Hermana mía, si el mismo aliento y valor que habéis mostrado para defender esta bolsa le mostrárades, y aun la mitad menos, para defender vuestro cuerpo, las fuerzas de Hércules no os hicieran fuerza, irmã minha, se o mesmo alento e valor que mostrastes para defender esta bolsa o mostrásseis, e ainda a metade menos, para defender vosso corpo, as forças de Hércules não vos fariam força.
Duas leituras: justiça arguta, que testa a queixa pelo que a queixosa mostra poder fazer, ou conclusão tirada de um só gesto sobre uma ofensa que o texto não esclarece. No capítulo XLVII da Segunda Parte, sob as ordens do médico Pedro Recio, que toca com uma varinha os pratos para que um pajem os leve, reduz o governo ao que o mantém vivo:
que oficio que no da de comer a su dueño no vale dos habas, que ofício que não dá de comer a seu dono não vale duas favas.
O que ele pede é de comer, não o poder. Duas leituras: franqueza do homem que nunca separou a mesa do mando, ou primeira sentença sua como governador, dada contra a autoridade que o deixa passar fome. No capítulo LI da Segunda Parte, diante do caso da ponte, em que quem jura verdade passa e quem mente é enforcado, tenta fazer o paradoxo funcionar por partes, e quem o corrige é o forasteiro. Depois muda de rumo e entrega a ideia ao amo, a quem deve a regra, e diz ao amo, em carta, o que o governo lhe prometera, comida quente, bebida fria, lençóis de holanda, e o que encontrou:
cuando pensé venir a este gobierno a comer caliente y a beber frío, y a recrear el cuerpo entre sábanas de holanda, sobre colchones de pluma, he venido a hacer penitencia, como si fuera ermitaño; y, como no la hago de mi voluntad, pienso que, al cabo al cabo, me ha de llevar el diablo, quando pensei vir a este governo comer quente e beber frio, e recrear o corpo entre lençóis de holanda, sobre colchões de pena, vim a fazer penitência, como se fosse eremita; e, como não a faço de minha vontade, penso que, ao cabo ao cabo, me há de levar o diabo.
Duas leituras: queixa de quem pensou o poder como mesa, ou prestação de contas honesta de quem paga a mão limpa com fome. No capítulo LIII da Segunda Parte, depois da noite do assalto fingido, em que cai entre dois escudos e é pisado, dá o discurso de despedida ao jumento:
Venid vos acá, compañero mío y amigo mío, y conllevador de mis trabajos y miserias: cuando yo me avenía con vos y no tenía otros pensamientos que los que me daban los cuidados de remendar vuestros aparejos y de sustentar vuestro corpezuelo, dichosas eran mis horas, mis días y mis años; pero, después que os dejé y me subí sobre las torres de la ambición y de la soberbia, se me han entrado por el alma adentro mil miserias, mil trabajos y cuatro mil desasosiegos, vinde cá, companheiro meu e amigo meu, e suportador de meus trabalhos e misérias: quando eu me avinha convosco e não tinha outros pensamentos que os que me davam os cuidados de remendar vossos aparelhos e de sustentar vosso corpinho, ditosas eram minhas horas, meus dias e meus anos; mas, depois que vos deixei e subi sobre as torres da ambição e da soberba, entraram-me pela alma adentro mil misérias, mil trabalhos e quatro mil desassossegos.
Ao pedir passagem aos que o rodeiam, põe a liberdade antes de qualquer razão de ofício:
dejadme volver a mi antigua libertad; dejadme que vaya a buscar la vida pasada, para que me resucite de esta muerte presente, deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente.
Ao sair, dá como prova do governo a bolsa vazia, que ninguém contradiz:
desnudo nací, desnudo me hallo: ni pierdo ni gano; quiero decir, que sin blanca entré en este gobierno y sin ella salgo, bien al revés de como suelen salir los gobernadores de otras ínsulas, nu nasci, nu me acho: nem perco nem ganho; quero dizer que sem um tostão entrei neste governo e sem ele saio, bem ao revés de como costumam sair os governadores de outras ínsulas.
Duas leituras: orgulho legítimo de quem sai sem ter lucrado, ou argumento de quem, em poucos dias e entre homens que lhe mandavam o que comer, vê na bolsa vazia uma honestidade que o tempo mal pôs à prova. No capítulo LIV da Segunda Parte, na volta, encontra o vizinho mourisco Ricote, expulso, disfarçado de peregrino, e recusa ajudá-lo a desenterrar o tesouro: promete calar, deixa-o seguir e fecha com um refrão geral, sem aplicá-lo ao amigo. No capítulo LX da Segunda Parte, quando o amo, de noite, tenta açoitá-lo dormindo para desencantar Dulcineia, Sancho o imobiliza e responde:
Ni quito rey, ni pongo rey -respondió Sancho-, sino ayúdome a mí, que soy mi señor, nem tiro rei, nem ponho rei, respondeu Sancho, mas ajudo a mim mesmo, que sou meu senhor.
No capítulo LXVII da Segunda Parte, depois da derrota do amo na praia, pede a ele a prova que a crença do amo sempre pede aos outros:
yo no me puedo persuadir que los azotes de mis posaderas tengan que ver con los desencantos de los encantados, que es como si dijésemos: "Si os duele la cabeza, untaos las rodillas" [...] A lo menos, yo osaré jurar que en cuantas historias vuesa merced ha leído que tratan de la andante caballería no ha visto algún desencantado por azotes, eu não me posso persuadir de que os açoites de minhas nádegas tenham a ver com os desencantos dos encantados, que é como se disséssemos: "Se vos dói a cabeça, untai os joelhos" [...] Ao menos eu ousaria jurar que em quantas histórias vossa mercê tem lido que tratam da andante cavalaria não viu nenhum desencantado por açoites.
Se nenhum cavaleiro foi desencantado por açoites, a conta de Merlin não tem precedente. No capítulo LXVIII da Segunda Parte, numa noite em que o amo o acorda para os açoites, diz a ele a sua verdade, aquela em que não cabe nenhuma promessa:
bien haya el que inventó el sueño, capa que cubre todos los humanos pensamientos, manjar que quita la hambre, agua que ahuyenta la sed, fuego que calienta el frío, frío que templa el ardor, y, finalmente, moneda general con que todas las cosas se compran, balanza y peso que iguala al pastor con el rey y al simple con el discreto. Sola una cosa tiene mala el sueño, según he oído decir, y es que se parece a la muerte, pues de un dormido a un muerto hay muy poca diferencia, bem haja o que inventou o sono, capa que cobre todos os humanos pensamentos, manjar que tira a fome, água que afugenta a sede, fogo que aquece o frio, frio que tempera o ardor e, finalmente, moeda geral com que todas as coisas se compram, balança e peso que iguala o pastor ao rei e o simples ao discreto. Uma só coisa tem má o sono, segundo ouvi dizer, e é que se parece à morte, pois de um dormido a um morto há muito pouca diferença.
Na farsa do funeral de Altisidora, no capítulo LXIX da Segunda Parte, enxerga o padrão antes de ninguém: duas vezes seguidas o corpo dele é o preço da cura de um dano alheio.
Encantan a Dulcinea, y azótanme para que se desencante; muérese Altisidora de males que Dios quiso darle, y hanla de resucitar hacerme a mí veinte y cuatro mamonas, y acribarme el cuerpo a alfilerazos y acardenalarme los brazos a pellizcos [...] Esas burlas, a un cuñado, que yo soy perro viejo, y no hay conmigo tus, tus, encantam Dulcineia, e me açoitam para que se desencante; morre Altisidora de males que Deus quis lhe dar, e hão de ressuscitá-la fazendo-me a mim vinte e quatro tapas, e crivando-me o corpo de alfinetadas e arroxeando-me os braços a beliscões [...] essas burlas, a um cunhado, que eu sou cachorro velho, e não há comigo tu, tu!
No capítulo LXXI da Segunda Parte, enfim, negocia o preço do açoite com o amo:
Ellos -respondió Sancho- son tres mil y trecientos y tantos; de ellos me he dado hasta cinco [...] a cuartillo cada uno, que no llevaré menos si todo el mundo me lo mandase [...] son por todos ochocientos y veinte y cinco reales. Éstos desfalcaré yo de los que tengo de vuestra merced, y entraré en mi casa rico y contento, aunque bien azotado, eles, respondeu Sancho, são três mil e trezentos e tantos; deles me dei até cinco [...] a quarto de real cada um, que não levarei menos se o mundo todo me mandasse [...] são por todos oitocentos e vinte e cinco reais. Estes eu descontarei dos que tenho de vossa mercê, e entrarei em minha casa rico e contente, ainda que bem açoitado.
O fidalgo aceita o orçamento sem regatear e ainda acrescenta cem reais, e Sancho bate nas árvores e grita como o Sansão bíblico que derruba o templo. Duas leituras: o primeiro ajuste justo entre amo e escudeiro, em que o que se faz por Dulcineia deixa de ser dívida e vira serviço, ou o cálculo de quem já planeja pagar-se sem entregar a mercadoria. No capítulo LXXIV da Segunda Parte, ao ver o amo morrer, chora, e oferece o que tem:
no se muera vuestra merced, señor mío, sino tome mi consejo y viva muchos años, porque la mayor locura que puede hacer un hombre en esta vida es dejarse morir, sin más ni más, sin que nadie le mate, ni otras manos le acaben que las de la melancolía [...] vámonos al campo vestidos de pastores, como tenemos concertado: quizá tras de alguna mata hallaremos a la señora doña Dulcinea desencantada, que no haya más que ver, não morra vossa mercê, senhor meu, mas tome meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer, sem mais nem mais, sem que ninguém o mate, nem outras mãos o acabem que as da melancolia [...] vamo-nos ao campo vestidos de pastores, como temos concertado: talvez atrás de alguma moita acharemos a senhora dona Dulcineia desencantada, que não haja mais que ver.
Duas leituras: o afeto de um escudeiro que quer o amo vivo e oferece tudo o que tem, ou a lealdade de quem, sem outra palavra à mão, devolve ao amo a esperança que o amo lhe ensinou. O testamento lhe paga em duas moedas, a conta e a estima.
Temas que encarna
Sancho é o corpo do romance, e por ele o livro mede a Aparência e realidade pelo que se sente: o que não se deixa ver se deixa sentir (capítulo XVII da Primeira Parte), o encantamento que não paga a pousada, o diabo que cheira a âmbar (capítulo XLVII da Primeira Parte). Ele é o testemunho que o amo recolhe na doutrina, e quando a doutrina fica sem testemunho é Sancho quem a alimenta: inventa o encantamento de Dulcineia para escapar das brigas do amo (capítulo X da Segunda Parte) e o sustenta, uma vez posto, até com os seus açoites (capítulo LXXI da Segunda Parte).
No governo de Barataria o livro põe à prova a Justiça e lei com o único juiz que o fidalgo pôde formar. As sentenças de Sancho vêm de três fontes que o texto não separa: o que o amo lhe aconselhou, a clemência de quem julga (capítulo XLII da Segunda Parte, capítulo LI da Segunda Parte); um conto ouvido do cura da aldeia, a bengala (capítulo XLV da Segunda Parte); e o olhar de quem vê o gesto que os outros deixaram passar, a bolsa (capítulo XLV da Segunda Parte). A cena da ponte mostra o limite, a lei que não prevê o caso, e a saída vem de sair da lei pela regra de misericórdia que o amo dera (capítulo LI da Segunda Parte).
Sancho carrega a Honra e reputação por baixo, no olhar dos vizinhos que ele quer vencer e que Teresa teme: o pobre passa despercebido, o rico é olhado, e o rico que foi pobre é perseguido (capítulo V da Segunda Parte). Por isso o que ele pede à ínsula é ser chamado de senhoria, e por isso, ao sair do governo, o que mostra como prova é a bolsa vazia (capítulo LIII da Segunda Parte). O dom que o governo lhe oferece ele devolve com a linhagem de Sanchos e Panças (capítulo XLV da Segunda Parte).
A Liberdade e opressão aparece em Sancho como pão e cebola comidos no canto (capítulo XI da Primeira Parte), como sono (capítulo LXVIII da Segunda Parte) e como a antiga liberdade de arar, cavar e podar (capítulo LIII da Segunda Parte). Ele mede a diferença entre servir e ser servido pelo que lhe dão ou lhe tiram de comer, e é por isso que o governo, que lhe prometia mesa e lençóis de holanda, termina para ele como penitência.
Em Linguagem e narração, Sancho é o leitor que entra no livro. No capítulo III da Segunda Parte aprende que existe impresso, no capítulo XXX da Segunda Parte brinca com a ideia de ter sido trocado na estampa, no capítulo XL da Segunda Parte cobra aos historiadores o que lhe falta nos relatos de seus senhores, ser nomeado. Fala por refrões, e o amo o corrige quando em excesso, porque sabe a diferença entre uma sentença e um fôlego (capítulo XLIII da Segunda Parte).
Leituras divergentes
O próprio livro dá duas razões de Sancho seguir o amo e não decide entre elas. O escudeiro do Bosque diz que os governos de ínsula não são todos de bom proveito, e Sancho responde com o talego de dobrões que o diabo lhe mostra, aqui, ali, aqui não, mas acolá (capítulo XIII da Segunda Parte):
los gobiernos insulanos no son todos de buena data. Algunos hay torcidos, algunos pobres, algunos malencónicos, y finalmente, el más erguido y bien dispuesto trae consigo una pesada carga de pensamientos y de incomodidades, que pone sobre sus hombros el desdichado que le cupo en suerte, os governos de ínsula não são todos de bom proveito: alguns há tortos, alguns pobres, alguns melancólicos, e finalmente o mais empinado e bem disposto traz consigo uma carga pesada de pensamentos e de incômodos, que põe sobre os ombros o desditoso a quem coube em sorte.
À duquesa, que lhe pergunta por que serve a um louco, responde com o inventário de dívidas miúdas e a palavra fiel (capítulo XXXIII da Segunda Parte). A segunda razão é exata sobre o que ele sente e cega sobre o que a primeira esconde.
Sansão Carrasco adverte que os ofícios mudam os costumes e que Sancho, vendo-se governador, poderia não reconhecer a mãe que o pariu (capítulo IV da Segunda Parte):
los oficios mudan las costumbres, y podría ser que viéndoos gobernador no conociésedes a la madre que os parió, os ofícios mudam os costumes, e poderia ser que, vendo-vos governador, não reconhecêsseis a mãe que vos pariu.
O livro deixa o aviso em aberto e o desmente em parte: Sancho sai do governo como entrou, mas o narrador diz que ele, ainda que aborrecesse o cargo, desejava voltar a mandar e a ser obedecido (capítulo LXIII da Segunda Parte):
y Sancho, aunque aborrecía el ser gobernador, como queda dicho, todavía deseaba volver a mandar y a ser obedecido; que esta mala ventura trae consigo el mando, aunque sea de burlas, e Sancho, ainda que aborrecesse o ser governador, como já se disse, mesmo assim desejava voltar a mandar e a ser obedecido; que esta má ventura traz consigo o mando, ainda que seja de brincadeira.
As leituras divergem sobre o que o governo prova. Quem lê como o mordomo dos duques vê a prova de que o alvo da burla tinha juízo, e o texto diz que o plano não contou com um governador que sentencia e dá avisos (capítulo XLIX da Segunda Parte). Quem lê pelo que Sancho conta de si vê um homem que cumpriu a conta e voltou a ser o que era (capítulo LV da Segunda Parte). Contra a primeira leitura vale lembrar que as sentenças vêm de conto ouvido e de conselho do amo, e não de ciência própria; contra a segunda, que o escudeiro que deixa a ínsula é aquele de quem o narrador diz, mais tarde, que sentia falta de ser obedecido.
Relações
- Dom Quixote: o amo que lhe promete a ínsula (capítulo VII da Primeira Parte), com quem divide a mesa e a surra (capítulo XI da Primeira Parte, capítulo XV da Primeira Parte), cujos desmentidos ele tenta provar pelo corpo (capítulo XLIX da Primeira Parte), a quem aconselha com a conta e o chora no fim (capítulo LII da Primeira Parte, capítulo LXXIV da Segunda Parte).
- Teresa Pança: a mulher que ouve as promessas (capítulo LII da Primeira Parte), que recusa o dom por preferir o nome simples (capítulo V da Segunda Parte) e a quem ele escreve a carta do governo (capítulo XXXVI da Segunda Parte).
- Dulcineia del Toboso: a moça de lavoura que ele conhece de vista (capítulo XXV da Primeira Parte), a visita que ele inventa (capítulo XXXI da Primeira Parte) e a aldeã que ele encanta (capítulo X da Segunda Parte).
- Os duques: os leitores que o fazem sentar ao lado da duquesa como governador e escudeiro e lhe dão a ínsula (capítulo XXXIII da Segunda Parte, capítulo XLV da Segunda Parte).
- Sansão Carrasco: o bacharel que lhe diz que ele já anda em livros (capítulo III da Segunda Parte) e que o avisa dos ofícios que mudam os costumes (capítulo IV da Segunda Parte).
- Ginés de Pasamonte: o galeote que lhe roubou o ruço, fato que o livro de 1605 deixou sem explicação e que o de 1615 aponta (capítulo IV da Segunda Parte, capítulo XXVII da Segunda Parte).
- Altisidora: a donzela que o acusa de roubo na despedida (capítulo LVII da Segunda Parte) e que lhe promete camisas ao ressuscitar (capítulo LXIX da Segunda Parte).
- O padre e o barbeiro: aqueles diante de quem ele recita a carta que não levou (capítulo XXVI da Primeira Parte) e que ele reconhece sob os disfarces que levam o amo na jaula (capítulo XLVII da Primeira Parte).