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Personagem

Dulcineia del Toboso

Quem é

Dulcineia del Toboso é a dama de Dom Quixote e a única figura central do livro que nunca aparece em cena como ela mesma. Nasce no capítulo I da Primeira Parte de Aldonza Lorenzo, uma moça de lavoura de um lugar vizinho que talvez nem soubesse da paixão, a quem o fidalgo dá o nome que soe a romance, como fizera com o cavalo e consigo. Tudo o que existe dela é dito por outros: o que ele diz (princesa, rainha, formosura sobre-humana, capítulo XIII da Primeira Parte), o que Sancho Pança diz (a força, a voz que chega a meia légua, capítulo XXV da Primeira Parte), o que a margem do manuscrito árabe diz (a melhor mão para salgar porcos da Mancha, capítulo IX da Primeira Parte) e o que dizem os acadêmicos no epitáfio (capítulo LII da Primeira Parte). Na Segunda Parte essa dama fabricada ganha rostos que não são o dela: aldeã no caminho do Toboso (capítulo X da Segunda Parte), donzela que pede um empréstimo na gruta (capítulo XXIII da Segunda Parte), ninfa de prata no carro dos duques (capítulo XXXV da Segunda Parte). O fidalgo diz na Primeira Parte que em doze anos de amor não a viu quatro vezes (capítulo XXV da Primeira Parte) e na Segunda que nunca a viu (capítulo IX da Segunda Parte), de modo que Dulcineia é uma ideia: o que ela quer, teme e sabe não se lê nela, mas na forma como cada um a usa.

Trajetória

No capítulo I da Primeira Parte, antes de sair, o fidalgo dá à dama o que lhe falta, um nome:

Llamábase Aldonza Lorenzo, y a ésta le pareció ser bien darle título de señora de sus pensamientos; y, buscándole nombre que no desdijese mucho del suyo, y que tirase y se encaminase al de princesa y gran señora, vino a llamarla Dulcinea del Toboso, porque era natural del Toboso, chamava-se Aldonza Lorenzo, e a ela julgou conveniente dar o título de senhora de seus pensamentos; e, procurando-lhe um nome que combinasse com o seu e tendesse ao de princesa e grande dama, passou a chamá-la Dulcineia del Toboso, por ser natural do Toboso.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

O que ele quer não é a mulher, é a peça que falta para o conjunto estar completo, e por isso a imagina mais do que a conhece. No capítulo IV da Primeira Parte, quando os mercadores toledanos lhe pedem um retrato dela, ainda que do tamanho de um grão de trigo, ele recusa até a prova que o favoreceria, porque o que exige é a fé, não a verdade verificável:

La importancia está en que sin verla lo habéis de creer, confesar, afirmar, jurar y defender; donde no, conmigo sois en batalla, gente descomunal y soberbia, o importante está em que, sem vê-la, haveis de crê-lo, confessá-lo, afirmá-lo, jurá-lo e defendê-lo; do contrário, estais em batalha comigo, gente descomunal e soberba.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

Ele só ataca quando o mercador fala em defeito físico, e ataca por ofensa à dama, não por falta de crença. O pedido do mercador é, aliás, o que ele não poderia atender: a dama é uma lavradora que nunca soube da paixão, e não há retrato dela a mostrar. No capítulo IX da Primeira Parte, o narrador acha o manuscrito árabe e o mouro que o lê começa a rir ao abri-lo ao acaso:

Está, como he dicho, aquí en el margen escrito esto: "Esta Dulcinea del Toboso, tantas veces en esta historia referida, dicen que tuvo la mejor mano para salar puercos que otra mujer de toda la Mancha, está, como disse, aqui na margem escrito isto: Esta Dulcineia del Toboso, tantas vezes mencionada nesta história, dizem que tinha melhor mão para salgar porcos do que qualquer outra mulher de toda a Mancha.
Primeira Parte: O fidalgo e os moinhos

O riso do mouro e a pasmaceira do narrador são o mesmo achado visto de dois lados: na crônica árabe, Dulcineia é a moça da aldeia que o primeiro capítulo já nomeava, e o comentador repete o que se diz dela. No capítulo XIII da Primeira Parte, perguntado por Vivaldo sobre nome, pátria, qualidade e formosura da sua dama, o fidalgo suspira e responde:

su nombre es Dulcinea; su patria, el Toboso, un lugar de la Mancha; su calidad, por lo menos, ha de ser de princesa, pues es reina y señora mía; su hermosura, sobrehumana, pues en ella se vienen a hacer verdaderos todos los imposibles y quiméricos atributos de belleza que los poetas dan a sus damas, o seu nome é Dulcineia; a sua pátria, o Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade, no mínimo, deve ser de princesa, pois é rainha e senhora minha; a sua formosura, sobre-humana, pois nela se tornam verdadeiros todos os impossíveis e quiméricos atributos de beleza que os poetas dão a suas damas.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

Duas leituras: ele crê que a ideia virou carne, ou sabe que a dama de cavaleiro é uma ideia e a sustenta como dever de ofício. No capítulo XXV da Primeira Parte, na Serra Morena, Sancho pergunta se a Dulcineia dos livros é a filha de Lorenzo Corchuelo, chamada Aldonza Lorenzo, e o fidalgo confirma sem se perturbar:

¡Ta, ta! -dijo Sancho-. ¿Que la hija de Lorenzo Corchuelo es la señora Dulcinea del Toboso, llamada por otro nombre Aldonza Lorenzo?, ora, ora, disse Sancho: a filha de Lorenzo Corchuelo é a senhora Dulcineia del Toboso, chamada por outro nome Aldonza Lorenzo?
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

Sancho a elogia com o que sabe dela, e o amo, sem refutar, leva a dama para outra medida: as Amarílis, as Fílis e as Galateias dos livros e dos teatros quase nunca foram damas de carne e osso, os poetas as fingem para dar assunto aos versos, e lhe basta crer que a boa Aldonza é formosa e honesta.

Así que, Sancho, por lo que yo quiero a Dulcinea del Toboso, tanto vale como la más alta princesa de la tierra [...] píntola en mi imaginación como la deseo, así en la belleza como en la principalidad, assim, Sancho, pelo que eu quero a Dulcineia del Toboso, vale tanto quanto a mais alta princesa da terra [...] pinto-a na minha imaginação como a desejo, tanto na beleza como na primazia.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

O fidalgo está ciente de que a dama é obra sua, e o texto deixa em aberto se isso o torna menos louco ou mais. No mesmo capítulo ele diz que a carta pode ir de mão alheia, pois Dulcineia não sabe ler nem escrever, nunca viu letra dele, e os amores dos dois foram sempre platônicos. No capítulo XXVI da Primeira Parte recusa a loucura de Orlando por respeito a ela, porque supô-la infiel seria agravá-la, e a ficção que construiu lhe impõe lealdade à dama que ele mesmo imaginou. No capítulo XXX da Primeira Parte, quando Sancho põe a princesa Micomicona acima da sua senhora, a ofensa atinge o fidalgo no lugar mais fundo, porque ele diz ter nela vida e ser:

Ella pelea en mí, y vence en mí, y yo vivo y respiro en ella, y tengo vida y ser, ela peleja em mim, e vence em mim, e eu vivo e respiro nela, e tenho vida e ser.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

A tese é a de que o amor é a causa dos feitos, e a injúria a Dulcineia, um ataque à causa. No capítulo XXXI da Primeira Parte, Sancho inventa a visita que nunca fez e põe a dama no trabalho que ele conhece, o de uma moça de aldeia:

No la hallé -respondió Sancho- sino ahechando dos hanegas de trigo en un corral de su casa, não a achei, respondeu Sancho, senão peneirando duas fanegas de trigo num pátio de sua casa.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

O fidalgo lhe devolve um conto de livro: os grãos eram pérolas, o pão sai candeal. A mesma cena tem duas leituras, a de quem a imagina e a de quem a inventa, e nenhum dos dois pergunta se ela aconteceu. No capítulo XLVI da Primeira Parte, o barbeiro compõe a profecia da jaula no estilo dos livros que o fidalgo leu e escolhe o prêmio que o prende, o casamento do leão manchado com a pomba tobosina:

la cual se acabará cuando el furibundo león manchado con la blanca paloma tobosina yoguieren en uno, ya después de humilladas las altas cervices al blando yugo matrimoñesco; de cuyo inaudito consorcio saldrán a la luz del orbe los bravos cachorros, que imitarán las rumpantes garras del valeroso padre, a qual se acabará quando o furibundo leão manchado com a branca pomba tobosina jazerem juntos, já depois de humilhadas as altas cervizes ao brando jugo matrimoniesco; de cujo inaudito consórcio sairão à luz do orbe os bravos filhotes, que imitarão as rompantes garras do valoroso pai.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

O fidalgo lê de imediato a pomba como a sua dama, com filhos para glória da Mancha. No capítulo LII da Primeira Parte, o livro de 1605 a faz entrar já morta, pela mão dos acadêmicos de Argamasilha:

Reposa aquí Dulcinea; / y, aunque de carnes rolliza, / la volvió en polvo y ceniza / la muerte espantable y fea, repousa aqui Dulcineia; / e, ainda que cheia de carnes, / em pó e cinza a tornou / a morte espantável e feia.
Primeira Parte: A jaula e o cônego

O epitáfio a pinta com os traços da Aldonza que Sancho descreveu e com os da dama do fidalgo, e é o epitáfio de uma mulher que o livro nunca mostrou em cena.

Na Segunda Parte a dama começa a ser fabricada pelos outros. No capítulo IX da Segunda Parte, procurando de noite o palácio dela no Toboso, o fidalgo diz a Sancho:

¿no te he dicho mil veces que en todos los días de mi vida no he visto a la sin par Dulcinea, ni jamás atravesé los umbrales de su palacio, y que sólo estoy enamorado de oídas y de la gran fama que tiene de hermosa y discreta?, não te disse mil vezes que em todos os dias da minha vida não vi a sem-par Dulcineia, nem jamais atravessei os umbrais do seu palácio, e que só estou enamorado de ouvir dizer e da grande fama que ela tem de formosa e discreta?
Segunda Parte: O livro impresso

Dom Quixote não vê nada de contraditório em procurar à meia-noite o endereço de uma mulher que nunca viu: o que ele procura é o endereço da ideia, e a ideia lhe basta. No capítulo X da Segunda Parte, Sancho, que não sabe onde ela mora, apresenta como a dama a primeira lavradora que aparece e passa a sustentar a ilusão que antes só via de fora. O fidalgo escolhe entre duas hipóteses, Sancho mentiu ou um encantador mudou o que ele vê, e fica com a segunda, que estende a si mesmo:

ya que el maligno encantador me persigue, y ha puesto nubes y cataratas en mis ojos, y para sólo ellos y no para otros ha mudado y transformado tu sin igual hermosura y rostro en el de una labradora pobre, si ya también el mío no le ha cambiado en el de algún vestiglo, para hacerle aborrecible a tus ojos, já que o maligno encantador me persegue, pôs nuvens e cataratas nos meus olhos e, só para eles e não para outros, mudou e transformou a tua sem-igual formosura e rosto no de uma lavradora pobre, se é que também o meu não mudou no de algum monstrengo, para me fazer aborrecível aos teus olhos.
Segunda Parte: O livro impresso

A hipótese impede que a dama seja uma aldeã. O cheiro de alho cru é o único dado dos sentidos que ele registra contra a ilusão, e o desfaz de pronto:

Y has también de advertir, Sancho, que no se contentaron estos traidores de haber vuelto y transformado a mi Dulcinea, sino que la transformaron y volvieron en una figura tan baja y tan fea como la de aquella aldeana, y juntamente le quitaron lo que es tan suyo de las principales señoras, que es el buen olor, por andar siempre entre ámbares y entre flores. Porque te hago saber, Sancho, que cuando llegé a subir a Dulcinea sobre su hacanea, según tú dices, que a mí me pareció borrica, me dio un olor de ajos crudos, que me encalabrinó y atosigó el alma, e hás também de notar, Sancho, que esses traidores não se contentaram em ter mudado e transformado a minha Dulcineia, mas a transformaram numa figura tão baixa e tão feia como a daquela aldeã, e juntamente lhe tiraram o que é tão próprio das senhoras principais, que é o bom cheiro, por andarem sempre entre âmbares e entre flores. Porque te faço saber, Sancho, que quando cheguei a subir Dulcineia na sua hacanea, como tu dizes, que a mim me pareceu burra, deu-me um cheiro de alhos crus que me atordoou e envenenou a alma.
Segunda Parte: O livro impresso

Duas leituras: o nariz diz o que o olho diz e ele escolhe não ouvir, ou o nariz entra como último testemunho que ele ainda consegue explicar a seu favor. No capítulo XXIII da Segunda Parte, na gruta de Montesinos, o fidalgo conta que viu três lavradoras que saltavam pelos campos como cabras, reconheceu Dulcineia em uma, e a dama lhe vira as costas sem responder:

Habléla, pero no me respondió palabra; antes, me volvió las espaldas, y se fue huyendo con tanta priesa, que no la alcanzara una jara, falei-lhe, mas não me respondeu palavra; antes, virou-me as costas e foi-se fugindo com tanta pressa que não a alcançaria uma flecha.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O que mais lhe dói vem depois, quando uma companheira lhe pede em nome da dama um empréstimo sobre um saiote:

Mi señora Dulcinea del Toboso besa a vuestra merced las manos [...] sea servido de prestarle sobre este faldellín que aquí traigo, de cotonía, nuevo, media docena de reales, minha senhora Dulcineia del Toboso beija as mãos de vossa mercê [...] seja servido de lhe emprestar, sobre este saiote que aqui trago, de algodão, novo, meia dúzia de reais.
Segunda Parte: Montesinos e o retábulo

O encantamento escorrega outra vez para o doméstico, um saiote e uma cabriola no lugar da reverência, e o fidalgo dá à dama encantada o dinheiro das esmolas sem desconfiar de nada. Sancho, que sabe de onde vem o encanto, ouve a cena como espelho do seu golpe. No capítulo XXXII da Segunda Parte, à duquesa, que lhe pergunta pela dama, o fidalgo responde sem dizer se ela existe:

Dios sabe si hay Dulcinea o no en el mundo, o si es fantástica o no es fantástica; y éstas no son de las cosas cuya averiguación se ha de llevar hasta el cabo. Ni yo engendré ni parí a mi señora, puesto que la contemplo como conviene que sea una dama que contenga en sí las partes que puedan hacerla famosa en todas las del mundo, Deus sabe se há Dulcineia ou não no mundo, ou se é fantástica ou não é fantástica; e estas não são das coisas cuja averiguação se há de levar até o cabo. Nem eu engendrei nem pari minha senhora, ainda que a contemple como convém que seja uma dama que contenha em si os dotes que possam fazê-la famosa em todas as partes do mundo.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

A frase serve a quem aposta na existência dela e a quem aposta na invenção, e é por isso que a duquesa, em vez de insistir, resolve crer e fazer crer. No capítulo XXXIII da Segunda Parte a duquesa diz a Sancho que a mentira dele foi obra dos encantadores e que os fatos, sim, eram verdade, e assim a farsa que Sancho dirigia passa às mãos dela. No capítulo XXXV da Segunda Parte, no carro de Merlin, um pajem dos duques faz a ninfa de prata que se levanta, tira o véu e implora a Sancho os açoites:

Pon, ¡oh miserable y endurecido animal!, pon, digo, esos tus ojos de machuelo espantadizo en las niñas destos míos [...] Muévate, socarrón y malintencionado monstro, que la edad tan florida mía, que aún se está todavía en el diez y... de los años, pues tengo diez y nueve y no llego a veinte, se consume y marchita debajo de la corteza de una rústica labradora, põe, ó miserável e endurecido animal!, põe, digo, esses teus olhos de mulinho assustadiço nas meninas destes meus [...] mova-te, socarrão e malintencionado monstro, que a idade tão florida minha, que ainda está todavia nos dez e... dos anos, pois tenho dezenove e não chego a vinte, se consome e murcha debaixo da casca de uma rústica lavradora.
Segunda Parte: Os duques e o Cravelenho

Essa Dulcineia fala como não fala a aldeã do Toboso: tem retórica, tem idade, tem ordem de argumentos que vão do insulto à ameaça e da ameaça à súplica. Para Sancho, que sabe que a aldeã do Toboso era uma aldeã, a mudança de voz é só mais um engenho dos duques; para dom Quixote, que tem a alma atravessada na garganta, é pena verdadeira. No capítulo LIX da Segunda Parte, ao ouvir através do tabique um hóspede dizer que o livro apócrifo pinta o fidalgo já desenamorado, levanta a voz:

Quienquiera que dijere que don Quijote de la Mancha ha olvidado, ni puede olvidar, a Dulcinea del Toboso, yo le haré entender con armas iguales que va muy lejos de la verdad; porque la sin par Dulcinea del Toboso ni puede ser olvidada, ni en don Quijote puede caber olvido: su blasón es la firmeza, y su profesión, el guardarla con suavidad y sin hacerse fuerza alguna, quem quer que diga que dom Quixote de la Mancha esqueceu, nem pode esquecer, Dulcineia del Toboso, eu lhe farei entender com armas iguais que vai muito longe da verdade; porque a sem-par Dulcineia del Toboso nem pode ser esquecida, nem em dom Quixote pode caber esquecimento: seu brasão é a firmeza, e sua profissão, guardá-la com suavidade e sem fazer força alguma.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

No capítulo LXIV da Segunda Parte, caído na praia de Barcelona diante do Cavaleiro da Lua Branca, confessa a beleza da dama como se falasse de dentro de uma tumba:

Dulcinea del Toboso es la más hermosa mujer del mundo, y yo el más desdichado caballero de la tierra, y no es bien que mi flaqueza defraude esta verdad. Aprieta, caballero, la lanza, y quítame la vida, pues me has quitado la honra, Dulcineia del Toboso é a mais formosa mulher do mundo, e eu o mais desditoso cavaleiro da terra, e não é bem que minha fraqueza defraude esta verdade. Aperta, cavaleiro, a lança, e tira-me a vida, pois me tiraste a honra.
Segunda Parte: A derrota e a morte

A confissão repete a tese que ele sustentava antes do choque e não a desmente: a beleza de Dulcineia é a verdade que a fraqueza dele não pode defraudar, e é a honra dele que se perde na queda. Duas leituras: a fidelidade de quem separa a verdade da dama do resultado das armas, ou a sobrevivência da loucura, que usa a palavra da derrota para ficar de pé. No capítulo LXXIII da Segunda Parte, à entrada da aldeia, o agouro que ele extrai de uma lebre perseguida por galgos liga a perda ao fato de que a dama não aparece:

Malum signum! Malum signum! Liebre huye, galgos la siguen: ¡Dulcinea no parece! [...] Presupongamos que esta liebre es Dulcinea del Toboso y estos galgos que la persiguen son los malandrines encantadores que la transformaron en labradora: ella huye, yo la cojo y la pongo en poder de vuesa merced, que la tiene en sus brazos y la regala: ¿qué mala señal es ésta, ni qué mal agüero se puede tomar de aquí, malum signum! Malum signum! Lebre foge, galgos a seguem: Dulcineia não aparece! [...] suponhamos que esta lebre é Dulcineia del Toboso e estes galgos que a perseguem são os malandrins encantadores que a transformaram em lavradora: ela foge, eu a pego e a ponho em poder de vossa mercê, que a tem em seus braços e a regala: que mau sinal é este, ou que mau agouro se pode tomar daqui?
Segunda Parte: A derrota e a morte

Sancho vira o signo do avesso com as peças do próprio amo, os encantadores e a lavradora, e o escudeiro que inventara o encanto no Toboso o devolve agora como remédio.

Temas que encarna

Dulcineia é o Amor feito regra de ofício. O cavaleiro andante precisa de uma dama como o céu precisa de estrelas (capítulo XIII da Primeira Parte), e o fidalgo a faz de uma lavradora e depois a ama de ouvir dizer (capítulo IX da Segunda Parte). A fidelidade que o livro mede nele é fidelidade a uma figura que ele mesmo fabricou: recusa a loucura de Orlando para não agravá-la (capítulo XXVI da Primeira Parte), ofende-se pelo que se diz dela (capítulo XXX da Primeira Parte), sustenta a beleza dela caído, sem levantar a viseira (capítulo LXIV da Segunda Parte).

Em Aparência e realidade ela é o caso-limite, porque o livro nunca a mostra. Cada desmentido é de outra pessoa: a Aldonza que Sancho descreve, a aldeã que Sancho põe diante do amo, a donzela da gruta, o pajem do carro. A teoria dos encantadores, que o fidalgo estende desde o Toboso, só se fecha porque a dama nunca foi vista de perto: no capítulo XXIX da Segunda Parte ele a invoca para explicar até as azenhas do rio, e o escudeiro que a inventou fica preso ao que inventou.

O tema de Linguagem e narração passa por ela em dois sentidos. A dama só existe no que se diz dela, a margem árabe, a carta que ela não sabe ler, o epitáfio que a descreve, e o livro de 1615 aproveita isso: a dama é o ponto onde Sancho, os duques e o próprio fidalgo escrevem em cima da mesma página (capítulo IX da Primeira Parte, capítulo XXV da Primeira Parte, capítulo LII da Primeira Parte, capítulo XXXIII da Segunda Parte).

A relação com Honra e reputação passa por ela como a honra que ele não pode comprovar. Defende-a por ofício contra mercadores, contra Sancho, contra o livro apócrifo, e o que defende é a firmeza dele, mais que a dama (capítulo IV da Primeira Parte, capítulo XXX da Primeira Parte, capítulo LIX da Segunda Parte).

Leituras divergentes

O livro põe na boca de quem a descreve as duas leituras opostas. O fidalgo diz que a sua dama é de princesa, e o mouro anota que ela salgava porcos; as duas leituras convivem no livro, e a resposta à duquesa deixa a pergunta sem resposta (capítulo XXXII da Segunda Parte).

Erich Auerbach, em Mimesis - Cap. 14 - A Dulcineia encantada, recusa a profundidade que se costuma ler na cena do Toboso: lida no texto de Cervantes, é uma brincadeira, e procurar ali algo sério ou um sentido mais profundo, oculto, exige que ela seja violentada pela interpretação.

Sobre a própria cena da Dulcinéia, Auerbach recusa qualquer profundidade oculta: se ela parece triste ou trágica, é porque foi apresentada assim de propósito por quem a resume; lida no texto de Cervantes, é uma brincadeira. Mas se simplesmente lemos o texto de Cervantes, lemos uma brincadeira, e ela é subjugantemente cômica.
Auerbach, Mimesis
E recusa qualquer sentido oculto na cena com a sua formulação mais direta: procurar profundidade ali é imposição do intérprete, não leitura do livro. nesta cena algo sério ou um sentido mais profundo, oculto, ela deveria ser violentada pela interpretação.
Auerbach, Mimesis

A leitura de Auerbach vale para o Toboso, que tem uma comicidade subjugante, e é posta à prova pelas cenas em que o livro não retira a dor do fidalgo: a gruta, em que ele tira da bolsa o dinheiro dos pobres (capítulo XXIII da Segunda Parte), e o carro de Merlin, em que a alma lhe fica atravessada na garganta (capítulo XXXV da Segunda Parte). Quem lê como Auerbach vê nessas cenas a mesma comédia; quem lê pela dor vê a comédia cobrando um preço. O texto sustenta as duas coisas, e a ambiguidade, cômica para o leitor e dolorosa para o fidalgo, é o que a fórmula do crítico deixa de fora.

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