Clavis Libri

Tema em Dom Quixote

Liberdade e opressão

O eixo entre ser livre e estar dominado: prisão, servidão, resistência, autonomia.

O tema na obra

No romance a liberdade se diz de muitas maneiras, e cada uma é defendida por alguém que a perdeu ou que a recusa. Para Dom Quixote, é a do cavaleiro que não deve favores, pode socorrer quem sofre força e não aceita a mesa farta de quem o hospeda; para Marcela, a de não amar por obrigação de ser amada; para o cativo, a que vale mais que qualquer contentamento; para Sancho Pança, a de voltar ao ofício que sabe. A opressão tem os rostos correspondentes: o cativeiro dos mouros, a cadeia dos galeotes, o decreto que expulsa os mouriscos, a jaula, a obrigação de retribuir o que se recebeu. O livro não unifica essas liberdades. Mostra cada uma na boca de quem a diz e deixa ver o que ela custa, e é nas bocas dos que a defendem que aparece o uso interessado: o fidalgo que frisa que a liberdade é dom precioso quando sai de um castelo cheio de obrigações; os cativos libertos que, segundo o cativo, esquecem a palavra dada no cativeiro.

No capítulo XI da Primeira Parte, ainda na primeira ceia com os cabreiros, Sancho recusa sentar-se ao lado do amo com uma defesa da liberdade em escala doméstica: comer pão e cebola no seu canto, sem melindres nem respeitos.

mucho mejor me sabe lo que como en mi rincón, sin melindres ni respetos, aunque sea pan y cebolla, que los gallipavos de otras mesas donde me sea forzoso mascar despacio, beber poco, limpiarme a menudo, no estornudar ni toser si me viene gana, ni hacer otras cosas que la soledad y la libertad traen consigo, muito melhor me sabe o que como no meu canto, sem melindres nem respeitos, ainda que seja pão e cebola, do que os perus de outras mesas, onde me seja forçoso mastigar devagar, beber pouco, limpar-me com frequência, não espirrar nem tossir se me der vontade, nem fazer outras coisas que a solidão e a liberdade trazem consigo.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

No capítulo XII da Primeira Parte, o cabreiro Pedro conta que Marcela, ao se pôr em vida solta, não deu indício de que venha em menoscabo de sua honestidade.

Y no se piense que porque Marcela se puso en aquella libertad y vida tan suelta y de tan poco o de ningún recogimiento, que por eso ha dado indicio, ni por semejas, que venga en menoscabo de su honestidad y recato, e não se pense que, por Marcela ter-se posto naquela liberdade e vida tão solta, e de tão pouco ou nenhum recolhimento, ela tenha dado por isso indício, nem de longe, que venha em menoscabo de sua honestidade e recato.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

No capítulo XIV da Primeira Parte, diante do enterro de Grisóstomo, a própria Marcela fala: ela recusa a regra de que o amado por belo esteja obrigado a amar quem o ama.

mas no alcanzo que, por razón de ser amado, esté obligado lo que es amado por hermoso a amar a quien le ama, mas não alcanço que, por razão de ser amado, esteja obrigado o que é amado por belo a amar quem o ama.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

E diz de onde fala.

Yo nací libre, y para poder vivir libre escogí la soledad de los campos. Los árboles destas montañas son mi compañía, las claras aguas destos arroyos mis espejos, eu nasci livre, e para poder viver livre escolhi a solidão dos campos. As árvores destas montanhas são minha companhia, as claras águas destes riachos, meus espelhos.
Primeira Parte: Marcela e a estalagem

No capítulo XXII da Primeira Parte, ao dar com os galeotes, o fidalgo pergunta a causa de cada um, ouve que vão por força do rei, e conclui que lhe cabe desfazer forças. Quando os guardas resistem, ele diz que não é bom que homens honrados sejam verdugos de outros homens, sem que lhes vá nada nisso.

no es bien que los hombres honrados sean verdugos de los otros hombres, no yéndoles nada en ello, não é bom que os homens honrados sejam verdugos de outros homens, sem que lhes vá nada nisso.
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

O último da cadeia, Ginés de Pasamonte, é o que corrige o nome antes de responder, e o livro que escreve só se acaba com a vida.

¿Cómo puede estar acabado [...], si aún no está acabada mi vida?, como pode estar acabado, se ainda não está acabada minha vida?
Primeira Parte: Os galeotes e a serra

No capítulo XXVIII da Primeira Parte, na serra, ao contar sua história, Doroteia repete o que disse a dom Fernando quando ele quis valer-se da nobreza do sangue para desonrá-la.

Tu vasalla soy, pero no tu esclava; ni tiene ni debe tener imperio la nobleza de tu sangre para deshonrar y tener en poco la humildad de la mía; y en tanto me estimo yo, villana y labradora, como tú, señor y caballero, tua vassala sou, mas não tua escrava; nem tem nem deve ter império a nobreza do teu sangue para desonrar e ter em pouco a humildade do meu; e em tanto me estimo eu, vilã e lavradora, como tu, senhor e cavaleiro.
Primeira Parte: A penitência e Micomicona

No capítulo XXXIX da Primeira Parte, o cativo conta o que viveu entre os mouros e dá a medida do que vale a liberdade.

no hay en la tierra, conforme mi parecer, contento que se iguale a alcanzar la libertad perdida, não há na terra, a meu parecer, contentamento que se iguale a alcançar a liberdade perdida.
Primeira Parte: As armas e o cativo

No capítulo XL da Primeira Parte, ele acrescenta, de experiência, que os libertos cumprem mal a palavra dada no cativeiro, porque a liberdade alcançada e o temor de perdê-la lhes apagam da memória todas as obrigações do mundo.

la experiencia le había mostrado cuán mal cumplían los libres las palabras que daban en el cautiverio [...] porque la libertad alcanzada y el temor de no volver a perderla les borraba de la memoria todas las obligaciones del mundo, a experiência lhe tinha mostrado quão mal cumpriam os livres as palavras que davam no cativeiro [...] porque a liberdade alcançada e o temor de não voltar a perdê-la lhes apagava da memória todas as obrigações do mundo.
Primeira Parte: As armas e o cativo

No capítulo XXI da Segunda Parte, no ardil de Basílio, Quitéria diz sim a ele com a vontade mais livre que tem.

Ninguna fuerza fuera bastante a torcer mi voluntad; y así, con la más libre que tengo te doy la mano de legítima esposa, y recibo la tuya, nenhuma força seria bastante para torcer minha vontade; e assim, com a mais livre que tenho dou-te a mão como legítima esposa e aceito a tua.
Segunda Parte: Espelhos, leões e Camacho

No capítulo LIII da Segunda Parte, ao deixar a ínsula, Sancho pede aos que o rodeiam o que o governo nunca lhe deu.

dejadme volver a mi antigua libertad; dejadme que vaya a buscar la vida pasada, para que me resucite de esta muerte presente, deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente.
Segunda Parte: O governo da ilha

No capítulo LIV da Segunda Parte, o mourisco Ricote, disfarçado de peregrino alemão, conta ao antigo vizinho que o decreto lhe pareceu inspiração divina, e o mesmo discurso diz que o desterro foi a pena mais terrível.

me parece que fue inspiración divina la que movió a Su Majestad a poner en efecto tan gallarda resolución, no porque todos fuésemos culpados, que algunos había cristianos firmes y verdaderos; pero eran tan pocos que no se podían oponer a los que no lo eran, y no era bien criar la sierpe en el seno, teniendo los enemigos dentro de casa. Finalmente, con justa razón fuimos castigados con la pena del destierro, blanda y suave al parecer de algunos, pero al nuestro, la más terrible que se nos podía dar, me parece que foi inspiração divina a que moveu Sua Majestade a pôr em efeito tão galharda resolução, não porque todos fôssemos culpados, que alguns havia cristãos firmes e verdadeiros; mas eram tão poucos que não podiam se opor aos que não o eram, e não era bom criar a serpente no seio, tendo os inimigos dentro de casa. Finalmente, com justa razão fomos castigados com a pena do desterro, branda e suave ao parecer de alguns, mas ao nosso a mais terrível que se nos podia dar.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

E diz o que sentem os expulsos que voltam.

No hemos conocido el bien hasta que le hemos perdido; y es el deseo tan grande, que casi todos tenemos de volver a España, que los más de aquellos, y son muchos, que saben la lengua como yo, se vuelven a ella, y dejan allá sus mujeres y sus hijos desamparados: tanto es el amor que la tienen; y agora conozco y experimento lo que suele decirse: que es dulce el amor de la patria, não conhecemos o bem até o termos perdido; e é tão grande o desejo, que quase todos temos, de voltar à Espanha, que os mais daqueles, e são muitos, que sabem a língua como eu, voltam a ela e deixam lá suas mulheres e seus filhos desamparados: tanto é o amor que lhe têm; e agora conheço e experimento o que se costuma dizer: que é doce o amor da pátria.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

No capítulo LVI da Segunda Parte, depois do duelo com o lacaio Tosilos, que o fidalgo dá por vencido e manda casar com a filha de dona Rodríguez, ela diz que prefere ser mulher legítima de um lacaio a amiga enganada de um cavaleiro.

Séase quien fuere este que me pide por esposa, que yo se lo agradezco; que más quiero ser mujer legítima de un lacayo que no amiga y burlada de un caballero, puesto que el que a mí me burló no lo es, seja quem for este que me pede por esposa, eu lho agradeço; que mais quero ser mulher legítima de um lacaio do que amiga e enganada de um cavaleiro, ainda que o que me enganou não o seja.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

No capítulo LVIII da Segunda Parte, ao sair do castelo dos duques, o fidalgo faz seu elogio da liberdade.

La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres, a liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens; com ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra nem o mar encobre; pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se aventurar a vida, e, ao contrário, o cativeiro é o maior mal que pode vir aos homens.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

No capítulo LX da Segunda Parte, no bosque, quando dom Quixote tenta açoitá-lo à força, Sancho o derruba e diz de quem é.

Ni quito rey, ni pongo rey -respondió Sancho-, sino ayúdome a mí, que soy mi señor, nem tiro rei, nem ponho rei, respondeu Sancho, mas ajudo a mim mesmo, que sou meu senhor.
Segunda Parte: Ricote, Roque e Barcelona

Entre o capítulo XL da Primeira Parte e o capítulo LVIII da Segunda Parte o livro põe lado a lado duas coisas que a palavra "liberdade" esconde. O cativo diz que os libertos esquecem as obrigações do mundo; dom Quixote, ao sair do castelo dos duques, diz que prefere o pão curto da estrada à mesa farta, porque os benefícios recebidos são ataduras que não deixam campear o ânimo livre. As duas frases partem da mesma ideia, a de que a liberdade e a dívida competem. O cativo a conta como acusação aos outros; o fidalgo, como virtude própria. Duas leituras: o livro dá razão ao cativo, e o elogio da liberdade do fidalgo é uma fuga de gratidão, visível na hora em que ele deixa uma casa onde foi tratado como cavaleiro; ou dá razão ao fidalgo, e a liberdade que ele defende é a de não ser obrigado a fingir.

Quem o encarna

Marcela é a liberdade que se defende em palavras. Ela fala uma vez, no enterro, diante dos pastores que a acusam da morte de Grisóstomo, e depois não reaparece, mas o seu discurso é o que o fidalgo escuta antes de mandar que ninguém a siga. Ginés de Pasamonte é a outra face, a liberdade de quem não admite ser reduzido à condenação: é o galeote a quem o fidalgo liberta, e que, sem agradecer, o apedreja. O cativo é a liberdade que só se mede depois de tirada: depois de anos em Argel, ele sabe o que ela vale. E Sancho, que passa o livro pedindo uma ínsula, é quem escolhe a liberdade quando o governo acaba.

Onde aparece

Onde as leituras divergem

A libertação dos galeotes é o episódio em que as leituras mais se separam, e Erich Auerbach a lê por um ângulo próprio: para haver conflito real entre direito natural-cristão e direito positivo faltaria um antagonista com direito e vontade de defender o segundo, e o comissário que conduz os presos não está à altura do papel.

Para que houvesse conflito real entre direito natural-cristão e direito positivo faltaria um antagonista com direito e vontade de defender o segundo, e Auerbach nomeia esse antagonista ausente pelo nome de outro livro de Dostoiévski: o comissário que conduz os presos ao cativeiro não está à altura do papel. também aparecesse um antagonista, o qual, como o Grande Inquisidor em Dostoïevski, tivesse direito e vontade de tomar partido a favor do princípio do direito positivo, contra Dom Quixote. O comissário que dirige o transporte dos presos é inadequado para tanto, e também não está disposto a fazê-lo
Auerbach, Mimesis

Outra leitura vê na prisão do fidalgo na jaula o lugar em que ele faz uma declaração de fé que resiste à própria derrota.

Auerbach aponta uma ausência: o livro não tem um antagonista à altura da pergunta da liberdade, e por isso o episódio dos galeotes termina em pedras, e não em tribunal. A outra leitura aponta um lugar: a jaula, em que a liberdade do fidalgo é suspensa e ele responde com fé. As duas leituras se tocam na pergunta de quem, no livro, tem poder de prender de fato, e a resposta é mais deslocada do que se espera: quem prende o fidalgo é o padre e o barbeiro, em nome de uma saúde, e quem solta o escudeiro é o próprio escudeiro, em nome de si. A liberdade a que o livro dá mais espaço é a que se exerce por vontade própria, mesmo contra uma ordem, e a opressão que mais registra é a de quem acredita estar fazendo bem.